
 Dicionrio breve de Pensadores Cristos

PEDRO R. SANTIDRIN




EDITORA SANTURIO Aparecida-SP

Ttulo original: Diccionario breve de pensadores cristianos

Editorial Verbo Divino, 1991

ISBN 84 7151 724 8

Dirigido por: Pedro R. Santidrin

Colaboradoras: Maria del Carmen Astruga e Manuela Astruga

 DIREO EDITORIAL: Pe. Flvio Cavalca de Castro, C.Ss.R. Pe. Carlos Eduardo Catalfo, C.Ss.R.

 COORDENAO EDITORIAL: Elizabeth dos Santos Reis

 TRADUO: Laura Nair Silveira Duarte

 COPIDESQUE: Elizabeth dos Santos Reis

 COORDENAO DE REVISO: Maria Isabel de Arajo




Apresentao
Este breve dicionrio de pensadores cristos nasce do desejo e da necessidade de colocar nas mos dos interessados uma informao mnima e bsica sobre os pensadores
e escritores cristos cujas obras tenham chegado at ns. Oferece, portanto, um pouco do que tm sido a reflexo e a criao dos cristos ao longo da histria. De
certa forma, pretende ser algo assim como a histria do pensamento cristo, representado por seus personagens, obras, formas, estilos etc. Deve-se levar em conta,
entretanto, que no queremos apresentar somente a memria de um passado que pouco tem a ver conosco. No estamos aqui para desenterrar mortos; acreditamos que 
necessrio conhecer o passado para compreender o presente. A f dos cristos no se estabelece em um dia. A f do presente cria razes num passado, numa tradio,
que a explica, difunde e lana para o futuro. Dar lugar ao passado, num dicionrio, alm de uma exigncia da verdade,  torn-lo presente e reconhec-lo como nosso.
A tarefa no  fcil, pois supe um critrio seletivo. Que autores devem representar a literatura crist? Se comearmos pelo tempo, os antigos ou os clssicos? Se
tratarmos de assuntos, somente os telogos, juristas, moralistas ou autores espirituais? Poderiam ficar de fora os poetas, novelistas, filsofos de inspirao crist?
E, mais difcil ainda: somente os que chamamos e reconhecemos como catlicos ou tambm aqueles que escrevem a partir da f crist, mas a interpretam de maneira diferente?
Ou melhor: limita-se a li-
teratura crist to-somente aos autores reconhecidos como "ortodoxos" ou se incorpora o pensamento dos "heterodoxos" e dos reconhecidos como hereges? H lugar, tambm,
para aqueles considerados "contrrios" ou inimigos do cristianismo"? Eles, de fato, explicam muitas reaes e tendncias nascidas sob sua guarda. O critrio escolhido
 apresentar, com brevidade, aqueles autores e obras que mais tm influenciado a vida e o pensamento cristo: filsofos, telogos, educadores, homens da Igreja,
homens da cincia, literatos etc. Incorporamos  corrente catlica os nomes de outras confisses e Igrejas. Mesmo assim, procuramos contornar e enquadrar o pensamento
cristo dentro das diferentes escolas que surgiram ao longo do tempo. Destacamos a presena das mulheres escritoras que, ao contrrio do que pode parecer, constituem
uma autntica presena na Igreja. Acreditamos, sobretudo, que deveramos incorporar ao dicionrio os autores atuais. E o fizemos com amplo critrio. No somente
demos lugar a novos telogos, mas tambm a pensadores e literatos que, apesar de no quererem para si o ttulo de "filsofos cristos" ou "novelistas cristos",
inspiram-se no cristianismo. Do mesmo modo demos lugar a escritores que, considerando-se "agnsticos", ou "no-cristos", escreveram contra a religio crist. Eles
explicam melhor do que ningum as reaes suscitadas pelos cristos. Pela reprovao ensinam-nos a ver melhor os defeitos e as virtudes crists. Com a finalidade
de tornar mais til o dicionrio, confeccionamos dois ndices: 1) ndice de autores nele includos; 2) ndice temtico, que permite uma viso sintica de temas e
autores. Os ndices finais esto acompanhados de uma abundante bibliografia, que completa a que aparece ao final de cada autor. Os autores deste dicionrio percebem
as lacunas e omisses que ele apresenta. Pedem desculpas e compreenso por isso. A prpria brevidade obrigou-os a cortes, talvez injustos. A mesma
desculpa e compreenso pedimos pelo julgamento de obras e autores que talvez no coincidam com o julgamento do leitor. A todo momento estamos dispostos a emendar
e corrigir. Antecipadamente, agradecemos as sugestes que venham a ser propostas nesse sentido. No  demais acrescentar que, para enquadrar os autores em seu marco
histrico ou ideolgico, acrescentamos diferentes artigos sobre estilos, correntes de pensamento, de espiritualidade crist, de filosofia, de teologia etc. Desta
forma, o leitor poder ler e interpretar melhor os autores. Por exemplo, as vozes de gnsticos, escolas e universidades, humanistas, Renascimento, Quietismo, Pietismo,
Desmo, Iluminismo, Modernismo e outras. Remete-se a essas vozes e outras que aparecem dentro do texto, colocando diante delas um asterisco (*).






A
Abelardo, Pedro (1079-1142)
Nasceu em La Pallet (Nantes) e morreu na abadia de Saint-Marcel. Dialtico formidvel e telogo excelente, provocador irresistvel em sua vida e em sua obra, constante 
objeto de polmica. Ningum melhor que ele para nos dizer quem era, como era e o que se props fazer. Abelardo deixou para ns em Historia calamitatum a trajetria 
e o sentido de sua vida e de sua obra. Esse juzo completa-se na correspondncia epistolar posterior com Helosa, a freira que foi sua amante e esposa. As declaraes 
de f, feitas no final de sua vida, completam a viso que tinha de si prprio. Do que se conclui que Abelardo, antes de mais nada, quis ser cristo. "No quero ser 
filsofo se isso significa estar em conflito com Paulo, nem ser Aristteles se isto me separa de Cristo". Porm, um cristo que no renuncia a pensar por sua conta 
e que v, na razo humana, um instrumento imprescindvel para penetrar nas coisas divinas e humanas, um cristo que, acertadamente ou no, quer ser homem e afirmar-se 
como tal. Interpreta-se, pois, a vida de Abelardo a partir da necessidade que ele sentia de investigar a verdade e de transmiti-la aos demais. Nada conseguiu afast-lo 
dessa tarefa, que nele ganha sentido de luta. A luta pela verdade, pela sua verdade. Abelardo foi, primeiro, discpulo de Roscelino e de Guilherme de Champeaux. 
Mais tarde, discpulo de teologia nas aulas de Anselmo de Laon. Polemizou com todos os seus mestres. Depois de ensinar em Melun e Corbeil, chegou a Paris onde fez 
de suas aulas um clamor da multido (1100). Paris correu atrs dele desde 1114-1118, atrado por seu magnetismo fsico e intelectual:  o mestre por excelncia. 
Nem o encontro amoroso com

10 / Abelardo, Pedro

Helosa, nem o desenlace fatal do mesmo -- a mutilao de sua virilidade pelas mos de seus adversrios dirigidos pelo cnego Fulbert -- nem o conseqente ingresso 
e retiro na abadia de SaintDenis foram capazes de deter a carreira magistral deste homem. "To grande multido -- diz-nos depois da vergonha da mutilao -- que 
no havia lugar para alberg-los". Os vinte anos seguintes (1118-1138) no fazem mais que confirm-lo. Nem a condenao de sua obra De unitate et trinitate divina 
-- queimada diante de seus olhos em Soissons em 1221 -- , nem sua peregrinao pelos mais insuspeitos lugares do norte da Frana, nem as intrigas de seus inimigos 
e dos monges foram capazes de abat-lo. Assim no-lo conta em sua Historia calamitatum que termina por volta de 1135. Atravs de Joo de *Salisbury -- que em 1136 
assistiu s aulas de Abelardo em Santa Genoveva de Paris -- sabemos que os quatro ltimos anos (1138-1142) foram envolvidos na campanha de denncia e condenao 
posterior promovidas por So *Bernardo. Este conseguiu reunir treze proposies tiradas das obras de Abelardo e que foram condenadas no Conclio de Sens em 1141. 
Retirado em Cluny, onde Pedro, o Venervel, nolo apresenta entregue ao estudo e  orao, morreu na abadia de Saint Marcel em 1142. A obra de Abelardo oferece trs 
blocos distintos: a) dialtica ou lgica; b) teologia; c) moral ou tica. Poderamos apresentar um quarto: miscelnea, composta por sermes, comentrios, cartas 
e poemas. Neste grupo encontra-se a obra, nada desprezvel, citada anteriormente como Historia calamitatum, correspondncia com Helosa, instrues s religiosas 
do Parclito, as declaraes de f e a Apologia. Em sua obra h uma constante: tanto na lgica quanto na teologia revisa, de forma ininterrupta, seu primeiro pensamento. 
Assim, por exemplo, submete a uma contnua reelaborao sua Dialectica, deixando-nos dela trs redaes. O mesmo vale dizer das Questiones theologicae. Abelardo 
seguiu o critrio de aprofundar suas prprias teses. O De unitate et

Abelardo, Pedro / 11

trinitate divina (1121) se refaz na Theologia christiana (escrita entre 1123-1124). Ocorre ainda com Sic et non (1121-1122). As obras de moral aparecem j nos ltimos 
anos: Ethica seu liber dictus "Scito te ipsum" (1138) e a ltima, sem concluir: Dialogus inter Philosophum, Iudaeum et Christianum. -- Para Abelardo, a lgica tem 
por objeto a "proprietas sermonum", contrariamente  metafsica, que estuda a "natura rerum". Interpreta a lgica como "anlise lingstica do discurso cientfico". 
A maior contribuio de Abelardo  lgica est em sua concepo dos universais. "Tudo reside na propriedade das palavras de ser predicados. Algumas podem ser predicado 
de uma s coisa; outras, de muitas. Universais so aqueles termos que tm a propriedade lgica de ser predicados de muitos sujeitos". Mas Abelardo no se ocupa das 
"voces" na sua realidade fsica, e sim do "sermo" ou nome enquanto ligado pela mente humana com certa funo predicativa. A "vox"  criao da natureza, o "sermo" 
 instituio do homem. O "sermo" tem seu fundamento real enquanto supe predicabilidade, referente a uma realidade significada. -- Para Abelardo, a f no que no 
se pode entender  uma f puramente verbal, carente de contedo espiritual e humano. A f, que  um ato de vida,  inteligncia do que se acredita. Portanto, se 
a f no  um empenho cego que pode tambm dirigir-se a preconceitos e erros, deve tambm ser submetida ao exame da razo. -- H uma continuidade entre o mundo da 
razo e o mundo da f. Conseqentemente, as doutrinas dos filsofos afirmam substancialmente o mesmo que se encontra nos dogmas cristos, ou que os filsofos antigos 
devem ter sido inspirados por Deus como os profetas do Antigo Testamento (AT). -- No mbito da tica, seu instinto leva-o ao problema central da moral: o do fundamento 
da moralidade dos atos. Abelardo parte da distino

12 / Abrcio (sc. II)

entre vcio e pecado. No se pode denominar pecado  prpria vontade ou ao desejo de fazer o que no  lcito, mas ao consentimento que recai sobre a vontade e o 
desejo. A ao pecaminosa no acrescenta nada  culpa. As proibies da moral crist que intimam a no fazer isto ou aquilo so entendidas no sentido de que no 
se deve consentir nisto ou naquilo. Com relao ao sujeito, o princpio determinante do bem e do mal , pois, a inteno, o consentimento e a conscincia ("Conhece-te 
a ti mesmo").  a chamada tica da inteno, da qual Abelardo deduz mltiplas conseqncias. A influncia de Abelardo foi imensa. No final do sculo XII imps uma 
tendncia pelo rigor tcnico e pela explicao exaustiva -- inclusive em teologia --, que encontrar sua expresso completa nas snteses doutrinais do sculo XIII. 
Poder-se-ia dizer que Abelardo imps um padro intelectual, do qual j no se pretende derivar.
BIBLIOGRAFIA: Obras teolgicas: PL 178; leiam-se tambm V. Cousin, Petri Abelardi Opera. Paris 1849-1859, 2 vols.; Etica o Concete a ti mismo. Verso espanhola 
de Pedro R. Santidrin, 1990; E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 21982, 261-277.

Abrcio (sc. II)
*Hinos e cantos.

Adam, Karl (1876-1966)
Telogo catlico alemo de grande influncia na renovao teolgica e espiritual do catolicismo anterior ao Conclio *Vaticano II. O nome de Karl Adam acompanha 
o de uma srie de telogos que, como *Guardini, P. Lippert na Alemanha, *Lubac, *Congar, Chenu na Frana, tratam de apresentar a profundidade e a atualidade do catolicismo. 
A obra de Karl Adam distingue-se por sua sbia popularidade, que apresenta, de forma acessvel, o mais fundamental do cristianismo.

Afraates / 13

A atividade de Karl Adam esteve dirigida basicamente para o ensino da teologia catlica na universidade de Tubinga (1919-1949). Muito slida, sua obra escrita aparece 
principalmente em dois livros que fazem dele um clssico imprescindvel: A essncia do catolicismo (1924), que ganhou repercusso internacional; e Cristo, nosso 
irmo (1926). Posteriormente ampliou e completou o tema com um novo estudo sobre Jesus Cristo (1933) e O Cristo da f (1954). Tratou tambm o tema do ecumenismo: 
Una Sancta, em sentido catlico.

Ado de So Vtor (1112-1177)
*Escola de So Vtor.

Adelardo de Bath (sc. XII)
Filsofo e telogo ingls que tratou de reconciliar a doutrina platnica e aristotlica dos universais. Sua doutrina sobre o universal mantm sua originalidade frente 
a *Abelardo e Roscelino. Para ele, o universal e o particular so idnticos e s se distinguem pela compreenso que temos deles. Sua doutrina foi exposta na obra 
De eodem et diverso, onde desenvolve tambm a teoria das artes liberais. Traduziu para o latim os Elementos de Euclides e vrios escritos rabes sobre aritmtica 
e astronomia.
BIBLIOGRAFIA: N. Abbagnano, Historia de la filosofa, I, 360-361.

Afraates (sc. IV)
 o primeiro dos padres da Igreja siraca. Viveu na primeira metade do sculo IV. Dele conservam-se Demonstraes, mais conhecidas com o ttulo de Homilias, compostas 
entre 337-345. Num total de vinte e duas, as homilias so uma exposio da f crist.

14 / Agrippa von Nettesheim

Agrippa von Nettesheim (Heinrich Cornelius) (1486-1535)
Um dos personagens mais curiosos e singulares da poca. Seus interesses oscilaram entre a cultura clssica, a Reforma e a vinculao ao movimento de Hermann de Wied. 
Fez tambm uma biografia de Carlos V (1529). Sua obra principal  De occulta philosophia, de 1531, embora parea ter sido escrita j em 1510. Nela procura estabelecer 
a mtua relao de todas as coisas. Trata-se do conhecimento, cincia ou "magia" verdadeira ao alcance somente de uns poucos. Esse conhecimento ou magia baseia-se 
na natureza, na revelao e no sentido mstico da Escritura. Em sua ltima obra, De incertitudine (1530), parece ter evoludo para o repdio  cincia e ao estudo. 
Para ele a Bblia  a nica fonte de verdade, repelindo a escolstica medieval, assim como as instituies da Igreja.
BIBLIOGRAFIA: Historia de la filosofa, 5. La filosofa en el Renacimiento. Sculo XXI, 126s; C. Agripa, Opera, 1550, 2 vols., reeditada em Hildesheim 1966; A. Bernrdez 
Tarancn, Enrique Cornelio Agripa, filsofo, astrlogo y cronista de Carlos V, Madrid 1933.

Agostinho, Santo (354-430)
Aurlio Agostinho nasceu em Tagaste, frica romana, hoje Arglia. Seu pai, Patrcio, era pago; sua me, Mnica, crist que exerceu sobre ele uma constante e decisiva 
influncia. Passou sua infncia e adolescncia entre Tagaste, Madaura e Cartago, entregue aos estudos clssicos, sobretudo  gramtica e  retrica. Sua trajetria 
vital e religiosa -- inclusive de seus primeiros anos at sua converso em 387 -- est magistralmente traada em Confisses. A leitura de Hortnsio de Ccero -- 
obra hoje desaparecida -- deu novo sentido  vida de Agostinho. Da gramtica passou  investigao filosfica, aderindo  seita dos maniquestas (374). Passou 10 
anos em Cartago ensinando retrica e bus-

Agostinho, Santo / 15

cando a verdade e a felicidade na filosofia, na amizade e nos vcios da carne. Em 383 dirigiu-se a Roma disposto a seguir ali o ensino da retrica com alunos no 
to desobedientes e melhor preparados que os de Cartago. Depois de um ano, dirigiu-se a Milo para ensinar oficialmente retrica, cargo que lhe havia sido atribudo 
pelo prefeito Smaco. O exemplo e a palavra do bispo Ambrsio persuadiram-no da verdade do cristianismo, e Agostinho se fez catecmeno. Ao mesmo tempo, encontra-se 
com a filosofia neoplatnica e, atravs dos livros de Plotino, foi-se desprendendo das sombras e das idias maniquestas. Em 386, deixa o ensino e retira para Cassicciaco, 
perto de Milo, para meditar e escrever. Recebe o batismo em 25 de abril de 387. Convencido de que sua misso era difundir a sabedoria crist em sua ptria, frica, 
volta a Tagaste onde  ordenou sacerdote. Em 395  sagrado bispo de Hipona. Toda a sua atividade posterior foi dirigida a defender e esclarecer os princpios da 
f mediante uma investigao da qual a prpria f  mais o resultado que o pressuposto.

16 / Agostinho, Santo

Morre enquanto os vndalos invadiam o norte de frica e assediavam a cidade de Hipona. A obra literria de Agostinho  imensa! Na patrologia do Migne ocupa 15 volumes 
(PL 3247). Como  que esse homem, de sade delicada, chegou a realizar tanto e a escrever tantos livros? Porque, alm de umas 225 cartas que nos restam de sua imensa 
correspondncia, e de mais de 500 sermes que chegaram at ns, sem contar cerca de outros 300 com os Tratados sobre o Evangelho de Joo e os Comentrios aos Salmos 
que foram publicados, dispomos de um documento precioso que nos d facilmente uma idia de sua produo. De fato, trs ou quatro anos antes de sua morte, Agostinho 
dedicou-se a revisar, em Retractationes, todas as suas obras e sua correspondncia. As Retractationes ou Revisiones do conta de 93 de um total de 252 livros, uma 
produo extraordinariamente variada. Todos os assuntos tm nela sua representao: teologia, filosofia, exegese, moral, catequese e, se acaso fosse pouco, respostas 
a toda uma srie de perguntas que lhe faziam dos quatro cantos do mundo. Todos os gneros se tocam: dilogos, comentrios ou anotaes de textos bblicos, reprodues 
ou resumos de arquivos recolhidos por ele ou de discusses das quais havia participado, tratados como regras ou efemrides que, como A Cidade de Deus, foi provocada 
pelo saque de Roma em 410, convertem-se em obras mestras. -- Dessa imensa obra selecionamos alguns dos temas favoritos de Agostinho: -- "A procura da verdade  tarefa 
de todo homem; os graus do saber so graus de nossa avaliao espiritual, que  a conquista de uma interioridade cada vez mais profunda: interiorizarse para transcender-se. 
Filosofar  captar a verdade no interior, isto , alcanar o conhecimento da alma e de Deus. Esse  todo o objeto da filosofia: o homem (eu, tu) e Deus" (Solilquios, 
I, 7). -- No princpio da interioridade est contida a prova da existncia de Deus. Sabemos que para

Agostinho, Santo / 17

quem julga no h nada melhor do que aquele que acredita ser o melhor. Existe no homem algo superior ou melhor do que a razo? No, absolutamente (De libero arbitrio, 
II, 6-13). Pois bem, se existe algo superior  razo, necessariamente ser algo que transcende o homem e a razo. Mas isto no apenas supera o homem, seno que, 
ao ultrapass-lo, supera tambm qualquer outra coisa; por isso, o que est alm no pode ser mais do que Deus. Isto , se existe "um ser superior ao esprito, este 
ser  Deus". A passagem se faz da existncia real do esprito para a existncia do ser superior, ao esprito que  Deus. Comprovar a existncia de Deus significa 
adquirir plena conscincia da presena da verdade em nosso pensamento (autotranscendncia). -- "Energia vital, energia sensitiva, energia intelectiva: isto  a alma 
unida a seu corpo", que ela faz viver e por meio do qual sente e conhece as coisas corporais. A alma, inferior a Deus, d vida ao que  inferior a ela mesma, isto 
, a seu corpo. Que , ento, o homem? "No  somente corpo e alma, mas o ser que se compe de corpo e alma. A alma no  todo o homem, mas a parte superior dele; 
o corpo tambm no  todo o homem, mas a sua parte inferior. Quando a alma e o corpo esto unidos, d-se o nome de homem, termo que no perde cada um dos elementos, 
quando se fala deles separadamente" (A Cidade de Deus, XIII, 24,2). -- "Si Deus est, unde malum?". Esse problema atormentou Agostinho e, a princpio, o fez aceitar 
a soluo bitesta do maniquesmo, que depois rechaou e refutou. O mal no  mais que "corrupo do mundo, da beleza e da ordem natural". Mas a corruptibilidade 
no  o mal em si, para o que seja necessrio um princpio do mal. A natureza m , pois, a natureza corrompida. O que no est corrompido  bom; mas, "por mais 
corrompida que esteja,  boa enquanto natureza, m enquanto corrompida" (De natura boni, c. 4, 6). As coisas, enquanto existem, so um bem. E todas as coisas que 
Deus criou, pelo prprio fato de existir, so um bem, mas no absoluto. Por-

18 / Agostinho, Santo

tanto, o mal no  ser, mas deficincia; o mal  privao, defectus boni. A imitao do ser inerente  criatura  a causa de suas doenas e sofrimentos em geral: 
mal fsico. O mal moral tem origem na concupiscncia, no em Deus (De lib. arb., I, 1-13). -- O mal no , pois, liberdade, mas o mau uso que podemos fazer dela. 
Deus nos deu liberdade para que pequemos. O tema da liberdade e da graa, igual ao do mal, preencheu os ltimos anos de Agostinho em controvrsia com o racionalismo 
de Pelgio e do semipelagianismo. Antes da queda, Ado "poderia no pecar", como "poderia no morrer". Depois do pecado, a situao mudou, e Ado no pde, em algum 
momento, no pecar. O resgate foi possvel mediante a encarnao do Verbo Divino em Cristo. A graa divina , pois, sempre necessria para que o homem permanea 
no bem e no faa mau uso de sua liberdade. Trata-se da graa atual, a qual impulsiona a vontade humana para querer o bem e para cumpri-lo. Com isto, Agostinho nega 
a liberdade? No; a finalidade da graa  potencializar a liberdade. A graa  a liberao do livre-arbtrio, assim como a iluminao  a libertao da mente. Da 
mesma forma que o lume da graa no substitui a razo, a graa no anula a liberdade para fazer o bem, alm de liberar o livre-arbtrio da possibilidade de fazer 
o mal. -- F e razo no somente no se opem, como combinam. No ato da f, Agostinho distingue trs momentos: a preparao da razo, o ato da adeso  verdade na 
qual se deve acreditar e a penetrao racional ou inteligncia da verdade acreditada. Toda a doutrina e a atitude de Agostinho diante da f esto contidas nestas 
duas sentenas: "intellige ut credas; crede ut intelligas". No significam que com a inteligncia ou a razo natural se obtenha, sem mais nem menos a f, e sim que 
a razo se deve dispor  f com atos racionais: "compreender para crer". Mas a verdadeira e plena inteligncia do contedo da f vem dada pela prpria f: "crer 
para poder compreender".

Alberto Magno, Santo / 19

-- A ltima obra de Agostinho, A Cidade de Deus,  uma histria sapiencial, uma filosofia ou uma teologia da histria. A vida do homem como indivduo  dominada 
por uma alternativa fundamental: viver segundo a carne ou viver segundo o esprito. A mesma alternativa domina a histria da humanidade, constituda pela luta de 
duas cidades ou reinos: o reino da carne e o reino do esprito, a cidade terrena ou a cidade do diabo, que  a sociedade dos mpios, e a cidade celestial ou cidade 
de Deus, que  a comunidade dos justos. Toda a histria dos homens no tempo  a histria destas duas cidades. Muitos foram os qualificativos atribudos a Agostinho. 
Talvez, o que melhor lhe convenha seja o de "campeo", mas no no sentido usual. Agostinho empreendeu uma rdua batalha difcil de se imaginar em nossos dias, especialmente 
no campo do combate teolgico contra as heresias. Contra o maniquesmo primeiro, contra os donatistas depois; e, por fim, contra o pelagianismo. E no centro dessa 
batalha est Deus. A melhor testemunha desse combate  o livro das Confisses: um itinerrio, uma peregrinao tortuosa e atormentada do homem Agostinho em direo 
a Deus. "Porque nos fizeste, Senhor, para ti, e nosso corao anda sempre inquieto enquanto no se tranqilize e descanse em ti" (Confisses, I, 1).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 32-47; Corpus Scriptorum ecclesiasticorum latinorum (CSEL), 12, 25, 28, 33, 34, 36, 40, 41-44, 51-53, 57, 58, 60, 63; Obras de san Agustn. 
Texto bilnge em latim e castelhano (BAC, 39 volumes); Posidio, Vida de san Agustn, em Obras de san Agustn (BAC, I); Victorino Capnaga, San Agustn, semblanza 
biogrfica; Confesiones. Verso de Pedro R. Santidrin. Madrid 1990.

Alano de Lille (+1203)
*Escolas e universidades.

Alberto Magno, Santo (1206-1280)
Conhecido como Alberto, o Grande ou Magno, e tambm como "Doctor universalis".

20 / Alberto Magno, Santo

Nascido em Lauingen (Subia), fez seus primeiros estudos em Pdua, onde conheceu o superior geral dos dominicanos, Jordo da Saxnia, por cuja influncia entrou 
na ordem dominicana. Dedicou toda a sua vida ao ensino, primeiro em vrios conventos de sua ordem (1228-1245) e depois em Paris, como mestre de teologia. Nesse primeiro 
perodo parisiense teve Santo Toms de Aquino como discpulo. Em 1248 passou para a Universidade de Colnia, seguido por Santo Toms. De 1254 a 1257 desempenhou 
o cargo de provincial dos dominicanos, para passar de 1258-1260 a ensinar novamente em Colnia. Foi bispo de Ratisbona de 1261 a 1270. Terminou seus ltimos anos 
em Colnia, onde morreu em 1280. Se algum ttulo lhe cabe com justia  o de "mestre". Toda a sua vida foi dedicada ao ensino com aclamao e fama universais. O 
prprio Roger Bacon, franciscano e professor em Oxford, ainda reconhecendo seus defeitos como docente, diz a respeito dele: "Vale mais que a multido de homens de 
estudo, pois trabalha muito, tem viso infinita e por isso soube tirar tantas coisas do oceano infinito dos fatos". Sintetizando-a contribuio de Alberto Magno 
ao pensamento cristo, poderamos resumi-la nos seguintes pontos: a) A adoo do peripatetismo por ele e seu discpulo Santo Toms deve ser considerada como uma 
verdadeira revoluo na histria do pensamento ocidental. "A partir do sculo XIII, ser tal a unio entre o aristotelismo e o cristianismo que a filosofia peripattica 
participar da estabilidade e imutabilidade do dogma" (E. Gilson). b) O mrito principal de Alberto Magno consiste em ter sido o primeiro a ver o enorme acrscimo 
de riquezas que representavam a cincia e a filosofia grecorabes para os telogos cristos. Alberto Magno se imps um trabalho de assimilao e interpretao, e 
sobretudo de conhecimento, ao qual se lanou com veemncia. Ao canoniz-lo santo, a Igreja queria justamente glorificar tal veemncia herica. c) Dentro das descobertas 
atribudas a

Alcuno / 21

Santo Alberto, a de maior alcance geral continua sendo, sem dvida, a distino definitiva que soube introduzir entre a filosofia e a teologia. " curioso que se 
tenha adotado o costume de citar Lutero, Calvino, ou Descartes como os libertadores do pensamento, enquanto se considera Alberto Magno como o "cabea dos obscurantistas 
da Idade Mdia" (E. Gilson). Outro aspecto fundamental em Alberto Magno  seu pensamento cientfico. "Particularmente no campo da botnica, da zoologia, da mineralogia 
e da alquimia, enriqueceu as noes tradicionais com muitas observaes prprias. Mais ainda, a contribuio pessoal de Alberto consegue dar s noes empricas 
e causais da cincia tradicional uma validade universal. Por isso foi, precisamente, no campo das cincias naturais, que Alberto encontrou, com toda razo, a admirao 
de seus contemporneos e posteriores at a nossa poca" (P. Simn, Dic. de filsofos). Todos esses aspectos de mestre e pesquisador fundem-se em sua obra escrita, 
que , de fato, vastssima. Ao todo so 21 volumes em flio da edio de Jammy e 38 em quarto da edio Borgnet. Sua obra est dividida em quatro grandes blocos: 
1) A chamada Summa de creaturis (12451250); 2) Commentarii in IV Libros Sententiarum de Pedro Lombardo; 3) Um amplo conjunto de tratados sobre as diversas partes 
da teologia (12501270); 4) Uma Summa Theologica que data do final de sua vida.
BIBLIOGRAFIA: Opera Omnia. Ed. A. Borgnet. Vivs, Paris 1890-1899, 38 vols.; A. G. Menndez Reigada, Vida de San Alberto Magno, Doctor de la Iglesia, 1932.

Alcuno (730-804)
Nasceu em York e recebeu a primeira educao na famosa escola desta cidade, convertida por Egberto, depois da morte de Beda, no principal centro de educao da Inglaterra, 
e que se tornou clebre pela riqueza de sua biblioteca.

22 / Alcuno

Diretor da escola de York desde 767, foi chamado em 782 a dirigir a escola palatina de Aquisgrano, por instncia do imperador Carlos Magno. Salvo certas visitas 
na Inglaterra, foi em Aquisgrano que Alcuno se tornou o principal instrumento da organizao do ensino. Organizou os estudos da escola intelectual da nobreza e 
da corte. Os ltimos anos, passou-os como abade em So Martinho de Tours. Morreu nesta localidade em 804. Alcuno no foi um pensador original. Suas obras didticas, 
escritas em forma de dilogo, baseiam-se, em sua maior parte, em autores anteriores. Assim, Grammatica foi escrita nos moldes de Prisciliano, Donato, Isidoro, Beda. 
Rectorica  uma mera transcrio do tratado De inventione de Ccero. O mesmo se deve dizer de Dialectica, cpia de uma obra pseudo-agostiniana sobre as categorias. 
E assim em outras, como De animae ratione, tirado de obras de Santo *Agostinho e de *Cassiano. Mas no h dvida que Alcuno foi um mestre importante e eficaz. Foi 
o grande impulsor do movimento carolngio, atravs de inumerveis discpulos seus como Rbano Mauro. Seu mrito est em ter sido capaz de organizar o ensino no reino 
franco e, a partir da, por toda a Europa. Ordenou seus estudos segundo as sete matrias Trivium (gramtica, retrica e dialtica) e do Quadrivium (aritmtica, geometria, 
astronomia e msica), por ele denominadas as sete colunas da sabedoria. Na histria do pensamento, dificilmente se pode passar por alto o trabalho exercido por Alcuno 
como pedagogo e como organizador do ensino. Seu amor pelo saber e pela cincia levaram-no a enriquecer a biblioteca de Tours com cpias de manuscritos que levou 
de York. Esse trabalho estendeu-se ainda para o aperfeioamento das cpias de manuscritos. Certamente Alcuno atendeu tambm  fidelidade e correo dos manuscritos 
da Bblia, sendo provvel sua reviso da Vulgata, encomendada pelo imperador, e que se conhece como verso de Alcuno.

Ambrsio, Santo / 23

Fiel a Santo Agostinho em De ratione animae, define a alma "como esprito intelectual ou racional, sempre em movimento, sempre vivo e capaz de boa ou m vontade". 
Para ele, Deus  o inefvel; sua essncia  impossvel de se conceber e de se expressar. Em Deus tudo se identifica: o ser, a vida, o pensamento, o querer, o agir. 
E, no entanto, ele  a simplicidade absoluta. O destino mais alto do homem  Deus, que se alcana pela f, pela esperana e pela caridade, e atravs das virtudes 
platnicas da prudncia, justia, fortaleza e temperana, que toma do De officiis de Ccero.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL; G. F. Brown, Alcuin of York, 1908.

Altaner, B. (1885-1958)
*Teologia atual, Panorama da.

Ambrsio, Santo (339-397)
Muitos so os ttulos pelos quais se conhece esse padre e homem de Igreja. Sua personalidade dificilmente pode ser enquadrada na de um pensador e escritor religioso. 
Tambm no  exato dizer que foi somente bispo de Milo ou o pastor que preparou a converso de Santo Agostinho. Em Santo Ambrsio d-se a expresso do homem romano, 
do cristo e do pastor, do poltico e do pensador, que conjuga harmoniosamente as virtudes humanas e crists e d um elevado sentido  sua vida. Nascido em Trier, 
cedo o vemos em Roma com sua me e a irm mais velha Marcelina. No ano 370, foi promovido governador de Emlia-Ligria com residncia em Milo. Pouco depois foi 
aclamado bispo desta cidade por consenso do povo. Em apenas oito dias passou de cidado sem batismo a bispo de Milo, onde "foi capaz de dominar a vida cultural 
e poltica de sua poca". A partir desta data (374) at sua morte, fez-se credor da fama de homem sbio e pastor prudente. Difi-

24 / Ambrsio, Santo

cilmente podem ser esquecidas as pginas que Santo *Agostinho lhe dedica em Confisses (l, VI, c. 2s) onde o apresenta absorto na leitura e meditao. Tambm  conhecida 
a imagem de Santo Ambrsio como pastor. Em 385-386 negou-se a entregar uma igreja aos arianos. Em 388 enfrentou o imperador Teodsio por ter castigado um bispo que 
incendiara uma sinagoga judaica. Em 390 imps ao mesmo Teodsio uma penitncia pblica por ter sufocado um motim em Tessalnica, massacrando os cidados. Essas intervenes 
sem precedentes no impediram sua lealdade e sua colaborao com o imperador. Com sua conduta e com seus escritos, Santo Ambrsio antecipa o conceito medieval de 
imperador cristo "filho fiel da Igreja e servidor s ordens de Cristo" e, pelo mesmo, submetido ao conselho e aos ditames de seu bispo. Evidentemente, seu labor 
pastoral no se esgota no que poderamos classificar de faceta poltica. Acima dela aparece seu labor literrio, musical, epistolar, a servio direto de sua tarefa 
episcopal. Os quatro volumes de suas obras da PL de Migne (14-17) apresentam-nos os diferentes aspectos de sua atividade literria: obras apologticas, teolgicas, 
morais e tratados cticos. Destacam-se, sobretudo, seus sermes e seus hinos. Sua obra apologtica  dirigida contra o arianismo. Em suas obras De incarnatione, 
De Fide ad Gratianum e De Spiritu Sancto ad Gratianum Augustum tenta convencer o imperador Graciano da necessidade de manter uma estrita ortodoxia. Conhecedor profundo 
do pensamento antigo, tanto cristo quanto pago, est familiarizado com as obras de Flon, de Orgenes, de So Baslio de Cesaria, de Plotino e de Ccero.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 14-17; J. Quasten, Patrologa, 3, 240-260; Obras de San Ambrosio, tomo I (BAC).

Anselmo de Canturia, Santo / 25

Ames, William (1576-1633)
*Pietistas.

Anacoretismo (sc. II-III)
*Monaquismo.

Anfilquio de Icnio (sc. IV)
*Jernimo, So.

ngela de Foligno (1248-1309)
Santa e mstica italiana que depois da morte de seu marido tornou-se terciria franciscana.  clebre por suas freqentes vises. O relato das vises -- ditado pela 
Santa --  conhecido como Liber Visionum et Instructionum. O livro de Santa ngela de Foligno  um reflexo fiel da primitiva piedade franciscana.  considerada como 
uma das grandes mulheres msticas na linha da Santa *Catarina de Sena (1347-1380), Santa Catarina de Gnova (1447-1510) e Santa Catarina de Ricci (1522-1590), todas 
elas italianas.

ngela de Mrici (sc. XVI)
*Educadores cristos.

Ano cristo
*Legenda urea.

Anselmo de Canturia, Santo (1033-1109)
Nasceu em Aosta del Piamonte (Itlia) e morreu em Canturia (Inglaterra). De nobre famlia lombarda, seu pai quis educ-lo para a poltica, pelo que nunca aprovou 
sua prematura deciso de tornar-se monge. Recebeu uma excelente edu-

26 / Anselmo de Canturia, Santo

cao clssica e teve por mestre um dos melhores latinistas de seu tempo. Essa educao clssica levou-o ao uso preciso das palavras e  necessidade da clareza, 
perfeitamente demonstrada em sua obra. Em 1060 entrou no monastrio beneditino de Bec (Normandia) sob a direo do abade Lanfranc. Quando este morreu, Anselmo foi 
eleito abade de Bec por sua capacidade intelectual e sincera piedade (1078). Foi nomeado arcebispo de Canturia em 1093, onde foi incansvel e ntegro defensor da 
independncia da Igreja diante do poder real. Declarado doutor da Igreja em 1720. Santo Anselmo representa a primeira grande afirmao da investigao da Idade Mdia. 
Suas obras ocupam os volumes 158-159 da PL de *Migne.  necessrio citar o Monologium, cujo primeiro ttulo era Exemplum meditandi de ratione fidei. O Proslogium, 
intitulado primitivamente Fides quaerens intellectum. Essa obra traz um polmico apndice: o Liber Apologeticus contra Gaulinonem. Comps ainda quatro dilogos: 
De veritate, De libero arbitrio, De casu diaboli, De grammatica. J em seus ltimos anos, escreveu seu conhecido livro Cur Deus homo, e De conceptu virginali, De 
fide Trinitatis, Meditationes etc. Santo Anselmo passou para a histria do pensamento por seu argumento ontolgico ou prova a priori da existncia de Deus. Por solicitao 
dos monges, escreveu, em 1077, o Monologium, um tratado teolgico e, ao mesmo tempo, apologtico, que  formado por um conjunto de reflexes sobre a essncia divina 
e que conduzem a uma demonstrao da existncia de Deus. O bem, a verdade, a beleza subsistem independentemente das coisas particulares, e no somente nelas. H 
muitas coisas boas por sua bondade e beleza intrnseca, mas pressupem um bem absoluto, que  sua medida e paradigma; esse bem supremo  Deus. Portanto, o sumo bem, 
o sumo ser, a suprema beleza, tudo o que no mundo tem verdade e valor

Anselmo de Canturia, Santo / 27

coincidem em Deus. O Monologium desenvolve uma argumentao cosmolgica, que vai do particular ao universal e do universal a Deus. O Proslogium, no entanto, estabelece 
uma argumentao ontolgica; parte do prprio conceito de Deus para demonstrar sua existncia. Deus  o ser mais perfeito que se possa imaginar: "quo maius cogitari 
nequit". Pois bem, se Deus  o maior ou o mais perfeito ser que se possa imaginar, ele existe. At o nscio deve admitir que o ser, a respeito do qual nada maior 
se pode pensar, existe no entendimento, embora no exista na realidade. Porm, no pode existir somente no entendimento, j que se no existisse na realidade, no 
seria o maior que se pudesse imaginar. Existe, pois, no entendimento e na realidade. Tal argumento fundamenta-se em que o que existe na realidade  "maior" ou mais 
perfeito que o que existe somente no entendimento (Prosl. 2). -- A atitude de Santo Anselmo diante da f e da razo est expressa nesta frase: "Credo ut intelligam". 
A f  ponto de partida para a pesquisa racional ou filosfica. No se pode entender nada se no se tem f. Mas s a f no basta;  necessrio confirm-la e demonstr-la. 
A f procura a luz da razo: "Fides quaerens intellectum". H um acordo essencial e intrnseco entre f e razo. -- "As teses de Santo Anselmo no constituem uma 
teologia nem uma filosofia completa, mas sondam profundamente os problemas que tocam e oferecem um primeiro exemplo da explorao racional do dogma, que as teologias 
denominadas escolsticas desenvolveram logo depois... O que falta nesta doutrina, de pensamento to forte e de to firme expresso,  uma filosofia da natureza suficientemente 
densa para equilibrar o estonteante virtuosismo dialtico de seu autor" (E. Gilson, o. c., I, 235).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 158-159; Ed. Schmit, Roma-Londres 1938-1951, 5 vols.; E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 226-236; Obras completas de san Anselmo (BAC), 
1952-1953, 2 vols.

28 / Anselmo de Laon

Anselmo de Laon (c.1117)
*Abelardo, Pedro.

Anto, Abade, Santo (c. 251-356)
*Atansio, Santo; *Monaquismo.

Antoniano, Slvio (sc. XVI)
*Educadores cristos.

Antonino, Santo (1389-1459)
Frade dominicano que governou vrios conventos da ordem, tratando de impor a observncia e a austeridade primitivas. Foi nomeado arcebispo de Florena em 1446. Homem 
de governo, foi conselheiro de papas e de polticos. Santo Antonino  um dos grandes mestres da moral. Sua obra Summa, conhecida como Summa Antonina,  um importante 
texto da "moral para confessores" dentro do que se conhece na histria da moral como *Moral casustica. Passou  histria da moral como o defensor do interesse gerado 
pelo capital. Sustenta que o dinheiro investido num negcio  verdadeiro capital. No  portanto imoral -- nem usura -- ter interesse por ele.

Apeles de Laodicia (310-390)
*Gnsticos.

Apocalipse, Livro do (sc. I)
 o ltimo livro do Novo Testamento (NT). Conhecido tambm como Apocalipse de Joo ou livro da revelao, pois esse  o significado da palavra apocalipse (ver Apocalptico). 
Tambm  o nico livro do NT pertencente ao gnero literrio conhecido como apocalipse ou apocalptico.

Apocalipse, Livro do / 29

Em Ap 1,9, o autor denomina-se a si mesmo Joo, exilado, no momento em que escreve, na ilha de Patmos, por sua f em Cristo. Uma tradio muito difundida j nos 
finais do sculo II identifica esse autor com o apstolo Joo, o discpulo amado de Cristo e autor do quarto evangelho. No entanto, diferenas de linguagem, de estilo 
e de pontos de vista teolgicos -- apesar do parentesco com os demais escritos joaninos -- tornam difcil assegurar que o livro em questo seja do mesmo Joo. Atualmente 
se atribui a algum (ou alguns) do crculo do apstolo, fortemente impregnado pelo seu ensinamento. Com relao  sua canonicidade, no h nenhuma dvida. O mais 
difcil tem sido determinar a data de sua composio. Admite-se comumente que foi composto durante o reinado de Domiciano, por volta de 95. Outros, ao contrrio, 
acreditam que algumas partes foram redigidas j em tempos de Nero, pouco antes do ano 70. De qualquer forma, para compreender devidamente o Apocalipse  indispensvel 
levar em conta o perodo de perturbao e perseguies violentas contra os cristos na metade do sculo I. Assim como nos textos apocalpticos do Antigo Testamento 
(AT), o Apocalipse de Joo  um livro destinado a levantar e afianar a moral dos cristos, escandalizados sem dvida de que se pudesse desencadear uma perseguio 
to violenta contra a Igreja. Os fiis, no entanto, sero preservados na espera de gozar do triunfo no cu. Os c. 4-22 so uma srie de vises, alegorias e smbolos 
dos males que se avizinham, mas tambm sobre a derrota de Satans e o estabelecimento definitivo do reino celeste, na felicidade perfeita, depois de a morte ter 
sido aniquilada. Em pano de fundo, aparece a nova Jerusalm, a cidade perfeita. Os autores distinguem dois planos na compreenso deste livro sempre difcil. Em primeiro 
lugar, est o plano ou significao histrica, que acabamos de delinear; depois, o plano superior, cujo alcance supera os limites de uma situao

30 / Apocalptico

passageira como a perseguio dos imperadores. Acima de tudo, encontra-se a promessa e a presena de Deus que significa proteo contra os inimigos para alcanar 
a salvao. Agora, mais do que nunca, Deus est presente em seu Filho. Desta maneira, o Apocalipse converte-se na grande epopia da esperana crist, o canto triunfal 
da Igreja perseguida. Cristo , certamente, a personagem central do Apocalipse, no qual esto depositadas todas as esperanas dos fiis. Embora esse significado 
global fosse prontamente percebido pela Igreja, o texto do Apocalipse apresenta-se como verdadeira "crux interpretum". A parte essencialmente proftica, c. 4-22, 
 composta por dois Apocalipses diferentes, escritos pelo mesmo autor, ou por diferentes autores, e depois fundidos num mesmo texto por outra mo. Isto torna difcil 
sua recomposio e sua interpretao.
BIBLIOGRAFIA: X. Lon-Dufour, Vocabulrio de teologia bblica. Ed. Vozes, 1972.Conceptos fundamentales de la teologa. Madrid 21979, 2 vols.; Diccionario Teolgico 
del NT, Salamanca 21978, 4 vols.

Apocalptico
Gnero literrio-religioso muito cultivado na literatura judaica e crist entre os sculos II a.C. e II d.C. O gnero apocalptico tem como finalidade incentivar 
os grupos religiosos que sofrem perseguio ou a presso cultural do ambiente. Como seu nome indica -- apocalipse significa revelao --, esse tipo de literatura 
descreve, numa linguagem enigmtica que somente a entendem os que crem, a interveno repentina e dramtica de Deus na histria em favor de seus escolhidos. Acompanhando 
ou anunciando a interveno dramtica de Deus na histria da humanidade, sucedem-se cataclismos de propores csmicas, como, por exemplo, o poder temporal de Satans 
sobre o mundo, sinais no cu, perseguies, guerras, fome e pragas. A literatura apocalptica caracteriza-se sobre-

Apocalptico / 31

tudo por sua insistncia no futuro de fatos como: a) a derrota do mal; b) a vinda do Messias; c) o estabelecimento do Reino de Deus; d) o advento da paz e da justia 
eterna; e) o castigo dos maus, enviados ao inferno, e o prmio dos escolhidos, reinando com Deus ou com o Messias num novo cu e numa nova terra. Esse tipo de literatura 
 encontrado tanto nos livros cannicos da Bblia do Antigo e do Novo Testamento quanto nos apcrifos. Exemplos de literatura apocalptica cannica no AT so: Is 
2427; Dn 7-12; Jl 3-4; Zc 9-14. Do NT temos passagens de Mt 24-25; Mc 13; Lc 21. E, fundamentalmente, o Apocalipse ou Revelao de So Joo, ltimo livro, com que 
se encerra o NT. Com relao aos textos apocalpticos apcrifos, diremos que se trata de livros pseudnimos, isto , que se atribuem a grandes personagens do passado. 
Entre eles citam-se o Apocalipse de Henoc, de Baruc, o IV Livro de Esdras, a Assuno de Moiss, o Livro dos Jubileus e o Testamento dos Doze Patriarcas. Dos apcrifos 
do NT podem ser citados o Apocalipse de Pedro, os Atos de Paulo etc. Ainda que a literatura apocalptica floresa entre o ano 200 a.C. e 200 d.C., no marco judaico-cristo, 
encontramo-la tambm em outras culturas e religies como no zoroastrismo (600 a.C.). A literatura apocalptica teve particular desenvolvimento nas seitas milenares 
da Idade Mdia, nos pregadores catastrofistas e nas modernas seitas pseudocrists, como os adventistas, os mrmons e os testemunhas de Jeov, que se distinguem pelo 
acento apocalptico de sua mensagem. No se deve esquecer ainda que os temas apocalpticos esto presentes na literatura moderna e no cinema. Livros de fico-cientfica, 
de utopias ou distopias chegaram a ser best-sellers de bilheteria e de vendas. Um dos exemplos  Apocalypse Now, entre outros, que entram na futurologia.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, I, 143s, com a bibliografia citada; G. Greshake, Ms fuertes que la muerte. Lectura esperanzada de los novsimos. Santander 
1981.

32 / Apcrifos

Apcrifos
Escritos apcrifos ou literatura apcrifa  uma literatura crist paralela  literatura ou escritos cannicos ou oficiais do Novo Testamento (NT). Aparece ao longo 
do sculo II de nossa era e corre pelos cinco primeiros sculos. Em torno dos livros cannicos do NT surgiu uma coleo de lendas que formam o que denominamos Apcrifos 
do NT: evangelhos, apocalipse, cartas e atos dos apstolos. Toda uma literatura no cannica faz seu aparecimento em contrapartida aos escritos cannicos. Em sua 
origem, a palavra apcrifo no tinha o significado esprio ou falso que tem hoje. Na verdade, um apcrifo revestia-se de carter demasiado sagrado e misterioso para 
que fosse conhecido de todo o mundo. Devia ser escondido -- apocryphos -- do grande pblico e permitido somente aos iniciados da seita. Somente quando se soube que 
no pertenciam a um apstolo ou discpulo de Jesus, a palavra apcrifo adquiriu o significado de esprio, falso, de algo que deve ser repudiado. Os escritos apcrifos 
tm a nsia de querer suprir o que falta aos cannicos. Neles abundam os relatos de presumveis milagres, muitas vezes absurdos. No entanto, os apcrifos contribuem 
com valiosa informao sobre as tendncias e costumes prprios da Igreja primitiva. Representam, tambm, os primeiros ensaios da lenda crist, das histrias populares 
e da literatura novelesca. Se no so boas fontes histricas num sentido, so em outro. Recolhem as iluses, as esperanas e os temores dos homens que os escreveram; 
ensinam o que era aceito pelos cristos incultos dos primeiros sculos, o que lhes interessava, o que admiravam, os ideais que acariciavam nesta vida, o que eles 
acreditavam encontrar nesses textos. "No tm, alm disso, valor como gnero folclrico e novelesco. Revelam aos aficionados e estudiosos da literatura e da arte 
medievais as fon-

Apcrifos / 33

tes de uma parte muito considervel de sua matria e a soluo de mais de um problema. Exerceram, ainda, uma influncia totalmente desproporcional a seus mritos 
intrnsecos, to grande e to ampla que no pode ignor-los algum que se preocupe com a histria do pensamento e da arte cristos" (M. R. James, The Apocryphal 
New Testament, citado por Quasten, o. c., 111). Os escritos apcrifos cobrem toda a gama de livros do NT: evangelhos, atos dos apstolos, cartas e apocalipse. a) 
Entre os primeiros -- evangelhos -- encontramos os seguintes: o Evangelho segundo os hebreus, uma espcie de reviso e prolongamento do evangelho cannico de Mateus. 
Sua composio parece ser do sculo II e foi escrito originalmente em aramaico com caracteres hebreus. O Evangelho dos egpcios, de uso entre os cristos do Egito, 
de origem gnstica, e escrito para comprovar certas heresias. Sectrio e hertico, foi reconhecido por Clemente de Alexandria e por Orgenes. O Evangelho ebionita, 
dos princpios do sculo III, foi escrito em favor de uma seita oposta ao do sacrifcio. O Evangelho segundo Pedro padece de docetismo e relata a paixo, morte e 
sepultamento de Jesus com detalhes interessantes sobre os milagres que se seguiram. Surgiu em meados do sculo II. O Evangelho de Nicodemos, do ltimo quarto do 
sculo IV, princpios do V, recolhe em sua verso latina os Atos de Pilatos, bem conhecidos e citados desde o sculo II. E vrios outros, em nmero de 21 relatos 
apcrifos de evangelhos atribudos a diferentes apstolos. Uma nota caracterstica comum a todos esses evangelhos  a maneira arbitrria como usam os dados cannicos. 
As narraes dos evangelhos cannicos servem como marco para as revelaes gnsticas, feitas pelo Senhor ou por Maria em conversas com os discpulos de Jesus depois 
de sua ressurreio. b) Atos apcrifos dos apstolos. Tm em comum com os evangelhos apcrifos a nsia de querer suprir o que falta no NT. Contam a vida e a

34 / Apcrifos

morte dos apstolos no estilo das novelas pags. Comprazem-se em descrever aventuras em pases longnquos, e seus heris vem-se envolvidos em toda espcie de perigos. 
So, entretanto, de grande interesse para a histria da Igreja e da cultura em geral. Projetam muita luz sobre a histria do culto cristo dos sculos II e III. 
Parecem ter nascido como literatura popular capaz de se opor e substituir as fbulas pags de carter ertico. Seus autores so desconhecidos. Entre os textos apcrifos 
dos Atos dos apstolos destacamos os seguintes: Os Atos de Paulo, nos meados do sc. II; os Atos de Pedro, prximos do ano 190; os Atos de Pedro e Paulo, sc. III, 
diferente dos anteriores; os Atos de Joo, segunda metade do sc. II; os Atos de Andr, segunda metade do sc. III; os Atos de Tom, escritos em siraco na primeira 
metade do sc. III; os Atos de Tadeu, lendas locais escritas durante o sc. III. c) Apocalipses apcrifos. So uma imitao do Apocalipse cannico de So Joo. Entre 
o reduzido nmero de apcrifos apocalpticos esto: o Apocalipse de Pedro (primeira metade do sc. II). Seu contedo consiste principalmente em vises que descrevem 
a beleza do cu e o horror do inferno. Reflete a escatologia rfico-pitagrica e das religies orientais. O Apocalipse de Paulo (segunda metade do sc. II). E outros 
apocalipses atribudos a Estvo, Tom,  Virgem Maria etc. d) Cartas apcrifas. Imitando as cartas dos apstolos, temos toda uma literatura ou gnero literrio 
apcrifo atribudo a eles. Tambm so annimas. A principal  a Epistola apostolorum, publicada pela primeira vez em 1919 e datada da segunda metade do sc. II. 
Constitui um exemplo de literatura religiosa popular no oficial. Baseia suas idias no NT. H muitas outras, como as Epstolas apcrifas de So Paulo, entre as 
quais se conta a correspondncia de So Paulo com Sneca: oito cartas dirigidas por Sneca a So Paulo, e seis deste ao filsofo romano.

Apologistas / 35

De toda essa literatura apcrifa, podemos dizer o que diz James Quasten dos Atos dos apstolos: "Um estudo atento desta literatura, em conjunto e detalhado, aumenta 
nosso respeito pelo bom sentido da Igreja Catlica e pela prudncia dos sbios de Alexandria, Antioquia e Roma: eles foram, certamente, bons "cambistas" que experimentaram 
todas as coisas e ficaram com o que era bom."
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, o. c., I, 111-143, com bibliografia ali publicada; Los evangelios apcrifos (BAC, 148, 479, 488).

Apolinrio de Laodicia (310-390)
*Jernimo, So.

Apologistas (sc. II-III)
Sob esse nome, surge uma srie ou grupo de escritores cristos, principalmente do sculo II. Muitos de seus escritos esto dirigidos ao imperador ou aos governadores 
romanos, os nicos que podiam aceitar ou recusar sua causa. Todos os escritos tm um tom marcadamente apologtico ou de defesa diante das acusaes grosseiras aos 
cristos, cada vez mais presentes no Imprio. Por isso, o tom e o estilo desses textos so bem diferentes dos da poca anterior, essencialmente missionrios ou querigmticos. 
Nessa poca, so bastante conhecidas as acusaes contra os cristos. Entre o povo circulavam vis rumores contra eles. O Estado considerava a adeso ao cristianismo 
um crime gravssimo contra o culto oficial e contra a majestade do imperador. As classes mais altas e cultas consideravam o cristianismo como uma ameaa crescente 
contra a integridade do Imprio. Por sua parte, escritores da poca intervieram contra os cristos: Luciano de Samosata publicou no ano 170 De morte peregrini, em 
que se zombava do amor fraternal dos fiis e de seu desprezo pela morte. O mesmo fez Fronton de Cirta, professor

36 / Apologistas

do imperador M. Aurlio, em seu Discurso. E sobretudo o filsofo Celso, que em 178 publicou seu Discurso verdadeiro, e para quem o cristianismo no passava de superstio 
e fanatismo. Os textos dos apologistas renem, assim, os argumentos e rumores que correm contra os cristos e os rebatem contundentemente. Dirigem-se, sobretudo, 
contra trs tipos de argumentos: a) Contra a acusao de que os cristos representavam um perigo para o Estado. Chamam a ateno sobre a maneira de viver dos cristos: 
sria, austera, casta e honrada; cidados de Roma, como os outros. b) Demonstram o absurdo e a imoralidade do paganismo e de suas divindades. Defendem a unidade 
de Deus, a divindade de Cristo e a ressurreio do corpo. c) Avanam mais, afirmando que a filosofia no foi capaz de encontrar a verdade, a no ser fragmentariamente. 
O cristianismo, ao contrrio, possui toda a verdade, porque o Logos, que  a mesma razo divina, veio ao mundo por Cristo. A maior parte dos manuscritos dos apologistas 
gregos dependem do cdice de Aretas, bispo que foi de Cesaria da Capadcia. Este, em 914, mandou copi-lo para sua biblioteca, com a inteno de formar um corpus 
apologetarum desde os tempos primitivos at Eusbio. Os manuscritos posteriores foram copiados no sculo XVI, quando o Conclio de Trento estudava o tema da tradio 
na Igreja. Podemos, ento, concluir que os genunos escritos dos apologistas foram virtualmente desconhecidos at o sc. XVI. O primeiro dos apologistas  Quadrato, 
que entre os anos 123-129 dirigiu seu discurso -- hoje perdido -- ao imperador Adriano, em defesa de nossa religio, "porque alguns malvados tratavam de incomodar 
os nossos". Segue-lhe Aristides de Atenas, do qual conservamos o mais antigo discurso ou apologia; seu texto foi encontrado em 1889 no monastrio de Santa Catarina 
do Sinai. Aristn de Pella  o autor da Discusso entre Jaso e Papisco sobre Cristo, texto perdido. So Justino (ver *Justino). *Taciano, o Srio, comps

Apotegmas dos padres / 37

o Discurso contra os gregos, um argumento contra tudo o que pertence  civilizao grega, sua arte, cincia e lngua. E o Diatessaron, uma combinao dos evangelhos. 
Os demais escritos se perderam. Tambm merecem destaque Milcades, que escreveu uma Apologia da filosofia crist, dirigida aos "prncipes temporais", cujo texto 
se perdeu. Apolinrio de Hierpolis, que escreveu um discurso ao imperador Marco Aurlio, cinco livros Contra os gregos, dois livros Contra os judeus, dois livros 
Sobre a verdade. Nenhum deles se conservou, e somente os conhecemos por Eusbio. Atengoras de Atenas escreveu a Splica em favor dos cristos e Sobre a ressurreio 
dos mortos. De Tefilo de Antioquia somente nos chegou Ad Autolycum. Perdeu-se a maior parte de sua numerosa obra. Milito de Sardes  considerado uma das "grandes 
luminrias" da sia. Dirigiu uma Apologia a Marco Aurlio, cujo texto se perdeu. Alm destas, atribuem-se a Milito outras 20 obras desaparecidas. Finalmente destacamos 
Hermas, autor da Stira sobre os filsofos profanos, na qual procura comprovar com sarcasmos a nulidade da filosofia pag, mostrando as contradies que encerram 
seus ensinamentos sobre a essncia de Deus, do mundo e da alma. Nada se sabe da pessoa do autor. Tambm se desconhece a data de composio da obra: provavelmente 
o sc. III. Outro dos apologistas, Carta a *Diogneto. Os apologistas latinos merecem captulo  parte. Mincio Flix escreveu em latim o dilogo Octavius.  a nica 
apologia do cristianismo escrita em latim e em Roma no tempo das perseguies. O mais representativo dos apologistas latinos  *Tertuliano.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, I, 181-242; 527-682; Padres apostlicos (BAC 65); Padres apologetas griegos (BAC 116).

Apotegmas dos padres (finais do sc. V)
*Sentenas dos Padres.

38 / Aranguren, Jos Lus L.

Aranguren, Jos Lus L. (1909-1996)
Catedrtico de tica e Sociologia em Madri, de 1955 at 1965, quando foi afastado da docncia, junto com E. Tierno Galvn e A. Garcia Calvo, por motivos polticos. 
Durante dez anos exerceu sua atividade docente em universidades americanas. Voltou para sua ctedra da Universidade Complutense em 1976, onde permaneceu at sua 
aposentadoria. Desde ento continuou seu magistrio falado e escrito em conferncias, aulas, congressos, artigos de jornais e revistas. O professor Aranguren  uma 
das figuras que mais entusiasmo e vitalidade intelectual suscitaram na Espanha durante os ltimos quarenta anos, principalmente entre os jovens. Sua obra falada 
e escrita gira em torno de problemas de tica, filosofia da religio, de poltica e de cultura geral. Se fosse preciso enquadrar seu pensamento filosfico, dele 
se falaria em termos de "catolicismo liberal inconformista", inclusive de um forte compromisso cristo e crtico diante da realidade. "A enorme influncia que exerceu 
sobre geraes mais jovens da filosofia -- e da vida espanhola -- deve ser compreendida menos no sentido doutrinal e mais no sentido socrtico" (Miguel A. Quintanilla, 
Diccionario de filosofa contempornea). "Aranguren sempre brindou com sua compreenso e estmulo a quantos nos aproximamos dele desolados diante da impossibilidade 
de encontrar no meio espanhol um marco estabelecido onde desenvolver nossas inquietudes, animando-nos a aprofundar criticamente nossas particulares inclinaes teorticas, 
fossem de ndole filosfica, sociolgica ou poltica." Fala-se de Aranguren como do intelectual que sempre sentiu e sente uma insubornvel, inequvoca vocao pelo 
ensino, pela comunicao e pelo dilogo. Intelectual inconformista, desnudador de hipocrisias e desvinculado de toda ideologia imperante, um homem que dialoga e 
critica, fiel  vida mutante, com o olhar posto no futuro, sem jamais se deter no passado.

Aranguren, Jos Lus L. / 39

O tema religioso -- e mais exatamente cristo --  bsico nele e corre ao longo de toda a sua vida. " *Guardini e a renovao litrgica, trazida por Maria Laach, 
abriram-lhe o sentido litrgico do catolicismo. Max Scheler influiu poderosamente em sua viso do mundo e do homem. Leu Kierkegaard, desentranhou Heidegger e foi 
um apaixonado do vigoroso e lmpido pensar do velho castelhano, poeta e mstico de Fontiveros, *Joo da Cruz". Sua aproximao ao tema religioso  o de um intelectual 
e crtico. Aranguren confirma essa "imagem minha que nem todo o mundo -- isto , o pequeno mundo que se ocupa de mim -- compartilhar hoje, mas que eu, naturalmente, 
aceito". Esse intelectual crtico transformou-se num denunciador constante de atitudes e condutas no autnticas, dentro e fora do cristianismo e da Igreja. Seu 
contexto imediato  a Espanha e todos aqueles que "resistem a olhar de frente a problemtica real de nosso tempo, a da liberdade e da socializao, a do Estado de 
direito e do Estado de justia social, a dos direitos humanos, a da participao ativa de todos os cidados na vida pblica, a dos operrios de empresa industrial 
e a de todos os homens nos bens da instruo, a problemtica na revoluo ou da evoluo, a das minorias regionais e a do exlio poltico, a da neutralidade e do 
desarmamento" (Meditao para a Espanha sobre a encclica "Pacem in terris"). Os primeiros estudos de Aranguren esto marcados pela instncia religioso-existencialista: 
*Lutero, Heidegger, *Calvino, Kierkegaard, Jaspers, K. *Barth, M. Scheler, Ortega, *Unamuno e *Zubiri. So autores que configuram o substrato existencial personalista 
ou tico da autenticidade. Dentro desta primeira linha encontramos: Catolicismo e protestantismo como formas de existncia (1952); Catolicismo dia a dia (1955); 
O protestantismo e a moral (1954); tica de Ortega (1958), e finalmente sua obra mais valiosa, tica (1958). A partir dos anos sessenta, adverte que toda moral pessoal 
 radicalmente social e seu pensamento centra-se em Mo-

40 / Areopagita, Pseudo-Dionsio

ral e poltica (1963); Moral e sociedade (1965); O que sabemos de moral (1967); O marxismo como moral (1968); A crise do catolicismo (1969) etc. Particular interesse 
oferece sua produo sobre a juventude europia e espanhola, e tambm sobre a problemtica da Espanha. No obstante o carter intelectual, crtico e de denncia 
na obra de Aranguren, tanto no campo da crena catlica quanto em todos os demais problemas filosficos, polticos, sociais e culturais, nos ltimos anos seu pensamento 
tem sido caracterizado por uma atitude de inconformismo e de "heterodoxia", assim como uma mescla de compromisso intelectual e moral com certo distanciamento que 
o prprio Aranguren qualificou de "irnico".
BIBLIOGRAFIA: Obras: I. Biblioteca Nueva, Madrid 1965. Uma bibliografia bastante completa at 1969, em Teora y Sociedad (Homenagem ao professor Aranguren). Barcelona 
1970; Homenaje a Aranguren, dirigido por Pedro Lan Entralgo, 1972; J. Muguerza (ed.), Etica da a da. Homenaje a J. L. L. Aranguren. Trotta, Madrid 1991.

Areopagita, Pseudo-Dionsio (sc. IV-V)
Eis um autor to citado quanto desconhecido. Seus escritos comearam a ser conhecidos nos princpios do sculo VI, e seu autor foi identificado como Dionsio Areopagita, 
transformado pela pregao do apstolo So Paulo no arepago de Atenas (At 17,34). A crtica interna e externa destes escritos os situam nos finais do sc. V, sendo 
impossvel sua atribuio a Dionsio Areopagita. De fato, sua fonte principal  o neoplatnico Proclo (411-485), de quem o autor inclui textos completos. Os livros 
do Pseudo-Dionsio inspiram-se na direo da filosofia neoplatnica, adaptando-a, da melhor forma possvel, s exigncias crists. Servem-se da terminologia dos 
mistrios, onde o neoplatonismo se comprazia. Traduzidos para o latim por Hilduino e Juan Scoto *Erigena, foram objeto de comentrios por muitos autores,

Areopagita, Pseudo-Dionsio / 41

entre os quais Hugo de So Vtor, Roberto Grosseteste, So *Boaventura, Santo *Alberto Magno, Santo Toms. Foi vastssima sua influncia na Idade Mdia e constituiu 
o fundamento da mstica e da angelologia medieval. As principais obras do Pseudo-Dionsio so: a) Teologia mstica. Formula uma teologia afirmativa que, partindo 
de Deus, dirige-se para o infinito com a determinao dos atributos ou nomes de Deus. Todo o conhecimento de Deus vem do prprio Deus. O que se pode dizer dele, 
de acordo com os nomes que aparecem nas Escrituras constitui o tema da teologia afirmativa. Existe tambm uma teologia negativa, que parte do infinito para Deus 
e o considera acima de todos os predicados e nomes com que se pode designlo. Segundo a teologia mstica, o mais alto grau de conhecimento  o no saber mstico: 
somente prescindindo de toda a determinao de Deus, compreende-se Deus em seu ser em si mesmo. b) Sobre os nomes divinos. Nesta obra, o PseudoDionsio insiste na 
impossibilidade de apreender e designar adequadamente a natureza de Deus, que  superior  prpria unidade tal como ns a concebemos:  o uno super-essencial, causa 
e princpio de todo nmero e de toda ordem. Deus no pode ser designado como unidade, nem como trindade, nem como nmero. Nenhum termo com que designamos as coisas 
finitas pode design-lo. Nem sequer o prprio nome de bem, o mais elevado de todos,  adequado  sua perfeio divina. Tal  a teologia superlativa, consistente 
em admitir os nomes de Deus, mas sem poder conceb-los. O Pseudo-Dionsio entende a emanao das coisas de Deus -- como forma de todas as idias ou modelos de todas 
as realidades -- como criao. O mundo  produto da vontade divina, no um estgio do desenvolvimento de Deus. Os seres do mundo so smbolos ou manifestaes de 
Deus. As coisas visveis so um degrau ou escala que permite ao homem ascender at Deus e deste modo refazer, inversamente, o caminho da criao.

42 / Aretas

Existem outros tratados do Pseudo-Dionsio: Sobre a hierarquia celeste e Sobre a hierarquia eclesistica. Na primeira concebe-se Deus como centro das esferas nas 
quais se ordenam todas as coisas criadas. As criaturas mais perfeitas so as mais prximas dele. A hierarquia celestial  constituda por anjos, distribudos em 
nove ordens e reunidos em formaes ternrias. Da seguinte forma: 1) tronos, querubins e serafins; 2) potestades, dominaes e virtudes; 3) anjos, arcanjos e principados. 
 hierarquia celestial corresponde a eclesistica, disposta igualmente em trs ordens: 1) constitudo pelos mistrios: batismo, eucaristia, ordem sagrada; 2) o bispo, 
o sacerdote, o dicono; 3) catecmenos, possessos e penitentes, isto , os que so conduzidos  graa divina pelos administradores dos mistrios. O fim da vida eclesistica 
 a deificao ou transfigurao do homem em Deus. Isto se consegue mediante a ascenso mstica. Seu cume  o no saber mstico, a muda contemplao do uno. A concluso 
 uma teologia mstica, pela qual o homem alcana o supremo saber atravs da suprema ignorncia.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 3 e 4; (BAC); Diccionario de filsofos. Rioduero, Madrid 1987, 351-354.

Aretas (sc. X)
*Apologistas.

Ario (256-336)
Sem a pessoa de Ario e de sua doutrina, seria incompreensvel grande parte da literatura crist dos sculos III-V. Depois da literatura apcrifa e gnstica dos sculos 
I e II, que provocou a reao dos primeiros escritos anti-herticos (*Irineu, Santo), surgem multides de escritores e de seitas que sero objeto de estudo e de 
condenao por parte de telogos e conclios (So *Baslio, So *Gregrio de Nissa, So *Joo Crisstomo,

Ario / 43

Santo *Atansio). Quase todos eles tm Ario e sua doutrina como ponto de referncia. Oriundo da Lbia, Ario recebeu sua formao teolgica em Antioquia e, desta 
cidade, passou para Alexandria, onde se ordenou dicono e mais tarde sacerdote. Encarregado da igreja de So Baucalis, prximo do ano 318 comeou a provocar muitas 
discusses por causa de uma doutrina teolgica prpria, que ele apresentava em seus sermes como crena da Igreja. Sua doutrina foi denunciada rapidamente como contrria 
 tradio. Em um snodo para o qual foram convocados todos os bispos do Egito, Ario foi condenado, sendo deposto juntamente com seus seguidores. Apesar de ter conquistado 
adeptos para sua causa, foi novamente condenado no Conclio de Nicia (325), do qual participaram mais de 300 bispos. Para cortar a heresia pela raiz, o Conclio 
formulou o clebre Smbolo Niceno (*Smbolo dos apstolos), e Ario foi expatriado para a Ilria. O imperador Constantino mandou cham-lo do exlio em 328. Posteriormente 
ordenou que fosse reconciliado oficialmente, mas Ario morreu repentinamente na vspera do dia marcado (336). A doutrina teolgica de Ario pode ser resumida nos pontos 
derivados do princpio geral sobre as relaes entre Deus Pai e Deus Filho: que a divindade tem de ser necessariamente incriada, mas tambm inata. Deste princpio, 
deduz-se: a) que o Filho de Deus, o Logos, no podia ser verdadeiro Deus; b) que o Filho de Deus  a primeira de suas criaturas e, como todas as demais, foi criado 
do nada e no da substncia divina; c) houve, portanto, um tempo em que o Filho de Deus no existia; d)  Filho de Deus, mas no no sentido prprio da palavra, e 
sim no sentido moral e se lhe atribue de forma imprpria o ttulo de Deus; e) a filiao do Filho  somente uma adoo, da qual no resulta nenhuma participao 
real na divindade. Nenhuma semelhana verdadeira com Deus, que no pode ter nenhum semelhante; f) conseqentemente, o Logos ocupa um lugar intermedirio entre Deus 
e o universo. Deus o criou para que fosse o instrumento da criao. Inter-

44 / Aristides de Atenas

preta a encarnao no sentido de que o Logos se fez carne em Jesus Cristo, cumprindo a funo da alma. A doutrina de Ario atacava na raiz a prpria natureza do cristianismo, 
ao atribuir a redeno a um Deus que no era verdadeiro Deus, incapaz, assim, de redimir a humanidade. Conseqentemente, a Virgem Maria no era, segundo ele, a verdadeira 
Me de Deus. A f crist ficava despojada de seu carter essencial. A doutrina de Ario  um produto tpico do racionalismo teolgico prprio da escola de Antioquia 
e foi exposta por ele em conversas e contatos com companheiros de estudo e, inclusive, bispos. Valeu-se principalmente da pregao, j que sua obra escrita no  
abundante. Os escritos de Ario reduzem-se a trs: Carta a Eusbio de Nicomdia, condiscpulo e seu protetor; Carta a Alexandre de Alexandria, que o condenou; e, 
finalmente, o Banquete ou Thalia, -- obra escrita em versos da qual somente conservamos fragmentos. Depois de sua condenao em Nicia, escreveu outra Carta ao imperador 
Constantino, contendo um credo com o qual pretendia comprovar sua ortodoxia. Ario  o herege mais importante e mais srio do cristianismo no sc. IV. Assim o consideraram 
a Igreja e os escritores posteriores. Toda a teologia posterior est marcada por sua heresia, que negava a originalidade essencial do cristianismo. E continua sendo 
at hoje quando o mistrio de Cristo Filho de Deus  negado ou omitido.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, II, 10-16, com a bibliografia a citada.

Aristides de Atenas (sc. II)
*Apologistas.

Aristides, Jean Bertrand (1953-)
*Libertao, Telogos da

Arnauld, Jacqueline Marie Anglique / 45

Arnauld, Antoine (1612-1694)
Telogo francs vinculado ao movimento e espiritualidade de *Port-Royal. Desde 1638 esteve unido a Saint-Cyran e a Port-Royal, para onde se retirou em 1641. Seu 
livro Sobre a comunho freqente (1643) acentua a necessidade de uma preparao bastante rgida para a comunho. Divulgou as idias jansenistas (*Jansnio) entre 
o grande e piedoso pblico e, a partir de 1644, foi o lder do movimento jansenista. Inspirador, juntamente com *Saint-Cyran, das Cartas provinciais de Pascal, foi 
censurado pelos telogos da Sorbonne em 1656, sendo afastado do ensino. A assinatura da paz de Westfalen em 1668 devolveu-lhe o ttulo de doutor. Viveu os ltimos 
anos em seu retiro na Holanda, de onde continuou escrevendo e animando a controvrsia jansenista, reavivada a partir de 1679.
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes, 1775-1783, 43 vols.; J. Laporte, La doctrine de la grce chez Arnauld, 1922; Id., La doctrine de Port Royal, I. La loi moral, 1951; 
II. La pratique des sacrements, 1952.

Arnauld, Jacqueline Marie Anglique (1591-1661)
Conhecida como "Mre Angelique", chegou a ser abadessa de Port-Royal. Sua vida de retiro no convento prolongou-se de 1602 a 1608, ano em que sofreu uma converso 
radical. Fruto dessa converso foram as drsticas reformas introduzidas na comunidade de *Port-Royal. Em 1625 transferiu a comunidade para um monastrio mais amplo 
em Paris. Nos anos seguintes esteve submetida  influncia de *SaintCyran, sob cuja direo a comunidade foi um centro de irradiao entusiasta dos princpios e 
prticas jansenistas. A vinculao a Port-Royal da figura de B. *Pascal torna mais interessantes ainda esses anos.

46 / Arndt, Johann

Arndt, Johann (1555-1621)
*Pietistas.

Astete, Gaspar (1537-1601)
*Catecismo.

Atansio, Santo (279-373)
Denominado a "coluna da Igreja" e o "martelo dos arianos", nasceu em Alexandria, onde recebeu uma formao clssica e teolgica. H indcios de que na primeira juventude 
teve contatos com os monges de Tebaida. Em 319 foi ordenado dicono pelo bispo Alexandre, a quem mais tarde serviu como secretrio. Foi como secretrio que acompanhou 
o bispo ao Conclio de Nicia (325), no qual se sobressaiu por sua discusso e dialtica com os arianos. Trs anos mais tarde (328), foi nomeado bispo de Alexandria. 
A partir de ento, a vida de Atansio como bispo caracterizou-se pela luta contra os erros dos arianos, a defesa da verdade sancionada em Nicia, oralmente e por 
escrito, e por seu indomvel zelo e constncia diante da adversidade. A Igreja do Oriente denominou-o "padre da ortodoxia" e a Igreja Romana considera-o entre os 
quatro grandes padres do Oriente. Atansio, o Grande, foi o alvo da clera dos arianos at o resto de seus dias. Tentaram reduzi-lo ao silncio, procurando o favor 
do poder civil e corrompendo a autoridade eclesistica. Por cinco vezes, foi expulso de sua sede episcopal e passou mais de 17 anos no exlio. Mas nada conseguiu 
quebrar sua resistncia, pois estava convencido de que lutava pela verdade. Foi reabilitado na sede de Alexandria no dia 1 de fevereiro de 366. Viveu em paz o resto 
de seus dias e morreu no dia 2 de maio de 373.  surpreendente a atividade literria de Santo Atansio, apesar de uma vida to agitada. Certamente a maior parte 
de suas obras est estreita-

Atansio, Santo / 47

mente relacionada com sua luta em defesa da f nicena. "Submete a exame crtico uma e outra vez a argumentao dialtica e exegtica de seus adversrios, e refuta 
as acusaes que alguns de seus inimigos sem escrpulos lanavam contra ele." "Em todos os seus escritos, diz Fcio, o estilo  claro, livre de redundncias e simples, 
porm srio e profundo, e seus argumentos so extremamente eficazes." Sua extensa obra pode classificar-se em: 1) Escritos apologticos e dogmticos. Figuram aqui, 
fundamentalmente, trs obras: o Tratado contra os pagos, o Tratado sobre a encarnao do Verbo e os Discursos contra os arianos. Estes ltimos, esctitos entre 338-339, 
constituem a obra dogmtica mais importante de Atansio. Faz um resumo da doutrina ariana tal qual foi exposta por Ario na Thalia (*Ario) e defende a definio do 
Conclio de Nicia de que o Filho  eterno, incriado -- agnetos -- e imutvel, e de que existe unidade de essncia entre o Pai e o Filho. Entre as obras dogmticas 
esprias atribudas a Atansio est o chamado Smbolo atanasiano, denominado tambm Symbolum Quicumque. Sua atribuio a Atansio no  anterior ao sc. VII. Alcanou 
fama mundial e a partir do sculo IX foi utilizado no ofcio ordinrio dos domingos.  uma exposio clara da Trindade e das duas naturezas na nica pessoa de Cristo. 
Provavelmente  de origem galicana e data do sc. V. 2) Escritos histrico-polmicos, dos quais Atansio se valeu para defender-se de seus inimigos. Nesta seo 
encontramos a Apologia contra os arianos, de fundamental importncia para a histria da controvrsia ariana; Apologia ao imperador Constncio, obra em que colocou 
seu maior cuidado, escrita numa linguagem valente e digna, perfeitamente acabada e na qual brilha a arte; Apologia pela fuga, que justifica sua fuga da Igreja, e 
que se tornou um dos escritos mais famosos de Atansio; A histria dos arianos ataca o imperador Constncio como um inimigo

48 / Atansio, Santo

de Cristo, patrocinador da heresia e precursor do Anticristo. 3) Escritos exegticos e ascticos. Entre os primeiros esto os comentrios sobre os Salmos, o Gnesis, 
o Eclesiastes e o Cntico dos Cnticos. Entre os segundos est a Vida de Santo Anto, o documento mais importante do monaquismo primitivo, escrito a partir da morte 
de Santo Antnio (356). Dedicou-o aos monges, a pedido destes que queriam saber "como Antnio praticou o ascetismo, como viveu anteriormente, como foi sua morte, 
e se era verdade tudo quanto dele se dizia". Escreveu a Vida de Santo Anto com o objetivo de apresentar um modelo de vida consagrada ao servio de Deus. " uma 
regra de vida monstica em forma de narrao" (So *Gregrio Nazianzeno). Com a Vida de Santo Anto criou um novo tipo de biografia, que serviu de modelo para toda 
a hagiografia grega e latina posterior. 4) Cartas. Somente sobreviveu uma pequena parte. Muitas delas so decretos e tratados, mais do que cartas pessoais e privadas. 
Elas nos chegam nos mesentrios da controvrsia ariana. Em primeiro lugar esto as chamadas Cartas festivas, cartas nas quais os bispos de Alexandria anunciavam 
todos os anos, s sedes sufragneas, o incio da quaresma e a festa da pscoa. So 17 as cartas festais, que comeam a partir do ano 329. A mais famosa  a que corresponde 
ao ano 367. Nela condena-se a tentativa dos hereges de introduzir obras apcrifas como Escritura divinamente inspirada, e enumeram-se os livros do Antigo e do Novo 
Testamento includos no cnon, transmitidos e aceitos pela Igreja. H outras cartas importantes: trs cartas sinodais, carta aos bispos africanos, duas cartasencclicas, 
cartas dogmtico-polmicas, carta aos monges, cartas ascticas etc. Todos os esforos de Atansio tendem a estabelecer, "desde as origens, a autntica tradio, 
doutrina e f da Igreja Catlica que o Senhor deixou, os apstolos pregaram e os padres conservaram". Seu maior mrito consiste em ter defen-

Atas dos mrtires / 49

dido o cristianismo tradicional do perigo da helenizao, oculto na heresia de Ario e de seus seguidores. Seus pontos de insistncia so: a) A doutrina sobre a Trindade, 
"que  Deus no Pai, no Filho e no Esprito Santo, que no tm associado nenhum elemento estranho ou externo". b) O logos e a redeno: "Ele se fez homem para que 
pudssemos tornar-nos Deus, e manifestou-se atravs de um corpo para que tivssemos uma idia do Pai invisvel". c) Cristo: "Assim como  o Verbo de Deus, o Verbo 
se fez carne. E enquanto no princpio era o Verbo, na plenitude dos tempos a Virgem Maria concebeu-o em seu seio e o Senhor se fez homem". "Sendo realmente Filho 
de Deus, fez-se tambm Filho do homem, e sendo Filho Unignito de Deus, fez-se tambm primognito entre muitos irmos". d) O Esprito Santo  Deus, que procede do 
Pai. Em nenhuma parte afirma explicitamente que o Esprito Santo proceda do Filho. , no entanto, um corolrio de sua doutrina.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, II, 22-83; Obras: PG 25-28.

Atas dos mrtires (sc. II-V)
As Atas dos mrtires so relatos dos sofrimentos dos mrtires cristos. Formam um subgnero dentro da histria dos cinco primeiros sculos do cristianismo. Nascem 
do prprio fato das perseguies e costumavam ser lidas s comunidades crists nos atos litrgicos que comemoravam o aniversrio do martrio. Como fontes histricas 
podemos dividi-las em trs grupos: 1. O primeiro grupo compreende os processos verbais oficiais do tribunal. Contm as perguntas dirigidas aos mrtires pelas autoridades, 
suas repostas tal como a anotavam os escrives pblicos ou os amanuenses do tribunal, e as sentenas proferidas. Depositavam-se esses documentos nos arquivos pblicos, 
dos quais, algumas vezes, os cristos conseguiam obter cpias.

50 / Atas dos mrtires

O nome de Atas dos mrtires (acta ou gesta martyrum) deve ser reservado exclusivamente para esse grupo. So fontes histricas imediatas e dignas de crdito que se 
limitam a consignar os atos. A esse tipo pertencem as Atas de So Justino e companheiros (segunda metade do sculo II); as Atas dos mrtires escilitanos na frica, 
que contm as atas oficiais do julgamento de seis cristos de Numdia, que foram sentenciados pelo procnsul Saturnino e decapitados no dia 17 de julho do ano 180. 
Tambm as Atas proconsulares de So Cipriano, bispo de Cartago, executado dia 14 de setembro do ano 258. 2. O segundo grupo compreende os relatos de testemunhas 
oculares ou contemporneas. Costuma-se denomin-los paixes ou martyria. A esse grupo pertencem o Martyrium Policarpi (156); a Carta das Igrejas de Viena e Lio 
s Igrejas da sia e da Frgia; a Paixo de Perptua e Felicidade; as Atas dos santos Carpo, Papilo e Agatnica; as Atas de Apolnio que, na opinio de *Harnak, 
 "a mais nobre apologia do cristianismo que nos chegou da Antigidade". 3. O terceiro grupo abrange as lendas de mrtires compostas com fins de edificao e muito 
depois do martrio. So uma mescla fantstica de verdade e imaginao. Ou simples novelas sem nenhum fundamento histrico. A esse grupo pertencem as atas dos mrtires 
romanos Santa Ins, Santa Ceclia, Santa Felicidade e seus sete filhos, Santo Hiplito, So Loureno, So Sisto, So Sebastio, Santos Joo e Paulo, Cosme e Damio 
etc. O fato de tais atas no serem autnticas no prova, de forma alguma, que esses mrtires no tenham existido. Indica apenas que no se podem usar esses documentos 
como fontes histricas. -- Ateno especial merecem as colees de atas dos mrtires da antigidade crist. O primeiro que reuniu uma coleo de atas de mrtires 
foi Eusbio em sua obra Sobre os mrtires antigos. Essa obra se perdeu. Em Histria Eclesistica, Eusbio d-nos uma sntese da maioria dessas

Azor, Joo / 51

atas. Alm disso, comps um tratado sobre os mrtires da Palestina, vtimas das perseguies entre os anos 303-311. Um autor annimo recolheu as atas dos mrtires 
persas mortos sob Sapor II (339-379). Escritas em siraco, seus processos e interrogatrios lembram as relaes das autnticas atas dos primeiros mrtires. Em troca, 
as atas siracas dos mrtires de Edessa so pura lenda.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, I, 171-180; Actas de los mrtires. Edio bilnge. Verso de Daniel Ruiz Bueno, 1987.

Atengoras de Atenas (sc. II)
*Apologistas.

Atengoras, Patriarca (1886-1972)
*Paulo VI; *Schutz, Roger.

Atos dos Apstolos (sc. I)
*Lucas, So.

Auger, Edmond (1530-1591)
*Catecismo.

Averris (1126-1198)
*Siger de Brabante.

Azor, Joo (1536-1603)
*Instituies morais.

52 / Bacon, Roger

B
Bacon, Roger (1214-1294)
Foi chamado e conhecido entre seus contemporneos por "Doctor Mirabilis". Seu nome est vinculado  Universidade de Oxford, onde se destacaram Roberto de Grossestete, 
Pedro de Maricourt e muitos outros que passaram  histria como filsofos da natureza ou "naturalistas". Tanto os procedimentos ou mtodos de sua investigao quanto 
seus resultados interessam muito mais  histria das cincias que  filosofia. Roger Bacon  o "homem que se tornou -- muitas vezes por confuso com seu homnimo 
do sc. XVI, Francis Bacon -- o pai da cincia experimental". No entanto,  um medieval autntico, um filsofo e telogo da corrente franciscana e agostiniana de 
Oxford. Nascido em Ilchester (1214), tornou-se franciscano para estudar em Oxford e Paris, onde permaneceu de 1244 a 1250. Nesse mesmo ano, voltou como professor 
de teologia para Oxford, a cuja escola ficou vinculado para sempre. Por solicitao do Papa Clemente IV, enviou-lhe o Opus maius, obra condenada em 1278 pelos franciscanos 
em geral, impondo a seu autor uma severa clausura, que parece ter-se prolongado at os ltimos anos de sua vida. O nico dado que temos dele  que em 1292 redigiu 
o Compndio dos estudos teolgicos. Complementam Opus maius suas obras Opus minus e Opus tertium; ambos chegaram at ns atravs de esboos. Roger Bacon criou um 
plano grandioso para uma enciclopdia das cincias. Para ele, a metafsica  a cincia que encerra os princpios de todas as demais cincias.

Baltasar Gracin / 53 BIBLIOGRAFIA: E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 444-450, com a bibliografia nas p. 457-458; Ren Taton, Historia general de las ciencias. 
La Edad Media, 625 s.

Balmes, Jaime (1810-1848)
*Neo-escolsticos.

Baltasar Gracin (1601-1658)
Pensador espanhol nascido em Belmonte (Saragoa), e morto em Tarazona. Escritor barroco e conceptista, foi um dos pensadores espanhis de maior e mais ampla influncia 
na literatura e no pensamento da Europa. "A influncia de seu estilo e de sua doutrina moral foi importante na Frana e, em especial, na Alemanha, particularmente 
em Schopenhauer -- que traduziu Orculo manual -- e Nietzsche. Schopenhauer chegou a dizer: "Meu escritor predileto  o filsofo Gracin. Li todas as suas obras". 
Sendo um dos maiores tericos do conceitualismo, Gracin tambm teve grande influncia na Itlia, na primeira metade do sc. XVII, conforme testemunharam suas numerosas 
tradues. O interesse suscitado na Espanha, h meio sculo, ganhou dimenses internacionais de carter duradouro" (Dic. de filsofos). Da mesma forma que Caldern 
na poesia, Gracin representa uma viso do homem e da natureza na qual o individual desaparece em meio  generalizao da ordem dos smbolos. Gracin  um dos grandes 
escritores do sc. XVII, conhecedor do mundo, da natureza e da sociedade. Sacerdote jesuta, escreveu com liberdade e sofreu os efeitos da censura interna e da represso 
de sua ordem. Sua numerosa produo pode ser agrupada em trs sries: uma de tratados da corte sobre o homem perfeito: O Heri (1637); O Poltico (1640); O Discreto 
(1646). Na segunda srie esto: Orculo manual (1647); O Crtico (entre 1651-1657). Na terceira srie: Arte de engenho (1642) e Agude-

54 / Baltasar Gracin

za e arte de engenho (1648). Tambm escreveu O comungatrio, um livro de meditaes. -- Em seus escritos aparecem em toda sua grandeza a dignidade, a misria e a 
condio poltica e social do homem. O homem est corrompido pela sociedade que desfigura sua imagem de Deus. O homem  seu grande tema. "No nascemos prontos: vamo-nos 
a cada dia nos aperfeioando como pessoa, no trabalho, at chegar ao ponto do ser consummado, do alcance das virtudes, das excelncias: isso se reconhecer no gosto 
requintado, no talento purificado; na prudncia do juzo, na vontade depurada" (Orculo, 6). -- Em O Heri agua-se o perfil engenhoso do homem ideal. "Em uns reina 
o corao, em outros a cabea, e  sinal de necedade um querer estudar, e o outro lutar com a percepo. Para um cavaleiro corajoso no existe arma curta, porque 
lhe basta dar um passo  frente para que ela se alongue suficientemente, e, assim, o que lhe faltar de ao, o corao lhe suprir com valentia". -- Do Prncipe -- 
cujo exemplo de governador  o rei catlico Dom Fernando -- diz em O Poltico: "No pode a grandeza fundamentar-se no pecado que  nada, mas em Deus que  tudo; 
ser heri do mundo pouco ou nada significa: mas ser heri do cu significa muito". -- Em O Magistrado, mais ainda que em O Heri, o ideal direciona-se para outra 
ordem de valores: o verdadeiro corteso do sculo XVII. A essncia do livro est em irmanar, na vida e na sociedade, o gnio com o talento, a grandeza da alma e 
da ao com a elegncia do trato e a fineza dos gestos. Gracin preconiza o porte elegante, as boas maneiras, o galanteio, o domnio e, principalmente, a prudncia, 
a sensatez, a adaptao aos modos de agir e s circunstncias. E, acima de tudo, a moderao harmnica, a modstia. Deve haver tempo para tudo, para a tica e para 
a stira burlesca, para o riso e para o pranto, para a meditao e para a dana. -- O Crtico  a grande novela simblica do sc. XVII. Prope apresentar, no estilo 
corteso,

Bez, Domingo / 55

conforme o autor, o curso da vida humana, procurando juntar "o rido da filosofia com o divertido da inveno". Nessa obra expressou o sentido trgico da existncia: 
" vida, no devias ter comeado, mas, j que comeaste, no devias terminar. A felicidade no se encontra na terra. Tudo o que existe zomba do homem miservel: 
o mundo o engana, a vida mente para ele, a fortuna zomba dele, a sade lhe falta, a idade passa, o mal o apanha, o bem se ausenta, os anos fogem, a felicidade no 
chega, o tempo voa, a vida se acaba, a morte o colhe, a sepultura o engole, a terra o cobre, a podrido o desfaz, o esquecimento o aniquila, e o que ontem era homem 
hoje  p e amanh ser nada".
BIBLIOGRAFIA: Obras completas. Ed. por E. Correa Caldern, Madrid 1947; Obras Completas. Ed. e estudo preliminar por Arturo del Hoyo, Madrid 1960.

Balthasar, H. U. von (1905-1988)
*Teologia atual, Panorama da.

Bez, Domingo (1528-1604)
Telogo dominicano espanhol. Foi professor de Teologia na Universidade de Salamanca, um dos telogos da chamada "baixa escolstica" ou escolstica renascentista, 
com sede na universidade salamanquina. Por sua ctedra passaram muitos discpulos que, mais tarde, ocuparam postos de relevncia na vida espanhola. Duas atuaes 
o tornaram clebre: sua participao na controvrsia sobre a graa com Lus de *Molina, e sua condio de diretor e confessor de Santa *Teresa de Jesus. Domingo 
Bez destaca-se por sua slida formao escolstica, seu critrio justo e seguro e seu bom senso prtico. Escreveu comentrios  Summa Theologica de Santo Toms 
e vrios tratados teolgicos e filosficos.
BIBLIOGRAFIA: Scholastica Commentaria (Biblioteca de Tomistas Espanhis, VIII); Comentrios inditos da

56 / Bardasanes Prima Secundae de Santo Toms, 3 vols. (Biblioteca de Telogos espanhis, IX, XI e XIV); M. Solana, Historia de la filosofa espaola, III, 1941, 
173-220.

Bardasanes (154-226)
*Efrm Siro, Santo; Marcio; Gnsticos.

Barlao da Calbria (1290-1348)
*Hesiquia.

Barnab, Carta a (sc. I-II)
*Padres apostlicos.

Barnio, Csar (1538-1607)
Religioso do Oratrio, nomeado cardeal em 1596. Destacou-se como erudito e historiador, sem dvida o mais importante de sua poca. Sua obra principal so os Annales 
Ecclesiastici, uma histria da Igreja em 12 volumes, que vai das origens at 1198. A redao da obra ocupou os ltimos anos de seu autor (1588-1607). A Histria 
de Barnio  uma rplica da Historia Ecclesiae Christi (1559-1574), dividida por centrias ou sculos e conhecida como "os centuries de Magdeburgo".  uma viso 
da histria eclesistica desde a Contra-Reforma, cheia de dados s vezes sem oposio. A autoridade de Barnio, no entanto, foi reconhecida durante muito tempo.

Barth, Karl (1886-1968)
Telogo suo de confisso calvinista. Por sua atitude antinazista, foi obrigado por Hitler a refugiar-se em Basilia, de cuja universidade foi professor. Faz parte 
da chamada "teologia dialtica" ou "da crise", junto a J. *Moltmann, E. Brunner, R. *Bultmann, F. Gogarten e outros. Barth deu nome a um movimento: o barthismo, 
que prope

Barth, Karl / 57

uma total e coerente adeso  Palavra de Deus, equivalente ao objetivismo da revelao bblica e ao fato histrico da encarnao, contra o imanentismo da cultura 
moderna geral e em particular do "protestantismo liberal". A teologia de Barth  uma reao frente a Schleiermacher e, em geral, contra a cultura do Romantismo e 
do Iluminismo. Participou, como observador, do Conclio Vaticano II. A doutrina de Barth est presente em seus numerosos discpulos e em sua extensa e valiosa obra 
escrita. Destacamos seu monumental Die Kirchliche Dogmatik (10 vols., 1955) e o Comentario  epstola aos Romanos (1919); Humanismus (1950), e outras. Podemos sintetizar 
sua teologia nos seguintes pontos: 1) Barth destaca a absoluta transcendncia de Deus. Deus  o nico positivo, o ser. O homem, no entanto, da mesma forma que o 
mundo,  a negao, o no ser. Justamente por no ser nada, o homem no tem a possibilidade de autoredeno; nem ao menos de conhecer Deus, mas somente de saber 
que no o conhece. 2) A iniciativa vem de Deus, que irrompe no mundo do homem atravs de sua revelao e palavra. A teologia de Barth , por isso, a teologia da 
palavra. A revelao de Deus  o objeto da teologia. Barth centra toda a sua ateno na revelao e palavra de Deus na Bblia. 3) Barth v a revelao de Deus na 
Bblia como algo dinmico, no esttico. A palavra de Deus, diz Barth, no  um objeto que ns controlamos como se fosse um corpo morto que podemos analisar e dissecar. 
Na realidade  como um sujeito que nos controla e atua sobre ns. E essa Palavra  capaz de nos fazer reagir de um jeito ou de outro. 4) A Palavra de Deus  o acontecimento 
mediante o qual Deus fala e se revela ao homem atravs de Jesus Cristo. E como isto se torna realidade? A Bblia, Palavra escrita de Deus,  a testemunha do acontecimento 
da Revelao de Deus. O Antigo e o Novo Testamento colocam Jesus Cristo como o "Cordeiro de Deus", anunciado por Joo Batista. Por isso,

58 / Bartolomeu de las Casas

sem dvida, desde seus primeiros anos como pastor, Barth teve sobre sua mesa a pintura de Grnewald em que Joo Batista mostra Jesus Cristo crucificado. 5) Hoje, 
atravs da Palavra proclamada, a Igreja  testemunha da Palavra revelada. Sua proclamao baseia-se na palavra escrita, a Bblia. Deus serve-se desta palavra proclamada 
e escrita, e se transforma em palavra revelada de Deus, quando ele quer falar-nos atravs dela. A nfase da teologia de Barth est na revelao de Deus em Jesus 
Cristo. A nica palavra de Deus est em Jesus Cristo. Toda relao de Deus com o homem se d em Cristo e atravs de Cristo. Em sua forma negativa, isto significa 
a excluso da teologia natural. Positivamente, tudo deve ser visto e interpretado a partir de Cristo ou, empregando a expresso barthiana, a partir da "concentrao 
cristolgica". O pecado original no pode ser entendido independentemente de Cristo. A f tambm no  fruto de um raciocnio nem est fundamentada em um sentimento 
subjetivo. "Em Jesus Cristo no h separao do homem de Deus, nem de Deus do homem." Barth prega que "a mensagem da graa de Deus  mais urgente que a mensagem 
da Lei de Deus, de sua ira, de sua acusao e de seu juzo". A teologia de Barth exerceu e continua exercendo uma influncia decisiva na constante procura da palavra 
autntica e verdadeira de Deus. Sua condio de "crente" que no invoca nenhum mrito diante de Deus  o melhor estmulo para os cristos de todos os tempos.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Esboo de dogmtica (1947); O homem e seu prximo (1954); A dogmtica crist em esboo (1927); Dogmtica eclesistica (1932-1967); Humanismo 
(1950).

Bartolomeu de las Casas (1474-1566)
Bartolomeu de las Casas nasceu em Sevilha. Seu pai, amigo de Colombo, fez parte da segunda viagem s Antilhas em 1493. Depois de terminar

Bartolomeu de las Casas / 59

seus estudos em Salamanca, chegou a Santo Domingo em 1502 e participou de vrias expedies sob as ordens de Nicolau de Ovando. Foi premiado por seu trabalho com 
uma encomienda, e se iniciou como doctrinero dos ndios. Em 1512 ordenou-se sacerdote, talvez o primeiro da Amrica, para participar em 1513 da conquista de Cuba. 
O ano de 1514 marcou o giro copernicano da vida e da atuao posterior de Bartolomeu de las Casas. No famoso sermo do 15 de agosto, anunciou que devolvia sua misso 
e sua reserva de ndios ao governador. Convencido de que era intil defender os ndios, estando to longe, em 1515 voltou  Espanha, onde encontrou o apoio e a ajuda 
do cardeal Cisneros. O plano para a Reforma das ndias foi fruto dessa viagem. Nomeado sacerdote-procurador das ndias, embarcou novamente para a Amrica em 1516. 
Desde ento, Bartolomeu de las Casas assume a causa dos ndios. No ano seguinte, volta para a Espanha e apresenta-se diante do imperador Carlos V, que em 1519 aceita 
o projeto de Las Casas para "criar as comunidades livres", compostas de ndios e de espanhis, para criarem juntos uma nova civilizao na Amrica. Volta para a 
Amrica em 1520 para experimentar o fracasso desta primeira tentativa em Santo Domingo. Embora fracassado como sacerdote e como reformador social, no abandona a 
luta. Em 1523 ingressou na Ordem de So Domingos, onde escreve a Histria apologtica, que serviria como antecipao e introduo de sua grande obra, a Histria 
das ndias que, por sua prpria vontade, s se publicaria depois de sua morte. A Histria  um relato de todo o ocorrido nas ndias tal e qual ele viu e ouviu; porm, 
mais do que uma simples crnica, caberia melhor defini-la como uma interpretao proftica, j que se trata da exposio do pecado da dominao, da opresso e da 
injustia com que os europeus tratavam os ndios recm-descobertos. Junto a essa Histria, que antecipa para a Espanha os castigos que sobreviriam, deve-se

60 / Bartolomeu de las Casas

colocar as trs cartas que enviou ao Conselho das ndias (1531-1535). Nelas acusa concretamente pessoas e instituies do pecado de opresso sobre os ndios, sobretudo 
atravs do sistema de encomiendas. Sua situao incmoda diante dos que ofereciam as misses e das autoridades no o impediu de escrever O nico modo, obra em que 
estabelece a doutrina da evangelizao pacfica dos ndios, e trata de implant-la ajudado pelos dominicanos numa regio da atual Costa Rica. Novamente na Espanha, 
escreveu em 1542 a Brevssima relao da destruio das ndias, onde expe e delata a atuao dos conquistadores: "A razo pela qual os cristos mataram e destruram 
to infinito nmero de almas  que foram arrastados pelo anseio do ouro e pelo desejo de se enriquecer em muito pouco tempo". Desde ento, Bartolomeu de las Casas 
parece ter recebido seu prmio. Carlos V assinou Leis Novas das ndias, nas quais introduziu um novo direito no regime das encomiendas. Las Casas foi nomeado bispo 
de Chiapas e, em 1544, embarcou novamente para a Amrica com 44 missionrios dominicanos. J em 1545, redigiu os Avisos e regras para confessores de espanhis, em 
que proibia absolver aqueles que retivessem ndios em suas misses. Isto provocou o desagrado dos colonos e governadores, que mais uma vez o obrigaram a abandonar 
seu posto para voltar  Espanha em 1547. A partir da, a batalha de Bartolomeu de las Casas permanecer no Conselho das ndias e na confrontao com os intelectuais 
e telogos, principalmente com Juan Gins de Sepveda. Las Casas continuou escrevendo livros, folhetos, memoriais, testemunhando assim sua inquebrantvel determinao 
de deixar por escrito seus principais argumentos em favor dos ndios da Amrica. Aos 90 anos completou mais duas obras sobre a conquista espanhola na Amrica. Morreu 
em 1566, no convento de Nossa Senhora de Atocha de Madri. A vida de Bartolomeu de las Casas gozou sempre de sorte diversa. Tambm foi interpretada de maneira muito 
diversa na Espanha e fora dela.

Baslio Magno, So / 61

Exaltado, desprezado e depois novamente exaltado, hoje  considerado um dos primeiros a perceber a injustia econmica, poltica e cultural do sistema colonial. 
Como evangelizador,  inegvel sua boa vontade e sua entrega total, pelo evangelho,  causa dos fracos.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Del nico modo de atraer a todos los pueblos a la verdadera religin. Mxico 1951; Historia de las Indias. Madrid 1957-1958, 4 vols.; Id., Brevsima 
relacin de la destruccin de las Indias. Buenos Aires 1960; Ramn Menndez-Pidal, Bartolom de las Casas. Madrid 1968; L. Galms, Bartolom de las Casas, defensor 
de los derechos humanos. Madrid 1980.

Baslides (sc. II)
*Gnsticos.

Baslio Magno, So (331-379)
A figura de So Baslio destaca-se por seu perfil de monge, de pastor, de homem da Igreja e de fino conhecedor da lngua e da cultura grega. Nascido em Cesaria 
da Capadcia -- hoje Turquia Asitica -- , recebeu a primeira educao em sua cidade natal para complet-la depois em Constantinopla e Atenas (351-356). A conheceu 
So Gregrio Nazianzeno, com quem teve uma sincera e profunda amizade. Os dois, junto com So Gregrio de Nissa e Eusbio de Cesaria, formam a escola de Cesaria 
e so conhecidos tambm pelo nome de "padres capadcios". O apelido de "Grande" aplica-se a So Baslio por ser monge e fundador do mosteiro oriental, por seu trabalho 
pastoral como bispo de Cesaria, por sua doutrina como telogo e defensor da ortodoxia frente ao arianismo, e por seus dotes de orador e homem culto e superior que 
lhe valeram a admirao e o reconhecimento de seus contemporneos. Baslio deixou obras dogmticas, exegticas, ascticas, homilias e cartas. Em primeiro lugar destacam-se 
as duas Regras, a longa e a breve,

62 / Baslio Magno, So

fruto de sua longa experincia como monge, e cuja influncia  evidente em todo o mosteiro oriental. Das 24 homilias, certamente autnticas, devemos ressaltar os 
problemas ticos e sociais que apresentavam. As obras dogmticas -- Contra Eunmio, Sobre o Esprito Santo -- so dedicadas  polmica contra o arianismo. Na primeira 
defende a divindade do Filho e, na segunda, expe a divindade do Esprito Santo, segundo a doutrina da Igreja. Suas nove homilias sobre o Hexameron mostram seus 
conhecimentos cientficos da Antigidade. De seus escritos, destacamos: a) Sua numerosa correspondncia, da qual nos restam mais de 300 cartas. Nelas fala de suas 
atividades dirias, ou so pequenos tratados de teologia e moral. Vrias de suas epstolas cannicas, que tratam de disciplina, formam parte do direito cannico 
da Igreja Ortodoxa. b) De grande interesse  seu Discurso aos jovens sobre a cultura clssica e sobre os cristos. Aconselha o estudo dos poetas, oradores, historiadores 
e filsofos gregos. A literatura e a erudio gregas so um poderoso instrumento de educao, mas a educao moral  mais importante que a formao literria e filosfica. 
c) Embora ainda no esteja confirmada sua contribuio  denominada Liturgia de So Baslio, deve-se reconhecer pelo menos que, nesta magnfica srie de preces eucarsticas, 
a prece central da consagrao reflete seu esprito e  provvel que foi utilizada em Cesaria durante a vida do santo. O trabalho dogmtico mais importante de So 
Baslio, e dos padres capadcios, apia-se na sua luta contra o arianismo e, particularmente, contra os imperadores *Juliano e Valente. Seu empenho tem o objetivo 
de esclarecer a f da Igreja: -- "Nas discusses sobre Deus deve-se tomar por guia a f, a f que impele  aceitao mais fortemente do que  demonstrao, a f 
que no  produzida por uma necessidade geomtrica, mas pela ao do Esprito Santo" (Hom. In Ps., 115, 1).

Baur, Ferdinand Christian / 63

-- "No aceitamos nenhuma f que no seja prescrita por outros nem presumimos expor os resultados de nossa reflexo, para no dar como regra de religio o que somente 
os santos padres nos tm ensinado". -- Em suas discusses sobre a Trindade, mantm firme o fundamento de uma s substncia (ousa) e trs Pessoas (hipstasis): igualdade 
substancial das trs Pessoas, distintas, no entanto, em sua individualidade. Frente aos semi-arianos, admitiu a substituio do termo "consubstancial" pela frmula 
"semelhante imutavelmente na essncia". -- Diante de Eunmio, So Baslio afirma que "o conhecimento da essncia divina consiste somente na percepo de sua incompreensibilidade" 
(Ep. 234, 2). Podemos conhecer Deus atravs de suas obras, mas sua essncia nos  inacessvel.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, II, 213-247; Obras: PG 29-32; Homilias escogidas de San Baslio el Grande (Biblioteca de autores gregos e latinos), Barcelona 
1915.

Batiffol, Pierre (1861-1929)
Historiador da Igreja, especializado na histria das origens. Esteve vinculado algum tempo ao Modernismo. Sua obra sobre a Eucaristia (1905) criou tal conturbao 
que se viu obrigado a renunciar ao reitorado do Instituto Catlico de Toulouse. Em 1911, seu livro foi includo no *Index dos livros proibidos. Apesar de tudo isto, 
 notvel a contribuio de P. Batiffol para a histria da Igreja. So dignas de considerao suas concluses a respeito da histria da Igreja primitiva e, especialmente, 
sobre o desenvolvimento e evoluo do poder do papa at a poca de Leo I.

Baur, Ferdinand Christian (1792-1860)
Telogo protestante liberal, fundador da Escola de Tubinga (Alemanha). Discpulo de

64 / Baxter, Richard

*Hegel, tratou de aplicar no cristianismo e sua histria as teorias sobre a evoluo da histria prprias do seu mestre. O Novo Testamento  dominado por trs correntes 
em luta: a corrente petrina e a paulina, opostas entre si, para terminar na catlica. Era a teoria hegeliana da tese, anttese e sntese. Essa mesma teoria, aplicou-a 
depois no desenvolvimento da doutrina crist. A obra sobre So *Paulo (1845)  um reflexo de todas as suas teorias. Nega a autenticidade da maior parte das cartas 
de So Paulo, a exceo de Glatas, 1 e 2 Corntios e Romanos. Em seu estudo sobre os Evangelhos (1847) Baur os interpreta como uma simples evoluo de um processo 
que comea em Mateus, que representa o partido judaizante, e termina em Joo, considerado como a evoluo e reconciliao final. A Escola de Tubinga exerceu grande 
influncia sobre filsofos, telogos e historiadores (*Feuerbach, *Renan, *Strauss).

Baxter, Richard (1615-1691)
*Pietistas.

Bayle, Pierre (1647-1706)
*Voltaire.

Bayo, Miguel (1513-1589)
Telogo belga, delegado da Universidade de Lovaina ao Conclio de *Trento. Em 1567, uma bula papal condenou as seguintes proposies tomadas de suas obras: a) O 
primitivo estado de inocncia no foi um dom sobrenatural de Deus para o homem, mas o complemento necessrio da natureza humana. b) O pecado original no  simplesmente 
a privao da graa, mas a concupiscncia habitual, transmitida por herana, que  pecado inclusive nas crianas inconscientes, ou mal moral em si mesma. c) A obra 
da redeno consiste em capacitar-nos para recuperar os dons

Beda, o Venervel, So / 65

da inocncia original e assim viver uma vida moral. d) Nossos atos tornam-se meritrios, trocando a concupiscncia pela caridade. Desta maneira, a graa que nos 
confere a redeno no tem por que ser sobrenatural.

Beauduin, Lambert (1873-1960)
Monge beneditino, incentivador do movimento litrgico com sua obra La Pit de l'glise (1914), escrita na abadia de Mont-Csar, Lovaina, centro de renovao litrgica. 
Em 1925 fundou, por solicitao de Pio XI, um centro de orao pela unidade dos cristos, centro que, definitivamente, mudou-se para Chevetogne em 1939. A comunidade 
dos monges a estabelecida procurou o restabelecimento de relaes entre a Igreja de Roma e as demais Igrejas. Nela praticavam-se dois ritos nos atos litrgicos: 
o rito latino e o oriental (grego e eslavo). Beauduin acompanhou o cardeal Mercier nas Ligas de Malinas (1921-1925) para tratar da unio da Igreja Anglicana com 
Roma. Sua proposta posterior de que "a Igreja no deveria ser absorvida, mas unida  de Roma", valeu-lhe a desaprovao de Roma. Os ltimos anos de sua vida, passou-os 
em Chevetogne. Beauduin transformase assim num dos pioneiros do movimento ecumnico anterior ao Conclio *Vaticano II.

Becket, Santo Thomas (1118-1170)
*Salisbury, Joo de

Beda, o Venervel, So (672-735)
Nasceu em Jarrow (Inglaterra). Monge, telogo, investigador e historiador anglo-saxo, conhecido principalmente por sua Historia ecclesiastica gentis anglorum, imprescindvel 
para o conhecimento das origens do cristianismo na Inglaterra. Desde os sete anos o vemos no mosteiro de Wermouth (Durham), de onde se mudou para a

66 / Beda, o Venervel, So

abadia de Jarrow, a vivendo at a sua morte. Conforme diz Pedro Abelardo, colhendo o prprio testemunho de Beda, nunca se arrependeu de ter-se tornado monge, jamais 
se cansou, feliz em viver em plenitude. Sepultado em Jarrow, seus restos foram trasladados mais tarde para a Catedral de Durham. A obra escrita de Beda est dividida 
em trs grupos bsicos: a) estudos de gramtica e cientficos; b) comentrios bblicos; c) escritos histricos e biogrficos. No primeiro bloco, figuram seus tratados 
sobre a leitura, figuras de linguagem, versos e epigramas. Como obra cientfica destaca-se De natura rerum, baseada preferencialmente na obra de Plnio, o Velho, 
e De temporum ratione, esta ltima dedicada a instruir os clrigos para determinar a data exata da pscoa crist. Tambm  um mrito de Beda a adaptao da cronologia 
da histria universal para a data do nascimento de Cristo. Com relao a seus comentrios bblicos,  conhecida sua tendncia para as interpretaes alegricas, 
procurando no texto bblico sentidos simblicos e mais profundos. No obstante, soube aplicar um sentido crtico ao texto e tratou de harmonizar e raciocinar suas 
discrepncias e diferenas. A faceta mais brilhante de Beda est em sua condio de monge investigador e historiador. Dele se conhece Vida de So Cutberto, em prosa 
e verso, na qual abundam os milagres. Maior sentido histrico tem sua Historia abbatum. Mas a obra que  ligada a seu nome, como o indicamos anteriormente,  sua 
Historia ecclesiastica gentis anglorum. Consta de cinco livros e abrange um perodo que vai desde a invaso de Jlio Csar (55-54 a.C.) at a chegada de Santo Agostinho 
a Kent (597 d.C.). Suas fontes so cartas antigas, tradies dos antepassados e o prprio conhecimento dos fatos pelo autor. Apesar de estar sobrecarregada com os 
milagres,  a obra de um estudioso preocupado em precisar suas fontes e registrar as que considerava dignas de crdito.

Belarmino, So Roberto / 67

Ainda hoje  fonte indispensvel dos fatos e significado da primitiva histria anglo-sax. Com razo compara-se Beda com So *Isidoro de Sevilha. Beda  outro elo 
da corrente atravs da qual se transmite a cultura antiga para a Idade Mdia. Sua influncia perpetuou-se na Inglaterra pela escola de York, fundada por seu discpulo 
Egbert, e transcendeu o continente atravs do grande Alcuno. Beda  o monge paciente cuja imagem  paradigma do estudioso pesquisador das velhas abadias beneditinas.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 90-95; A. H. Thompson, Bede: His life, Times and Writings, 1935; M. T. A. Carroll, The Venerable Bede: His Spiritual Teachings, 1946. E. 
Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 173-176.

Belarmino, So Roberto (1542-1621)
Telogo jesuta, considerado um dos principais executores da "Contra-Reforma". Sobrinho do Papa Marcelo II, ingressou na Companhia de Jesus em 1560. Foi o primeiro 
professor jesuta da Universidade de Lovaina. Depois de seis anos de magistrio nessa universidade, passou ao Colgio Romano como professor, sendo nomeado cardeal 
em 1599. De 1602 a 1605 foi bispo de Cpua, sendo posteriormente chamado ao servio da Cria Romana. Belarmino  considerado um defensor da Igreja de Roma frente 
ao protestantismo emergente e j consolidado na Europa. Sua principal obra, Disputationes de controversiis Christianae Fidei (1586-1593),  uma defesa racional, 
clara e sistemtica da Igreja de Roma. Seus estudos da Bblia, da Igreja primitiva e dos padres fizeram dele um inimigo formidvel dos reformadores. Belarmino obrigou 
a fundar ctedras de teologia nas universidades protestantes para poder contestar os ataques do jesuta. De vida impecvel, foi um telogo sincero e exemplar, sem 
medo de expressar suas convices. Assim  quando fala da justificao somente pela f, uma f viva vivificada pela caridade...

68 / Bell'Huomo

Da mesma maneira quando fala do poder indireto -- no direto -- do papa sobre os assuntos temporais e que mereceu dele a perda da confiana de Sisto V, que colocou 
o primeiro volume das Controvrsias no Index. Essa integridade  observada na implicao de Belarmino nas primeiras etapas do caso Galileu. Foi Belarmino quem comunicou 
a *Galileu (1616) que a Terra  o centro do universo, e no o inverso.
BIBLIOGRAFIA: J. Lortz, Historia de la Iglesia en la perspectiva del pensamiento. Cristiandad, 2 vol.; Historia de la Iglesia dirigida por Ricardo G. Villoslada 
(BAC), 1979s.

Bell'Huomo (sc. XVII)
*Molinos, Miguel de.

Belloc, Hilaire (1870-1953)
*Chesterton.

Benoit, Pierre (1886-1962)
*Teologia atual, Panorama da.

Bento de Nrsia, So (480-547)
Nasce em Nrsia (Lombardia). Fundador da ordem beneditina e pai do mosteiro ocidental. Proclamado patrono da Europa, em 1964, por Paulo VI, por sua contribuio 
bem como a de seus monges para a evangelizao e civilizao de diversas regies deste continente. Sobre a vida de So Bento, temos a testemunha de quatro de seus 
discpulos, tal como aparece nos Dilogos de So Gregrio (l.II). Sabemos, de fato, que nasceu de uma boa famlia de origem lombarda e que foi mandado para estudar 
na decadente Roma dos godos e do nascente poder dos papas. Enojado de Roma, logo se retirou para Subaco, a uns 50 km ao leste de Roma, nas cadeias dos montes Abruzos. 
A viveu trs anos como eremita em completa solido. Obrigado a

Bento de Nrsia, So / 69

presidir um grupo de monges, chegou a fundar at doze mosteiros com doze monges em cada um. De Roma vieram patrcios e senadores para colocarem-se sob sua direo. 
Discpulos desta poca foram Mauro e Plcido, que sempre o acompanharam. Depois desses primeiros ensaios, estabeleceuse em Monte Cassino, no meio do caminho entre 
Roma e Npoles, onde permaneceu at a sua morte. A etapa em Monte Cassino foi a mais estvel e fecunda, onde fundou propriamente a ordem beneditina e redigiu e ensaiou 
sua famosa Regra. Quem quiser conhecer So Bento, ter de buscar a regra que So Gregrio definiu como monumento "claro por sua linguagem e eminente por sua discrio". 
So Bento comeou sua vida monacal como eremita solitrio. Percebeu, entretanto, as dificuldades e perigos espirituais desse tipo de vida. Sua regra observa uma 
vida totalmente em comum, sob a obedincia ao abade do mosteiro e na qual o monge se vincula a ele por toda a sua vida. Nessa regra reconheceram-se elementos da 
tradio legados pelos padres do deserto, por Santo Agostinho e, principalmente, por Cassiano. A crtica

70 / Bento de Nrsia, So

moderna assinala tambm, na composio da regra, a incluso de um documento annimo conhecido como a Regra do mestre -- Regula magistri . No existe, no entanto, 
unanimidade entre os crticos sobre a certeza da incluso deste documento. Assim, quase um tero da chamada regra de So Bento derivaria da Regula magistri. O prlogo 
e os captulos sobre a humildade, a obedincia e o abade teriam sido derivados desta. De qualquer maneira, a regra que se imps em toda a Europa por sua prudncia 
e discrio foi a chamada regra de So Bento, conhecida at hoje como tal. -- De um nvel constitucional, a regra de So Bento  a primeira tentativa sria de racionalizao 
da vida e da atividade de uma comunidade de homens. Sob o lema de "Ora et labora", tenta-se realizar o "opus Dei", distribuindo racionalmente o tempo da jornada 
diria entre orao, trabalho, descanso e sono (de 7-8 horas dirias). A jornada de trabalho diurno est igualmente distribuda em 5 horas de orao litrgica e 
particular, 5 horas de trabalho manual e outras 5 horas de leitura da Bblia, estudo, pesquisa. -- Em toda a vida monstica permanece o sentido da compreenso humana 
e crist: prudncia e compreenso. Nada de dureza nem rigidez. O mosteiro ou abadia  como uma famlia, uma casa ou lar independente e autnomo. O abade  sua figura 
central:  o pai, primus inter pares, que governa e dirige com discrio a vida da comunidade e dos diferentes tipos de pessoas segundo sua idade, capacidade, disposies 
e necessidades tanto materiais quanto espirituais. A moderao deve presidir sua vida e a dos monges. -- A obedincia, que faz do mosteiro "uma escola de servio 
do Senhor" (Prlogo), a humildade em seus dozes graus (c. 7), a pobreza: "o vcio da propriedade privada deve ser erradicado especialmente do mosteiro" (c. 33) e 
o trabalho: "a ociosidade  inimigo da alma" (c. 48), e a orao ou "opus Dei" levaro o monge  altura da doutrina e perfeio (c. 73).

Berdiev, Nikoli / 71 BIBLIOGRAFIA: D. Joo Evangelista, OSB, Regra de So Bento; D. Baslio Penido, OSB, Regra de So Bento; R. Molina, San Benito, Fundador de 
Europa (BAC), 1980; La Regla de San Benito. Edio de G. M. Colombs-Aranguren (BAC), 1970.

Berdiev, Nikoli (1874-1948)
Representante da filosofia existencialista crist russa. De vida agitada antes e depois da revoluo de 1917, primeiro por suas idias socialistas e depois por sua 
oposio ao regime comunista. Berlim e Paris foram os lugares de residncia obrigatria. Desde 1925 fez de Paris o centro de sua atividade filosfica e cultural. 
Sua produo  muito extensa. Berdiev defende um espiritualismo profetizante. Sobre o fundo comum do existencialismo, concebe o homem como indivduo, ligado ao 
mundo da natureza. Mas o homem supera o limite que o separa de sua prpria singularidade, colocando-se como pessoa. O homem, enquanto pessoa, vive sua prpria existncia, 
vive sua prpria vocao com conscincia e responsabilidade. A solido originria do homem, segundo Berdiev, no pode ser resolvida seno em Deus: " nele que a 
plenitude pode ser alcanada, aps descoberto o verdadeiro sentido da existncia". "Ontologicamente, a solido  a expresso da nostalgia de Deus como sujeito e 
no mais como objeto, porque Deus no pode ser nunca um objeto, um outro, seno que vive na alma e revela-se como momento constitutivo da personalidade espiritual 
do homem. Na profundidade do esprito, nasce essa humana e eterna nostalgia de Deus, e a procura de Deus por parte do homem transforma-se na procura de si mesmo, 
da prpria humanidade". Neste surgir de Deus na alma, Berdiev encontra um movimento duplo: "De Deus ao homem e do homem a Deus". Portanto, pensa Berdiev que "na 
filosofia e na teologia seria necessrio comear no pelo homem, nem por Deus, mas pelo Deus-Homem. A existncia, ento, de-

72 / Bergson, Henri

semboca no Deus-Homem, em Cristo, em quem se restitui o lao desfeito entre o homem e Deus, e o homem liberta-se da escravido da natureza e da morte". "Entra numa 
economia nova." "Toda a vida  diferente depois da vinda de Cristo." Sob essa perspectiva. Berdiev constri um tica nova. "A tica da redeno completa-se por 
uma tica nova, criativa e proftica, que carrega sobre o homem a responsabilidade pelo prprio destino e o do mundo". Seu melhor livro, O destino do homem, tenta 
traar as linhas da existncia crist, entendida como criatividade, que se abre finalmente em vises de ordem escatolgica e proftica. So reflexes paradoxais 
e sugestivas, embora nem sempre claras.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Uma nova idade mdia (1931); O sentido da histria (1931); A destruio do homem (1947); O homem e a mquina (1933); O destino do homem (1936); 
Ensaio de meditao escatolgica (1940); Cinco meditacses sobre a existncia (1948); Liberdade e escravido do homem (1959); O cristianismo e o problema do comunismo 
(1959).

Bergson, Henri (1859-1941)
Qualifica-se a filosofia de Bergson como "a mxima expresso do espiritualismo francs deste ltimo sculo". O tema fundamental da filosofia bergsoniana  a conscincia, 
considerada no como uma energia infinita e infinitamente criadora, mas como uma energia finita, condicionada e limitada por situaes, circunstncias e obstculos 
que podem inclusive solidific-la, degradla, bloque-la ou dispers-la. H. Bergson nasceu e morreu em Paris. Deixou detrs de si uma brilhante e esplndida obra 
tanto literria quanto filosfica: conferncias, ensaios e livros formam parte de seu legado como professor no Colgio da Frana. Seu primeiro escrito  Ensaio sobre 
os dados imediatos da conscincia (1889), que j revela o que ser o mtodo de sua filosofia: libertar a vida original da conscincia de estruturas fictcias. Sua 
obra principal, A evoluo criadora (1907), interpreta a nature-

Bergson, Henri / 73

za da vida como corrente de conscincia ou impulso vital (l vital), que se insinua na matria, sujeitando-a a si, mas ficando tambm limitada e condicionada por 
ela. Seguem a essa ltima outras obras como Energia espiritual (1919); Durao e simultaneidade (1922); O pensamento e o movente, e As duas fontes da moral e da 
religio (1932), na qual exps o significado ticoreligioso de sua doutrina. Desta obra trataremos aqui de maneira preferencial. Em As duas fontes da moral e da 
religio, Bergson alcanou uma noo muito mais prxima do conceito religioso de Deus do que em A evoluo criadora. Em 1937 reconheceu: "Minha reflexo levou-me 
cada vez mais perto do catolicismo, no qual vejo o completo cumprimento do judasmo". No entanto, embora tenha declarado "sua adeso moral ao catolicismo", nunca 
foi alm disso. "Ter-me-ia convertido, se no tivesse visto de antemo a formidvel onda de anti-semitismo que se infiltra no mundo. Gostaria de permanecer entre 
os que amanh sero perseguidos". Confirmando essa convico, poucas semanas antes de sua morte levantou-se da cama e ps-se na fila para ser registrado como judeu, 
conforme a lei que acabava de ditar o governo de Vichy, e da qual no quis eximir-se apesar de se ter proposto isto a Bergson. Bergson distingue duas classes de 
sociedades, nas quais se do tambm duas classes ou tipos de moral e de religio. Existem sociedades fechadas nas quais se pratica e vive uma moral da obrigao 
e do costume. Em tais sociedades, a ordem moral  modelada sobre a ordem fsica. O indivduo segue o caminho traado pela sociedade: automaticamente obedece a suas 
normas e conforma-se com seus ideais. A sociedade  a fonte das obrigaes morais. Junto a esta existe uma moral absoluta, a dos santos do cristianismo, dos sbios 
da Grcia, dos profetas de Israel, que  a moral de uma sociedade aberta. Essa moral no corresponde a um grupo social, mas a toda a humanidade. Tem por fundamentao 
uma emoo

74 / Bergson, Henri

original e prolonga o esforo gerador da vida. A moral da obrigao  imutvel, a moral absoluta est em movimento e tende ao progresso. Da mesma maneira h dois 
tipos de religio: a religio esttica e a religio dinmica. A primeira  infra-intelectual: uma reao defensiva da natureza contra o poder dissolvente da inteligncia. 
 uma religio natural no sentido de que  produto da evoluo natural. Mas h tambm uma religio dinmica: religio supra-intelectual, que empreende e continua 
diretamente o impulso vital originrio. Bergson identifica essa religio dinmica com o misticismo. Sobre essa religio dinmica ou misticismo, Bergson diz que  
prpria dos homens privilegiados e geniais. No obstante, confessa que  algo que est em todos os homens, enquanto tende a libert-los da religio esttica e d 
lugar a numerosas formas de religio. "O resultado do misticismo -- diz Bergson --  uma tomada de contato e, conseqentemente, uma coincidncia parcial com o esforo 
criador que a vida manifesta. Esse esforo  de Deus, seno o prprio Deus." Sobre esse misticismo, Bergson escreveu suas pginas mais belas. Assinalou que o misticismo 
completo  o dos grandes msticos cristos: So Paulo, Santa Teresa, Santa Catarina, So Francisco, para os quais o xtase no  um ponto de chegada, mas a partida 
para uma ao eficaz no mundo. Bergson prediz o surgimento de algum gnio mstico como correo dos males sociais e morais de que hoje sofre a humanidade. Termina 
seu pensamento afirmando: "O corpo imensuravelmente engrandecido do homem e da natureza espera um suplemento de alma, e a mecnica exigiria uma mstica". As duas 
fontes reproduzem as linhas de um pantesmo romntico. O homem  constitudo, em sua mais ntima essncia, por um impulso vital, supra-individual e sobre-humano, 
que " o divino ou o prprio Deus", nas palavras do prprio Bergson. Isto no  pantesmo? Mas no impede de reconhec-lo como um dos filsofos que mai-

Bernanos, Georges / 75

or influncia exerceram nos pensadores cristos atuais.
BIBLIOGRAFIA: L'Evolution Creatrice, Paris 1948; Cartas, Conferncias e Outros Escritos, S. Paulo 1974 Obras escogidas. Aguilar, Madrid 1963; La risa. Valencia 1973; 
F.Copleston, Historia de la filosofa, 9, 179-212; Diccionario de filsofos. Madrid 1987.

Bernanos, Georges (1888-1948)
Catlico inconformista, inspirado em Lon Bloy, Bernanos  considerado um dos grandes escritores e novelistas catlicos franceses. Como Bloy, v o mundo sobrenatural 
muito presente entre os homens. Seu humor e sua humanidade levam-no como que por instinto a repudiar o materialismo e o compromisso de seus contemporneos com o 
mal. Contra esses dois demnios dirigir toda a artilharia de sua obra literria durante toda a sua vida, sem deixar de aflorar o tema poltico, presente, tambm, 
sobretudo em seus ltimos escritos. "Bernanos -- afirma Ch. Moeller --  um escritor profeta. Com seu olhar profundo, de uma penetrao fulgurante, ele nos transporta 
ao eterno. Obriga-nos a ver o verdadeiro risco de nossa vida: "se as nossas felicidades so com freqncia terrestres, nossas desgraas so sempre sobrenaturais". 
Em meio a uma mensagem que ficar entre as mais trgicas deste sculo, uma formidvel fora de alegria irrompe. A chave da obra bernanosiana  o mistrio pascal, 
morte e vida." Desde sua primeira novela, Sol de Sat, (trad. de Jorge de Lima), (1926), baseada em parte nas experincias do Cura d'Ars, o tema de Bernanos  a 
luta entre as foras do bem e do mal para apoderar-se da alma do homem. Personifica essa luta no sacerdote, protagonista de suas principais novelas. Seus personagens 
representam os plos opostos da conduta humana: da santidade  depravao total. Exemplo disto  o Dirio de um proco de aldeia (1936), no qual descreve a guerra 
de um jovem sacerdote contra o pecado. O peca-

76 / Bernanos, Georges

do e seus efeitos na alma e no mundo so os que fazem surgir, em seus personagens, a angstia e a desesperana. "A semente do mal e a do bem voam por todas as partes 
-- disse o cura. A grande desgraa est em que a justia dos homens intervm sempre demasiado tarde; reprime ou seca os atos sem poder elevar-se mais alto nem mais 
longe do que quem os cometeu. Mas nossas faltas ocultas envenenam o ar que outros respiram... Creio que se Deus nos desse uma idia clara da solidariedade que nos 
une aos demais, no bem e no mal, no poderamos, efetivamente, continuar vivendo" (Dirio de um proco de aldeia). O mal, com efeito, manifesta-se no pecado que 
se expressa na luxria das crianas e dos mais velhos, no espancamento de crianas por seus pais e adultos e nos maus-tratos destes no s no corpo e na alma das 
crianas, mas tambm no esprito de infncia, exaltado pelas bem-aventuranas evanglicas. Por essa luta contra o mal em todas as suas formas, entra Bernanos na 
denncia social e poltica: o fundo de seu pensamento nas obras polticas est aqui e no em outro lugar. "A cada vinte anos, diz em Filhos humilhados, os jovens 
do mundo fazem sua pergunta,  qual nossa sociedade no pode responder. Pela falta de resposta, a sociedade os mobiliza... A mobilizao da juventude chega a ser 
uma medida indispensvel, uma necessidade do Estado, um fenmeno universal." Esse desmascaramento do mal social e poltico est presente, principalmente, em suas 
duas obras O grande medo dos bem-pensantes (1931), sobre o materialismo das classes mdias, e Os grandes cemitrios sob a lua (1936), onde, surpreendendo-o a guerra 
espanhola em Mallorca, denuncia as matanas que se fizeram em nome de uma rebelio presumidamente catlica. A poltica acabou comprometendo e turvando sua vida e 
sua obra. De 1938 a 1945 auto-exilouse com sua mulher e seus seis filhos em um stio no Brasil. Denunciou como escndalo o Tratado

Bernardo de Claraval, So / 77

de Munique (1938); apoiou De Gaulle em sua luta de resistncia contra a invaso alem na Frana, escrevendo e transmitindo mensagens de esperana para a populao 
francesa atravs do rdio e da imprensa. Voltou  Frana em 1945, encontrando nela a falta de renovao espiritual que sempre havia desejado. Sua ltima obra antes 
de morrer em 1948, foi Dilogo das Carmelitas. Uma grande pea teatral, abordando o caso de uma freira que iniciou sua vida religiosa por seu medo temperamental, 
mas enfrenta o martrio com valentia, porque sua morte foi trocada pela da superiora, que, apesar da serenidade e de toda a sua vida de f, morre entre espasmos 
de terror. "Bernanos encanta certos leitores e irrita outros; mas a importncia de sua mensagem cresce dia a dia. Impossvel incluir Bernanos entre os jansenistas 
que se ignoram. Se concordarmos em passar por cima de certos excessos de linguagem, certo sobrenatural por vezes inspirado em teatro de fantoches, imediatamente 
ressalta a preciso teolgica das suas vises. Precisamos dele. Depois de Pguy faltava-nos uma voz que nos desse a impresso quase fsica da presena do sobrenatural" 
(Ch. Moeller, o. c., I, 423).
BIBLIOGRAFIA: Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, I.

Bernardo de Claraval, So (1091-1153)
Nasceu em Fontaines (Dijn) e morreu em Clairvaux. Conhecido tardiamente como "Doctor melifluo" (1953), por sua doutrina "mais suave que o mel". Concebeu o misticismo 
como arma de combate contra toda forma de heresia religiosa ou filosfica e como instrumento para reforar o poder eclesistico. Considerado "o ltimo dos padres", 
So Bernardo rene em sua pessoa o homem mstico e de ao inigualvel: ardente e calmo, conciliador e guerreiro, monge e soldado, pregador e martelo dos hereges, 
guardio da Igreja e exalta-

78 / Bernardo de Claraval, So

do devoto de Maria. Monge aos 21 anos, depois de uma ruptura ruidosa com o mundo, foi escolhido abade de Clairvaux aos 25. Deste reduto de solido e de trabalho, 
transforma-se no reformador e vigia de sua ordem e da Igreja. Bernardo consegue reunir em Clairvaux mais de 700 monges, agrupa 160 mosteiros em torno de sua reforma, 
anima a cavalaria crist dos templrios, aconselha os reis da Frana e principalmente -- de 1130 a 1145 -- transforma-se em guardio da Igreja e do pontificado: 
teve tempo para resolver cismas e heresias, interveio na eleio dos papas, participou do Conclio de Sens (1141) para condenar Abelardo e, finalmente, proclamou 
a segunda cruzada em 1146. No  menos notvel sua atividade literria e sua incessante pregao. Suas mais de 400 cartas existentes do-nos uma idia do mundo medieval 
no qual viveu e atuou: idias, personagens, problemas. Sua pregao ardente e combativa ocupou boa parte de sua obra. Cartas e sermes so caracterizados por sua 
freqente aluso aos padres da Igreja e pelo uso de analogias, etimologias, aliteraes e smbolos bblicos, cheios de ressonncias poticas. Basta citar seus Sermones 
in cantica canticorum, exemplo admirvel de linguagem mstica. O restante de sua obra est agrupado em dois blocos: 1) Obras de controvrsia: Contra quaedam capitula 
errorum Abelardi e Capitula haeresum Petri Abelardi. 2) Os escritos ascticos e msticos: De gradibus humilitatis et superbiae (1121); De diligendo Deo (1126); De 
gratia et libero arbitrio (1127); De consideratione (1149-1152). Sem esquecer seus Louvores  Virgem Me, o clssico livro sobre a devoo mariana. So Bernardo 
encarna o gnio religioso de toda a sua poca. Sua obra combina uma vida mstica de dedicao a Deus, com sua entrega aos pobres e sua preocupao com os problemas 
da Igreja. H nele uma constante tenso entre o desejo de servir aos demais e seu desejo de cultivar a vida interior, permanecendo no claustro.

Bernardo de Claraval, So / 79

Sua doutrina sintetiza-se nestes pontos: 1) Negao do valor da razo. No nega a utilidade que, conforme o caso, podem ter os conhecimentos filosficos e dialticos, 
mas sustenta que o conhecimento das cincias profanas  de nfimo valor, comparado com o das cincias sagradas. Bernardo pronuncia-se sem reservas contra a razo 
e a cincia. O desejo de conhecer parece-lhe uma "torpe curiosidade". Classifica as discusses dos filsofos como "eloqncia cheia de vento" (Sermones in Cantica, 
36, 2; 58, 7). A isto se deve, sem dvida, sua oposio a Abelardo, o dialtico que "nihil videt in speculo, nihil in aenigmate". Em conseqncia, mantm uma atitude 
de permanente suspeita em relao  filosofia e  razo. -- Diante desta negao da razo e do valor do homem, elabora com profundidade a doutrina do amor mstico. 
"Minha mais sublime filosofia  esta: conhecer Jesus e sua crucifixo" (Sermones in Cantica, 43, 4). O caminho que conduz  verdade de Cristo  a humildade. Subir 
os doze graus de humildade -- segundo ele --  alcanar a humildade e a verdade, que consiste em conhecer a prpria misria e a do nosso prximo. Assim nos introduzimos 
no reino da justia e purificamos nossa conscincia. -- A alma alcana o ponto culminante do conhecimento humano no xtase. Aqui a alma, de certa forma, separa-se 
do corpo, esvazia-se e perde-se a si prpria para gozar numa espcie de contato com Deus. Trata-se de uma fuso e como "deificao da alma pelo amor". S a caridade 
pode efetuar essa maravilha de uma unio perfeita numa distino radical de seres (De diligendo Deo, 11, 32; 11, 36; 15, 39). -- Amar a Deus por si mesmo  conformar 
nossa vontade com a sua. Isso nos torna livres. Enquanto se ama como Deus ama, h perfeito acordo entre nossa vontade e a vontade divina. H perfeita semelhana 
entre o homem e Deus. A vida crist, portanto, identifica-se com a vida mstica, e esta, por sua vez, pode ser considerada como uma reeducao do amor.

80 / Brulle, Pierre de

E. Gilson resume assim seu juzo sobre So Bernardo: "A profunda influncia que So Bernardo exerceu depende de mltiplas causas: o prestgio de sua santidade, a 
eloqncia de seu estilo e sua autoridade como reformador religioso. No entanto, devemos assinalar, alm das j citadas, outras causas: que fundou sua doutrina numa 
experincia pessoal do xtase e que deu uma interpretao totalmente elaborada dessa experincia" (A filosofia na Idade Mdia, 279).
BIBLIOGRAFIA: Obras completas de san Bernardo. Edio bilnge (BAC), 6 vols.; E. Gilson, La thologie mystique de S. Bernard; Id., A filosofia na Idade Mdia, 277280, 
com a bibliografia indicada.

Brulle, Pierre de (1575-1629)
*Educadores cristos.

Bessarin, Joo (1403-1472)
Cardeal, humanista e colecionador de manuscritos, filsofo e telogo. Modelo de pensamento e ao do homem renascentista a servio da cultura e da Igreja. Em 1437 
foi nomeado arcebispo de Nicia, e no ano seguinte acompanhou o imperador Joo VII Palelogo ao Conclio de Ferrara-Florena (1438). Entusiasta pela unio de gregos 
e latinos, ficou na Itlia depois de terminado o Conclio. Sua diplomacia no agradou aos gregos. Nomeado cardeal em 1439, desempenhou diversas misses diplomticas 
a servio dos papas. Foi grande amigo e protetor da maior parte dos mais destacados humanistas italianos e imigrantes gregos de seu tempo. Em 1468 legou sua coleo 
de manuscritos gregos para a repblica de Veneza, doao que foi o ncleo da futura Biblioteca de So Marcos -- Biblioteca Marciana. Morreu em Ravena em 1472. -- 
Devemos a Bessarin a traduo em latim da Metafsica de Aristteles e de algumas das obras de Teofrasto e Xenofontes. Escreveu ainda quatro livros em defesa de 
Plato: In

Bblia / 81

calumniatorem Platonis, redigido em grego e traduzido depois para o latim. Sua condio de discpulo do grande humanista Pleton (1355-1452) levou-o a um profundo 
conhecimento de Plato e de sua religiosidade. -- Bessarin ficar sempre como exemplo de homem a servio das idias da unidade crist e da cultura antiga.

Betti, Hugo (1892-1953)
*Literatura atual e cristianismo

Beza, Teodoro de (1519-1605)
Telogo e lder da Igreja Calvinista sua. Renunciou ao catolicismo em 1548. De 1549 a 1558 foi professor de grego em Lausana, para passar depois a dirigir a nova 
Academia de Genebra fundada por Calvino. Depois da morte deste em 1564, converteu-se em chefe dos calvinistas suos. A atividade literria de Beza centra-se na 
edio do texto grego do Novo Testamento (1565).  a primeira edio crtica do texto e, para realizla, consultou e copilou 17 manuscritos. Expoente dessa erudio 
de Beza  o chamado Codex Bezae ("D"), manuscrito greco-latino do s. V., apresentado em 1581  Universidade de Cambridge por Teodoro de Beza.  considerado como 
o texto mais representativo dos cdices ocidentais. Em Tractationes theologicae expe a doutrina crist, toda ela imbuda do esprito rigidamente determinista de 
Calvino.
BIBLIOGRAFIA: Obras, em Corpus Reformatorum (Brunswick). Berlim 1850s; Leipzig 1893s.

Bblia
Nosso fundamental interesse centra-se aqui na Bblia como livro de f para os cristos. No entraremos em seu valor cientfico, histrico, nem sequer literrio. 
O leitor poder encontrar estu-

82 / Bblia

dos desses aspectos e outros mais -- como os do texto, interpretao e classificao de cada livro -- em dicionrios e livros especializados. 1. A palavra Bblia 
vem do grego biblia (plural): livros. Passou para as lnguas modernas vinda do termo latino biblia (singular): livro, o livro por excelncia. Recebe tambm outros 
nomes, como Escritura, Sagrada Escritura, Bblia Sagrada, Santa Bblia, Texto Sagrado. Por Bblia entende-se, pois, o conjunto de livros que os cristos consideram 
inspirados por Deus. So, portanto, Palavra ou mensagem de Deus aos homens. Esses livros esto divididos em duas partes chamadas Antigo Testamento (AT), ao qual 
correspondem 46 livros, e Novo Testamento (NT), que consta de 27 livros. A palavra Testamento significa aliana ou pacto de Deus com Moiss (AT), e nova e definitiva 
Aliana com todos os homens na pessoa de Jesus Cristo, seu Filho (NT). Os livros que compem a Bblia no foram escritos de uma s vez nem por um s autor. Como 
Revelao de Deus no tempo e na histria, esses livros foram escritos num longo perodo de tempo: uns mil anos, desde o sc. IX a.C. ao sc. II d.C.. Deste modo 
oferecem diferentes estilos de autores e de gneros literrios. No AT, por exemplo, h narraes combinadas com normas e instrues (Pentateuco). Passagens de personagens: 
profetas, sacerdotes, reis e mulheres clebres. H uma narrao anti-racista (Rute), outra de uma mulher envolvida num jogo perigoso (Ester). H colees de epigramas 
e de sentenas de sabedoria (Provrbios), e at uma viso filosfica aparentemente pessimista da vida (Eclesiastes). Temos ainda textos de alta poesia e poesia devocional 
nos salmos e poesia ertica no Cntico dos Cnticos. H poesia elegaca, dilogo, drama nas mensagens dos profetas. No NT tambm encontramos diferentes formas literrias. 
Os Atos dos Apstolos so uma narrao histrica. Os Evangelhos (*Evangelhos), embora no sejam uma histria no sentido comum

Bblia / 83

da palavra, so uma recomposio das aes e palavras de Jesus contadas para incentivar a f. H tambm o Apocalipse ou Revelao. Mas a parte mais extensa de escritos 
 formada pelas cartas de Paulo e dos demais apstolos: Joo, Pedro, Tiago, Judas. Tradicionalmente, tanto os livros do AT quanto os do NT dividem-se em histricos, 
profticos e sapienciais. 2. O estudo e compreenso da Bblia apresentaram e continuam apresentando numerosos problemas, o primeiro dos quais  o chamado cnon. 
Que livros compem a Bblia? Que critrios temos para fixar os livros oficiais ou reconhecidos? No obstante os diversos cnones adotados por judeus, catlicos, 
protestantes e ortodoxos sobre o AT, mais do 90% do texto  aceito por todos. Os chamados livros "deuterocannicos" so para os catlicos verdadeira palavra de Deus; 
para os demais, "livros de leitura piedosa e edificante", no inspirados. O porqu dessa diferena est em que os catlicos recebem a Bblia da traduo grega chamada 
dos LXX, que os judeus da dispora utilizavam. Esse texto foi o comum dos cristos da Igreja primitiva. Ora pois, nessa traduo grega, aparecem livros no reconhecidos 
no cnon hebreu estabelecido definitivamente no conclio de Jmnia (100 d.C.), que s reconhece os livros escritos em hebreu. Por sua parte, a Igreja reconheceu 
oficialmente o conjunto desses livros traduzidos para o grego -- alguns deles tambm escritos em grego -- tal como se encontravam na traduo latina chamada *Vulgata. 
Hoje, na prtica, a questo do cnon fica resolvida nas edies conjuntas chamadas ecumnicas, feitas pelas diferentes confisses crists. As bblias erroneamente 
chamadas protestantes ou suprimem esses poucos livros ou os editam em separado. 3. Em qualquer caso, a Bblia  sempre o livro dos cristos. Nela se encontra a Palavra 
de Deus: o que acontece  humanidade aos olhos de Deus. Trata de sua natureza divina, sua justia, sua fidelidade, sua misericrdia e seu amor. E aparece a rebelio 
do homem e seu afastamento de Deus.

84 / XXXXXXXXXXXXXXXXX

A Bblia mostra-nos a redeno operada por Deus, o perdo e a reconciliao do homem, os dons da graa, a nova vida, a chegada do Reino e a consummao final da 
esperana do homem em outra vida para alm do tempo.
BIBLIOGRAFIA: "Cuadernos bblicos". Verbo Divino, Estella 1976s.; Diccionario bblico abreviado. Verbo Divino, Estella 1986; Enciclopedia de la Biblia. Verbo Divino, 
Estella 1985.

Biel, Gabriel (1420-1495)
Telogo alemo nascido em Spira. Passou pela Universidades de Heidelberg, Erfurt e Colnia, onde conheceu a "via antiga" do tomismo e a "via moderna" de Guilherme 
de Ockham, de quem foi um aferrado seguidor. Em 1460 iniciou a participao nos Irmos da vida comum, entre os quais se distinguiu por seu estudo e piedade. Sua 
espiritualidade  uma mescla de Devotio Moderna e de misticismo ilustrado, bem longe do antiintelectualismo de T. De Kempis. Posteriormente (1484) ensinou teologia 
na nova Universidade de Tubinga, onde foi designado reitor durante o perodo de 1485-1489. Biel incorpora em seus Comentrios s Sentenas as idias de G. de Ockham. 
Juntamente com Bradwardine e Wiclef, foi o inspirador de Lutero no tema da graa. Deus estabeleceu um pacto de generosidade com o pecador que faz o que pode para 
sair do pecado. Deus promete o prmio de sua graa a esse pecador. E ao mesmo tempo h um pacto de justia, pelo qual Deus reconhece como justos aqueles que, com 
sua graa, realizam boas obras. Mas Deus no  obrigado a nenhum desses pactos, que nascem da livre e gratuita escolha de Deus. Afirma pois, Biel, que a salvao 
se realiza pelas obras e pela graa. Uma graa  qual Deus no est obrigado, mas que torna possveis as obras de salvao. Tudo, pois, comea e termina com a ao 
gratuita de Deus.  interessante relembrar dois princpios de Biel sobre moral econmica: 1) O "preo justo vem

Blondel, Maurice / 85

determinado mais pela lei da oferta e da demanda que pelos princpios teolgicos. 2) O mercador  um membro til da sociedade.
BIBLIOGRAFIA: Christian Thought. Lion, Londres 1984; Louis Bouyer, Histoire de la Spiritualit chrtienne. Paris 1961-1966, 4 vols.

Billot, Louis (1846-1931)
*Neo-escolsticos.

Blondel, Maurice (1861-1949)
Filsofo francs que estudou na Escola Normal Superior da Frana, tendo como mestre a L. Oll-Laprune. Conhecido como formulador da "filosofia da ao", na qual 
integra o pensamento neoplatnico clssico com o pragmatismo moderno, dentro do contexto da filosofia crist da religio. Blondel tem sido freqentemente apresentado 
como apologista catlico. De fato, assim foi, e ele prprio considerava-se dessa forma. No projeto de tese sobre A Ao referia-se a esse trabalho, chamando-o de 
apologtica filosfica. Numa carta a Delbos disse que para ele a filosofia e a apologtica eram basicamente uma mesma coisa. J desde o incio estava convencido 
da necessidade de uma filosofia crist. Mas em sua opinio no houve ainda, restritamente falando, uma filosofia crist. Blondel aspirava preencher esse vazio ou, 
pelo menos, indicar a forma de preench-lo" (F. Copleston, Historia de la filosofa, tomo 9). Toda a sua obra, desde A Ao (1893) at A filosofia e o esprito cristo 
(1944-1946) e Exigncias filosficas do cristianismo (sua obra pstuma, publicada em 1950), parece dirigida para a construo de uma filosofia crist autnoma. Seus 
numerosos ensaios e sua correspondncia voltam ao mesmo tema. Blondel estava convencido de que a reflexo filosfica autnoma, levada de forma consistente e rigorosa, 
revelaria que realmen-

86 / Biel, Gabriel

te existe no homem uma exigncia do sobrenatural, daquilo que  inacessvel apenas pelo esforo humano. Assim surgiu a "filosofia da ao". E o que  a ao? A ao 
 o dinamismo do indivduo, a aspirao e o movimento da pessoa em busca de sua auto-realizao.  a vida do indivduo ao integrar ou sintetizar potencialidades 
e tendncias pr-conscientes, em seu expressar-se no pensamento e no conhecimento, e em sua inclinao para metas ulteriores" (Ibid.). Em sua elaborao da filosofia 
da ao, Blondel foi influenciado pela teoria de que a f  uma questo de vontade tanto quanto de demonstrao lgica. O termo ao significa e compreende o dinamismo 
da vida em todas as suas manifestaes e tendncias. Inclui todas as condies que permitem a gestao, o nascimento e a expanso do ato livre. Blondel interessa-se 
pela orientao bsica da pessoa enquanto esta tende a uma meta. Ento, a vontade total do sujeito somente  compreensvel nos termos de uma orientao a um absoluto 
transcendente, ao infinito como meta ltima da vontade. Isso no quer dizer que o transcendente possa ser descoberto como um objeto interno ou externo. Melhor dizendo, 
trata-se de que o indivduo vai-se tornando consciente de sua orientao dinmica para o transcendente e de que para ele  iniludvel fazer uma opo: a de escolher 
entre afirmar ou negar a realidade de Deus. Isto , a reflexo filosfica d origem  idia de Deus; mas precisamente por Deus ser transcendente, o homem pode afirmar 
ou negar a realidade de Deus. " difcil imaginar que Blondel no possa ser um escritor popular. Mais do que para o pblico geral, escreve para os filsofos. E  
provvel que muitos de seus leitores, mesmo filsofos, freqentemente fiquem sem saber o que ele quer dizer. Mas como pensador catlico que desenvolveu suas idias 
no dilogo com a corrente espiritualista, idealista e positivista da filosofia moderna, Blondel  uma notoriedade. No advogou pela simplicidade de um retorno ao 
passado

Boaventura, So / 87

medieval, embora o comparasse com a cincia moderna. Nem adotou a atitude de discpulo com relao a algum pensador. Ainda que possamos discernir algumas linhas 
de seu pensamento vinculadas a Santo *Agostinho e a So *Boaventura, e tambm afinidades com *Leibniz, *Kant, Maine de Biran e outros, foi um pensador completamente 
original. Alm disso, sua concepo geral de uma filosofia que deve ser intrinsecamente autnoma, mas ao mesmo tempo autocrtica e autolimitante e aberta  revelao 
crist, a princpio parece aceitvel para todos os pensadores catlicos que recorrem  filosofia metafsica" (F. Copleston, Ibid.).
BIBLIOGRAFIA: Obras: L'Action. Paris 1936-1937, 2 vols.; La philosophie et l'esprit chrtien, 1944-1946, 2 vols.; Exigences philosophiques du christianisme, 1950; 
H. Bouillard, Blondel et le christianisme. Paris 1961.

Bloy, Lon (1846-1917)
*Literatura atual e cristianismo.

Boaventura, So (1221-1274)
Nasceu em Bagnoregio (Viterbo), recebendo no Batismo o nome de Juan de Fidanza. A lenda vincula o nome de Boaventura a So Francisco de Assis, que o curou de uma 
doena quando era criana. Sua me, agradecida, fez votos de consagr-lo  ordem franciscana, na qual ficou conhecido como Frei Boaventura. Ingressou na ordem franciscana 
aos 17 anos. Fez seus estudos em Paris com o mestre Alexandre de Hales. Bacharel em 1248, comeou a expor a Escritura e as Sentenas de Pedro Lombardo, e o fez at 
1251. Em 1253 obteve a "licentia docendi". Sua carreira viu-se alterada pelas lutas de clrigos seculares e cannicos que se opunham  presena das ordens mendicantes 
nas universidades. Em 1255 foi excludo do ensino na universidade parisiense. Em 1256 voltou s tarefas da universidade, sendo oficialmente nomeado

88 / Boaventura, So

mestre junto com seu amigo Santo Toms de Aquino. Sem deixar totalmente as tarefas docentes, em 1257 passou a desempenhar o cargo de guardio geral dos franciscanos. 
Terminou seus dias como arcebispo de Albano e cardeal da Igreja. Morreu durante o Segundo Conclio de Lyon em 1247. Foi canonizado em 1482 e declarado doutor da 
Igreja em 1587, com o ttulo de "Doctor Seraphicus". No cabem numa simples resenha a vida, a obra e a doutrina de So Boaventura. Sua figura  chave para compreender 
a vida incipiente dos mendicantes na Universidade de Paris e, posteriormente, nas universidades medievais como Oxford.  representante da corrente culta do franciscanismo 
e superior geral que soube canalizar as diversas tendncias e movimentos dentro deste, em direo ao ideal comum franciscano de seguimento de Cristo na humildade 
e na pobreza. Mas o aspecto principal, do qual nos ocupamos aqui,  seu pensamento e doutrina como filsofo, telogo e mestre espiritual. Diz-se, com razo, que 
em So Boaventura, "filosofia, teologia e mstica encontram-se sistematicamente fundidas, mas no confundidas". Talvez possa-se dizer que  o "filsofo cristo por 
excelncia", para quem a filosofia  "naturaliter christiana", como tambm o  a alma da qual brota, assim como a verdade integral quando indaga sobre as ltimas 
causas" (L. Veuthey). Essa filosofia "naturaliter christiana" encontra sua raiz mais profunda em Santo Agostinho. "No em vo -- diz E. Gilson -- a doutrina de So 
Boaventura tem sido designada com o nome de agostinismo" (Historia da filosofia na Idade Mdia, 240). Sobre o aristotelismo que comea a surgir triunfante em Santo 
Alberto Magno e em Santo Toms de Aquino, So Boaventura nos diz: "No tento combater as novas opinies, mas quero reter as comuns e aceitas. E ningum queira crer 
que quero ser o criador de um novo sistema". Somente deseja percorrer os caminhos traados,

Boaventura, So / 89

voltar a tecer a trama ininterrupta do pensamento cristo, que vai de Santo Agostinho at seu mestre Alexandre. Resumindo: para So Boaventura, Aristteles  um 
filsofo, no "o filsofo". Com isso abre a corrente de pensamento franciscano vinculada a Santo Agostinho, Plato e ao neoplatonismo. A obra escrita de So Boaventura 
est contida nos 10 volumes da edio crtica dos franciscanos de Quaracchi (1883-1902). Nela se destaca sua obra teolgica fundamental: Commentarii in Quattuor 
Libros Sententiarum Petri Lombardi, escrita durante seus anos de docncia em Paris (1248-1255). Sua obra mstica principal  o Itinerarium mentis in Deum, escrita 
no outono de 1259. Outras obras importantes so: De scientia Christi; Quaestiones disputatae; Breviloquium ou brevssima summa teolgica. De reductione artium ad 
theologiam apresenta a teologia como fim e coroamento de todas as cincias. A doutrina de So Boaventura distingue-se por um estilo e esprito prprios e por um 
fim muito definido. Esse fim  o amor de Deus, meta ltima inevitvel do homem. Os caminhos que nos conduzem a ele so os da teologia e da filosofia. "Deus  o nico 
em quem se encontra a ltima resposta, inclusive para as questes filosficas. A filosofia termina, pois, na teologia, e o impulso da razo, unido ao impulso do 
amor, em vez de ficar em ridos conceitos abstratos, transforma-se em orao, isto , no "elevatio mentis in Deum" e na mstica, ou seja, na vida de unio com Deus" 
(L. Veuthey). A filosofia e a teologia se So Boaventura culminam na sabedoria mstica. "Toda a nossa vida no  mais do que uma peregrinao at Deus. O caminho 
que seguimos -- se estamos na boa via --  a via iluminativa. A finalidade nos  dada pela f; alcanamo-la e nos unimos a ela atravs do amor". Trs etapas principais 
marcaro os momentos desta ascenso. A primeira consiste em encontrar os vestgios de Deus no mundo sensvel. A se-

90 / Bocio

gunda, em buscar sua imagem em nossa alma. A terceira ultrapassa as coisas criadas e nos introduz nos gozos msticos do conhecimento e da adorao de Deus. Tudo 
indica um finalismo que nos leva ao conhecimento sapiencial, intuitivo e profundo das coisas e de ns mesmos em Deus.
BIBLIOGRAFIA: Obras: (BAC). Madrid, 6 vols.; Opera omnia. Edio crtica chamada "edio de Quaracchi", 10 vols., 1882-1902. E. Gilson, La philosophie de Saint Bonaventure, 
1924.

Bocio (486-525)
Ancius Manlius Torquatus Severinus Boecius nasceu em Roma. Cnsul em 510, esteve a servio de Teodorico, rei dos ostrogodos. Acusado mais tarde de traio e prticas 
mgicas, foi encarcerado em Pava e executado. Bocio foi chamado de "o ltimo romano e o primeiro escolstico". Sua obra, de fato,  um exemplo quase perfeito de 
uma obra limite, e expressa a inteno de conservar para o futuro o que ameaava ser runa e parecia estar a ponto de ser destrudo" (Ferrater Mora, Diccionario 
de filosofa, ver Bocio). Bocio assumiu a tarefa de interpretar e traduzir as obras de Plato e de Aristteles e de demonstrar seu acordo fundamental. Apenas parcialmente 
conseguiu realizar esse vasto projeto. Temos as tradues dos Analticos I e II de Aristteles, alm de Tpicos, Elencos sofsticos e Da interpretao, com dois 
comentrios. Possumos a traduo das Categorias, com um comentrio. Tambm temos sua traduo da Isagoge de Porfrio, com comentrio e outros trabalhos da Lgica. 
Sobre Plato, que saibamos, no traduziu nem comentou nada. Porm a sua mais famosa obra  De consolatione philosophiae, escrita em forma retrica e alegrica. Apresenta-se 
 filosofia em forma de uma nobre dama que reconforta Bocio e responde s suas dvidas. Est dividida em cinco livros, em verso e prosa. Nela aparecem dados

Boff, Leonardo / 91

biogrficos importantes para conhecer a vida e o estado de nimo de seu autor. Seu contedo  o seguinte: Livro I: A filosofia vem para consolar Bocio no triste 
estado em que se encontra. Livro II: Mostra a Bocio que a felicidade no se encontra nos bens mutveis da fortuna. Livro III: Teoria da felicidade, fundamentada 
no prprio Deus, que  o bem supremo. Livro IV: Deus reitor do mundo: expe sua teoria da providncia e do destino. O fato de no se encontrar na obra nada especificamente 
cristo, deu lugar  crena de que Bocio no era cristo, ou o era somente de nome. Por isso alguns colocaram em dvida seus opsculos teolgicos: De Sancta Trinitate; 
De fide; Liber contra Nestorium etc. Com exceo de De fide, a autenticidade desses opsculos est comprovada. Por outro lado, o livro De consolatione philosophiae, 
embora carea de referncia para os mistrios do cristianismo, est cheio daquele esprito platnico ou neoplatnico que os escritores da patrstica consideram substancialmente 
cristo. A importncia de Bocio para a cultura medieval foi muito grande. As tradues e os escritos lgicos de Bocio asseguraram a sobrevivncia da lgica aristotlica, 
ainda no perodo de maior obscurantismo medieval, e fizeram dela um elemento fundamental da cultura e do ensino do medievalismo. Fundamentalmente, Bocio  um transmissor 
de cultura. No  um pensador original, mas soube unir a mentalidade latina  especulao grega. Seguindo Santo Agostinho, une, na medida do possvel, a f e a razo.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 63-64 e no Corpus de Viena, vol. 48.

Boff, Leonardo (1940-)
 o mais popular dos telogos da libertao. Nos ltimos anos foi submetido a uma srie de advertncias, processos e controles por parte da Congregao da Doutrina 
da F, os quais o tor-

92 / Boff, Leonardo

naram popular. De certa forma, esse telogo brasileiro representa tudo o que a Teologia da Libertao teve de pagar para que fosse conhecida, vivida e posta em prtica 
na Amrica Latina. Porque em Boff renem o homem de estudo, que pensa e analisa a realidade da Amrica -- e particularmente do Brasil --  luz do Evangelho, e o 
homem de ao profundamente comprometido com a realidade de seu povo.  sob o ngulo da luz crist da realidade e da ao que leva a transform-la, que deve ser 
vista e interpretada a obra escrita de Boff: estudos, conferncias, participaes em assemblias e congressos e a atividade pastoral: formao de lderes cristos, 
comunidades de base etc. Boff  um telogo no somente na teoria, mas tambm na prxis de um bom conhecedor da realidade que o envolve. Para Boff a opo est muito 
clara: "Para os telogos da libertao, o central no aspecto poltico no  o socialismo, so os pobres". Boff preocupa-se mais com a opo pelos pobres que com 
os problemas de Roma, dos quais prefere no falar. Quando fala da opo pelos pobres, prefere fixar sua ateno nos esquadres da morte que a cada semana assassinam 
entre 10 e 20 crianas e jovens de 12 a 15 anos. "Jamais ningum foi detido por isso -- diz. Os assassinos geralmente so ex-policiais pagos por comerciantes e sua 
atuao no deve ser considerada como um fato isolado, j que tem funcionalidade no sistema". Nessa mesma opo v a situao social e religiosa do Brasil. "No Brasil, 
os desnveis sociais fazem com que a forma de vida, o luxo no qual vivem as famlias da burguesia brasileira, dificilmente sejam igualados ao Primeiro Mundo. Um 
informe do Banco Mundial, de 1989, assegurava que o Brasil  o pas que tem a mais alta taxa de inflao". No  estranho, pois, que Boff se sinta comprometido, 
como cristo e como membro de sua Igreja, com esta situao. Veja aqui seu pensamento: "A luta pelo futuro apresenta um compromisso para a Igreja do Brasil. Nas 
ltimas elei-

Bonhoeffer, Dietrich / 93

es presidenciais, desde bispos at comunidades de base mostraram-se favorveis ao Partido dos Trabalhadores. Isso originou acusaes no sentido de que se estava 
construindo uma cristandade de esquerda... A Igreja no Brasil -- replica Boff -- no defende interesses corporativos, mas defende protestantes, os que praticam religies 
afro-brasileiras, marxistas... O que a Igreja faz  colocar seu capital histrico acumulado a servio da causa do povo em sua luta pela construo de uma sociedade 
mais democrtica na qual todos tenham seu lugar: seja o atesmo, o espiritualismo, a macumba". "Os cristos renunciamos a uma viso da Igreja como poder que quer 
conduzir a sociedade." Boff teme, no entanto, que a orientao desta Igreja do Brasil possa mudar, como em outros pases de Amrica Latina. "Existe um refluxo, um 
processo de neo-romanizao, mas a realidade  mais forte que a estratgia de Roma e,  fora de tomar contato com a realidade, muitos bispos terminam por converter-se 
e fazer a opo pelos pobres".
BIBLIOGRAFIA: Algumas obras: Como fazer teologia da libertao; A graa libertadora no mundo; Jesus Cristo libertador; O destino do homem e do mundo; Os sacramentos 
da vida e a vida dos sacramentos; A Trindade, a Sociedade e a Libertao; Igreja, Carisma e Poder  Ensaios de eclesiologia militante; Nova Era, a civilizao planetria

Bonald, Louis de (1754-1840)
*Chateaubriand; J. de *Maistre.

Bonhoeffer, Dietrich (1906-1945)
Pastor protestante que, junto a K. Barth e R. Bultmann, estabeleceu as premissas de uma transformao na teologia contempornea. Esse telogo alemo, incentivador 
da chamada "Igreja Confessional", ops-se ao nazismo em nome do Evangelho. Detido pela Gestapo em 1943, foi enforcado pelos nazistas pouco antes da libertao. Seu 
pensamento e seu exemplo exerceram

94 / Bonhoeffer, Dietrich

uma grande influncia no s na teologia, mas tambm na vida dos cristos de hoje.  extensa sua obra como professor e conferencista. Em sua produo destacamos: 
Criao e queda (1933); A imitao (1937); Vida em comum (1938). No entanto, suas obras mais conhecidas so: O preo do ser discpulo (1937); Cartas e anotaes 
do crcere; Tentao (pstuma, 1953). Os principais pontos de sua doutrina podem ser assim formulados: a) Ataque  "graa barata" ou viso cmoda do cristianismo. 
"A graa barata -- diz --  pregar o perdo sem exigir o arrependimento, o batismo sem a disciplina da Igreja, comunho sem confisso, absolvio sem confisso pessoal. 
Graa barata  graa sem ser discpulo, graa sem cruz, graa sem Jesus Cristo, vivo e encarnado" (O preo do ser discpulo). b) O verdadeiro discpulo entrega-se 
a Cristo at a aceitao da dor e da morte. "A `graa cara'  cara porque nos chama a seguir Cristo." c) Nem no terreno das idias, nem na prtica diria, o homem 
moderno "necessita do Deus que serve para tapar buracos". "Deus sabe que devemos viver como homens que tratam de viver a sua vida sem ele... Diante de Deus e com 
Deus vivemos sem Deus" (Cartas). A situao de maturidade do homem moderno est de acordo com os desgnios de Deus. Portanto, hoje ser necessrio um "cristianismo 
sem religio". Esses dois ltimos pargrafos apontam para o mais novo e original da teologia de Bonhoeffer: um cristianismo sem religio, uma f sem religio. O 
mundo chegou a ser adulto e demonstrou que pode viver sem religio. Que isto significa? Pode existir um cristianismo sem religio? Para Bonhoeffer, o cristianismo 
sem religio significa, antes de mais nada, viver o cristianismo isento de certos aspectos da religiosidade burguesa. A religio concebe a transcendncia de Deus 
e faz dele um Deus abstrato e remoto. A religio leva a um individualismo, preocupado somente com a prpria salvao em detrimento da Igreja e

Bossuet, Jacques-Benigne / 95

do mundo. A religio confina o cristianismo a uma parcela da vida, e leva sempre a uma separao do mundo secular e  despreocupao com ele. Finalmente, o "cristianismo 
como religio" leva  concepo de uma Igreja composta de indivduos preocupados somente com sua salvao. E faz do mundo um campo inimigo do qual se deve fugir. 
O propsito de Bonhoeffer  trazer Deus e a Igreja para o mbito secular. Deus est no prprio centro da vida e a transcende, sem que isto queira dizer que est 
longe dela. Da que o cristo tenha de aprender a viver e a falar de Deus com um estilo novo, secular. Esta  sua lio e contribuio para os cristos de hoje. 
Deve-se seguir Cristo, "o homem para os demais", no servio ao mundo.

Bossuet, Jacques-Benigne (1627-1704)
A maior parte dos leitores, inclusive eclesisticos, somente conservam de Bossuet a fama de sua oratria e seu estilo solene do barroco. A figura de Bossuet, entretanto, 
continua sendo a de um grande homem de Igreja, um telogo e pensador que, por causa de sua f crist, se enfrenta com quase todos os problemas de seu tempo. Bossuet 
pe a servio do cristianismo, entendido como catolicismo, toda a gama de seus dotes como pensador, como orador e como escritor. Nascido em Dijn em 1627, recebeu 
nesta mesma cidade uma excelente educao em colgio jesuta. Em 1642, mudou-se para Paris, onde adquiriu profundos conhecimentos teolgicos no Colgio de Navarra, 
ao mesmo tempo que se impressionou pela obra de apostolado e caridade de So Vicente de Paulo e seus companheiros. Em 1652, ordenou-se sacerdote e doutorou-se em 
teologia. A partir dessa data, passou sua vida de sacerdote entre Metz e Paris. Em 1670, foi nomeado tutor do delfim do rei da Frana. Em 1681, foi nomeado bispo 
de Meaux, cidade na qual viveu at sua morte.

96 / Bossuet, Jacques-Benigne

A vida e a atividade de Bossuet podem ser enquadradas em quatro ou cinco grandes fontes de atividade: a pregao, principalmente quaresmal e de oraes fnebres; 
a controvrsia com os protestantes franceses; a defesa da "Igreja galicana" e direitos do rei; os problemas morais e religiosos de seu tempo e sua filosofia da histria. 
-- A atividade e interesse fundamental de Bossuet est na pregao e na controvrsia. Iniciou-se j nos primeiros anos de Metz onde calaram fundo seu Panegrico 
do apstolo So Paulo (1657) e seu sermo sobre A eminente dignidade dos pobres na Igreja (1659). Tornou-se popular como pregador em Paris na dcada de 1660-1670. 
Primeiro comeou seus sermes quaresmais nas Igrejas dos Mnimos e Carmelitas, depois passou  corte de Lus XIV, para acabar pronunciando as primeiras Oraes fnebres 
na morte de figuras nacionais importantes. Voltar a essa atividade como bispo de Meaux, j na ltima etapa de sua vida, pronunciando entre outras a Orao fnebre 
do Grande Cond (1687). As oraes fnebres so peas magistrais da oratria francesa: cheias de dignidade, de equilbrio e de solene grandeza. Da mesma forma que 
nos sermes da Quaresma, tais oraes abundam em citaes bblicas e em suas parfrases. Procuram a majestade e o pathos do ideal barroco, mas sem cair no exagero 
nem no maneirismo. --  importante tambm, na vida de Bossuet sua controvrsia com os protestantes franceses. Inimigo da perseguio e da tortura, estava convencido 
da fora dos argumentos. No obstante, apoiou a revogao do Edito de Nantes (1685), proibindo o protestantismo francs. Sua primeira obra de controvrsia com os 
protestantes foi a Refutao do catecismo de Paul Ferry. Seguiu-a sua obra principal: Histria das mudanas das Igrejas Protestantes (1688), e depois Avisos aos 
protestantes (1689-1691). O mais significativo nesta controvrsia com os protestantes  a correspondncia de Bossuet com Leibniz, o grande filsofo e ecumenista 
alemo.

Bossuet, Jacques-Benigne / 97

-- Mais espinhosa e criticada ainda foi a atuao de Bossuet na controvrsia galicana. Na assemblia geral do clero francs (1681-1682), Bossuet dirigiu seu discurso 
inaugural e leu sua declarao final dos quatro artigos. Estes afirmavam a independncia do rei com relao a Roma, em seus assuntos seculares, e proclamavam que 
o juzo do papa em matria de f no era infalvel sem o consentimento da Igreja universal. No faltou quem visse na atitude de Bossuet uma inteno poltica de 
afianamento do poder "absolutista" do monarca. Seu sentido da moderao e do equilbrio permitem reconhecer seu triunfo neste caso, assim como no dos jansenistas 
e "quietistas". A unidade da Igreja e a sustentao de sua doutrina impulsionaram sempre sua conduta. A partir deste ponto pode-se ver sua interveno na controvrsia 
jansenista, sua atuao com os protestantes e sua condenao (1699) de Fnelon, assim como seus escritos contra os "novos msticos" do quietismo. S foi duro contra 
a imoralidade do teatro e as formas aberrantes dos msticos quietistas. -- Todavia Bossuet teve tempo para o estudo de problemas filosficos, polticos e histricos. 
Em seu Tratado do livre-arbtrio tenta conciliar a liberdade e autonomia do homem com a onipotncia e oniscincia divina. "Se Deus no respeitasse a liberdade desejada, 
no s faltaria com o respeito a esta, mas se contradiria a si prprio". Em seu livro Poltica tirada das prprias palavras da Escritura, Bossuet atinge sua fama 
de terico do absolutismo. Expe a teoria do direito divino de todo governo legitimamente constitudo: expressa a vontade de Deus, sua autoridade  sagrada e qualquer 
rebelio contra ele  criminosa. Mas ao mesmo tempo recalca a responsabilidade do monarca e dos governantes. No Discurso sobre a histria universal coloca-se na 
linha do De civitate Dei. Contempla a histria em seu desenvolvimento universal como realizao progressiva de um plano divino, atravs da ao do homem guiado pela 
providncia. A histria uni-

98 / Bradwardine, Thomas

versal  a histria da redeno do gnero humano pela redeno de Cristo. -- A figura de Bossuet, no entanto, est permanentemente em julgamento. Talvez o nico 
ponto de acordo seja a excelncia de seu estilo e eloqncia. Sempre foi discutida, e continua sendo, sua atuao e conduta na poltica frente ao monarca e ao Estado, 
e frente aos grupos jansenistas, quietistas e protestantes com quem tratou. Sua idia central da "imutabilidade da doutrina e da perfeio da Igreja" no teve eco 
no Conclio Vaticano II.
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes. Ed. de E. N. Guilleaume. Paris 1877, 11 vols.; Jacques Le Brun, La spiritualit de Bossuet, 1973.

Bradwardine, Thomas (1290-1349)
Arcebispo de Canturia. Iniciou-se como professor de teologia em Oxford, para passar depois a confessor de Eduardo III (1337). Em 1349 foi sagrado arcebispo de Canturia, 
morrendo nesse mesmo ano. Bradwardine  considerado um dos telogos que mais influenciar a concepo luterana da graa. Frente aos semipelagianos, insiste na necessidade 
da graa nas boas obras e para sair do pecado. Fala da "eficcia irresistvel" da vontade ou querer de Deus, causa de toda ao, tanto necessria como contingente. 
A graa  um dom livre e gratuito de Deus, que o homem no pode merecer. "Antes que estudasse teologia, a graa veio a mim como um raio e numa representao mental 
da verdade acreditei ver ao longe como a graa de Deus precede todas as boas obras no tempo e na natureza." Essa doutrina foi exposta em sua obra A causa de Deus 
contra os pelagianos (1344). Diante das acusaes que lhe fizeram de determinismo fsico e determinismo teolgico, Bradwardine responde afirmando a soberania de 
Deus que no s permite o mal, mas que tambm o permite porque j o quer. A predestinao de

Bruno, Giordano / 99

Deus  soberana, e o homem depende totalmente da graa porque  uma criatura. Bradwardine foi muito alm de Santo Agostinho. No obstante esse tipo de necessidade, 
Bradwardine no inclui a livre vontade humana.

Brevirio, Reforma do (1562-1563)
*Trento, Conclio de.

Bruno, Giordano (1548-1600)
Nasceu em Nola e morreu queimado em Roma. Giordano Bruno representa o primeiro pensador e escritor anticristo da Idade Moderna.  considerado mrtir da intolerncia 
religiosa da Igreja e da Inquisio, e heri da liberdade e do livre pensamento. Durante o sc. XIX foi tido como o prottipo do revolucionrio e do homem progressista 
que encontrava na Igreja seu maior inimigo. Com efeito, entre suas mltiplas preocupaes, Bruno apresenta uma nota fundamental: "O amor  vida em sua potncia dionisaca, 
em sua infinita expanso. Esse amor  vida fez com que o claustro lhe parecesse insuportvel e alentou seu dio inextinguvel a todos aqueles pedantes, gramticos, 
acadmicos, aristotlicos, que faziam da cultura um puro exerccio livresco e tiravam o olhar da natureza e da vida". Esse amor desenfreado pela vida explica, como 
veremos a seguir, toda a atividade e todo o pensamento de Bruno. Tendo ingressado aos 15 anos nos dominicanos, aos 18 comeou a sentir as primeiras dvidas sobre 
a verdade da religio crist; tais dvidas obrigaram-no, primeiramente, a sair do claustro e, depois, a entrar em conflito com as autoridades eclesisticas. Conseqncia 
disso foi sua perptua peregrinao por Genebra, Toulouse, Paris (1576-1582). Em 1583 passou de Paris  Inglaterra, onde lecionou em Oxford e esteve em contato com 
a corte da rainha Isabel. Voltou a Paris em 1585 para estabelecer-se na Alemanha, ensinando em Marburgo, Wittenberg e Frankfurt. Foi

100 / Bruno, Giordano

detido em Veneza em 1592 e entregue  Inquisio veneziana, que, por sua vez, o entregou  Inquisio de Roma em 1593. Permaneceu na priso durante sete anos. No 
quis retratar-se de suas doutrinas e afirmava que no tinha nada por que se retratar. Foi queimado vivo no Campo dei Fiori, em Roma, no dia 17 de fevereiro de 1600. 
Tampouco quis reconciliar-se com o crucifixo, do qual afastou seu olhar nos seus ltimos momentos. -- A obra escrita de G. Bruno aponta uma multiplicidade de temas 
que agitaram sua vida. Pode ser classificada no seguinte: a) A comdia O Candelabro (1582); b) Escritos lulianos: De lampade combinatoria lulliana (1587); De progressu 
et lampade venatoria logicorum (1587), e outras nas quais segue o pensamento de R. Llio; c) Escritos mnemotcnicos: De umbris idearum (1582); Ars memoriae (1582), 
e outras sobre o tema da memria, favorito de Bruno. Nelas pretende apoderar-se do saber com artifcios mnemotcnicos, fazendo progredir a cincia com uma tcnica 
inventiva, rpida e milagrosa. d) Escritos mgicos, como De magia et theses de magia; De magia mathematica etc., escritos entre 1589-1591. Baseado no pressuposto 
do panpsiquismo universal, quis conquistar de assalto a natureza, tal como se conquista um ser animado. e) Escritos de filosofia natural: A ceia das cinzas (1584); 
Da causa, do princpio e do uno (1584); Do infinito universo e dos mundos (1584) etc. Nestes escritos expe sua doutrina sobre a natureza, que exalta com mpeto 
lrico e religioso e para a qual, s vezes, encontra uma expresso potica. f) Escritos morais: O espaco da besta triunfante (1584) e Furores hericos (1585). E 
outros temas ocasionais. -- O ponto de partida do pensamento complexo de Bruno  seu inicial interesse pela natureza, que se poderia qualificar como religio da 
natureza.  um mpeto lrico, raptus mentis, contractio mentis, exaltao e furor herico. Mas a sua  uma natureza concebida pitagoricamente, no matematicamente.

Bruno, Giordano / 101

-- Essa paixo pela natureza faz-nos compreender sua postura em relao  religio como sistema de crenas. A religio parece-lhe repugnante e absurda. Embora reconhea 
sua utilidade "para a educao dos povos rudes que devem ser governados", nega-lhe, no entanto, todo valor. A religio transforma-se ento num conjunto de supersties, 
diretamente contrrias  razo e  natureza. -- Vrios de seus escritos esto entretecidos com uma feroz stira anticrist que no se detm sequer diante do mistrio 
da Encarnao do Verbo. Sequer o cristianismo reformado -- que Bruno teria conhecido diretamente em Genebra, Inglaterra e Alemanha -- salva-se de sua condenao. 
Inclusive parece-lhe pior que o catolicismo, porque nega a liberdade e o valor das boas obras. -- A essa religiosidade natural e crist, Bruno contrape outra religiosidade, 
a dos doutos. Essa religiosidade no  outra seno o prprio filosofar e com a qual esto de acordo os filsofos gregos, os orientais e os cristos. Bruno volta 
 "sabedoria primitiva" proclamada por humanistas como Pico e Marclio Ficino e que o Renascimento tomou para si. -- Para o filosofar natural, Deus no  a substncia 
transcendente da qual fala a Revelao, mas a prpria natureza em seu princpio imanente. Como natureza, Deus  causa e princpio do mundo: causa, no sentido de 
determinar as coisas que constituem o mundo; princpio, enquanto constitui o prprio ser das coisas naturais. Mas em nenhum caso distingue-se das coisas naturais 
nem da natureza como tal. "A natureza  o prprio Deus ou  a virtude divina que se manifesta nas mesmas coisas". Deus  o "entendimento universal", "a forma universal 
do mundo", "a matria e a forma do mundo". "Deus  a nica forma como alma do mundo, a matria  o receptculo das formas, o substrato disforme que o entendimento 
divino plasma e d vida". -- Se para Bruno a natureza  Deus, a meta ltima do homem  a viso e a identificao m-

102 / Bryennios, Filoteo

gica da natureza em sua unidade. Nem o xtase nem a unio com Deus tm sentido para ele. O homem realiza-se quando pode "contemplar a imagem do sumo bem na terra". 
Com isso negava todo valor ao mundo sobrenatural revelado pela f.
BIBLIOGRAFIA: Opere italiane. Ed. de G. Gentile, Bari 1927-1935, 3 vols.; Opera latina conscripta. Ed. de G. Fiorentino. Florencia 1879-1891, 8 vols. A. Guzzo, G. 
Bruno. Turim 1960; R. Mondolfo, Figuras e ideas de la filosofa del Renacimiento. Buenos Aires 1968.

Bryennios, Filoteo (1833-1914)
*Didaqu.

Bucerus, Martinho (1491-1551)
Telogo alemo que aderiu s idias de Lutero. Em 1523 comeou a pregar o luteranismo na Alscia. Com a morte de Zwinglio (1531), tornou-se lder das Igrejas Reformadas 
da Sua e do sul da Alemanha. Foi representante dos reformadores em vrias reunies entre catlicos e protestantes. Em 1549, Bucer foi para a Inglaterra, ocupando 
a ctedra de teologia da Universidade de Cambridge. Foi homem de orientao e conselho para os reformadores da Igreja da Inglaterra, intervindo nas decises de T. 
Cranmer e na preparao do Livro das ordens de 1551.

Bula "Aeterni Patris" (1868)
*Vaticano I, Conclio.

Bulgakov, Miguel (1816-1882)
*Macrio de Moscou.

Bultmann, Rudolf (1884-1976)
Telogo e escritor alemo. Estudou teologia nas Universidades de Tubinga, Berlim e

Bultmann, Rudolf / 103

Marburgo. Professor nesta ltima universidade desde 1921 at a sua aposentadoria em 1951. Muito discutido, tanto nos crculos protestantes quanto nos catlicos, 
por sua interpretao dos Evangelhos, da pessoa histrica de Jesus e de sua mensagem, aplicou as normas da crtica histrica do sculo XX, assim como o "mtodo das 
formas", ao texto bblico. Esteve em contato com as correntes filosficas modernas, valendo-se, principalmente, da anlise existencial de M. Heidegger. De imensa 
erudio e capacidade,  uma figura importante e discutida do pensamento cristo atual. Seu pensamento est contido principalmente em A histria da tradio sintica 
(1922), na qual analisa os evangelhos  luz das diferentes formas. E no Novo Testamento e mitologia (1941), obra vrias vezes revisada e publicada em dois volumes 
sob o ttulo de Querigma e mito (1961-1962). Em 1927 surgiram uma srie de ensaios e escritos menores de Bultmann com o ttulo de Existncia e f, nos quais projeta 
sua viso crist atravs do existencialismo. Uma anlise da doutrina de Bultmann levanos s seguintes concluses: 1) Ceticismo quase absoluto sobre o valor histrico 
do Novo Testamento (NT). Para Bultmann, os evangelhos esto menos interessados na pessoa de Jesus e mais no perodo posterior  sua morte. Os evangelhos so simples 
construes convencionais posteriores. 2) O cristianismo atual enlaa com o primitivo somente pela aceitao do querigma, que aparece em Rm 1,3-4; 6,3-4; At 2,21-24; 
1Cor 11,23-26. 3) Somente desta forma no podemos saber nada sobre a vida e a personalidade do "Jesus histrico". Assim como *Barth, Bultmann reage contra a figura 
perfeita do Jesus histrico reconstrudo pela teologia liberal do sc. XIX.  pouco o que sabemos e podemos reconstruir sobre a figura histrica de Jesus. As afirmaes 
do NT sobre ele no se referem  sua natureza, mas  sua significao. 4) O tema central do evangelho  a morte e ressurreio de Jesus. A ressurreio no  um 
acontecimento objetivo, mas uma experincia

104 / Bunyan, John

viva que nos introduz numa nova dimenso da existncia e nos liberta de ns mesmos -- do pecado -- para abrir-nos aos outros. Doutrinas to bsicas do cristianismo 
como a encarnao, morte, ressurreio e segunda vinda de Cristo dissipam-se numa interpretao existencialista da vida. A interpretao mtica dissolve-se num existencialismo 
que no deixa quase nada intacto no credo dos apstolos. A concluso final de Bultmann  que o mito ou forma de pensamento em que aparece envolvido o Evangelho apresenta-nos 
uma verso manipulada e desfigurada de Jesus, Filho de Deus, que morreu e ressuscitou. Esse mito transmitenos um querigma, uma palavra divina dirigida ao homem, 
que este deve aceitar de maneira desmitificada, isto , desprovida de sua proteo. O Cristo com que nos encontramos hoje  o Cristo da evangelizao, no o Jesus 
da histria.  o querigma desmitificado de formas do passado -- todavia existentes na f e na pregao de Jesus -- que nos obriga e nos defronta a uma opo entre 
uma vida autntica e outra inautntica. Da doutrina de Bultmann deduz-se que a f crist deve interessar-se pelo Jesus histrico para centrar-se no Cristo transcendente 
do querigma. "A f crist  a f no querigma da Igreja, pela qual se pode dizer que Jesus Cristo ressuscitou, e no f no Jesus histrico." Todas as Igrejas, aps 
reconhecer a boa vontade de Bultmann, rejeitam a postura radical do grande mestre. Sua doutrina permitiu reconstruir melhor o "Jesus histrico" e sua funo dentro 
da teologia atual. Os mesmos discpulos de Bultmann evoluram para uma nova hermenutica e interpretao da forma lingstica da existncia.
BIBLIOGRAFIA: R. Bultmann, Teologa del NT. Salamanca 1981.

Bunyan, John (1628-1688)
Bunyan  o escritor religioso ingls mais conhecido e lido. At o sculo XIX, o puritano

Bunyan, John / 105

Bunyan podia ser encontrado em todos os lares ingleses junto com a Bblia. Depois dos anos de crtica do sculo passado e do presente, Bunyan continua sendo um clssico 
no apenas da literatura puritana, mas tambm da crist. Nascido em 1628 de uma famlia de operrios, viveu seus primeiros anos marcados pela pobreza, pela leitura 
da Bblia e da literatura popular puritana da poca: conversas e sermes morais ao ar livre e em casa, livros de orientao espiritual etc. Arraigado, no obstante, 
"na Igreja nacional" de seus pais, sua alma de campons ficou cheia de experincia visual do povo e de sua linguagem. A partir de 1644, viu-se obrigado a deixar 
sua casa para entrar no exrcito onde permaneceu durante toda a Guerra Civil at 1647. No exrcito, entrou em contato com chefes e soldados das seitas consideradas 
ento progressistas de esquerda como os "quackers", os "ranters" etc., que questionavam toda autoridade. Bunyan afirmou-se nas idias centrais do puritanismo mantidas 
por Cromwell. Estava convencido de que se consegue a verdade religiosa com uma procura obstinada, confiando na graa livremente concedida ao indivduo, sem que para 
isso se precise nenhuma forma de organizao exterior e pblica. Prximo do ano de 1648 casou-se, tendo quatro filhos com a sua primeira mulher. Recebeu o Batismo 
por imerso como membro da Igreja separatista de Bedford (1653). A converso e posterior convocao de Bunyan ao ministrio foi marcada, como ele prprio diz em 
sua autobiografia, por uma tormenta de tentaes que lhe duraram vrios anos. Em 1657 foi reconhecido oficialmente como pregador, desdobrado numa intensa atividade 
tanto na pregao quanto na luta contra os "quackers". Depois da Restaurao de Carlos II, foi acusado de praticar um servio no em conformidade com a Igreja da 
Inglaterra, o que lhe valeu doze anos de crcere (1660-1672) em Bedford. Morreu em Londres, em 1688.

106 / Bunyan, John

Bunyan deixou trs obras fundamentais: 1) sua autobiografia, intitulada Graa abundante (1666), uma anlise detalhada e sincera de sua vida interior. Neste j demonstra 
as qualidades de estilo que manteve nas demais obras. 2) A caminhada do peregrino (The Pilgrim's Progress, 1678), a histria da peregrinao crist, em meio aos 
perigos, em direo  cidade celestial. Bunyan descreve as provas, tentaes e alegrias do cristo em sua viagem ao cu. E o faz com a particularidade de que sua 
doutrina se afasta da tradio calvinista e batista para transformar-se num guia espiritual cristo. No , neste sentido, um livro sectrio:  de todos os cristos. 
E prova disso  a aceitao que teve imediatamente, chegando a ser traduzido para mais de cem lnguas. A guerra santa (The Holy War, 1682), com a alegoria da cidade 
da alma assediada pelo exrcito do demnio e libertada por Emanuel, mostra-nos em vrios nveis todo o processo da redeno do homem, desde a queda do primeiro homem, 
at o juzo final, passando pela redeno de Cristo. Estas so suas principais obras, ainda que, apesar de seu intenso e ativo ministrio, durante os dez ltimos 
anos de sua vida tenha publicado muitas outras. Bunyan pe toda a nfase na vida interior, na vida espiritual da alma, onde se d constantemente a luta e a guerra 
santa com o pecado. No lhe interessa nada mais do que a salvao da alma. Seus livros so uma continuao da pregao direta, sobre a qual tanto insiste o puritanismo. 
Converso, experincia religiosa individual e pregao so os pontos que caracterizam o puritanismo frente aos ritos e formas da "religio estabelecida".
BIBLIOGRAFIA: The Works of John Bunyan, 18531862, 3 vols.; O. E. Winslow, John Bunyan, 1961; H. A. Talon, John Bunyan (1628-1688), l'homme et l'oeuvre, 1948.

Cabasilas, Nicolau / 107

C
Cabasilas, Nicolau (1320-1390)
Nasceu em Tessalnica. Telogo ortodoxo leigo, representante da tradio teolgica e litrgica bizantina. Desenvolveu uma atividade poltica em diversas misses 
diplomticas. Na guerra civil motivada pelas lutas teolgicas entre o imperador Joo V Palelogo e Joo VI Cantacuceno, Cabasilas ps-se ao lado deste ltimo, mantendo 
uma postura conciliadora e tradicional. Isso no foi obstculo para que se alinhasse ao lado de So Gregrio Palamas (1296-1359) na defesa da Hesiquia ou mstica 
da contemplao de quietude. Nicolau Cabasilas passou  histria do pensamento e da espiritualidade ortodoxa e crist principalmente por duas obras: 1) Comentrio 
sobre a divina liturgia, um dos comentrios ou exposies mais brilhantes da teologia sacramental crist. 2) A vida em Cristo, sem dvida a obra asctico-mstica 
mais conhecida e mais importante de N. Cabasilas. Apresenta um programa de iniciao tanto na orao individual quanto litrgica e sacramental. Um livro profundo, 
ditado por quem viveu, na fonte dos sacramentos, a vida em Cristo. No fundo aparece a sua doutrina da *Hesiquia, essa vida de quietude na qual nos vamos transformando 
em Cristo e desaparecendo nele. No termina aqui a obra de N. Cabasilas. Seus outros tratados e compromissos polticos e sociais demonstram uma conscincia social 
muito sensvel com as desigualdades econmicas e institucionais ao seu redor (Constantinopla). O alto nvel intelectual de suas conferncias e ser-

108 / Cabasilas, Nilo

mes, assim como a fineza de sua poesia religiosa, mereceram-lhe uma aceitao geral entre os cristos do Oriente e Ocidente.

Cabasilas, Nilo (1298-1363)
Nasceu em Tessalnica e morreu em Constantinopla, tio de Nicolau Cabasilas, telogo e pesquisador ortodoxo, nomeado metropolitano de Tessalnica. Dois aspectos definem 
a atividade e a personalidade de Nilo Cabasilas: 1. Seus tratados de crtica  teologia latina medieval, que se tornaram clssicos na defesa da tradio ortodoxa 
da Igreja bizantina. Suas teses esto expostas em sua volumosa obra De processione Spiritus Sancti, em que defende a doutrina ortodoxa da procedncia do Esprito 
Santo do Pai, no do Filho. Recusa, portanto, a postura da Igreja latina sobre a procedncia do Esprito Santo do Pai e do Filho. 2. Sua luta contra a doutrina de 
So Gregrio Palamas e de seu prprio sobrinho Nicolau sobre a asctica e mstica da Hesiquia. Estes ensinavam um mtodo asctico-mstico de orao contemplativa 
que afirmava a possibilidade da comunho real com a vida divina. No incio desprezou tal doutrina, que considerou contrria  lgica e  metafsica aristotlica. 
Posteriormente terminou inclinando-se a favor deste mtodo e doutrina. Tanto Nilo quanto Nicolau Cabasilas afianam e do corpo  grande tradio oriental, teolgica 
e espiritual, da qual se transformam em verdadeiros clssicos.

Cabrol, Fernand (1855-1937)
Monge beneditino, abade de Farnborough, foi um dos grandes pesquisadores e promotores do movimento litrgico. Junto a H. Leclercq, publicou os Monumenta Ecclesiae 
liturgica (1900-

Calvino, Joo / 109

1913), assim como o Dictionnaire d'archologie et de liturgie (1903-1953). Toda a vida deste sbio foi dedicada ao estudo da liturgia, sobre a qual publicou vrias 
obras. A esses dois eminentes historiadores e pesquisadores deve-se acrescentar a figura de L. Duchesne (1843-1922), que foi especialista no campo da arqueologia 
e da histria da Igreja primitiva. Sua crtica exagerada e negativa s lendas tradicionais suscitou contra ele a oposio de muitos.

Calasncio, So Jos (1556-1648)
*Educadores cristos.

Calvino, Joo (1509-1564)
Telogo e reformador francs, nasceu em Noyon e morreu em Genebra. Estudou nas Universidades de Paris, Orleans e Bruges. Humanista e grande admirador dos humanistas, 
principalmente de Erasmo, transformou-se em leitor assduo dos clssicos, fazendo um comentrio e traduo ao tratado De clementia de Sneca. Dessa formao humanista 
do testemunho sua admirao pelos clssicos, sua capacidade de sntese, seu estilo conciso, seu amor pela cincia, pela arte e pela msica. Tudo isso, entretanto, 
fica sujeito a sua misso primeira de reformador e telogo. Desde seu rompimento com a Igreja de Roma em 1533, depois de uma experincia religiosa em que acreditou 
ter recebido a misso de restaurar a Igreja a sua pureza primitiva, entrou em contato com os homens da Reforma na Alemanha e na Sua e se dirigiu a Basilia (1535). 
Ali escreveu sua obra principal: Institutio Religionis Christianae (1536), que foi aperfeioando em sucessivas edies e que ele mesmo traduziu para o francs. Depois 
de uma estada em Estrasburgo (1536-1539), voltou a Genebra onde se dedicou a estabelecer um regime teocrtico sobre as bases do Antigo Testamento (AT). Servindo-se 
de uma srie de "ordens" que

110 / Calvino, Joo

colocaram o governo da cidade nas mos de pastores, ancios e diconos, assistidos por um consistrio ou tribunal de carter fundamentalmente moral, exerceu um poder 
onmodo na cidade at a sua morte. Os delitos religiosos: heresia, oposio  f estabelecida etc., foram castigados com severas penas, entre elas a excomunho e 
a pena de morte, como no caso de Miguel *Servet (1553). Desde 1555, quando Calvino foi considerado mestre indiscutvel de Genebra, o reformador viveu inteiramente 
para a sua obra: pregao, participao nos problemas de outras comunidades protestantes da Europa e redao de seus numerosos livros e demais escritos.  considerado 
o segundo reformador depois de Lutero. -- Apesar de Calvino reconhecer repetidas vezes sua "natural tendncia  brevidade" e  conciso, sua produo literria  
uma das mais extensas. Assim o atestam: a) Os dois grossos volumes de cartas, em correspondncia mantida praticamente com os principais homens do momento: *Erasmo, 
*Lutero, *Bucer etc. Destaca-se sua resposta ao cardeal Sadoleto, um de seus melhores trabalhos sobre a Reforma, escrito num s dia. b) Seus sermes: Calvino pregou 
regularmente em Genebra, e seus sermes foram registrados taquigraficamente desde 1549. Alguns foram publicados no sculo XVI. A maior parte foi vendida como papel 
velho no sculo XIX, perdendo-se assim trs quartas partes deles. c) Comentrios de muitos dos livros do AT e do NT. Continua sendo um dos grandes comentaristas 
do texto bblico. d) Tratados: Sobre a eucaristia, em que mantm uma postura mdia entre Lutero -- empanao e consubstanciao -- e a doutrina tradicional catlica 
-- transubstanciao; Sobre as relquias; Sobre a predestinao (1552). -- Entre suas obras destaca-se Institutio Religionis Christianae, que j mencionamos. Desta 
obra fez trs edies em vida, que foi completando e aperfeioando at 1559. Fez ainda a edio francesa, que dedicou ao rei da Frana e

Calvino, Joo / 111

que  concebida como de "summa da piedade" e para a edificao do povo da Frana. -- A obra falada e escrita de Calvino culmina com a fundao da Academia de Genebra 
(1559), que continuou sua obra e a transformou mais tarde na Universidade de Genebra. Ser o principal foco de estudo e de propaganda de sua doutrina. -- De modo 
geral, podemos dizer que "se para Lutero o retorno s fontes religiosas  essencialmente o retorno ao Evangelho, e para Zwinglio retorno  revelao originria concedida 
a pagos e cristos, para Calvino , ao contrrio, retorno  religiosidade do Antigo Testamento. Desta obra nasceram as Igrejas Reformadas, que no foram organizadas 
sob a influncia do Estado, como ocorreu na Alemanha, mas que se desenvolveram livremente. Em Instituies destaca a impossibilidade da doutrina do Evangelho sem 
o AT. E, na realidade, em sua interpretao da Bblia os conceitos do AT so os que prevalecem (Inst., 7, III, 62-63). -- Embora partilhe com Lutero sua f na Bblia 
como nica norma de f, a negao do livrearbtrio e a doutrina da justificao somente pela prpria f,  do AT, porm, que tira o conceito principal de sua concepo 
religiosa: a soberania de Deus. Deus como absoluta soberania e potncia, diante da qual o homem no  nada. Na teologia de Calvino, Deus  onipotncia e impenetrabilidade, 
mais que amor. -- De seu decreto depende o curso das coisas e o destino dos homens e, portanto, tambm a sua salvao. "Dizemos que o Senhor decidiu de uma vez, 
em seu desgnio eterno e imutvel, quais homens queria admitir para a salvao e quais queria deixar na runa. Aqueles aos quais chama para a salvao dizemos que 
os recebe por sua misericrdia gratuita, sem ter em conta sua prpria dignidade. Ao contrrio, o acesso  vida est fechado para todos os que ele permite que sejam 
condenados. E isso acontece por um juzo seu oculto e incompreensvel, mas tambm justo e equitativo" (Ibid).

112 / Calvino, Joo

-- "A santidade tem sua origem e princpio unicamente na eleio divina.  impossvel reconhecer no homem um mrito qualquer com relao a Deus. O homem se reconcilia 
com Deus somente pela mediao de Cristo e pela participao em suas promessas. Mas a mesma obra mediadora de Cristo  um decreto eterno de Deus, que est includo 
na ordem providencial do mundo" (Inst., 6, II, 275). Quem acredita, porm, nos mritos de Cristo e na virtude de tais mritos sente-se predestinado, adquire uma 
fora de convico que no retrocede diante das dificuldades e que o leva at ao fanatismo. -- Com esta certeza da ajuda divina, inclusive nos negcios, o trabalho 
transforma-se num dever sagrado, e o bom xito nos negcios  uma prova evidente do favor de Deus; e conforme a doutrina do AT, num signo de sua predileo. Sobre 
a tica calvinista modelou-se o esprito da nascente burguesia capitalista, isto , o esprito ativo e agressivo, com desprezo de todo sentimento, continuamente 
direcionado para o xito. -- Contrariamente ao defendido por Lutero, a Igreja  independente do poder civil, mas este, alm de respeit-la, deve contribuir para 
a implantao do Reino de Deus sobre a terra, castigando os maus e premiando os bons, segundo as orientaes da Igreja. O Estado fica reduzido a um instrumento nas 
mos da Igreja e, em contraposio  tendncia moderna da autonomia e diferena de campos, volta-se para a mais absoluta teocracia. "Sua profunda religiosidade parece 
como enxertada em sua forma metdica de ser, extraordinariamente lcida e clara, inclinada a sistematizar sempre os problemas atravs de um trabalho paciente e contnuo, 
que ele prolonga apesar de sua sade fraca, ajudado por sua memria de ferro e por sua fcil veia de escritor. Sbrio e eficaz no estilo, capta imediatamente a substncia 
dos problemas, expondo-os com clareza, evitando as frmulas escolsticas e preferindo as expresses facilmente inteligveis por todos" (G. Martina, La Iglesia: De 
Lutero a nuestros das, 140).

Cmara, Hlder Pessoa / 113 BIBLIOGRAFIA: Obras: Corpus Reformatorum (Brunswick). Berlim 1850s.; Leipzig 1893s.; J. L. L. Aranguren, Catolicismo y protestantismo 
como formas de existencia. Madrid 1957; M. Weber; La tica protestante y el espritu del capitalismo. Madrid 1962.

Cmara, Hlder Pessoa (1909-)
Bispo de Olinda e Recife no Brasil desde 1964. Onze anos como secretrio da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil -- CNBB -- permitiram-lhe conscientizar o episcopado 
e a Igreja sobre a situao social de pobreza de grande parte da populao. Durante esses anos, sua atividade na pregao, tanto no plpito quanto na televiso, 
foi alertar os cristos sobre o estado de misria fsica, moral e espiritual das favelas e bairros marginalizados do Rio de Janeiro. No Conclio Vaticano II, advogou 
por uma distribuio mais justa das riquezas da Igreja em favor dos pobres. Como bispo, sua atividade centrou-se numa srie de programas sociais, educacionais e 
religiosos tendentes a elevar a vida dos camponeses de sua diocese. Como conseqncia, teve em 1966 srios confrontos com as autoridades governamentais do Estado 
e da nao que terminaram em tiros e ataques  sua prpria residncia. Em 1967, deu origem a uma forte oposio por parte do exrcito e dos proprietrios da terra, 
quando afirmou, na cidade de Pernambuco, que somente a ao social da Igreja poderia evitar uma revoluo violenta dos necessitados. Ao mesmo tempo, denunciava a 
injustia social resultante da m e injusta distribuio da riqueza no Brasil, que fomentava o "colonialismo interior" e a violao dos "direitos humanos bsicos". 
O trabalho social de Dom Hlder Cmara foi reconhecido por vrios Organismos Internacionais. Seu pensamento foi compilado em dois volumes: Revolucin dentro de la 
paz (1968) e Revolucin por medio de la paz (1971). Esses dois livros contm boa parte dos numerosos sermes, conferncias, mediaes que o bispo de Recife pronunciou 
e das quais participou. D. Hlder

114 / Camus, Albert

Cmara ser lembrado sempre como um dos grandes apstolos e missionrios dos pobres em sua justa reivindicao dos direitos fundamentais. Seu trabalho est vinculado 
ao da Igreja do Brasil e da Amrica Latina em geral, na luta pela libertao. Sua obra tem sido uma "educao libertadora", segundo o mtodo de Paulo Freire e os 
princpios da "Teologia da Libertao". Seu reconhecimento  hoje unnime.
BIBLIOGRAFIA: O Deserto  Frtil; O Evangelho com Dom Helder; Indagacoes Sobre uma Vida Melhor; L. Boff, Eclesiognese. As Comunidades de Base reinventam a Igreja; 
E a Igreja se fez povo; Equipo Seladoc, Panorama de la teologa latinoamericana. Salamanca 1975-1984, 6 vols.; Instituto f e Secularidade, Fe cristiana y cambio 
social en Amrica Latina. Sgueme 1973.

Camus, Albert (1913-1960)
"Escritor e filsofo, jornalista e poltico a seu jeito, Camus foi o escritor francs que mais profundamente influenciou os leitores de todo o mundo durante as ltimas 
geraes. O Prmio Nobel concedido a Camus, em 1957, corroborou o fato inegvel dessa fascinao universal. Humanista doloroso e sensvel, entre o absurdo que descreve 
e a solidariedade que converte para sua prpria causa,  uma imagem de lucidez inquieta e exigente que se revisa a si prprio entre distenses incurveis" (M. de 
Riquer-Jos M Valverde, Historia de la Literatura Universal). Charles Moeller, em Literatura do sculo XX e cristianismo, intitula seu estudo sobre Camus: Albert 
Camus ou a honestidade desesperada. E acrescenta: "O autor de Calgula no  um filsofo no sentido tcnico dessa palavra. Precisamos retomar a seu respeito o termo, 
infelizmente muito gasto, de testemunha. Sua obra testemunha certa sensibilidade contempornea diante do aparente silncio de Deus". Depois de analisar de forma 
pormenorizada suas principais obras: O mito de Ssifo, ensaio (1942); A peste, novela (1947); os dramas Calgula (1947) e Os justos, alm de suas pri-

Camus, Albert / 115

meiras obras como As bodas e outras, Ch. Moeller chega a este resumo geral: -- "Partindo do romantismo da felicidade sensvel, Camus orienta-se, atravs de uma revolta 
contra o absurdo, para uma religio da felicidade que impe aos seus adeptos uma espcie de martrio. Concentrada inicialmente sobre a inquietude individual, a obra 
de Camus vai-se abrindo aos poucos para as desgraas do mundo; ela assume um tom de lealdade quase impessoal, que obriga ao respeito. Enfim, violentamente anti-religiosa 
a princpio, a obra camusiana torna-se mais serena; desinteressando-se cada vez mais da `ideologia' crist, Camus exorta-nos com fervor a enquadrar-nos na luta pelos 
`universais concretos', contra a injustia e a violncia". Esse julgamento conjunto sobre a pessoa e a obra de Camus, Moeller o explica em separado nas seguintes 
afirmaes: -- "No  `a peste' o que est na origem da incredulidade do autor de Noces, mas o seu racionalismo, a sua recusa de acreditar em Deus porque tal f 
implicaria numa desvalorizao da vida. Esta concluso  decisiva: Camus nunca se preocupou seriamente com o problema de Deus; sua incredulidade  um ponto de partida, 
uma negativa prvia". -- "A gerao Gide-Claudel est obcecada pela idia da salvao... Em Camus, a opo em favor da felicidade  exclusiva; tomada no ponto de 
partida, mantm-se at o fim;  dentro do tema da felicidade que se realiza uma promoo religiosa. O homem deve sacrificar a sua felicidade pessoal para tentar 
d-la aos outros; ao mesmo tempo -lhe impossvel levar a feito seja o que for, sem fazer violncia aos outros, ou mat-los". -- "Camus ignora a religio crist; 
tambm no  um filsofo. Sua descrena instala-se no ponto de juno da ignorncia religiosa e do ressentimento. A lealdade da sua lgica leva-o a dar  morte dos 
`justos' um valor de redeno". -- "Como viver sem a graa,  o problema que domina o sculo XX", escreve Camus. Esta

116 / Cansio, So Pedro

frase-chave, j dita em outras palavras por Tarrou, explica-se melhor agora; como `viver', significa como evitar, aps o abandono do `sagrado' a queda na abominvel 
revoluo que mata e assassina? A resposta de Camus contm-se nesta simples linha: "A verdadeira generosidade para o futuro consiste em dar tudo ao presente. Os 
que nada do ao `presente' mas lhe sacrificam um `futuro' divino, sero os revolucionrios e os homens religiosos". Assim poderamos continuar criando inumerveis 
frases lapidares sobre esse mago das palavras e das idias. Moeller finaliza o estudo com estas duas reflexes: "Camus nunca refletiu a srio na solidez do seu ponto 
de partida. Alm disso, o atesmo  a raiz mais forte da sua incredulidade". Moeller acabou dizendo: "Como no estimar um homem que em meio ao nosso mundo da vigsima 
quinta hora, de nusea e de `desprezo do homem', escreveu estas linhas: `No homem h mais coisas a admirao que a desdenhar'?".
BIBLIOGRAFIA: Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo. H traduo em portugus de quase toda a obra de A. Camus.

Cansio, So Pedro (1521-1597)
Principal artfice da Contra-Reforma na Alemanha, uniu a uma eminente santidade a eficcia de uma atividade programada e multiforme. Como jesuta e depois superior 
da Companhia na Alemanha, cuidou de estabelecer pontos estratgicos e homens preparados para a docncia e o apostolado nesse pas. Dirigiu seus ataques contra o 
arcebispo eleito de Colnia, muito inclinado para a Reforma. A partir de 1549, pregou na Baviera, em Viena e em Praga. Frutos dessa pregao paroquial e popular 
so os catecismos em diversos graus que publicou para os diferentes nveis de fiis. O catecismo, mais conhecido como Catecismo de So Pedro Cansio, apareceu sob 
o ttulo de Summa doctrine christianae em 1554.

Cartas catlicas / 117

Adiantou-se em 12 anos ao chamado Catecismo Romano ou de So Pio V (1566) (*Catecismo).

Cano, Melchior (1509-1560)
Telogo dominicano da Universidade de Salamanca, tomista e escolstico bem munido para o debate dialtico. Escreveu De locis theologicis, onde expe o mtodo e os 
argumentos da teologia. Como telogo, participou do Conclio de Trento nos debates sobre a Eucaristia e a Penitncia. Depois de vrias lutas internas com telogos 
de outras escolas e tendncias, foi nomeado bispo de Santa Cruz de Tenerife, onde morreu.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Tratado da vitria si mesmo (1550); De sacramentis in genere y De poenitentiae sacramento; De locis theologicis (1563). M. Solana, Historia 
de la filosofa espaola, 1941, III, 131-150.

Caramuel (1606-1682)
*Instituies morais.

Carlos Borromeu So (1538-1584)
*Educadores cristos; *Contra-Reforma.

Carta de Judas (sc. I)
*Cartas catlicas.

Carta de Tiago (sc. I)
*Cartas catlicas

Cartas catlicas
Com esse nome se conhece uma coleo de cartas cannicas do Novo Testamento (NT), atribudas uma a Tiago, uma a Judas, duas a Pedro, trs a Joo. No total, sete. 
O ttulo catlicas proce-

118 / Cartas catlicas

de, sem dvida, de que a maioria delas no vo destinadas a comunidades ou pessoas particulares, mas aos cristos em geral. 1. Carta de Tiago. Mais que uma carta, 
poderia classificar-se como uma homilia ou catequese que exorta  pacincia nas tribulaes, ao domnio da lngua,  misericrdia etc.  dirigida a todas as comunidades 
crists, simbolizadas pelas doze tribos de Israel. A Carta, sobretudo, reduz a lei ao mandamento do amor ao prximo: exalta os pobres e adverte severamente os ricos. 
Insiste nas prticas das boas obras e previne contra uma f estril. A exigncia do amor exclui a explorao, e apresenta a passagem mais violenta do NT contra os 
ricos exploradores na linha proftica do AT. O autor se d o nome de Tiago, irmo ou parente do Senhor, que dirigiu o Conclio de Jerusalm e morreu mrtir no ano 
62. No entanto, o estilo e o grego refinado da carta tornam improvvel ter sido escrita por um judeu de Jerusalm. Talvez se deva pensar num judeu helenista do final 
do sc. I, entre os anos 80-100. At o sc. III no foi considerada como cannica. 2. Carta de Judas. O autor desta carta se diz irmo de Tiago, que , sem dvida, 
o parente do Senhor. O estilo e a linguagem retrica da carta no so prprios de um judeu palestinense. Isso e outras referncias a pregaes dos apstolos sobre 
os tempos difceis sugere uma poca relativamente tardia. Assim como a carta de Tiago, parece ser do final do sc. I. O que interessa a Judas  delatar os perversos 
doutores que colocam em perigo a f crist. Ameaa-os com um castigo divino. Suas blasfmias e abusos morais no passaro sem o castigo diante Deus. 3. Cartas de 
Pedro (1 e 2). 1Pd  um escrito didtico e exortatrio que se prope afianar na f grupos de cristos ameaados pelo perigo da apostasia. O ensino gira em torno 
da graa e do compromisso do Batismo e

Cartas de Pedro / 119

da esperana na vinda de Cristo. Os cristos foram escolhidos e convocados por Deus para seguir e obedecer a Jesus Cristo na sua vida e em seus ensinamentos. A Igreja 
 escolhida Templo de Deus e do Esprito, cuja firmeza  Cristo, a pedra angular sobre a qual est construda. O autor  o apstolo Pedro, conforme nos diz na prpria 
carta.  escrita na Babilnia, denominao pejorativa de Roma no Apocalipse (14,8). Embora alguns coloquem em dvida sua autenticidade, no h razes para no atribu-la 
a Pedro. Data do ano de 64, anterior  perseguio de Nero. 2Pd apresenta-se como o testemunho de Pedro que v prxima a sua morte. Os autores, no entanto, costumam 
atribuir-lhe uma data posterior, apoiados em razes de tipo interno, de estilo, vocabulrio etc.  atribuda a um discpulo do apstolo na primeira metade do sc. 
II. O tema central da carta  a volta de Cristo. No a descreve como uma transformao do mundo nem como o reinado de Deus sobre a sua criao, seno como a destruio 
total da realidade presente. Trs pontos da carta merecem destaque: a vocao crist  "participao da natureza divina"; a definio do carter inspirado das Escrituras; 
a certeza da parusia futura (segunda vinda de Cristo no final dos tempos), apesar da demora e da incerteza de seu dia. Termina com a perspectiva de um mundo novo 
onde habitar a justia.

Cartas de Joo (sc. I)
*Joo Evangelista, So.

Cartas de Paulo (sc. I)
*Paulo Apstolo, So.

Cartas de Pedro (sc. I)
*Cartas catlicas.

120 / Cartuxo, Dionsio

Cartuxo, Dionsio (1402-1471)
Telogo e mstico, escreveu comentrios aos livros da Escritura, s obras de Bocio, de Pedro Lombardo, de So Joo Clmaco e do PseudoDionsio. Embora no sejam 
originais, suas obras chegaram a ser muito lidas no seu tempo. Foi muito apreciado pela segurana de sua doutrina em temas morais e de disciplina.

Cartuxo, Ludolfo (+1378)
Ludolfo de Saxnia, mais conhecido por "Cartuxo", passou  histria por sua famosa Vita Christi. No  uma biografia de Cristo no sentido rigoroso da palavra, seno 
uma prolongada meditao sobre a vida e as aes de Jesus, com instrues doutrinais, espirituais e morais. Inclui tambm diversas oraes. Foi um dos livros mais 
populares da Baixa Idade Mdia.

Casel, Odo (1886-1948)
Monge beneditino da abadia de Maria Laach. So bem conhecidos seus trabalhos sobre os aspectos teolgicos da liturgia. A Eucaristia resume e atualiza os mistrios 
de Cristo atravs da Igreja. Sua principal obra, Os mistrios do culto cristo, foi o texto clssico para a compreenso da liturgia nos anos anteriores ao Conclio 
Vaticano II. Odo Casel  um elo importante na corrente de autores pioneiros e lderes do movimento litrgico.

Cassiano, Joo (360-431)
Ainda muito jovem, ingressou como monge no mosteiro de Belm, de onde saiu, logo depois, com nimo de conhecer melhor e estudar a vida monacal no Egito. Em 415 fundou 
dois mosteiros perto de Marselha. De Cassiano ficaram duas obras fundamentais. Escritas num latim simples e narrativo, exerce-

Cassiodoro / 121

ram uma influncia decisiva na organizao da vida monacal. -- As Institutiones. Nelas estabelece as regras fundamentais da vida monstica, assim como as dificuldades 
que apresenta sua organizao e prtica. -- As Collationes ou Conferncias. Coletam as conversaes com os padres do deserto egpcio.  uma obra fundamental para 
compreender a vida e a espiritualidade monstica. A traduo para todas as lnguas modernas faz deste livro e de Cassiano um dos "clssicos cristos" imprescindveis. 
Em seu tempo, e posteriormente, viu-se em sua doutrina um toque de semipelagianismo.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 49-50; Corpus Vindobonense, 13 e 17.

Cassiodoro (485-580)
Flavius Magnus Aurelius Cassiodorus, senador, conhecido como "salvador da civilizao ocidental". Nascido na Calbria, deixou a vida pblica em 545, retirando-se 
para a vida monstica. Fundou o "Vivarium", mosteiro onde morreu. A obra principal de Cassiodoro  Institutiones divinarum et saecularium litterarum, em que advoga 
pela unio dos estudos cristos e profanos. Consta de dois livros: o primeiro refere-se  cultura bblica e crist; o segundo,  profana. A obra  uma espcie de 
enciclopdia universal, bsica para a cultura medieval. -- Na segunda parte, distingue trs artes e quatro disciplinas: o conhecido "trivium" e o "quadrivium". As 
trs artes so a gramtica, a retrica e a dialtica. Essa ltima, prpria de Cassi.odoro, contra a tradio latina. As quatro disciplinas so as matemticas, que 
compreendem aritmtica, geometria, msica e astronomia. -- Comps tambm outras obras: De anima, em 12 captulos. Nela faz referncia a textos de

122 / Catarina de Gnova, Santa

Santo Agostinho, C. Mamerto e  Escritura, para provar e definir a natureza, as virtudes e o destino ultraterreno da alma. Em De musica coleta as teorias musicais 
dos antigos.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 69-70.

Catarina de Gnova, Santa (1447-1510)
*ngela de Foligno.

Catarina de Ricci, Santa (1522-1590)
*ngela de Foligno.

Catarina de Sena, Santa (1347-1380)
Nascida em Sena, recebeu o nome de Catarina Benincasa; morreu em Roma. Foi canonizada em 1461. Proclamada doutora da Igreja, junto a Teresa de vila, em 1970. Santa 
Catarina de Sena  uma das mulheres de vida mais intensa: por sua atividade em favor da paz,  reconhecida e proclamada padroeira da Itlia; por seu incansvel zelo 
em favor da volta do papa de Avinho para Roma, mereceu o ttulo de apstola da unidade do papado e da Igreja. Ao mesmo tempo, o fervor de sua atuao pblica no 
diminuiu a intensidade de seus xtases nem do rigor das prticas ascticas. Morreu aos 33 anos, deixando atrs de si uma obra e um exemplo indelveis. Trs coisas 
resumem a vida dessa freira terciria dominicana, que em 1363 ingressa no convento das Irms da Penitncia de Sena: 1) Trazer a paz s cidades da Itlia. 2) Conseguir 
a volta do Papa Gregrio XI a Roma. 3) Promover uma cruzada contra os muulmanos. Para isso no deixou de viajar pelas diversas cidades italianas, entrevistando 
e escrevendo s pessoas que pudessem trazer a paz  Itlia. Foi para Avinho na qualidade de mediadora no oficial do Papa Gregrio XI, cuja volta a Roma deu-se 
em 1377. No con-

Catarina de Sena, Santa / 123

seguiu, no entanto, mobilizar a cruzada. Contudo, deve sua influncia no mundo eclesistico e poltico do sc. XIV  sua excepcional fora de vontade e  energia 
e zelo com que atuou nos conflitos da poca.  uma mulher de fogo: "il mio cuore  fuoco". De sua condio de "simples crist", dirigiu-se com liberdade a todos, 
particularmente ao papa. Disse a Urbano VI: "Meu doce pai, faze as coisas com moderao, pois faz-las imoderadamente, antes estraga do que compe; com benevolncia 
e corao tranqilo... elege um bom grupo de cardeais italianos". Os escritos de Santa Catarina de Sena, que foram todos eles ditados, incluem umas 380 cartas, 26 
oraes e os Quatro tratados da Divina Doutrina. Essa ltima obra  conhecida como o Dilogo de Santa Catarina ou simplesmente o Dilogo, composto entre 1376-1378. 
Atravs de suas Cartas e sobretudo do Dilogo, Santa Catarina de Sena transmite-nos sua experincia religiosa e mstica. Graas a essas obras, passou a ser uma das 
grandes mestras da asctica e da mstica crist, merecedora do ttulo de "Doutora da Igreja". Santa Catarina vive a mstica da "essncia" como os grandes msticos 
da poca, por exemplo o mestre Eckhart, Tauler etc. A experincia espiritual  o encontro ou a permanncia estvel do homem nesse "lugar" onde se encontra simultaneamente 
a "essncia" da existncia humana e a "essncia" de Deus. Nossa mstica nos fala "da cela interior" onde se produz o encontro de Deus e da Alma. -- No Dilogo esboa-se 
tambm o que se denominou de "mstica nupcial", de um fundo mais tipicamente bblico e cristo, e que ter seus grandes mestres em Santa Teresa e em So Joo da 
Cruz. Utiliza-se o smbolo nupcial por sua capacidade de expressar a experincia, no propriamente do ser-um, seno do estar-unido, da comunho na transformao, 
da presena que convida, do amor recebido que faz amar de uma maneira nova, indita.

124 / Catecismo

-- "Sua prosa carece de riqueza tcnica, mas se apia nos infinitos recursos da imaginao e na intuio da santa, que freqentemente conferem a suas pginas tons 
vivos, tumultuados e quase `barrocos'. E, assim, Santa Catarina supre a falta de experincia literria com sua sensibilidade sutil e variada, com a eficcia de suas 
razes, com uma singular penetrao psicolgica, com a sinceridade de suas efuses estticas e com o ardor de seu apostolado asctico, tudo o que d a sua obra momentos 
de grande intensidade lrica" (Diccionario Bompiani de Autores Literarios).
BIBLIOGRAFIA: Obras de Santa Catarina de Siena. El dilogo, Oraciones y Soliloquios. Edio de Salvador e Conde (BAC); A. Royo Marn, Doctoras de la Iglesia. Doctrina 
espiritual de Santa Teresa de Jess y Santa Catalina de Siena (BAC).

Catecismo
O catecismo ou os catecismos, como gnero didtico dentro da Igreja,  uma continuao escrita da catequese oral e direta, praticada desde os primeiros sculos do 
cristianismo. Aparece como substituio desta e do catecumenato, que fora uma instituio perfeitamente definida na Igreja primitiva e posterior. O catecismo  um 
gnero literrio didtico em forma de manual de instruo crist, preparado  base de perguntas e respostas. Seu surgimento  tardio, j que remonta aos sculos 
XV-XVI. Isto no quer dizer que anteriormente no se tenham dado manuais de instruo para os jovens, para os rudes ou lavradores, para os convertidos, os infiis 
ou testemunhar a f. So conhecidos, nesse sentido, alguns dos tratados de Santo Agostinho, de So Joo Crisstomo e em especial de So Cirilo de Jerusalm com suas 
famosas catequeses. Com mesmo sentido e finalidade foram escritas algumas das summas da Idade Mdia, como as de Santo Toms, de So Raimundo de Peafort e de Raimundo 
Llio, entre outras. O termo catecismo, no entanto, foi utilizado para

Catecismo / 125

designar os manuais escritos em forma de perguntas e respostas, surgidos no comeo da Idade Moderna. A partir da inveno da imprensa no sc. XV, e principalmente 
da Reforma Protestante do sc. XVI, o catecismo transforma-se em um meio de instruo, de exposio da f e de muito importante controvrsia. Seguindo um pouco os 
manuais de instruo religiosa da Idade Mdia, contm trs partes correspondentes s trs virtudes teologais: a) significado da f: explicao do Credo dos Apstolos; 
b) esperana: explicao do "pai-nosso"; e c) a caridade: os Dez Mandamentos. Os catecismos surgidos da Reforma esto estruturados em quatro partes: em que acreditar, 
a que orar, o que realizar e o que receber, segundo o esquema dos clssicos catecismos de Astete e Ripalda. A era dos catecismos cobre todo o sculo XVI e estende-se 
com uma nova compreenso at nossos dias. So clssicos os dois catecismos de Lutero: O Catecismo Menor (1529) e o Catecismo Maior destinado ao clero (1529). Neles 
se fixa a doutrina luterana sobre os sacramentos, sobretudo a do Batismo e da Eucaristia. Em 1537, Calvino publicou um Catecismo para as crianas, que pela sua dificuldade 
de compreenso teve de ser adaptado e publicado novamente em 1542. O Catecismo de Heildelberg (1563) se imps nas Igrejas Reformadas da Sua. As Igrejas Presbiterianas 
confeccionaram seu pequeno e grande catecismo, conhecido como Catecismo de Westminster (1647). Em 1549, juntamente com o Book of Common Prayer, publicou-se a primeira 
parte do catecismo anglicano e a segunda em 1604, com a doutrina sobre os dois sacramentos. At 1661 sofreu diversas modificaes. Da parte catlica e durante o 
Conclio de Trento (1545-1563), publicou-se o catecismo catlico mais famoso, a Summa Doctrinae Christianae (1554) de So Pedro Cansio, jesuta alemo. Seguiram-lhe 
o de So Roberto Belarmino na Itlia (1597); os de Edmond Auger

126 / Catecismo

(1563) e J. B. Bossuet (1687) na Frana; os de Gaspar Astete (1599), com mais de 600 edies, e Ripalda (1615) na Espanha etc. Seria interminvel a lista dos que 
apareceram ao longo dos sculos seguintes at nossos dias. Os catecismos dos sculos XVIII-XX supem um esforo de sntese sistemtica e apologtica de telogos 
e educadores. Mas a maior parte deles, sobretudo os que se dirigem a um pblico culto, abandonam a forma tradicional de perguntas e respostas para se converter em 
tratados ou manuais de formao e informao crist. Seguindo o exemplo do chamado Catecismo romano -- publicado em 1566 por So Pio V, que no  um catecismo no 
sentido indicado, porm, uma exposio doutrinal para utilizao dos sacerdotes -- a maior parte dos catecismos modernos adotam a forma de exposio doutrinal. So 
a adaptao dos manuais de teologia em linguagem mais acessvel e a forma pela qual a doutrina crist sai das salas de aula e dos livros em latim e chega ao povo. 
Finalmente em 1993 foi publicado o Catecismo da Igreja Catlica. Como reao aos catecismos catlicos e protestantes, o telogo ortodoxo Pedro Mogila comps a Confisso 
ortodoxa da Igreja catlica e apostlica oriental. Foi aprovada por um Snodo provincial em 1640 e estendida a todas as Igrejas Orientais pelo Snodo de Jerusalm 
em 1672. Mesmo assim, por ordem do czar Pedro I, o Grande, preparou-se em 1723 um pequeno catecismo ortodoxo.
BIBLIOGRAFIA: Para maiores informaes sobre o catecismo, os catecismos, oferecemos as seguintes obras: Catecismo Catlico para adultos. La fe de la Iglesia, pela 
Conferncia Episcopal alem (BAC); Novo catecismo para adultos (Catecismo holands).; J. N. D. Kelly, Primitivos credos cristianos. Salamanca 1980; Catecismo romano 
de san Po V (texto bilnge) (BAC); Catecismo de Astate y Ripalda, por L. Resines (BAC); Comentarios sobre el "Cathecismo Christiano" por B. de Carranza. Edio 
crtica e introduo por J. L. Tellechea (BAC maior), 2 vols. Catecismo da Igreja Catlica, Vozes e Loyola, 1993.

CELAM / 127

Cayetano, Toms de Vo (1469-1534)
Telogo dominicano. Duas facetas destacamse em sua vida: 1.  considerado o mais autorizado comentarista de Santo Toms de Aquino. Seu Comentrio  Summa Teolgica 
(1507-1522)  um verdadeiro monumento e origem do renascimento tomista do sc. XVI. Dele nasce a "nova escolstica renascentista", que dar esplndidos frutos na 
Espanha (Salamanca) e Portugal (Coimbra). 2. Cayetano foi tambm um homem de Igreja, um diplomtico a servio da causa de Roma. Primeiro como geral de sua ordem 
(1508-1518), como cardeal (1517) e bispo de Gaeta (1519), e depois, como legado do papa, teve um papel importante na poltica religiosa do seu tempo. Apressou a 
reforma da Igreja no Conclio de Latro em 1512. Procurou convencer Lutero em 1518, e finalmente se ops ao projetado divrcio de Henrique VIII (1530).

CELAM (Conselho Episcopal LatinoAmericano) (1955)
As conferncias episcopais -- com longa tradio na Europa, Amrica, sia e frica -- receberam um impulso e funes muito especiais no Conclio *Vaticano II."... 
Esse sacrossanto Snodo julgou ser de toda a convenincia que, em todo o mundo, os Bispos de uma nao ou regio se agrupem numa nica assemblia, para que periodicamente 
se renam, comunicando entre si as luzes da prudncia e da experincia, deliberar entre si e formar uma santa conspirao de foras para bem comum das Igrejas" (CD 
37s.). "Onde as condies especiais o exigirem, os Bispos de vrias naes, com a aprovao da S Apostlica, podem constituir uma nica conferncia" (idem 38, 5). 
Tanto as conferncias nacionais quanto as continentais adquirem uma dimenso e uma influncia que nunca tiveram anteriormente. Em nvel

128 / CELAM

continental, merece destaque o Conselho Episcopal Latino-Americano, conferncia de bispos de 22 naes de lngua portuguesa e espanhola. O protagonismo que esse 
conselho tem representado na vida religiosa, pastoral, social e poltica na Amrica Latina nos leva a abrir um espao maior para ele. O CELAM nasceu em 1955, e *Joo 
XXIII o descreveu como um dos "organismos mais importantes da estrutura catlica universal". Tem seu secretariado permanente em Bogot (Colmbia). Com sua constituio 
e estatutos prprios, celebra uma assemblia geral anual,  qual comparecem delegaes episcopais de todos os pases da Amrica Latina. Essa assemblia geral  seguida 
de uma sesso extraordinria dedicada a questes monogrficas sobre temas candentes. Desta maneira, o Conselho converte-se na caixa de ressonncia de todos os problemas 
que a Igreja tem na Amrica do Sul.  uma tomada de conscincia, de estudo, de planejamento e deliberao de orientaes e decises a seguir, atravs de seus treze 
departamentos pastorais. A atuao preferencial do CELAM  marcada pela realidade de Amrica do Sul: uma realidade plural de subdesenvolvimento e riqueza, de revoluo 
e represso, de democracia e ditadura, de ignorncia e atraso cultural e de ecloso vital e social. Nos quarenta longos anos de existncia, o CELAM teve e ainda 
tem de fazer frente, tanto aos problemas internos da Igreja Sul-Americana, quanto  realidade sociopoltica e cultural do meio. A eles fez frente em trs grandes 
conferncias. A primeira, em 1966, realizada em Mar del Plata (Argentina), cuja ordem do dia era: "A presena ativa da Igreja no desenvolvimento econmico e social". 
Em sua declarao final, convidavam-se os catlicos latino-americanos a "estimular as reformas de estruturas necessrias para maior participao da populao na 
vida poltica, econmica, social e cultural". Sublinha-se, de maneira particular, a necessidade da reforma agrria. O resultado mais positivo dessa primeira

CELAM / 129

conferncia geral foi o chamado Manifesto dos Bispos do Terceiro Mundo, assinado em 1967 por Hlder *Cmara, arcebispo de Recife no Brasil; Mndez Arceo, bispo de 
Cuernavaca, no Mxico, e Larran, bispo de Talca no Chile. A II Conferncia geral do CELAM aconteceu em Medelln (Colmbia) em 1968. Medelln  um nome mgico, que 
representa o ponto de partida real e eficaz da postura e da ao pastoral dos ltimos anos da Igreja Latino-Americana. Presidida pelo Papa *Paulo VI, que pronunciou 
seu discurso inaugural, Medelln resultou numa sacudida muito forte na conscincia de toda a Amrica. "A realidade da Amrica  trgica -- diz o documento-base -- 
e exige uma resposta to rpida quanto eficaz". Medelln fez uma anlise da situao real na Amrica, procurou suas razes e tratou de encontrar caminhos para solues 
eclesiais. No canonizou a violncia, mas deu a entender que a compreendia sem compartilhar quando criticou duramente a violncia institucional dos poderosos que 
se opem  dignidade humana e oprimem a liberdade". O mais importante de Medelln foi a colaborao conjunta do episcopado, de sacerdotes, religiosos, leigos de 
diferentes tendncias, assim como de alguns dos telogos e movimentos mais comprometidos da Amrica. Pela primeira vez atuaram telogos da libertao na pessoa de 
seu principal representante, o peruano Gustavo Gutirrez. "Um continente como a Amrica Latina -- diz -- no vem, em primeiro lugar, do no-crente, seno do no-homem; 
quer dizer, daquele a quem a ordem social no reconhece como tal: o pobre, o explorado, o que  sistemtica e legalmente despojado de seu ser de homem, o que apenas 
sabe que  um homem"... Essas palavras explicam e justificam essa magna assemblia. Desde ento, o CELAM tem prosseguido seu trabalho "orientado por uma linha de 
prudncia", como se viu nas assemblias de So Jos (Costa Rica, 1970) e de Sucre (Bolvia, 1972). Essa mes-

130 / Celso

ma linha de "compromisso prudencial" refletiuse na III Conferncia do Episcopado Latino-Americano, ocorrida em Puebla (Mxico) em 1979. No obstante, a Conferncia 
de Puebla retomou as propostas de Medelln nos cinco ncleos preparados pela prpria assemblia: 1) Viso pastoral da realidade na Amrica Latina (4 temas); 2) Reflexo 
doutrinal: desgnios de Deus sobre essa realidade e evangelizao; 3) Evangelizao na e pela Igreja na Amrica Latina; 4) A Igreja, evangelizadora e missionria 
hoje e no futuro da Amrica Latina; 5) Grandes prioridades pastorais. Em torno destes cinco grupos temticos, sobre o esquema votado e aprovado por unanimidade, 
estruturou-se o trabalho dos quinze dias que durou a III Conferncia. Seu fruto mais visvel e imediato foi a publicao dos documentos: a mensagem aos povos da 
Amrica Latina e o documento, propriamente dito, objeto da maior parte dos trabalhos. "Parece que a reunio de Puebla fez-se perfeitamente consciente, diante das 
presses da direita e da esquerda, da realidade latino-americana e evitou a tentao fcil da condenao indiscriminada. E se  certo que condena o coletivismo marxista, 
tambm condena o liberalismo capitalista e a doutrina da segurana nacional. Condena a violncia guerrilheira, mas tambm a violncia institucionalizada desde o 
poder... H, por outro lado, uma justa valorizao das culturas autctones e uma defesa das denncias profticas, e muito escassas, embora claras, referncias a 
temas mais polmicos e menos essenciais, como o do celibato".
BIBLIOGRAFIA: Medelln. Reflexiones en el CELAM, pelo Secretariado do CELAM (BAC). Madrid; Concluses da Conferncia de Puebla, Evangelizao no presente e no futuro 
da America Latina, 1979; B. Hernando. Puebla-79, em 2000 Aos de cristianismo, 6, 280s.

Celso (sc. II)
Filsofo que, junto a *Luciano de Samosata, *Juliano Apstata, e Porfrio,  um dos escritores

Chateaubriand, Franois Ren / 131

pagos mais virulentos contra o cristianismo. Seu Discurso verdadeiro  o primeiro ataque literrio contra os cristos. Somente se conservou uma parte da obra original. 
A rplica que lhe fez Orgenes transmite-nos boa parte do texto. Celso reconhece e elogia a doutrina crist do Logos (Verbo de Deus, Segunda Pessoa da Trindade) 
e o alto cdigo moral dos cristos, mas nega ao cristianismo seu ttulo de religio nica e verdadeira. Considera repugnante a doutrina da Encarnao e da crucifixo 
de Cristo. Ao mesmo tempo convida os cristos a deixar sua intolerncia religiosa e poltica. O Discurso verdadeiro (c. de 178) foi o alvo de controvrsias de muitos 
padres da Igreja.
BIBLIOGRAFIA: Discurso verdadero. Alianza Editorial, Madrid 1988.

Cenobitismo (sc. III-V)
*Monaquismo; *Bento de Nrsia, So.

Cesbron, Gilbert (1931-1979)
*Literatura atual e cristianismo.

Chateaubriand, Franois Ren, visconde de (1768-1848)
Escritor romntico francs. Est includo no grupo de "escritores tradicionalistas", surgidos depois da Revoluo Francesa, no perodo da restaurao da monarquia 
pela qual lutaram. Tornouse clebre por sua obra O gnio do cristianismo (1802): uma exaltao e defesa do cristianismo. Tentou ressuscitar o cristianismo do afundamento 
a que havia sido levado pelos filsofos e pensadores ilustrados do sc. XVIII. Chateaubriand substitui a razo ou os argumentos racionais pelo "sentimento". Seu 
livro despertou entusiasmo nas fileiras da Igreja a partir de seu surgimento. Colocou a defesa da tradio a servio do catolicis-

132 / Chenu, M. D.

mo, considerado como o nico depositrio da tradio autntica da humanidade. Junto com De Bonald, De Maistre e Lamennais, constitui as bases, no campo filosfico-poltico, 
da defesa da tradio. So conhecidos como os pensadores teocrticos, ultramontanos ou tradicionalistas.

Chenu, M. D. (1895-1990)
*Teologia atual, Panorama da; *Congar, Yves Marie.

Chesterton, Gilbert Keith (1874-1936)
Crtico e autor ingls de uma verstil e originalssima personalidade. Cultivou a poesia, o ensaio, a novela, a narrao curta, a biografia etc. Tudo o que Chesterton 
diz -- com estilo inimitvel -- o conduz ao paradoxal, ao contraste, ao absurdo e, principalmente, ao riso e at  gargalhada. Mas tambm h sua faceta de cristo 
catlico convencido e beligerante. De fato, Chesterton publicou, em 1908, Ortodoxia, a obra que aponta para sua ruptura definitiva com o credo unitrio no qual havia 
sido educado, e a plena aceitao das verdades crists. Em 1922, passou para a Igreja catlica, acrescentando ainda mais vivacidade e controvrsia a sua vida e escritos. 
Os estudiosos da obra de Chesterton costumam distinguir nele o crtico social da primeira poca de jornalista que evolui do liberalismo ao socialismo, e deste -- 
junto a seu amigo H. Belloc, cristo e medievalista-- ao distribucionismo, favorvel  distribuio da terra. A seguir, vem sua segunda preocupao: a crtica literria 
e a controvrsia, que o transformam na primeira figura nacional. No menos interessante  sua obra de fico literria: a novela policial e de suspense e a coleo 
de novelas curtas. Basta citar algumas como O homem que era quinta-feira (1908), ou a srie dedicada ao Padre Brown: A inocncia do P. Brown (1911), A sabedoria 
do P. Brown (1914),

Chesterton, Gilbert Keith / 133

A incredulidade do P. Brown (1926), O segredo do P. Brown (1927) e O escndalo do P. Brown (1935). Nosso interesse centra-se aqui no aspecto mais srio e profundo 
de Chesterton: suas convices e crenas crists. s suas primeiras obras, Hereges (1905) e Ortodoxia (1909), deve-se acrescentar Igreja catlica e converso (1926); 
Afirmaes e negaes (1934); seu ensaio de teologia histrica, O homem eterno (1925); suas biografias de So Francisco e de Santo Toms (1923 e 1933 respectivamente). 
E, finalmente, sua Autobiografia (1936). -- "O universo  um intricado tecido -- diz em Ortodoxia -- de admirvel variedade, e sua explicao  o cristianismo, que 
contm dentro de si tudo o que de verdadeiro e justo podem dar as demais religies e filosofias". -- A ortodoxia, ao contrrio da heresia,  equilbrio, difcil 
porm rico, entre exigncias contrapostas e tenses internas da realidade. "No h nada to cheio de perigos nem to excitante quanto a ortodoxia; ela  sabedoria, 
e ser sbio  mais dramtico que ser bobo" (Ortodoxia). -- Em seus ensaios leva a irreverncia paradoxal at a sua mais completa falta de seriedade. Assim, diz em 
sua Defesa da nescidade: "A nescidade e a f so as duas afirmaes simblicas supremas da verdade". E, no entanto, esse homem, que dominava o paradoxo como ningum, 
fez uma obra de idias e de grandes e categricas verdades. Em suas inumerveis biografias, pesquisas e ensaios sobre literatos, poetas, santos e escritores, supera-se 
sobretudo quando tem de sustentar um desafio dogmtico s idias de seu tempo. Predominava nele um interesse fundamental, o religioso, que no ficava isolado e sectrio, 
mas que animava os diversos problemas que se lhe apresentavam.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Clsicos del siglo XX. Plaza e Jans, Barcelona, 4 vols. Alm destas existem tradues de obras avulsas.

134 / Cincia e f

Cincia e f (Galileu)
O eterno problema entre razo e f, cincia e f, cincia e revelao manifesta-se claramente no conhecido "caso Galileu". Desde ento (sc. XVII), as relaes entre 
cincia e f, cincia e cristianismo tm sido definitivamente alteradas. Hoje podemos falar de um verdadeiro divrcio existente entre ambas. O sc. XVII havia conquistado 
a autonomia da cincia a tal preo e, conseqentemente, esteve preocupado em defend-la. A histria posterior demonstra que se dedicaram mais esforos para colocar 
a cincia numa perspectiva superior, do que em ressaltar os laos entre cincia e f. Ainda hoje, apesar de sensveis progressos, essa sntese, sem dvida alguma, 
no tem sido realizada de forma satisfatria. Galileu (1564-1642) nasceu em Pisa e morreu em Arcetri. Comeou a ficar famoso e polmico quando, em 1610, publicou 
sua obra Sidereus nuntius. O que expe nesse livro? "Que a Lua apresenta, como a Terra, irregularidades em sua superfcie. Que uma e outra giram ao redor do Sol. 
Que o Sol no  o centro do mundo; e que, alm disso, a enorme multido dos astros impede

Cincia e f / 135

que se possa enumer-los". Todas essas afirmaes escandalizam aquela poca. Contradiziam formalmente o ensino da Igreja nesse campo. Esta, de fato, argumentava 
que a Terra  o centro do cosmos, segundo a velha teoria de Aristteles e Ptolomeu, e considerada como a nica de acordo com as Escrituras. Segundo ela, a interpretao 
literal da Escritura era contrria  doutrina de Galileu e, naturalmente,  de Coprnico, na qual se apoiava. Tudo se agravou quando em 1615, em carta a Cristina 
de Lorena, Galileu lanou-se ao ataque, e do ponto de vista teolgico fez duas afirmaes: 1. Separao de poderes entre Igreja e cincia: cada uma tem seu prprio 
mbito e no deve avanar em terreno alheio. "A Bblia --diz -- no foi escrita para ensinar-nos astronomia... A inteno do Esprito Santo no  mostrar-nos como 
funcionam os cus, mas como ir para o cu". 2. Em teologia afirma-se "que no pode ser considerado hertico aquilo que antes no se demonstre ser impossvel ou falso". 
Em conseqncia, pede a demonstrao da falsidade de seu sistema. Simplificando, os fatos que se sucederam foram os seguintes: em 1616 era colocado no *Index de 
livros proibidos o De revolutionibus orbium coelestium, de Coprnico. Ao mesmo tempo, Galileu era intimado a no defender em pblico o sistema copernicano. A reao 
de Galileu consistiu em publicar, em 1632, os Dilogos sobre os dois grandes sistemas do mundo. Esses dois sistemas so o antigo de Ptolomeu e o novo de Coprnico, 
resultando desacreditado o primeiro. No ano seguinte (1633), foram proibidos os Dilogos. Declara-se Galileu "suspeito de heresia por haver acreditado e mantido 
uma doutrina falsa e contrria s santas e divinas Escrituras". Recebe de joelhos uma frmula de abjurao e submetese solenemente a ela. "Eu, Galileu, florentino, 
de setenta anos de idade, de joelhos diante de vocs... juro que sempre acreditei, acredito agora, e com a ajuda de Deus continuarei acreditando no futu-

136 / Cincia e f

ro em tudo o que a Santa Igreja Catlica e Apostlica tem por verdadeiro, prega e ensina" (Texto da abjurao). No obstante,  obrigado a residncia forada em 
sua casa de Arcetri, perto de Florena, onde morreu, no sem antes publicar (1638) as Consideraes e demonstraes matemticas sobre duas novas cincias, ltima 
exposio de seu pensamento. Depois de trs sculos e meio, o "caso" Galileu no perdeu nada de sua atualidade, porque Galileu foi o primeiro a questionar as relaes 
entre a cincia e a religio, e reivindicar sua autonomia recproca. Galileu foi certamente vtima de uma poca de rigor da Igreja: era a hora da contraofensiva 
catlica, acompanhada de uma atitude defensiva. "Galileu passou  histria como o defensor dos direitos do esprito cientfico, da razo e da experincia frente 
ao esprito dogmtico; como o artfice de uma revoluo cultural e, a esse ttulo, como o homem que abriu a era da cincia moderna". Contudo, isso no nos deve fazer 
pensar que cincia e f, cincia e religio sejam contraditrias. Tanto no campo da filosofia quanto no da cincia, o sculo XVII apresenta numerosos casos de harmonia 
e unio entre f e razo, entre cincia e cristianismo. Assim acontece na filosofia racionalista de Descartes, de Leibniz e de outros grandes filsofos, como Malebranche. 
A razo remete, em ltimo instncia,  f e  teologia. E na vida prtica esses autores combinaram suas vidas com os princpios cristos. Quanto  cincia deste 
sculo, homens como Pascal, Newton e muitos outros demonstraram que viveram em harmnica aceitao de sua f crist. No mesmo sculo XVIII -- sculo da cincia emprica 
-- encontramos muitos homens como Mersenne (catlico), Willkins (anglicano) e o beneditino espanhol Feijo que harmonizaram e conjugaram cincia e f. Em 1757, as 
obras de Galileu foram retiradas do Index. A Igreja de hoje reconheceu, por meio do Papa Joo Paulo II, a contribuio de Galileu

Cipriano, So / 137

 cincia. Contudo, a Igreja foi e continua sendo o bastio do obscurantismo . Boa parte da apologtica destes ltimos sculos tem-se dedicado a rebater tal acusao 
sem consegui-lo totalmente. Os sculos XVIII e XIX em particular trataram de construir uma cincia autnoma sem relao alguma com a f, relao sentida e vivida 
como impossvel.
BIBLIOGRAFIA: Le opere di G. Galilei. Firenze 18901909, 15 vols.; A mensagem e o mensageiro sideral; Opsculos sobre o movimento da terra; Carta a Cristina de Lorena; 
Dilogos sobre os dois mximos sistemas do mundo ptolemaico e copernicano; R. Mondolfo, El pensamiento de Galileo y sus relaciones con la filosofa y la ciencia 
antiguas (1944); Georges Gusdorf, La revolucin galilene, 1969, 2 vols.; G. de Santillana, O crimen de Galileo, 1960.

Cipriano, So (200-258)
Nasceu provavelmente em Cartago, de famlia pag, rica e summamente culta.De grande prestgio como hbil retrico e mestre da eloqncia. "Sob a inflncia do presbtero 
Ceclio, converteu-se ao cristianismo e deu todas as suas riquezas aos pobres" (So Jernimo, De Viris, III, 67). Pouco tempo depois de sua converso, foi elevado 
ao sacerdcio e logo aps, "por aclamao do povo", foi escolhido bispo (248). Aps um pontificado atormentado por perseguies e controvrsias, foi desterrado para 
Cucubis em agosto de 257. No ano seguinte, no dia 14 de setembro, foi decapitado perto de Cartago.  o primeiro bispo africano mrtir. Sobre sua priso, julgamento 
e martrio contamos com a Acta proconsularia Cipriani, que se baseia em documentos oficiais. Cipriano  tido como o segundo telogo africano depois de *Tertuliano, 
a quem, por outro lado, admirava. "Tinha por costume -- diz So Jernimo-- no deixar passar um s dia sem ter lido algo de Tertuliano, e falava com freqncia a 
seu secretrio: `D-me o mestre' referindo-se a Tertuliano". No entanto, difere notavelmente dele, j que possua aqueles dons do corao que vo sempre unidos  
caridade e  amabilidade, 

138 / Cipriano, So

prudncia e ao esprito de conciliao, coisas que o diferenciavam da intemperana e dureza de Tertuliano. So muitas e de valor as fontes que nos informam sobre 
a vida e atividade de Cipriano. As mais importantes e fidedignas so seus prprios tratados e sua numerosa correspondncia. Todas as suas obras foram provocadas 
por circunstncias particulares e esto intimamente relacionadas com os acontecimentos de sua vida e de sua poca. Era um homem de ao a quem interessava mais a 
direo das almas que as especulaes teolgicas. Sua linguagem e estilo so claros e bem trabalhados, mostrando uma clara influncia da Escritura. Na antigidade 
crist e na Idade Mdia, Cipriano foi um dos autores mais populares. Suas obras chegaram-nos atravs de trs catlogos antigos. Destacam-se os tratados: Ad Donatum 
(247), dirigido a seu amigo Donato, em que descreve os efeitos da graa divina em sua converso; Sobre a roupagem das virgens foi considerado por Santo *Agostinho 
como modelo para os jovens oradores cristos. So normas de conduta para as virgens, "flores da Igreja, honra e obra mestra da graa"; Sobre os apstatas (251), 
um livro candente, pois lembra a conduta dos mrtires que deram suas vidas pela f, dos que sacrificaram aos deuses antes de que fossem obrigados a isso, dos que 
foram frgeis depois de grandes torturas...Todos devem fazer penitncia. Esse livro, lido no Conclio de Cartago de 251, foi recebido como norma de atuao no difcil 
problema dos lapsi. O mais importante tratado de Cipriano  A unidade da Igreja (251). "D-nos a chave de sua personalidade e de tudo o que escreveu em forma de 
livros ou cartas." Diz em sua introduo que "os cismas e heresias so causados pelo diabo. Que so mais perigosos inclusive que as perseguies, porque comprometem 
a unidade interna dos crentes, arrunam a f e corrompem a verdade. Todo cristo deve permanecer na Igreja Catlica, porque no h mais do que uma s Igreja, a

Cirilo de Alexandria, So / 139

que est edificada sobre Pedro. No h salvao fora da Igreja": "No pode ter a Deus por pai quem no tem a Igreja por Me". So treze os tratados que Cipriano 
escreveu. Versam sobre a morte, as boas obras e as esmolas, as vantagens da pacincia, do cime e da inveja, exortao ao martrio etc. As Cartas refletem, por sua 
vez, os problemas e as controvrsias com que teve de enfrentar a administrao eclesistica do sc. III. Revelamnos tambm as esperanas e os temores, a vida e a 
morte dos cristos numa das mais importantes provncias eclesisticas. No total, 81 cartas, das quais 65 so de Cipriano e 16 foram escritas a ele ou ao clero de 
Cartago. Encontra-se nessas cartas, alm de uma fonte importante para a histria da Igreja e do Direito Cannico, um monumento extraordinrio do latim cristo, pois 
enquanto seus tratados acusam as influncias de procedimentos estilsticos, suas cartas reproduzem o latim falado dos cristos do sc. III.
BIBLIOGRAFIA: Obras de San Cipriano, W. Hartel: CSEL 3, 1-3 (1868-1871) ML Supplementum 1,1 (Paris 1958) 67-72; Obras de San Cipriano. Valladolid 1807, 2 vols. Edies 
parciais das obras: Obras de San Cipriano. Ed. bilnge preparada por J. Campos (BAC).

Cirilo de Alexandria, So (375-444)
Seu nome ficou vinculado  segunda grande controvrsia cristolgica que conduziu ao Conclio de feso (431) e  condenao de Nestrio. Telogo profundo e dialtico 
sutil, foi reconhecido tardiamente como doutor da Igreja. Natural de Alexandria, sucedeu seu tio Tefilo, o intrigante e polmico arcebispo, na sede alexandrina, 
em 412. Seu pontificado tambm foi marcado pela polmica, tanto frente  administrao civil quanto s lutas teolgicas, arianas e nestorianas de seu tempo. Sua 
formao clssica e teolgica foi a da escola alexandrina, sempre defrontada com a antioquena. Como seu tio, teve reticncias e silncios diante da doutrina e gesto

140 / Cirilo de Alexandria, So

de So Joo Crisstomo. Seu carter duro exercitou-o contra os judeus, novacianos, hereges e pagos. Houve quem o responsabilizasse pela morte da famosa filsofa 
Hipcia, cruelmente despedaada, em maro de 415, na escadaria de uma Igreja, por uma chusma de cristos. Os ltimos anos no patriarcado de Alexandria esto marcados 
pela luta contra Nestrio. Sobretudo a partir de 428, quando Nestrio foi nomeado bispo de Constantinopla, Cirilo converteu-se no paladino da ortodoxia. "A velha 
rivalidade entre Antioquia e Alexandria converteu-se num conflito de toda a Igreja. Nestrio afirmou que em Cristo h duas pessoas, uma pessoa divina que  o Logos, 
que mora numa pessoa humana, e que no se poderia chamar de Theotokos, Me de Deus,  Virgem Maria" (Quasten, Patrologa, II, 122s.). Cirilo rejeitou os argumentos 
de Nestrio e no parou at conden-lo no Conclio de feso, 431, em que atuou como delegado do papa. Nesse esforo continuou lutando at a sua morte em 444. A obra 
literria de So Cirilo est praticamente motivada pela controvrsia ariana e nestoriana. Completam seu labor os comentrios bblicos. Num simples esquema poderamos 
classificar sua obra: a) exegese; b) teolgica e apologtica; c) sermes; d) cartas e outros escritos. No total, 10 volumes da coleo Migne: PG 68-77. A obra exegtica 
de Cirilo compreende diversos comentrios at de livros do Antigo Testamento (AT). Destaca-se o que tem forma de dilogo entre Cirilo e Paldio sobre a Adorao 
e o culto em esprito e em verdade e seu complemento Glaphyra, e os 13 livros dos "comentrios nobres" sobre passagens escolhidas do Pentateuco. Segue-se o comentrio 
sobre Isaas e os profetas menores. Do Novo Testamento (NT) restam-nos os que fez aos Evangelhos de So Joo, So Lucas e So Mateus. De seus comentrios dogmtico-polmicos 
cabe citar seu Thesaurus de sancta et consubstantiali Trinitate, contra os arianos. Con-

Cirilo de Jerusalm, So / 141

tra os nestorianos escreveu Adversus Nestorii blasfemias; De recta fide; Scholia de Incarnatione Unigeniti; Adversus nollentes confiteri Sanctan Virginem esse Deiparam; 
Quod unus sit Christus etc. Do ponto de vista apologtico,  interessante sua Apologia contra Juliano, resposta aos trs livros Contra os galileus, publicados pelo 
apstata em 363. Em forma de Homilias e sermes chegaramnos as Cartas ou Homilias pascais, escritas s Igrejas do Egito entre os anos 414-442. Nelas exorta ao jejum 
e  abstinncia,  vigilncia e  orao,  esmola e obras de misericrdia. De seus sermes ficaram-nos somente 22. O sermo 4  o sermo mariano mais famoso da 
Antigidade. "A volumosa correspondncia de Cirilo  muito importante para a histria civil e eclesistica, para a doutrina e o direito da Igreja, para as relaes 
do Oriente e Ocidente, para a rivalidade entre escolas teolgicas e entre sedes episcopais" (Quasten, Patrologa, II, 137-138). Imprescindveis so tambm para a 
histria do dogma as cartas escritas a Nestrio. O Papa Celestino honrou-lhe com esses ttulos: "bonus fidei catholicae defensor", "vir apostolicus" e "probatissimus 
sacerdos". A Igreja grega o considerou, depois de sua morte, como a suprema autoridade em questes cristolgicas.
BIBLIOGRAFIA:Obras, PG 68-77.

Cirilo de Jerusalm, So (315-387)
A histria deste homem, bispo de Jerusalm desde 348, ficou em segundo plano diante das clebres sries de instrues catequticas que pronunciou prximo ao ano 
350, na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalm. Sua vida foi posta  prova, primeiro da suspeita de ter obtido sua nomeao por concesses feitas ao arianismo, e 
depois pelo triplo exlio a que o submeteram: o Conclio de Jerusalm de 357, que o deps; o imperador Accio, em 360; e, finalmente, o imperador Va-

142 / Cirilo de Jerusalm, So

lente, que o privou mais uma vez de sua sede no ano 367, no podendo voltar a ela a no ser onze anos mais tarde (378). Em 381, tomou parte do II Conclio Ecumnico 
de Constantinopla. Morreu, provavelmente, no dia 18 de maro de 387. Dos poucos escritos que ficaram: Carta ao imperador Constncio, Homilias e as famosas Catequeses, 
essas ltimas so um dos tesouros mais apreciados da antigidade crist. So 24 conferncias catequticas tomadas taquigraficamente, conforme  dito nas notas de 
vrios manuscritos. As Catequeses dividem-se em dois grupos. O primeiro compreende a protocatequese ou discurso introdutrio, mais 18 catequeses dirigidas aos candidatos 
que deviam receber o Batismo na prxima Pscoa. Pronunciou-os na quaresma do ano 350, como dissemos. O segundo grupo  formado pelas cinco ltimas instrues chamadas 
catequeses mistaggicas e dirigidas aos nefitos na semana de Pscoa. A primeira catequese pr-batismal trata da fortaleza de esprito que faz falta para receber 
o Batismo. A segunda, da penitncia e do perdo dos pecados, do demnio e suas tentaes. A terceira, do Batismo e da salvao, do rito batismal: de seu significado 
e efeitos. A quarta resume a doutrina crist. A quinta sobre a f: natureza e origem. Nas 6-18 h uma exposio dos artigos do Smbolo dos Apstolos. Nas 19-23, 
que so as catequeses mistaggicas, trata do Batismo (1920), da Confirmao (21), da Eucaristia (22) e da liturgia da Missa (23). As catequeses desmentem que So 
Cirilo tivesse participado da heresia ariana. Em sua catequese 11 ensina claramente a divindade de Cristo e rejeita o argumento ariano de que "houve um tempo em 
que ele no existia" e que  Filho de Deus "por adoo". Da mesma maneira, afirma que o Esprito Santo participa da divindade do Pai. Resume assim sua f trinitria: 
"Nossa f  indivisvel, nossa reverncia  inseparvel. Nem separamos a Trindade Santa nem a confundimos, como faz Sablio".

Clemente de Alexandria / 143

"O interesse teolgico das catequeses de Cirilo -- conclui J. Quasten -- baseia-se principalmente na fonte valiosssima de informao sobre a histria da liturgia 
e dos sacramentos. Temos aqui, pela primeira vez, uma descrio detalhada dos ritos batismais e eucarsticos e o essencial de uma teologia da liturgia" (Patrologa, 
II, 389).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 33, 331-1180; A. Ortega, Las Catequesis de San Cirilo de Jerusaln (Col. Excelsa). Madrid 1946; J. Solano, Textos eucarsticos primitivos, 
I e II (BAC). Madrid 1952.

Clara, Santa (1194-1253)
*Francisco de Assis.

Claudel, Paul (1868-1955)
*Literatura atual e cristianismo.

Clemente de Alexandria (150-215)
Tito Flvio Clemente nasceu provavelmente em Atenas, cerca do ano 150 d.C. Depois de sua converso ao cristianismo, viajou pela Itlia, Sria, Palestina, Egito. 
Foi discpulo de Panteno, fundador da escola catequtica de Alexandria, da qual foi diretor depois de sua morte (c. 200). Obrigado a deixar Alexandria pela perseguio 
de Stimo Severo, mudou-se para a sia Menor, onde morreu. De Clemente de Alexandria restaram trs obras: Exortao aos gregos, Pedagogo e Stromata. As trs so 
consideradas como um todo, destinadas a ser uma introduo progressiva ao cristianismo. A Exortao aos gregos  de carter apologtico e no estilo da literatura 
apologtica do sc. II. O Pedagogo, em trs livros, pretende educar na vida crist o leitor que j se afastou do paganismo. O Stromata (Tapetes) so "tecidos de 
comentrios cientficos sobre a filosofia", uma espcie de exposio cientfica da revelao crist.

144 / Clemente de Alexandria

A doutrina de Clemente de Alexandria  compreensvel, somente se conhecendo o ambiente filosfico desta cidade. A "gnose" como forma superior de conhecimento e como 
ideal da filosofia e da religio aparece dentro das minorias e dos crculos cultos da cidade. No  estranho, pois, que Clemente: -- Trate de elaborar o conceito 
de uma gnose crist, pois o conhecimento  o limite mais alto que o homem pode alcanar. " o pice do homem, a demonstrao certa do que tem sido aceito pela f" 
(Stromata, VII, 10). -- Mas a f  condio do conhecimento. A f  to necessria para o conhecimento quanto os quatro elementos o so para a vida do corpo. -- 
A filosofia foi para os gregos guia para Cristo. Em todos os que se dedicaram  especulao racional h um "eflvio divino", uma "fasca do logos divino" que lhes 
descobre uma parte da verdade, sem que lhes faa chegar a verdade inteira, que  Cristo. -- A verdadeira gnose  a crist, que subordina a filosofia  f. Da que 
o cristianismo se considere como a educao progressiva do gnero humano e na qual Cristo  essencialmente o Mestre, o Pedagogo. Desta considerao, passa a conceber 
o trabalho do cristianismo como "uma regenerao gradual que deve verificar-se atravs da histria com a assimilao e a compreenso progressiva do ensinamento de 
Cristo". O acesso a Deus e seu conhecimento somente  possvel por meio do logos, "sabedoria, cincia, verdade e guia de toda a humanidade" (Ped., I, 7).  tambm 
guia e norma da conduta humana. A mxima estica de "viver conforme a razo" significa para Clemente "viver conforme os ensinamentos do Filho de Deus" (Ped., VII, 
16).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 8-9; G. Bardy, Clemente de Alejandra, 1930; El Pedagogo. Introduo de A. Castieira Fernndez. Traduo e notas de J. Sariol Daz. Gredos, 
Madrid 1970.

Conclio / 145

Clmaco, So Joo (570-649)
*Hesiquia.

Codex Sinaiticus ("a") (c. sc. V)
Manuscrito da Bblia grega. Foi descoberto por C. Tischendorf no mosteiro de Santa Catarina (Monte Sinai, 1868). Por instncias do prprio Tischendorf, o manuscrito 
foi adquirido pelo czar da Rssia. Depois o governo sovitico o vendeu em 1933 ao Museu Britnico, onde se encontra. Os estudiosos acreditam que foi escrito no Egito 
por volta do sc. V. Esse mesmo manuscrito contm, tambm, a Carta de Barnab e parte de O Pastor de Hermas. *Pastor de Hermas; *Padres apostlicos.

Codex Vaticanus ("b") (c. sc. IV)
Manuscrito da Bblia grega que se conserva, pelo menos desde 1481, na Biblioteca Vaticana. Os estudiosos tendem a acreditar que foi escrito em Alexandria no sc. 
IV. No Novo Testamento falta-lhe desde o cap. 9 at o final da Carta aos Hebreus e todo o Apocalipse.

Comenius (1592-1670)
*Educadores cristos.

Companhia de Jesus (1540)
*Loyola, Santo Incio de; *Ratio studiorum.

Conclio
Os conclios constituem a mais alta expresso da doutrina da Igreja. So reunies ou encontros extraordinrios e solenes para estudar e regulamentar matrias de 
doutrina, administrao, disciplina e outros assuntos da Igreja, de uma pro-

146 / Conclio

vncia eclesistica ou de vrias Igrejas. Os conclios terminam geralmente em formulaes doutrinais: constituies, decretos, cnones ou artigos que determinam 
a prtica a seguir em matria de f e costumes. No  objetivo deste dicionrio fazer a teologia e a histria dos conclios. Somente queremos insistir em seu aspecto 
literrio e doutrinal. Os conclios constituem uma fonte de importantssimo pensamento e de doutrina. So a expresso do que acredita, pratica e vive a Igreja. Interessa, 
portanto, conhecer seu significado, sua evoluo e o impacto que produzem na comunidade de cristos. Na Igreja primitiva, a palavra conclio aplicase a qualquer 
reunio realizada. Desde o sculo III, no entanto, a palavra ganha uma qualificao especial: significa o conclio ou o snodo dos bispos -- embora no estivessem 
presentes somente bispos -- para a administrao da Igreja. Os primeiros a serem celebrados foram os conclios provinciais, que j nos finais do sc. II e durante 
todo o sc. III tornaram-se habituais. A partir da poca constantiniana, e passadas as perseguies, foi possvel convocar conclios mais gerais. A idia de um conclio 
ecumnico e, o prprio termo, encontramo-la pela primeira vez em Eusbio para descrever, o Conclio de Nicia (325). A partir deste, generaliza-se o problema da 
autoridade de suas decises com relao a outro tipo de conclios mais particulares. Foi Santo Atansio quem viu no de Nicia uma autoridade especial pela presena 
nele de bispos de toda a Igreja. Os conclios de feso (431) e de Calcednia (451) confirmaram a doutrina e a autoridade de Nicia. Desde essa poca, determinou-se 
que os conclios ecumnicos, uma vez reconhecidos como tais, no poderiam errar, pelo menos em matrias de f. Em assuntos de disciplina, os conclios posteriores 
alteraram as decises dos primeiros conclios ecumnicos, conforme as circunstncias foram fazendo inteis cnones ou decises. Desde o sculo IV, pois, os conclios 
ecumnicos vieram-se sucedendo at os nossos

Conclio / 147

dias. A teologia tem avanado no estudo de sua definio, de sua autoridade e de seu valor doutrinal. Dentro da Igreja Latina, um conclio no  ecumnico se no 
 convocado pelo papa, e seus decretos no tm carter vinculante, a menos que sejam promulgados por ele. Os decretos assim promulgados tm valor e vigncia para 
toda a Igreja (ver Conclio no Dicionrio de Pastoral, Santurio-Perptuo Socorro). Outra fonte do conhecimento da doutrina, prtica e vida da Igreja em nvel mais 
reduzido so hoje as Conferncias de Bispos reforadas pelo *Vaticano II. Esse mesmo Conclio instituiu em carter permanente o Snodo dos Bispos, que se rene em 
Roma periodicamente. Somente tem carter consultivo e de orientao. A Igreja Ortodoxa Oriental reconhece somente 7 conclios ecumnicos. A Igreja Romana reconhece 
esses 7 conclios, mais o IV Conclio de Constantinopla (869-870), onde foi excomungado seu patriarca Fcio. Os conclios ecumnicos reconhecidos tanto pelos ortodoxos 
quanto pelos catlicos so os seguintes: I Conclio de Nicia (325). I Conclio de Constantinopla (381). Conclio de feso (431). Conclio de Calcednia (451). II 
Conclio de Constantinopla (553). III Conclio de Constantinopla (680-681). II Conclio de Nicia (787). Conclios reconhecidos pela Igreja Romana: IV Conclio de 
Constantinopla (869-870). I Conclio de Latro (1123). II Conclio de Latro (1139). III Conclio de Latro (1179). IV Conclio de Latro (1215). I Conclio de Lyon 
(1245). II Conclio de Lyon (1274).

148 / Concrdia, Livro da

Conclio de Viena (1311-1312). Conclio de Constncia (1414-1418). Conclio de Ferrara-Florena (1438-1445). V Conclio de Latro (1512-1517). Conclio de Trento 
(1545-1563). Conclio Vaticano I (1869-1870). Conclio Vaticano II (1962-1965). Dentro das Igrejas nascidas da Reforma mantiveram-se as velhas instituies de snodos, 
conclios e conferncias, mas com significado e valor diferentes. Ao longo do sculo XIX nascem organizaes nacionais ou mundiais protestantes de tipo consultivo. 
Em 1948 surge o *Conselho Mundial das Igrejas, uma associao mundial das igrejas protestantes, com seu departamento de F e Doutrina.
BIBLIOGRAFIA: A. Antn, El misterio de la Iglesia. Madrid 1986, 2 vols.; Id., Primado y colegialidad, 1970; O Conclio Ecumnico na estrutura da Igreja: Concilium 
n. 187 (1983) 5-132; A. Fbrega y Grau, Historia de los Concilios Eumnicos. Barcelona 1960.

Concrdia, Livro da (1580)
O Livro da Concrdia foi publicado em Dresden em 1580. Contm as frmulas e profisses de f (confisses) clssicas luteranas. Na realidade, o livro coleta: 1) A 
denominada Frmula de Concrdia, redigida depois de muita discusso por vrios telogos. 2) Os trs credos: o credo dos apstolos, o Niceno e o Atanasiano. 3) A 
Confisso de Augsburgo (Confessio Augustana) e a Apologia ou defesa que dela fez *Melanchton em 1530. 4) Os Artigos de Smalkalda (1537). 5) Os dois Catecismos de 
Lutero. 6) Os trs rascunhos primitivos da Frmula. Como se sabe, esse Livro da Concrdia encontrou grande oposio fora da Alemanha.

Condren, Charles de (1584-1641)
*Educadores cristos.

Confisses de f / 149

Confisso de Augsburgo (1530)
*Concrdia, Livro da; *Confisses de f; *Melanchton, Ph.

Confisses de f
Semelhantes aos credos (ver Smbolo dos apstolos), somente se diferenciam destes por sua extenso. So frmulas doutrinais do contedo da f destinadas  sua aceitao 
por parte de indivduos, grupos, congregaes, um snodo ou uma Igreja. As Confisses de f, diferentemente dos smbolos ou credos, nascem fundamentalmente com a 
Reforma protestante do sc. XVI. As Confisses de f produzem-se depois de um longo perodo de tempo em que os credos dos sete primeiros sculos foram aceitos por 
toda a cristandade. Durante a Idade Mdia, certos pontos doutrinais foram definidos pelos conclios como resultado das controvrsias doutrinais. Assim, o Conclio 
de Ferrara-Florena em 1439, redigiu um decreto sobre os sete sacramentos como parte do sistema doutrinal. No entanto, os movimentos herticos dessa poca no formularam 
declaraes de f (*Conclios). A Reforma do sc. XVI chegou  formulao das declaraes ou confisses, procurando para si uma definio dos principais pontos de 
seu sistema doutrinal. A maior parte desses documentos foram redigidos com o objetivo de expressar a doutrina da Igreja ou de uma Igreja particular. Logo adquiriram 
a categoria de princpios doutrinais, separando-se dos *Catecismos, destinados principalmente ao ensino. Os primeiros documentos ou Confisses de f so os rascunhos 
que precederam  Confisso de Augsburgo de 1530. Esse exemplo foi seguido pelas demais Igrejas reformadas. Enumeramos as principais: 1537: Artigos luteranos de Smalkalda. 
1577: Frmula de Concrdia. 1580: Livro da Concrdia. 1536-1566: Confisses helvticas reformadas.

150 / Congar, Yves Marie-Joseph

1559: Confisso galicana. 1561: Confisso belga. 1619: Cnones de Dort. 1571: Os 39 artigos anglicanos. 1648: Confisso presbiteriana de Westminster. Em 1967, um 
comit da Igreja Unida Presbiteriana publicou o Livro das Confisses. Inclui o credo dos apstolos, o Niceno, a Confisso escocesa (1560), a Segunda Confisso Helvtica 
(1566), a Confisso de Westminster, o Catecismo breve de Westminster (1648), a Declarao Barmen (1934) e a nova Confisso de 1967.  um exemplo das mltiplas confisses 
de f existentes dentro das Igrejas protestantes, o que indica a atualidade desse gnero literrio.
BIBLIOGRAFIA: J. N. D. Kelly, Primitivos credos cristianos. Salamanca 1980; W. Pannenberg, La fe de los apstoles. Salamanca 1975; Vrios, Para decir el Credo. Estella 
1988.

Congar, Yves Marie-Joseph (1904-)
Telogo dominicano francs. Preso em 19401945 nos campos de concentrao de Golditz e Lbeck. Professor de teologia na faculdade teolgica de Le Saulchoir. Congar 
 a ponta de lana de uma equipe numerosa de telogos dominicanos franceses que renovaram a teologia catlica ao longo dos ltimos cinqenta anos. Basta citar telogos 
como Chenu, Lig, Lelong, Cardonnel, *Schillebeeckx etc. Duas atividades fundamentais ocupam a vida de Congar: 1. O estudo da Igreja sob todos os seus aspectos. 
Fruto desse estudo so seus primeiros Ensaios sobre o mistrio da Igreja (1952); Verdadeira e falsa reforma da Igreja (1950) onde ataca, pela primeira vez, o tema 
da reforma da Igreja; Balizas para uma teologia do laicato (1953), onde aborda o tema dos leigos na vida e na atividade missionria da mesma Igreja. Em 1964, formula 
os princpios do dilogo entre as diferentes Igre-

Conselho Mundial das Igrejas / 151

jas crists com Cristos em dilogo, continuao de obras anteriores como Cristos desunidos e Princpios para um ecumenismo catlico (1957). Complemento e expresso 
de seu trabalho e estudo sobre o tema da Igreja  a grande coleo sobre teologia da Igreja, "Unam Sanctam", fundada e dirigida por ele. 2. Mas Congar no tem sido 
apenas um homem de estudo; mas, fundamentalmente, o homem que "preparou o clima do Conclio *Vaticano II". Como telogo do Conclio, influenciou decisivamente nos 
novos enfoques da teologia, na preparao de novos telogos e, finalmente, na redao e orientao dos documentos do Conclio Vaticano II, de um modo especial, a 
Constituio Dogmtica sobre a Igreja, A Igreja no mundo de hoje e o documento sobre o Ecumenismo. O mesmo Papa Paulo VI agradeceu publicamente a Congar pela sua 
colaborao ao Conclio Vaticano II. A atividade de Congar continuou depois do Conclio: Situao e tarefas atuais da teologia (1967) e A Igreja desde Santo Agostinho 
at a poca moderna (1970) so contribuies geniais deste homem que, j numa cadeira de rodas, confessa que sua teologia no vale mais do que a vida de um simples 
cristo em p.

Conselho Mundial das Igrejas (1948)
A "Unio das Igrejas que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador" ficou formalmente constituda em Amsterd em 1948. Em sua constituio participaram 
147 Igrejas de 44 pases. O Conselho Mundial das Igrejas foi o resultado de movimentos anteriores e muito particularmente da Assemblia Missionria Mundial realizada 
em Edimburgo em 1910. No pertence a ela a Igreja Catlica Romana, mas tem confiveis observadores em suas assemblias desde 1961. O organismo romano correspondente 
 o Conselho Pontifcio para a Promoo da Unidade.

152 / Conselho Mundial das Igrejas

O trabalho do Conselho  fundamentalmente de estudo, orientao e ajuda s Igrejas. Desde sua sede central em Genebra, tem organizado, ao longo de mais de 40 anos, 
estudos e conferncias atravs de seus departamentos: F e Ordem, Vida e Trabalho e O Conselho Missionrio Internacional. Atravs desses departamentos, oferece sua 
ajuda s Igrejas, principalmente para as misses, os refugiados, a fome no mundo etc. O Conselho est intimamente interessado no movimento ecumnico de unio dos 
cristos e nas relaes com outras religies no crists. O que melhor define o carter da funo do Conselho so suas assemblias gerais, convocadas periodicamente. 
Nelas se estudam os principais problemas relacionados ao cristianismo em ao e que afetam a todos os seus membros. Desde 1948, data da fundao em Amsterd, realizaramse 
as seguintes assemblias, todas elas de grande alcance: Evanston (Illinois, 1954), com o tema Cristo, Esperana do Mundo. Nova Delhi (ndia, 1961), com o tema: Jesus 
Cristo, luz do mundo. Foi a primeira assemblia fora do Ocidente. A ela aderiram as Igrejas Ortodoxas. Uppsala (Sucia, 1968), com o tema: Eis que fao novas todas 
as coisas. Nela se estudou e se redigiu o documento sobre a Renovao da misso, que foi controvertido. Excluiu-se a "dimenso vertical" da reconciliao com Deus, 
na qual se havia insistido em outras assemblias, e se passou a enfatizar a "dimenso horizontal" de reconciliao com a humanidade. A idia do "cristianismo annimo", 
tal como j o havia formulado K. Rahner, foi adotada pela maioria. No obstante, o documento guarda a necessidade da converso pessoal a Jesus Cristo, embora em 
muitos casos no ocorra uma opo consciente por Cristo e haja muitas pessoas que, sem sab-lo, servem "o homem para os demais". Outros reparos a esse documento 
saram da Declarao de Frankfurt (1970), em que se denunciava a concepo da

Constituio Eclesistica dos Apstolos / 153

salvao formulada em Uppsala como simples "humanizao", "universalismo" e "cristianismo annimo". Finalmente, na Conferncia de Bangkok (1973) concretizou-se ainda 
mais o conceito de "salvao" num documento redigido por Moltmann: Salvao hoje. Nele se contemplam os aspectos scio-econmicos, polticos e jurdicos da sociedade 
e da pessoa humana. Em 1974, o Congresso de Lausanne formula uma teologia que globaliza os dois aspectos vertical e horizontal da converso. Nairobi (1975), com 
o tema: Jesus Cristo liberta e une. A frase "Toda a Igreja d todo o Evangelho a toda pessoa em todo o mundo" capta o sentimento da assemblia. Vancouver (1983), 
com o tema: Jesus Cristo, vida do mundo.  um passo a mais em direo s Igrejas nascidas da Reforma e s demais Igrejas, como as ortodoxas e a catlica. No em 
vo havia acontecido a visita do Papa Paulo VI  sede do Conselho em 1975, assim como sua publicao prvia sobre a evangelizao no mundo moderno "Evangelii nuntius".
BIBLIOGRAFIA: A. Gonzlez, Enchiridion Oecumenicum. Salamanca 1985; H. Fries-K. Rahner, La unin de las Iglesias. Barcelona 1987; N. Goodall, El movimiento ecumnico. 
Buenos Aires 1970; W. A. Visser't Hooft, The Genesis and Formation of the World Council of Churches. Genebra.

Constituio Eclesistica dos Apstolos (sc. IV)
Constitui uma fonte valiosa para o direito eclesistico. De autor desconhecido, data, provavelmente, dos princpios do sc. IV. A crtica assinala o Egito ou a Sria 
como seu provvel lugar de origem. O texto grego foi publicado pela primeira vez em 1843 e seu ttulo verdadeiro parece ser Cnones eclesisticos dos santos apstolos. 
Assim como o conjunto desses textos de legislao, pode ter sido escrito pelos doze apsto-

154 / Constituies apostlicas

los por ordem de Cristo e est dirigido aos "filhos e s filhas". Consta de duas partes: a primeira contm preceitos morais (4-14); a segunda (15-29), a legislao 
cannica. A primeira parte reproduz e adapta para os cristos do sc. IV os preceitos morais que aparecem j na Didaqu (1-4), apresentadas no marco das duas vias, 
a do bem e a do mal. A segunda direciona normas para a eleio de bispos, presbteros, leitores, diconos e vivas. No se deve confundir esse texto com a Tradio 
apostlica de Santo Hiplito nem com a Didascalia apostolorum syriaca. Tambm no se deve confundir com uma obra posterior escrita na Sria prximo do ano 380, fruto 
de um copilador, provavelmente ariano, intitulada Constituies apostlicas. Seu ttulo oficial  Determinaes dos santos apstolos atravs de Clemente, a mais 
extensa coleo de direito eclesistico que chegou at ns, anterior ao sculo V.

Constituies apostlicas (c. 380)
*Constituio eclesistica dos apstolos; *Didascalia apostolorum.

Contra-Reforma
O termo tardio Contra-Reforma costuma ser utilizado para designar uma poca de renovao dentro da Igreja Apostlica Romana, durante os sculos XVI-XVII. Essa renovao 
dirigiu-se externamente contra a Reforma Protestante -- da o termo Contra-Reforma --, e internamente procurando a renovao da Igreja. Nem todos os estudiosos e 
historiadores esto de acordo na hora de fixar os limites, os contedos, as causas e os resultados dessa renovao. Outros preferem falar da Reforma Catlica como 
movimento interior e renovador da Igreja, para deixar a palavra Contra-Reforma aplicada  reao contra o protestantismo, dirigida pelo papado e pelo Conclio

Contra-Reforma / 155

de Trento. Da que muitos afirmem que "a Igreja deve ao protestantismo a sua prpria reforma". De qualquer maneira, o que define esse perodo da Contra-Reforma, 
paralelo no tempo  Reforma Protestante,  a relao da Igreja de Roma frente aos reformadores. A Contra-Reforma foi, ao mesmo tempo, um amplo movimento de renovao 
e transformao interna da Igreja por longo tempo desejada. Alm disso, e principalmente atravs do Conclio de Trento (1545-1563), transformou-se num instrumento 
para criar uma nova conscincia e uma nova disciplina, marco necessrio para o surgimento de uma nova espiritualidade, uma nova mstica e evangelizao. E acima 
de tudo, uma nova maneira de educar e pastorear. Pode-se dizer que a Contra-Reforma estabeleceu as caractersticas diferenciadoras do cristianismo catlico frente 
ao protestantismo e  ortodoxia do Oriente, caractersticas que se mantiveram at o Conclio Vaticano II, em que se enfatizou mais o ecumenismo e a unificao de 
todos os cristos. "A Contra-Reforma  a verdadeira reforma moral e espiritual da Igreja Romana no sc. XVI -- afirma R. G. Villoslada -- como fruto maduro das mil 
tentativas anteriores...  uma reforma disciplinar e cannica...  o brio inquisitrio do Papa Carafa, a santidade orante e militante de Pio V..., as ordens religiosas 
novas e reformadas... A Contra-Reforma  a teologia escolstica rejuvenescida por Francisco de Vitria..., o ascetismo rigoroso de Pedro de Alcntara, o paulinismo 
de Joo de vila, os escritos de Fr. Lus de Granada, a Noite escura e a Chama viva de amor do frgil frade carmelita, e o grito de guerra lanado por Santa Teresa 
a suas freiras contemplativas em suas ltimas moradas...;  o mpeto conquistador dos missionrios e toda a imensa literatura que vai desde Fr. Lus de Leo, Torquato 
Tasso, e Lope de Vega at Friedrich Spee, ngelo Silsio e a grande arte do Maneirismo e do Barroco, o misticismo musical de Toms de Victoria e a polifonia de Pierluigi

156 / Conversaes de Malinas

Palestrina os que significam a exaltao mais serena da Contra-Reforma."  margem dessa exaltada viso da ContraReforma, apareceu nela um "desenvolvimento autnomo 
de renovao, e por sua vez contra a Reforma, com tentativas e meios antes de tudo negativos e defensivos": expanso missionria e represso da heresia, f vigorosa, 
dinmica, conquistadora e dura intolerncia com recurso  fora. E outras limitaes, talvez necessrias, como os perigos inerentes  centralizao, as tendncias 
negativas e defensivas da teologia, da eclesiologia etc. O resultado  um misto de conquistas e tambm de sombras. Sob o nosso ponto de vista, o da literatura e 
do pensamento cristo da poca, parece-nos tanto a Reforma quanto a Contra-Reforma a poca mais rica e mais diversificada, como se pode ver inclusive neste dicionrio. 
Porm, evidentemente, so muitas mais as obras e autores que deveriam constar. Para completar a viso do que pressups a Contra-Reforma no campo da filosofia, da 
teologia, da espiritualidade, da pedagogia e da pastoral com os autores que a cultivaram, ser necessrio recorrer a outras fontes.
BIBLIOGRAFIA: P. Prodi, Riforma Cattolica e Controriforma: Nuove cuestioni de storia moderna. Miln 1964; M. Marcocchi, La Riforma cattolica. Documenti e testimonianze. 
Brescia 1967-1971, 2 vols.; G. Martina, La Iglesia de Lutero a nuestros das: I. poca de la Reforma: II. poca del Absolutismo. Madrid 1974.

Conversaes de Malinas (1921-1925)
*Beauduin, Lambert.

Coprnico, Nicolau (1473-1543)
A vida e a obra de Coprnico est vinculada ao movimento cientfico do Renascimento e da cincia moderna. Coprnico  considerado o pai da astronomia moderna. Sua 
importncia reside

Cranmer, Thomas / 157

fundamentalmente em: 1) Ter rejeitado o sistema do universo concebido por Ptolomeu e aceito pelo mundo antigo e pela Igreja at praticamente o sc. XVII. 2) Ter 
colocado como centro do sistema solar no a Terra mas o Sol. Sacerdote polons e cnego de Frauenburg desde 1497, Coprnico exps sua teoria num pequeno comentrio 
-- Commentariolus (1531) -- , tendo a aprovao do papa. Sua obra mais importante e pela qual ficou conhecido na posteridade, De revolutionibus orbium coelestium, 
no foi publicada at 1543, data de sua morte. Essa obra foi colocada no *Index de livros proibidos em 1616, como conseqncia do caso Galileu (*Galileu).

Couturier, Paul Irne (1881-1953)
Sacerdote francs, pioneiro e lder do movimento pela unidade dos cristos. Couturier comeou sua atividade apostlica em Lyon com os refugiados russos da Revoluo 
de 1917. A partir de 1932, no centro de Amay-sur-Meuse, passando posteriormente a Chevetogne, dirigiu sua atividade para o movimento ecumnico. Primeiro introduziu 
um trduo de orao pela unidade crist (Lyon, 1933). No ano seguinte, ampliou-o para uma semana de orao: de 18 a 25 de janeiro. Para desenvolver esse movimento 
em nvel mundial, Couturier serviu-se de uma rede ampla de correspondentes e colaboradores em todos os pases cristos e de diferentes confisses. Comps e distribuiu 
uma infinidade de folhetins sobre a orao pela unidade. E finalmente esteve em contato permanente com o *Conselho Mundial das Igrejas. O trabalho de Couturier cristalizou-se, 
anos mais tarde, no documento sobre o ecumenismo do Conclio *Vaticano II.

Cranmer, Thomas (1489-1556)
Personagem chave na Reforma da Igreja da Inglaterra. Depois de seus estudos universitrios

158 / Cranmer, Thomas

em Cambridge, destacou-se na vida pblica inglesa por causa do divrcio de Henrique VIII (1529). Foi Cranmer quem aconselhou o monarca a consultar as universidades 
da Europa sobre o tema, depois do papa ter-lhe negado o divrcio. Por ordem do rei, Cranmer visitou vrias universidades do continente, voltando com a soluo favorvel 
ao problema. Em 1532 foi nomeado arcebispo de Canturia, sendo dcil instrumento do poder real nos anos que seguintes. Sua interveno na Ata da Supremacia (1534), 
no matrimnio de Henrique VIII com Ana Bolena e no posterior matrimnio e divrcio de Ana de Clves, tornou Cranmer o alvo de todos os inimigos da Reforma e da poltica 
inglesa. Cranmer  responsvel pela publicao dos Dez Artigos de estilo luterano (1536). Sob sua prpria direo publicou-se uma nova verso da Bblia, baseada 
na traduo de Tyndale, que a imps a todas as parquias. Em 1549 apareceu o Book of the Common Prayer (Livro da orao comum), inspirado nas idias protestantes 
de Cranmer, porm mitigado para no ferir a suscetibilidade dos catlicos. Sucessivas revises em 1552, e posteriormente em 1662, fizeram dele o livro litrgico 
oficial do anglicanismo, propcio a uma "via intermediria" entre o protestantismo do continente e o catolicismo de Roma. A Cranmer deve-se tambm a reforma doutrinal. 
Em 1547 publicou-se o Livro de Homilias, muitas das quais foram escritas por Cranmer. A morte prematura do jovem rei Eduardo em 1553, que tinha favorecido Cranmer, 
e o acesso ao trono de Maria, conhecida como a rainha Maria, "sanguinria" e catlica, levou  fogueira muitos destacados lderes do movimento reformador da Inglaterra: 
entre eles os bispos Latimer, Ridley, o prprio Cranmer, e outros 200 mais. Depois de um julgamento muito tumultuado -- retratou-se e voltou outra vez a confessar 
sua f anglicana --, foi levado  fogueira em 1556.

Crisstomo, So Joo / 159

Crisstomo, So Joo (347-407)
Nasceu em Antioquia e morreu em Cumana (Helesponto), enquanto ia para o exlio. Padre e doutor da Igreja, pregador e arcebispo de Constantinopla. Seu zelo e sua 
eloqncia na pregao valeram-lhe o ttulo de "Crisstomo": "boca de ouro". Seu pontificado foi particularmente atormentado, devido em parte s intrigas combinadas 
entre a imperatriz Eudxia, me do imperador Teodsio II, e de Tefilo, patriarca de Alexandria. Como todos os grandes padres, destacou-se, em primeiro lugar, por 
sua formao clssica. Sabemos que estudou retrica sob a direo de Libnio, e teologia com o mestre Diodoro de Tarso. A escola antioquena lhe dar o realismo e 
o bom senso que caracterizam sua obra. Cedo sente o chamado  solido e ao deserto. Sua fraca sade o faz voltar a Antioquia, onde se ordenou dicono e sacerdote. 
Durante doze anos, a partir de 386, exerceu sua funo de pregador, pronunciando parte de suas melhores homilias sobre o 1 e 4 Evangelhos, e sobre as Cartas de 
So Paulo. Sua oratria acerta a sintonia com os problemas do povo. Exemplo disso podem ser suas famosas homilias sobre as Imagens, com as quais consegue deter a 
vingana do imperador pela profanao de sua esttua e da esttua de sua famlia, por parte do populacho. Em 398 foi chamado, contra sua prpria vontade, a ocupar 
a sede de Constantinopla, onde conseguiu o aplauso e o apoio popular. No obstante, sofreu trs desterros durante os nove anos de seu pontificado. Confrontado com 
a imperatriz por sua vida de ostentao, e com as invejas de Tefilo, patriarca de Alexandria, sucumbiu por fim a caminho do terceiro e definitivo desterro em Cumana 
(Helesponto). Seus restos mortais foram trazidos em solene procisso a Constantinopla, no dia 27 de janeiro de 1438. "Nenhum escritor oriental -- diz Quasten -- 
conseguiu a admirao e o amor da posteridade

160 / Crisstomo, So Joo

no grau que ele conseguiu." A prpria tragdia de sua vida, ocasionada pela extraordinria sinceridade e integridade de seu carter, serviu para realar sua glria 
e sua fama. Continua sendo o mais encantador dos padres gregos e uma das personalidades mais simpticas da Antigidade. "Seu estilo  a expresso mais harmoniosa 
de uma alma tica". A obra escrita de So Joo Crisstomo, a mais numerosa de toda a patrstica, divide-se em trs grandes blocos: a) Sermes-homilias; b) Tratados; 
c) Cartas e liturgia. A parte mais volumosa  a primeira, onde aparecem suas Homilias sobre o AT: sobre o Gnesis, os Salmos -- as melhores sobre 58 salmos escolhidos 
-- e sobre Isaas. Sobre o NT esto suas homilias ao Evangelho de Mateus, de Joo, aos Atos dos Apstolos e s Cartas de So Paulo. Outro bloco  composto por suas 
Homilias dogmticas e polmicas, os discursos morais, sermes para as festas litrgicas, os panegricos, as homilias sobre as Imagens e outras duas em Defesa de 
Eutrpio. Entre os tratados encontramos o clssico De sacerdotio, e sobre a vida monstica, a virgindade e a viuvez, sobre a educao dos filhos, sobre o sofrimento 
etc. De suas cartas conservam-se, aproximadamente, 236. Sua Liturgia -- conhecida como liturgia de So Joo Crisstomo -- a crtica supe que seja muito posterior 
ao santo. Um julgamento de conjunto leva-nos a afirmar com Quasten que "So Joo Crisstomo no  um telogo eminente. , no entanto, um soberbo orador". Em seus 
sermes nunca apelou para o sentido alegrico. Falava claro e combinou a intuio do sentido da Escritura com seu gnio para sua aplicao pessoal. Cada um de seus 
sermes tem sua lio moral ou social (Quasten, Patrologa, II, 496s.).
BIBLIOGRAFIA: Obras de San Juan Crisstomo (BAC), 3 vols.; Obras: PG 47-64; J. Quasten, Patrologa, I, 444-505, com a bibliografia ali publicada.

Cullmann, Oscar / 161

Croiset, J. (1656-1738)
*Legenda urea.

Cullmann, Oscar (1902-)
Telogo de confisso luterana e um dos mais notveis de nosso tempo. Seus trabalhos de histria e exegese contriburam decisivamente para o conhecimento das origens 
do cristianismo. Seus anos de estudo e docncia discorrem entre Estrasburgo e Basilia. Posteriormente  professor da Sorbonne e da Faculdade de Teologia Protestante 
de Paris. Alm dessas atividades acadmicas, Cullmann foi presidente da ajuda aos refugiados franceses na Sua entre 1940-1945. Mais tarde, foi escolhido membro 
do comit executivo do Instituto Ecumnico de Jerusalm, fundado em 1967 por Charles Moeller. De 1962 a 1965 participou como observador no catlico das quatro sesses 
do Conclio *Vaticano II, diante do qual, praticamente, representou o protestantismo. A obra de Cullmann, como dissemos,  uma contribuio notvel para a exegese 
e para a histria dos primeiros sculos do cristianismo.  clssico seu estudo Cristo e o tempo (1946). Em So Pedro, discpulo, apstolo e mrtir (1952), aborda 
o problema do primado pontifcio. Em Deus e Csar (1953) e em Jesus e os revolucionrios de seu tempo (1970) abordam-se os problemas da relao entre f e poltica. 
Dois aspectos caracterizam a obra e a atividade literria de Cullmann: 1) O mtodo exegtico, pelo qual tenta desprender-se de todo sistema filosfico ou teolgico 
na interpretao dos textos do NT. 2) Uma atitude de esprito particularmente impressionante: o encontro com as demais confisses. Rejeita um ecumenismo fcil, no 
qual os cristos se encontrem sobre a base de uma crtica puramente negativa s Igrejas, ou sobre a base de uma capitulao diante do mundo e, em especial, diante 
das correntes do mundo moderno. Est

162 / Cusa, Nicolau de

convencido do universalismo cristo, e este pode ser o seu terceiro aspecto: "Toda escolha se faz para outros, para um grande nmero, para uma misso. Assim, Israel 
 escolhido para a humanidade, Jesus Cristo para o mundo inteiro e os doze apstolos para uma Igreja destinada a cobrir a terra. Esses princpios so indissociveis".

Cusa, Nicolau de (1400-1464)
Nicolau Krebs (caranguejo)  conhecido como o Cusano ou de Cusa, pela cidade de Cues (Trier), onde nasceu. Sua vida intensa apresenta as facetas de estudioso, pesquisador, 
conhecedor de cdices e manuscritos antigos gregos e latinos, diplomtico e homem de Igreja, filsofo e telogo. Sua doutrina e filosofia so, na realidade, sabedoria. 
Solitrio e no adscrito a nenhuma escola, pensa por conta prpria. Quis procurar razes ltimas para sua profunda vivncia humana e crist. Sem dvida por isso, 
sua filosofia e sua vida so objeto de permanente estudo. So de uma paixo e intensidade tais que pode ser proposto como modelo de todo pensador e homem de ao 
cristo. Nicolau Cusano iniciou seus estudos entre os Irmos da Vida Comum de Deventer (Holanda). Passou depois para a Universidade de Heildelberg, para doutorar-se 
logo depois em Direito, em Pisa. Em Roma iniciou sua vocao e carreira eclesistica, que exerceu em Colnia como um dos secretrios do legado papal Cesarini. Aqui 
se inicia no manejo e conhecimento de cdices e manuscritos da biblioteca da catedral de Colnia. Essa primeira afeio se refora com humanistas chegados para o 
Conclio de Basilia (1433-1437). Ampliou tambm suas pesquisas a manuscritos gregos com vistas ao Conclio de Florena (1438). Foi amigo pessoal de Gutenberg e 
apoiou a arte da imprensa, de tal modo que, graas a ele, foi possvel durante sua estada em Roma e Subiaco a publicao dos que hoje so os primeiros incunbulos 
da Itlia.

Cusa, Nicolau de / 163

Sua condio de experto permitiu-lhe assistir aos Conclios de Basilia e Florena. Para preparar este ltimo, foi enviado a Constantinopla, intervindo ativamente 
no problema da unio das Igrejas Grega e Latina. Seus ltimos quinze anos (1449-1464) puseram em relevo sua ndole pastoral, primeiro como cardeal da Igreja, como 
visitador apostlico na Alemanha, Pases Baixos e Bomia, e finalmente como bispo de Brixen e vigrio do papa em Roma. As relaes, os discursos, as cartas, os projetos 
e os decretos desta poca demonstram a dignidade, o zelo e inclusive o rigor com que concluiu sua misso contra os muitos desvios que minavam os costumes e a f 
daqueles tempos to prximos j da Reforma. -- A obra escrita de Cusa  imensa. Sua produo corre ao longo de toda a sua vida. Comea com sua primeira obra polmica 
De concordantia catholica, que apresentou ao Conclio de Basilia (1433). Reconhece o primado da sede de Roma. Sustenta que nenhum Conclio  legtimo se o papa 
no participa diretamente ou por representao. Mas, uma vez convocado ao Conclio, o papa est obrigado a aceit-lo e a executar suas resolues. Logicamente, o 
Conclio somente  infalvel como representante nico de toda a Igreja. A partir de 1436, Cusa defender a supremacia papal. -- Mas Cusa  conhecido principalmente 
pela sua obra De docta ignorantia (1440), seguida nesse mesmo ano por De coniecturis, em trs livros -- Deus, universo e Cristo como unio de ambos. Nesta mesma 
linha filosfico-teolgica esto o livro Idiota (1450), que compreende o De sapientia (dois livros), o De mente e o De staticis experimentis. Importantes so tambm 
a Apologia doctae ignorantiae (1449), o De venatione sapientiae (1463), e sua ltima obra De apice theoriae (1464). Alm de outros tratados especificamente teolgicos 
e de outros cientficos como De mathematicis complementis (1450-1457), De circuli quadratura (1453-1454) e De mathematica perfectione (1458), devemos assinalar suas 
nu-

164 / Cusa, Nicolau de

merosas cartas e sermes, muitos dos quais permanecem inditos. -- Na viagem de regresso da Grcia, Nicolau Cusano teve a inspirao de sua doutrina fundamental 
da docta ignorantia e que exps em suas duas obras acima mencionadas: -- "O ponto de partida  uma precisa determinao da natureza do conhecimento tomando como 
modelo o conhecimento matemtico. A possibilidade do conhecimento reside na proporo entre o desconhecido e o conhecido. Pode-se julgar aquilo que ainda no se 
conhece somente em relao quilo que j se conhece, mas isto somente  possvel se aquilo que ainda no se conhece possui certa proporcionalidade com o que se conhece. 
O conhecimento  tanto mais fcil quanto mais prximas das coisas conhecidas estiverem aquelas que se pesquisam; da se conclui que quando o que se ignora e se procura 
no tem proporo alguma com o conhecimento que j possumos, este escapa a toda possibilidade de conhecimento, e a nica coisa que se pode fazer  proclamar a prpria 
ignorncia. Esse reconhecimento da ignorncia, esse saber que no se sabe,  a docta ignorantia". -- A atitude da docta ignorantia  a nica possvel diante do ser 
como tal, ou seja, diante de Deus. Esse , de fato, o grau mximo do ser e, em geral, da perfeio;  "aquilo com relao ao qual nada pode ser maior". Deus  o 
infinito, e entre o finito e o infinito no existe proporo. Da se conclui que o homem no pode chegar ao conhecimento de Deus. Com relao ao relacionamento entre 
Deus e o mundo em De coniecturis, De idiota e em De visione Dei, Cusa enfatiza a inacessibilidade da transcendncia divina, afirmando que a nica frmula para express-la 
 a coincidentia oppositorum -- a coincidncia dos opostos --, coincidncia do mximo e do mnimo, da complicao e da explicao, do tudo e do nada, do criar e 
do nada. Essa coincidncia, porm, no pode ser entendida nem alcanada pelo homem,

Cusa, Nicolau de / 165

e assim Deus est alm de todo conceito humano, como o infinito absoluto com relao ao qual so inteis todos os passos para aproximarse dele. -- Com relao ao 
homem, a criatura no  mais do que um "Deus ocasionado" ou um "Deus criado" que no pode aspirar a ser mais do que , e somente desta maneira chega de certa forma 
a reproduzir a infinitude de Deus. O valor que a criatura possui dentro de si, em sua limitao,  claramente manifestado pela encarnao do Verbo. Pelo fato de 
ter adquirido a natureza humana, rene e unifica em si todas as coisas, enobrece e eleva, junto com o homem, todo o mundo natural. -- O julgamento que a pessoa mereceu 
e a doutrina desse grande homem, esto acima de toda ponderao. Viveu numa poca de profunda crise, "crise de todo tipo de autoridade, divina e humana, papal e 
imperial, religiosa e civil, e tratou de reagir contra isto, unindo Deus e o direito, a religio e a poltica, o fiel e o sdito no mbito de dois princpios nos 
quais se havia baseado o complexo social durante o perodo medieval: a Igreja e o imprio... Foi humanista: seu humanismo no se contentou com a procura de cdices 
e de formas belas, mas consistiu numa valorizao do homem e da natureza -- "dignificare naturam"-- enquadrando de forma crist a essncia daquele e a realidade 
desta numa sntese de razo e revelao" (P. Rotta-G. Santinello, Dic. de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Ed. de von Ernst Hoffmann, 1932; La Docta Ignorancia. Traduo de Manuel Fuentes Benot, Buenos Aires 51981; P. Rota, Nicols de Cusa. 
Miln 1942.

166 / D'Ailly, Pierre

D
D'Ailly, Pierre (1350-1420)
*Lutero.

D'Alembert, M. (1717-1783)
*Enciclopdia, A.

Dmaso, So (304-384)
Papa de origem espanhola, eleito em 366. A figura simptica desse papa oferece aspectos verdadeiramente importantes para as letras. Foi o criador dos arquivos papais, 
mudando-os para prdios novos. Foi poeta inspirado que cuidou das tumbas dos mrtires, ilustrando-as com criativos epitfios. Como papa, promulgou em 382 um cnon 
sobre os livros da Escritura. Existe tambm a Fides Damasi, uma frmula de f atribuda a So Dmaso, que hoje  interpretada como nascida na Glia no sc. V. Com 
o nome de Tomo de Dmaso conhece-se tambm uma coleo de 24 cnones enviados por Dmaso a Paulino, bispo de Antioquia, nos quais anatematizam-se as heresias trinitrias 
e cristolgicas da poca. Porm, sem dvida, a obra mais importante de So Dmaso como papa  ter encomendado a So *Jernimo a reviso do texto latino da Bblia 
(382), conhecida como Vulgata.

Danilou, Jean (1905-1974)
*Teologia atual, Panorama da.

Dante Alighieri / 167

Dante Alighieri (1265-1321)
"Florentinus et exsul immeritus" (Florentino e exilado sem o merecer) -- diz Dante numa de suas cartas. Nascido efetivamente em Florena, onde viveu uma boa parte 
de sua vida, trs vezes foi desterrado por questes polticas, morrendo em Ravena, acompanhado j por grande fama de poeta e sbio: "Inclita fama cuius universum 
penetrat orbem" (Cuja elevada fama chega ao mundo inteiro), como se l no seu epitfio. Poeta, filsofo, telogo e poltico, Dante  includo diretamente na lista 
dos pensadores e escritores cristos. Sua prpria condio de leigo, comprometido com sua cidade, com a arte e a cincia de seu tempo, torna ainda mais interessante 
sua figura. Pertencente a uma nobre famlia guelfa florentina, quis viver em plenitude sua condio de homem e cidado livre. Por volta dos 9 anos, encontrou uma 
jovenzinha, Beatriz, pela qual ficou espiritualmente subjugado, ela dominou toda a sua vida. A morte desta, em 1290, consumiu-o em lgrimas, obrigando-o a encontrar 
consolo na leitura de Bocio -- De consolatione philosophiae -- e de Ccero -- De amicitia. Parece ter encontra-

168 / Dante Alighieri

do neles muito mais do que um remdio para sua dor. Com esses autores abriram-se realmente para ele o horizonte e o desejo de saber. Pensou que a filosofia era algo 
superior. "Dirigiu-se, pois -- diz-nos em Vida nova -- para onde ela se mostrava mais autntica, isto , nas escolas dos religiosos e nas disputas dos filsofos." 
Freqentou as escolas de dominicanos e franciscanos de sua cidade onde se comentavam Aristteles, Santo *Agostinho e So Boaventura. Entre os filsofos estava seu 
mestre Brunetto Latini e o primeiro de seus amigos, Guido Cavalcanti, averrosta e epicurista. Foi tal sua paixo pela filosofia que, depois de 30 meses, esquecera 
seu primeiro amor. Casado com Gemma Donati, com quem teve pelo menos trs filhos, superou sua crise juvenil com a primeira de suas obras, Vida nova (1295), na qual 
mescla prosa e verso no estilo de Bocio. Criador da primeira prosa italiana, revigorando seu esprito em chave religiosa, Dante manter desde agora seu mundo ideolgico 
e tico. "O homem virilmente ativo para continuar `virtude e conhecimento', desprezador de baixezas e de ambies vulgares, o constante pensador, o firme crente, 
harmoniosamente coordenados, o traro, junto  fama gradualmente conseguida, seu erigirse em flagelador dos vcios e desordens gerais de seu tempo, seu constituir-se 
em mestre de vida, distribuidor da justia, defensor de um ideal humano superior e da restaurao poltica e religiosa. O estudioso no afogou, no entanto, o poeta" 
(G. Mazzantini -- A. Tognolo, Dic. de filsofos). -- Sua personalidade completa-se na atividade poltica. Participou ativamente na vida poltica florentina, como 
cultivador da "filosofia natural" no grmio dos mdicos e boticrios, pertencendo ao partido "blanco". Isso foi por volta de 1300. Nos anos seguintes e com a entrada 
dos "Nri" em Florena, viu como vieram abaixo seus ideais polticos. Em 1302, pela primeira vez, foi condenado ao exlio, depois trocado pela condenao  fogueira. 
Seguiram anos de desterro e de

Dante Alighieri / 169

anonimato por vrias cidades, sem que seja fcil precisar datas de suas paradas. A partir de 1309 voltou para sua amada Florena, onde viveu at 1315. Nova condenao 
 morte para ele e seus filhos o obrigou a procurar um refgio em Verona (1315-1320), onde precedeu-lhe sua fama de poeta e de sbio. Sua permanncia nesta cidade 
permitiu-lhe avanar na obra potica A divina comdia, que concluiu em Ravena. Morreu em Ravena, sendo levado at o sepulcro nos ombros dos principais cidados "como 
poeta e grande filsofo". -- O pensamento de Dante foi expresso em sua variada obra. Inicia-se com Vida nova (1295) e termina em A divina comdia (1321). Entre essas 
duas datas trabalhou no Convvio (entre 13041307), ampla obra de filosofia aristotlica em que afirma que "Aristteles  o filsofo mais digno de f e obedincia". 
 a primeira obra de prosa cientfica italiana. O Convvio foi interrompido no 3 dos cantos dos 14 que Dante concebera. Tambm ficou interrompida sua obra De vulgari 
eloquentia, simultnea  anterior. Destaca algumas intuies sobre a filosofia da linguagem, o problema da formao das lnguas etc. Depois vem o tratado filosfico-poltico 
De monarchia (1310-1313), uma das obras polticas mais interessantes que nos deixou o perodo medieval. "Dante apresenta-nos sua prpria viso poltica centrada 
numa distino clara e precisa de duas ordens: Igreja e imprio. Ambos absolutos, autnomos e soberanos, tm o seu fundamento na pessoa humana que tende a um duplo 
fim: natural e sobrenatural (Monarchia, III, XVI, 7). Essas ordens permanecem claramente diferentes, sem que o menos vlido deva se subordinar de forma alguma ao 
que, por si s, j  mais vlido". -- Continuando bem prximo da tica a Nicmaco de Aristteles, Dante em sua Monarchia: a) V a vida do homem, segundo a natureza, 
como um desenvolvimento progressivo dirigido pela razo. b) Esse desenvolvimento racional do homem somente se d num mundo politicamente organizado na monarquia, 
e na

170 / Dante Alighieri

monarquia universal. c) Monarquia universal porque somente na universalidade  possvel uma paz sem oposies (Monarchia, I, V-XVI). d) Mas o cristianismo revelou, 
tambm, o mundo da graa, o Reino de Deus, para cujo desenvolvimento e plena realizao est na terra o vigrio de Cristo, o papa. O pontfice tem a sua jurisdio 
sobre tudo o que  sobrenatural, e seu poder  monrquico e universal, isto , catlico, cujos limites esto marcados pela mesma finalidade de seu poder, dirigido 
a um fim ultraterreno. e) Imperador e pontfice so independentes. A independncia de ambos dentro dos prprios limites  absoluta e nenhuma autoridade, em seu prprio 
mbito, tem ningum acima dela. Tal  a sntese poltica de Dante, respeitosa com a razo e com o dado revelado. Harmonia entre a f e a razo, que muito logo se 
veriam quebradas. -- Que dizer de A divina comdia que j no se tenha dito? Concluda pouco antes da morte do poeta, em 1321,  o testamento potico do sc. XIII. 
Toda a cincia, toda a especulao poltica, toda a experincia moral e espiritual da poca se expressa nela, ao longo do caminho que conduz Dante e o seu guia do 
inferno ao purgatrio, e por ltimo, ao substituir Beatriz por Virglio, atravs das esferas do paraso, at um Deus que  a fonte suprema da luz. -- Toda a sua 
obra  um desenvolvimento de teologia humanista: Deus e o homem so os grandes protagonistas da histria. "O humanismo de Dante  um humanismo cristo;  integral, 
porque abrange e valoriza todo o homem, em todas as suas atividades e dimenses;  um humanismo que reconhece o valor da vida social do indivduo na histria;  
um humanismo que no esquece a realidade humana de misria e debilidades, como tambm no esquece que a mais alta meta, e sua maior perfeio, a alcana a pessoa 
na viso beatfica de Deus. Esse humanismo no qual coexistem, sem se anularem mutuamente, o universal e o particular, Deus e o homem, Estado e

Desmo / 171

indivduo  certamente muito diferente do posterior humanismo do `Quatrocentos' e do `Renascimento'. Esta  a mensagem imortal do divino poeta" (C. Mazzantini-A. 
Togno, o. c. 10).
BIBLIOGRAFIA: Obras: A divina comedia, Rio 1948; Obras completas: Edio espanhola de N. Gonzlez-Ruiz 2 (BAC); E. Gilson, Dante et la philosophie mdivale, 1953; 
M. Asn Palacios, La escatologa musulmana en la Divina 2 Comedia, 1943.

Dcio (c. 250)
*Monaquismo; *Orgenes.

Desmo
Uma das notas caractersticas do Iluminismo e dos iluministas  a secularizao da razo. Com o slogan "Atreva-se a pensar", "Abandone a menoridade", o Iluminismo 
rompe o equilbrio entre f e razo e sua tenso dialtica. Mediante um processo redutivo da f ao racional, realiza o postulado e a exigncia da progressiva e total 
secularizao da vida humana mediante a dessacralizao. A concepo religioso-teolgica do mundo dominante no Ocidente at o sc. XVII mantinha-se e elevava-se 
sobre a relao homem-Deus. Deus constitui o centro, origem e princpio de determinao do sentido do mundo. Temos assim o teocentrismo. Da mesma maneira, o sentido 
da humanidade e da histria  estabelecido e regido por Deus providente (providncia). Finalmente, o destino ltimo do homem, o fim da providncia e o "eschaton" 
da histria se somam na salvao sobrenatural e eterna do homem, realizada por e com a graa de Deus: Redeno divina, religio positiva, cristianismo. O Iluminismo 
ou "razo secularizada" d uma interpretao radicalmente oposta a tais questes. No teocentrismo, estaro a natureza e o homem como centro e ponto de referncia. 
A providncia ser substituda pelo progresso contnuo e sem

172 / Desmo

limites da razo e da humanidade. Na redeno sobrenatural -- religio revelada, cristianismo histrico -- impor-se- a salvao da situao infeliz do homem, que 
ele prprio dever procurar com o trabalho e na histria. Temos, pois, uma Redeno horizontal, no marco exclusivo do tempo e da histria. Essa secularizao da 
razo mantm, no entanto, o reconhecimento do divino, assim como uma peculiar interpretao da religio.  necessrio que a verdadeira religio seja racional: "Enquanto 
no nos guiemos pela razo -- diz Locke --, disputaremos em vo, e em vo tentaremos convencer-nos mutuamente em assuntos da religio". Nasce assim o conceito de 
religio natural e de "desmo". Somente  verdadeira a religio da razo. A razo  a norma e o critrio ltimo da verdade e da religio.  religio natural, proclamada 
pelo Iluminismo, vai unida uma luta contra os milagres e as profecias, os ritos e os dogmas. E, principalmente, se far uma crtica implacvel da religio positiva, 
do cristianismo estabelecido no Ocidente. Em nome da "religio natural" se derrubaro as barreiras entre a religio e a moral. A religio consistir no conhecimento 
dos deveres ou mandatos morais, e sua atividade ou exteriorizao no ser mais do que a ao simplesmente tica. Puro moralismo, baseado nas palavras de Voltaire: 
"Entendo por religio natural os princpios da moralidade comuns  espcie humana" (Dic. de filsofos). O "desmo" expressa as exigncias da razo iluminada e concretiza 
os princpios da religio natural. O conceito de "desmo" foi moldado pelos ingleses John Toland em sua obra Cristianismo sem mistrios e M. Tindal, em O cristianismo 
to velho como a criao. Foi, em especial, *Voltaire quem formulou as notas ou teses gerais do desmo. Reduzidas a sua mnima expresso, so as seguintes: a) Deus 
existe e  autor do mundo. b) No  possvel determinar a natureza e os atributos de Deus. c) Deus no criou o mundo

Delehaye, Hippolyte / 173

livremente, mas por necessidade. Em conseqncia, Deus no  responsvel pelo mal. d) No h lugar para a providncia divina, pois a ao de Deus no mundo termina 
em sua criao. e) O desmo  ctico diante da outra vida, seus prmios e castigos. De acordo com o que acabamos de ver, o desmo baseia-se na razo terica e obedece 
a uma colocao estritamente intelectual. Tambm se baseia na razo prtica, j que identifica a religio natural com os mandatos morais. Nega o carter sobrenatural 
da religio ignorando, portanto, o carter positivo e sobrenatural do cristianismo. A luta ideolgica contra este marca, de alguma forma, toda a filosofia, a cincia, 
a educao, a poltica e a literatura surgida desde o sc. XVIII at os nossos dias. Os pensadores cristos, daqui por diante, tero de apresentar e defender a identidade 
prpria do cristianismo frente  crtica, frente  cincia, frente  secularizao da vida.
BIBLIOGRAFIA: D. Hume, Dilogos sobre religio natural; K. E. Weger, La crtica religiosa en los tres ltimos siglos. Barcelona 1986; Jean-Jacques Rousseau, Escritos 
religiosos; John Locke, A racionalidade do cristianismo Madrid-1977.

Delehaye, Hippolyte (1859-1941)
O nome de H. Delehaye est vinculado aos "bolandistas", um grupo de jesutas liderados por J. van Boland (1596-1665) que iniciaram as Acta Sanctorum ou vidas e feitos 
dos santos. Delehaye foi seguidor das Acta Sanctorum e colaborador em vrios de seus volumes. Alm de sua colaborao nessa obra, Delehaye publicou a Bibliotheca 
hagiographica graeca (1895), onde se encontram catalogados os manuscritos hagiogrficos gregos, junto aos da Biblioteca Nacional de Paris e do Vaticano. Toda a sua 
obra  fruto de um constante trabalho de investigao e de sua extensa erudio. Alm desses livros dedicados a especialistas, publicou estudos para um pblico no 
especializado.

174 / De Maistre, Joseph

De Maistre, Joseph (1753-1821)
Escritor francs *"tradicionalista" e "ultramontano". Junto com *Chateaubriand e outros escritores da poca, forma o grupo de escritores catlicos reacionrios s 
idias da Revoluo de 1789. A obra principal de De Maistre  Du Pape, um escrito volumoso redigido j no final de seus dias (1819). Nela advoga por uma sociedade 
firmemente ancorada na autoridade e, portanto, contrria os princpios da revoluo. Essa autoridade  dupla: a) a autoridade espiritual tal como aparece no papado 
de Roma, ao longo dos sculos; b) a autoridade temporal encarnada nos reis. A obra, portanto, defende um restabelecimento desta autoridade na Europa, enfraquecida 
pela revoluo e pelas guerras napolenicas. Du Pape  uma obra ao mesmo tempo poltica e religiosa. Tem sua importncia no marco histrico em que se produz.

Denifle, Heinrich Suso (1844-1905)
Pesquisador e historiador da Igreja. Religioso dominicano alemo, foi chamado a Roma como assessor geral da ordem (1880). Trs campos ocuparam sua atividade como 
historiador. Em primeiro lugar est o seu monumental Chartularium Universitatis Parisiensis, escrito em colaborao, entre 1889-1897. Seu segundo campo de estudo 
e pesquisa foram os msticos dominicanos alemes do sc. XIV: Mestre *Eckhart, J. *Tauler e H. Suso. E finalmente empreendeu sua obra, que no pde concluir, sobre 
Martinho *Lutero. Na historiografia do Reformador, Denifle ocupa um posto importante pela solidez de documentos com que contribui e pela interpretao que faz do 
personagem. E principalmente, seu estudo abre o caminho para uma interpretao mais serena e objetiva de outros historiadores catlicos.

Didaqu / 175

Devotio moderna
*Toms de Kempis.

Didaqu (50-70)
Primeiro dos escritos integrados nos denominados "padres apostlicos". No original grego, seu ttulo completo  "A instruo do Senhor aos gentios atravs dos doze 
apstolos".  resumo da doutrina de Cristo tal como a ensinaram os apstolos s naes. Publicado em 1883 pelo metropolita grego de Nicomdia, Filoteo Bryennios, 
de um cdice grego em pergaminho, a Didaqu  o documento mais importante da era ps-apostlica e a mais antiga fonte de legislao que possumos. De autor desconhecido 
e objeto de inumerveis estudos, sua composio pode ser datada entre os anos 50-70 da era crist. Outros a reportam aos pirmeiros anos do sc. II. Essa obra vem 
a ser "o cdigo eclesial mais antigo, prottipo venervel de todas as colees posteriores de Constituies ou cnones apostlicos com que comeou o direito cannico 
no Oriente e no Ocidente" (Quasten). O livrete est dividido em 16 captulos, nos quais se distinguem claramente duas partes principais. A primeira (c. 1-10) apresenta 
instrues litrgicas; a segunda (c. 11-15) compreende normas disciplinares. A obra termina com o captulo sobre o advento do Senhor e sobre as conseqncias que 
este tem sobre a vida dos cristos. Se julgamos somente pelo ttulo, poder-se-ia acreditar que a Didaqu contm a pregao evanglica de Cristo. Melhor:  um compndio 
de preceitos morais de instrues sobre a organizao das comunidades e de ordenanas relacionadas s funes litrgicas, sobretudo a Eucaristia, o Batismo, os profetas, 
os bispos etc. So muito interessantes os princpios de caridade e de assistncia social expressos na Didaqu: esmola, obrigao de ganhar a vida com o prprio trabalho.

176 / Didascalia apostolorum syriaca

A Didaqu gozou de tanto respeito e reverncia na Antigidade que muitos chegaram a consider-la to importante quanto os livros do Novo Testamento.
BIBLIOGRAFIA: Padres apostlicos. Edio bilnge completa, Texto da Didaqu S. Paulo (Paulus); BAC. Madrid 5 1985, 30-98.

Didascalia apostolorum syriaca (sc. III)
Constituio eclesial composta nas primeiras dcadas do sc. III. Seu ttulo  Didasclia ou Doutrina catlica dos doze apstolos e dos doze santos discpulos de 
nosso salvador. O texto grego se perdeu; porm, chegou at ns numa traduo siraca. Foi a fonte principal das *Constituies apostlicas, nas quais se reproduzem 
os seis primeiros livros. "H pouco dogma na Didasclia, j que seu principal objetivo  dar uma instruo moral e regras cannicas para a manuteno da ordem e 
da disciplina da Igreja. Apesar disso, proporciona-nos informao farta para a histria da vida e dos costumes cristos. Trata, por exemplo, detalhadamente toda 
a questo da penitncia. Contra as tendncias rigorosas, afirma que se podem perdoar todos os pecados, inclusive o de heresia. Menciona igualmente o pecado do adultrio 
e de apostasia entre os pecados que se podem perdoar. Tambm no h nada indicando que depois do Batismo no haja perdo dos pecados. Apresenta uma liturgia muito 
desenvolvida da penitncia pblica, uma noo clara de seu carter sacramental, mas nenhuma aluso  penitncia particular" (Quasten).

Diderot, Denis (1713-1784)
*Enciclopdia, A.

Diogneto, Carta a / 177

Ddimo, o Cego (313-398)
Embora cego de nascimento, chegou a ser diretor da escola catequtica de Alexandria. Admirador e seguidor da doutrina de *Orgenes, sofreu tambm como este a condenao 
do Conclio de Constantinopla (553). Sua doutrina sobre a Trindade foi decididamente nicena. Ddimo, o Cego, mereceu o respeito da Antigidade por seus tratados 
Sobre o Esprito Santo, Sobre a Trindade e Contra os Maniqueus. Escreveu tambm comentrios sobre alguns livros da Bblia, como o demonstram os descobrimentos de 
alguns papiros perto de Toura, ao sul do Cairo, em 1941.

Diodoro de Tarso (finais do sc. IV)
*Escolas teolgicas, Primeiras.

Diogneto, Carta a (sc. II-III)
Trata-se de uma apologia do cristianismo em forma de carta dirigida a Diogneto, eminente dignidade pag. At esta data nada se sabe nem do autor nem do destinatrio 
da carta. Somente suposies levaram a afirmar que o autor poderia ser Quadrato ou Aristides, e o destinatrio o tutor de Marco Aurlio. As mesmas suposies existem 
a respeito da data de sua composio, provavelmente do sc. III. A carta foi escrita por solicitao de Diogneto. Nela, o autor pinta em termos brilhantes a superioridade 
do cristianismo sobre a nscia idolatria dos pagos e sobre o formalismo externo dos judeus. -- Porm, o melhor dela  a descrio que faz o autor da vida sobrenatural 
dos cristos (c. 5-6): "Os cristos, de fato, no se distinguem dos demais homens nem por sua terra, nem por sua fala, nem por seus costumes. Porque nem habitam 
cidades exclusivas suas, nem falam uma lngua estranha, nem levam um gnero de vida separado

178 / Dllinger, Johann Joseph Ignaz von

dos demais... Do mostras de um teor particular de conduta admirvel e, por confisso de todos, surpreendente. Habitam suas prprias ptrias, porm, como forasteiros; 
tomam parte em tudo como cidados e tudo suportam como estrangeiros; toda terra estranha  para eles ptria e, toda ptria, terra estranha. Casam-se como todos, 
como todos geram filhos, mas no expem os que nascem. Colocam mesa comum, mas no leito. Esto na carne, mas no vivem conforme a carne. Passam o tempo na terra, 
mas tm a sua cidadania no cu. Obedecem s leis estabelecidas, mas, com a sua vida, ultrapassam as leis. A todos amam e por todos so perseguidos. So ignorados 
e so condenados. Ao serem mortos, ganham a vida. So pobres e enriquecem muitos. Carecem de tudo e so fartos em tudo..." (BAC, 65). A Carta a Diogneto  "um dos 
documentos mais belos da literatura crist. Seu contedo revela um homem de f ardente e vastos conhecimentos, um esprito totalmente impregnado dos princpios do 
cristianismo. Sua linguagem transborda vitalidade e entusiasmo" (Quasten).
BIBLIOGRAFIA: Padres apostlicos. Edio bilnge completa. Texto da Carta a Diogneto (BAC). Madrid 51985, 845-862.

Dllinger, Johann Joseph Ignaz von (1799-1890)
Professor de Histria da Igreja na Universidade de Munique de 1826 a 1873. "Ultramontano" em sua primeira etapa, para depois passar a uma crtica impiedosa  Igreja 
de Roma. O centro de seus ataques foi o Conclio Vaticano I. Suas Cartas de Jano (1869) e as Cartas de Quirino (1870), escritas em parte em colaborao com outros, 
tornaram-no conhecido como um dos crticos mais formidveis do *Vaticano I e da doutrina da infalibilidade do papa. Acabou sendo excomungado em 1871. Posteriormente, 
e at a sua morte, esteve em contato com os chamados velhos catlicos. Em 1874-1875 teve duas reunies em Bonn

Domingos de Gusmo, So / 179

para procurar a unio de todas as Igrejas separadas de Roma, mas que tinham mantido a f e a ordem do cristianismo histrico.

Domingos de Gusmo, So (1170-1221)
Nasceu em Caleruega (Burgos). Estudante e professor em Valncia de 1184 a 1191. Nos ltimos anos do sculo XII, encontramo-lo em Osma, onde ingressou no cabido de 
cnegos reformados. Em 1204 saiu pela primeira vez da Espanha para ir ao sul da Frana, lder de movimentos populares que reagiram desaforadamente contra a situao 
rgida da Igreja: ctaros, valdenses, albigenses e outros grupos agitam a Igreja, perturbando-a em sua f e costumes. Durante vrios anos, Domingos desenvolveu uma 
atividade incansvel nessa regio francesa. Em 1207, bem prximo de Toulouse, nasceu a primeira comunidade de dominicanos, a "santa pregao". Em 22 de dezembro 
de 1216, Honrio III confirmou solenemente a fundao de Domingos. Era uma comunidade proftica que deveria conhecer o que morre e o que nasce, mantendo sua liberdade 
para fomentar toda novidade evanglica. Assim se entende a disperso dos frades, quando eram somente 16, por diferentes partes do mundo. Em 1217, ano do "pentecostes 
dominicano", esses 16 frades dirigiram-se a Paris, Bolonha e Roma, centros mais destacados do movimento cultural europeu. Quatro foram para a Espanha. "Todos eram 
enviados para estudar, pregar e fundar um convento". Diante da estranheza dessa disperso, Domingos responder: "Deixai-me agir; eu sei bem o que fao: amontoado 
o trigo, corrompe-se; esparso, frutifica". Durante os trs anos restantes de sua vida, Domingos pregou em Roma e em distintas regies da Frana, visitou as comunidades 
e organizou a ordem. Presidiu os primeiros captulos gerais de 1220 e 1221... Nos finais de julho de 1221, Domingos voltou a Bolonha doente e esgotado,

180 / Domingos de Gusmo, So

para morrer a 6 de agosto. Foi canonizado em 1234, reconhecido como "varo apostlico". De fato, Domingos faz sua a convico de pregar o Evangelho imitando os apstolos. 
Assim  como consegue, com certa rapidez, fundar uma instituio de um novo estilo com relao ao paternalismo monacal da poca anterior. Instituir o carisma da 
Palavra de Deus sem esgotar sua fora, lanar ao mundo missionrios itinerantes, tal  sua vocao e sua obra. Os pregadores so profetas, isto , homens comprometidos 
com a realidade dos tempos. Assim o pontfice romano os qualifica em reiteradas ocasies, e at em sua carta de fundao. A ordem de irmos pregadores fundada por 
So Domingos no sc. XIII rompe com o modelo e o estilo das ordens monacais anteriores. De carter itinerante e mendicante, como os franciscanos, colocam sua ateno 
na imitao de Cristo e dos apstolos pregando a palavra evanglica em meio da sociedade e nas grandes cidades. A pregao do Evangelho fica plasmada em seu grande 
lema: "contemplata aliis tradere". Ou na grande divisa da ordem: "Veritas". Meditar e ensinar a verdade: a) nas universidades, que adquirem com os mendicantes seu 
mximo auge e esplendor; b) pregao ao povo, rompendo o "sinistro silncio" que h um sculo cobria a cristandade; c) abrindo novos campos de misso para judeus 
e muulmanos; d) falando e convencendo os hereges. A represso da heresia, em todas as suas formas, parte da mensagem dos pregadores, atividade que exercero um 
pouco mais tarde atravs da Inquisio. So Domingos, alm disso, d um toque de originalidade  sua obra, antecipando-se aos tempos. Instaura uma sociedade democrtica, 
uma comunidade de irmos que vivem o Evangelho em caridade. H uma mtua influncia entre *Francisco de Assis e Domingos nesta implantao de um "estilo novo de 
religio", que levam at a fundao das "ordens terceiras" de seculares.

Doutores da Igreja / 181

A ordem de pregadores mantm at hoje sua vocao de pregadores da Palavra de Deus em todas as frentes: a universidade, a teologia, a filosofia, a cincia, a evangelizao 
na Amrica, na sia; a palavra falada, escrita; o rdio, a televiso etc. Grandes homens apareceram em todos os tempos de sua histria: Santo *Alberto Magno, *Toms, 
*Savonarola, *Cayetano, *Francisco de Vitria, *Bez, *Bartolomeu de las Casas, *Lacordaire, *Lagrange, *Congar, *Schillebeeckx, e outros. Na Espanha surgiram tambm 
grandes figuras. Alm dos mencionados, devemos assinalar So *Raimundo de Peafort, Domingos de Soto e os telogos da escola Salmanticense. Sem esquecer Raimundo 
Mart (sc. XIII) a quem Menndez y Pelayo chamam "insigne telogo, filsofo, escritor e fillogo, das maiores e injustamente obscurecidas glrias de nossa esquecida 
Espanha". Sua obra principal, Pugio fidei (Punhal da f),  semelhante  de Santo Toms (Summa contra gentiles) e a de seu compatriota catalo So Raimundo de Peafort.
BIBLIOGRAFIA: L. Galms-V. T. Gmez, Santo Domingo de Guzmn. Fuentes para su conocimiento (BAC).

Donato (sc. VI)
*Isidoro de Sevilha.

Doutores da Igreja (sc. XIII)
O ttulo de "Doutor da Igreja"  tardio. Remonta a Bonifcio VIII, que em 1298 nomeou Ambrsio, Jernimo, Agostinho e Gregrio Magno como padres e doutores da Igreja 
(*Padres da Igreja). No se deve confundir, entretanto, o ttulo de "padre da Igreja" com o de "doutor". s notas caractersticas dos padres da Igreja, -- ortodoxia 
de doutrina, santidade de vida, Antigidade e aprovao da Igreja --, os doutores tm de acres-

182 / Doutores da Igreja

centar dois requisitos importantes: erudio eminente e expressa declarao da Igreja. A atual lista de doutores da Igreja supera o nmero de trinta. Alguns deles 
foram nomeados vrios sculos depois de sua morte. Tal ocorreu com Santo Antnio de Pdua, que morreu no sc. XIII, e foi declarado doutor no sc. XX por Pio XII. 
Algo parecido e mais surpreendente  o caso das duas mulheres doutoras: santa *Catarina de Sena e Santa *Teresa de Jesus, includas nos catlogos de doutores em 
1970. -- O ttulo de "doutor da Igreja" no  somente um reconhecimento honorfico; pressupe a consagrao e, de certa forma, "a oficializao de sua doutrina" 
por parte da Igreja. Seu valor consiste em ser testemunhos e mestres qualificados do pensamento da Igreja nos campos que lhe so prprios: teologia, espiritualidade, 
mstica e moral.  um reconhecimento "post mortem" e um aval de sua doutrina que o tempo consagrou. De fato, no h nenhum doutor da Igreja nos dois ltimos sculos. 
O ltimo dos doutores  Santo *Afonso Maria de Ligrio (1796). -- A "autoridade" dos doutores da Igreja  importante enquanto interpretam "a tradio e o sentimento 
comum e o fazem avanar". So testemunhas culminantes do pensamento da Igreja, e sua vida exemplar lhes d um peso especfico. A teologia positiva valoriza o seu 
testemunho e doutrina na hora de expressar e formular o pensamento da Igreja. No obstante, so filhos de seu tempo e seu valor deve submeter-se a condicionamentos 
de escola, opinies e estilos do mesmo. No se deve confundir o ttulo de "doutores da Igreja" com o de "doutores escolsticos". Esse ltimo era o ttulo que, nas 
universidades da Idade Mdia, se dava aos professores que se sobressaam, eminentes em alguma matria ou em algum tipo de habilidade ou em alguma nota que representasse 
toda a sua personalidade, por exemplo Doctor subtilis, Doctor invincibilis, Doctor sublimis etc.

Doutrina Social da Igreja / 183

Doutrina Social da Igreja (DSI)
1. A doutrina social da Igreja tem um significado de carter teolgico e eclesial. No  uma simples formulao de contedos morais.  uma reflexo teolgica: conjugao 
de evidncias da f e evidncias dos saberes humanos. Reflexo formulada dentro do marco da moral: os contedos pertencem ao universo dos valores e, mais concretamente, 
ao mbito da moral social. "Os princpios fundamentais pelo que tem atuado o influxo do Evangelho na vida social contempornea, encontram-se no conjunto sistemtico 
da doutrina que tem sido proposta gradual e oportunamente desde a encclica Rerum novarum at a carta apostlica Octogsima Adveniens". Com a constituio Gaudium 
et Spes do Conclio Vaticano II, a Igreja entendeu melhor do que antes qual  o seu lugar no mundo atual, no qual o cristo, pregando a justia, trabalha por sua 
prpria salvao. A Pacem in Terris deu-nos a verdadeira carta dos direitos do homem. Na Mater et Magistra comea a ocupar o primeiro lugar a justia internacional, 
a qual se expressa na Populorum Progressio mais minuciosamente em forma de um verdadeiro e prprio tratado sobre o direito ao desenvolvimento, e na Octogesima Adveniens 
passa a ser uma sntese das orientaes relativas  ao poltica. 2. Servindo-se da tradio teolgico-moral, a doutrina social da Igreja constitui um modelo teolgico-moral 
especfico. Ao lado do gnero moral De iustitia et iure e De septimo praecepto deve-se situar tambm o que corresponde  DSI. Essa doutrina  um verdadeiro "osis" 
ou zona verde no deserto da teologia moral casusta e neoescolstica. No se pode poupar elogios ao que tem sido e ao que ser o acontecimento teolgico eclesial 
da DSI: a) Atravs dela, os catlicos tm vivido seu compromisso radical de servio  humanidade. b) Na DSI adverte-se a tentativa sria de uma reflexo teolgica 
interdisciplinar. c) A teologia sente-se questionada pela realidade e assume em

184 / Doutrina Social da Igreja

sua reflexo a racionabilidade que ocasionam os saberes humanos: cincia e tcnica. d) Os contedos da DSI no so abstratos nem atemporais, mas incidem na problematizao 
da realidade histrica e concreta. e) Finalmente, sups-se para a tradio teolgica moral uma grande contribuio com estudos que integram a rica herana do pensamento 
teolgico moral cristo. Alm disso, a influncia da DSI manifestou-se no apoio  construo de estruturas sociais democrticas. 3. Nas ltimas dcadas aconteceu 
uma profunda crise na DSI. No significado da DSI podem estar outras crises de grande dimenso como: a) O impacto da secularizao sobre a compreenso e a vivncia 
do cristianismo. b) A crise da especificidade crist, que encontra na mesma DSI um lugar de verificao. c) A crise do modelo de Igreja hierrquica, centralizadora 
etc. d) Finalmente, a crise teolgica, que questionou as mesmas bases metodolgicas da DSI. Essas diferentes crises acumularam srias objees tanto de carter teolgico, 
quanto tico e ttico, at o ponto de se falar de "morte da doutrina social da Igreja". Mais que falar de morte e desaparecimento da funo da DSI, acreditamos oportuno 
falar de uma reformulao que se concretiza nestas propostas: 1) O modelo teolgico-moral da DSI no  o modelo nico e perfeito para a formulao atual da tica 
social crist. 2) Quanto aos contedos, a DSI pode e deve ter vigncia global. A maior parte de tais contedos gozam de validade, desde que sejam colocados dentro 
de uma nova estrutura. 3) Pode e deve ser recuperado o significado profundo da Doutrina Social da Igreja, recolocando-a dentro do novo horizonte teolgico da libertao. 
Orientao que, por outra parte, vem tomando a doutrina social dos ltimos papas.
BIBLIOGRAFIA: Encclicas e Documentos Sociais (Da "Rerum Novarum"  "Octogesima Adveniens", S. Paulo 1972; Ocho grandes mensajes (BAC). Madrid 1971; S. Giner, Historia 
del pensamiento social. Barcelona 21975.

Duns Scot, John / 185

Duns Scot, John (1266-1308)
Nasceu na Esccia e morreu em Colnia. Conhecido como Doctor Subtilis por sua sutileza e sagacidade. Estudou as primeiras letras nos franciscanos, onde entrou aos 
quinze anos. Fez estudos de filosofia e teologia em Oxford e Paris. Em 1304, foi nomeado mestre em teologia desta ltima universidade. Em 1305-1306 voltou a Oxford 
como professor de lngua estrangeira, onde escreveu sua obra principal o Comentrio s sentenas, conhecido como Opus Oxoniense. Em 1308 foi chamado a Colnia, onde 
morreu. A breve vida de Duns Scot  ocupada toda ela por sua atividade docente e cientfica. Entre suas obras destacam-se o Tractatus de primo principio; as Quaestiones 
in Metaphysicam; o Opus Oxoniense ou Comentrio s Sentenas; as Reportata parisiensia e um Quodlibet. As trs primeiras pertencem  poca de sua estada em Oxford; 
as outras duas so resultantes de seu magistrio em Paris. O catlogo definitivo das obras autnticas somente se ter no trmino da edio crtica iniciada em 1950. 
A pesquisa moderna prossegue em busca de novas obras. Hoje a crtica considera apcrifas algumas delas. Convm afirmar que Scot  fundamentalmente agostiniano, como 
ingls e franciscano. Seu pensamento sente o peso da tradio de Oxford e de sua ordem franciscana, particularmente a dos grandes mestres como So *Boaventura. Seus 
pontos bsicos de repercusso so os seguintes: -- O ponto de partida bsico, que o separa de Santo Toms : a) O contraste entre a verdade racional da metafsica 
-- prpria da razo humana e vlida, portanto, para todos os homens -- e a verdade da f  qual a razo pode somente se submeter e que tem uma certeza bem slida 
para os catlicos. b) A f no tem nada a ver com a cincia. A f pertence ao domnio prtico. "A f no  um hbito especulativo, nem o crer  um

186 / Duns Scot, John

ato especulativo, nem a viso que segue ao crer  uma viso especulativa, mas prtica" (Opus Ox., prl. c. 3). -- Tudo o que ultrapassa os limites da razo humana 
j no  cincia, mas ao ou conhecimento prtico. Da: a) A separao e a anttese na doutrina de Scot entre o terico e o prtico. b) O terico  o domnio da 
necessidade, da demonstrao racional e da cincia. O prtico, o domnio da liberdade e, por conseguinte, da falta e impossibilidade da demonstrao e da f. c) 
Em conseqncia, o fim da teologia no  terico, mas educativo e prtico. A teologia no pode ser chamada cincia propriamente dita. -- De acordo com esse conceito 
de cincia, Scot considera impossvel demonstrar por meio da razo todos os atributos de Deus e, inclusive, a imortalidade da alma. Derruba a tentativa da escolstica, 
principalmente tomista, de experimentar racionalmente a existncia de Deus. "No se pode provar, demonstrar que Deus vive, que  sbio e inteligente, que  dotado 
de vontade, que  a primeira causa eficiente etc" (Theoremata, c. XIV, XV, XVI etc.). -- A univocidade, em aberta oposio a Santo Toms,  caracterstica de Scot. 
O ser, conceito fundamental e primeiro, no entra em nenhuma categoria:  transcendente.  uma noo unvoca, no anloga, e  comum a todas as coisas existentes: 
s criaturas e a Deus. Desse princpio nascem os caracteres peculiares da teodicia escotista, particularmente de cara as afirmaes sobre o problema da cognoscibilidade 
de Deus, que podemos resumir nestes pontos: a) Os conceitos que a nossa mente forma de Deus no so unicamente negativos nem so apenas anlogos, mas positivos, 
conotativos da essncia divina e, em parte pelo menos, unvocos. b) O conceito mais simples e, por isso, o mais perfeito, que a nossa mente pode formar sobre Deus 
 o de ser infinito. c) Partindo de que o ser infinito  sem causa e necessrio, Scot assume o argumento ontolgico de Santo *Anselmo.

Duns Scot, John / 187

"Se um ser sem causa  possvel, devemos concluir, de acordo com o princpio de contradio, que esse ser existe de fato." Afasta-se assim das vias de Santo *Toms: 
os feitos a posteriori de evidncia sensvel empregados por este so substitudos por uma verdade de evidncia intelectual. -- Da mesma forma, a doutrina escotista 
ressalta o primado da vontade sobre o entendimento. E isto em todas os sentidos, para Scot, a vontade: a) no  passiva mas ativa; b) no se determina por uma necessidade; 
c) sua importncia moral  superior  do entendimento. Da que para ele o amor seja superior  prpria f. "Vale mais amar a Deus do que conhec-lo. E vice-versa: 
a perverso da vontade  mais grave do que a do entendimento". -- No acaba aqui a doutrina de Scot. Interessante  sua doutrina sobre o conhecimento do singular, 
os universais, a unio da alma e do corpo, o princpio de individualizao, o conceito de lei natural, a estrutura do ato moral etc. -- "Sua tentativa de enriquecer 
a tradio agostiniana com as doutrinas do aristotelismo mereceu-lhe a honra de ser considerado o doutor mais representativo da escola franciscana. No entanto, os 
pontos fracos e as conciliaes superficiais, que freqentemente o fazem oscilar entre Aristteles e Santo *Agostinho, infundem a muitos estudiosos srias dvidas 
sobre a coerncia e a solidez intrnsecas de seu pensamento: Aqui reside, mais do que no restante, seu significado histrico e seu valor terico" (E. Bretton, Diccionario 
de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Ed. Wading, 12 vols. Lyon 1639 (Ed. Vivs, Paris 1891-1895, reimpreso); Opera omnia. Cidade do Vaticano 1950, em publicao; Obras del 
Doctor Sutil Juan Duns Escoto, 2 vols. (BAC); Id., Tratado acerca del primer principio. Edio bilnge, preparada por Flix Alluntis (BAC).

188 / Eckhart, Johann

E
Eckhart, Johann (1260-1327)
Conhecido desde a Idade Mdia como "magister Eccardus" e considerado o fundador da mstica alem. Pertenceram  sua escola homens como J. *Tauler (1300-1361), E. 
Suso (12951366), J. de Ruysbroeck (1298-1381) e muitos outros ao longo dos sc. XIV-XV. Todos eles -- juntamente com o mestre Dietrich, que influenciou poderosamente 
Eckhart -- so dominicanos. Todos tm um trabalho comum: a elaborao do chamado misticismo alemo que j no  "uma simples descrio da elevao do homem at Deus, 
mas a investigao da possibilidade desta ascenso e reconhecimento de seu fundamento ltimo na unidade essencial de Deus e do homem". J. Eckhart nasceu em Hochheim, 
perto de Gotha (Alemanha). Ingressou nos dominicanos e realizou seus estudos em Colnia e Paris. Concluda sua carreira, voltou a Paris como "magister in sacra pgina" 
(1302-1303). Da passou a desempenhar o cargo de provincial dos dominicanos da Saxnia (1303-1311). Voltou a Paris com os maiores graus acadmicos (1312-1314). Nesse 
ltimo ano passou a reger a escola teolgica de Estrasburgo, para viver os ltimos anos de sua vida em Colnia,  frente do Studium generale da provncia alem. 
Tanto sua pregao como suas aulas na ctedra levantaram suspeitas sobre sua ortodoxia, o que lhe valeu um processo que s terminou depois de sua morte. Trs atividades 
ocupam praticamente toda a sua vida: o ensino na universidade, a pregao e o governo das comunidades dominicanas da Alemanha. Frutos dessa atividade conjunta so 
as suas obras. Eckhart  considerado um dos iniciadores

Eckhart, Johann / 189

da filosofia alem e um dos forjadores, seno o primeiro, do idioma alemo como linguagem filosfica e teolgica. Suas obras iniciais como Reden der Unterscheidung; 
Collatio in Libros Sententiarum e o Tractatus super orationem dominicam remontam ao ano 1298. As Quaestiones utrum in Deo; Utrum intelligere angeli; Utrum laus Dei 
so do perodo 1302-1304. Aos anos 1311-1314 pertencem as "quaestiones" Aliquem Motum e Utrum in Corpore Christi, assim como sua obra em alemo Buch der gttlichen 
Trstung -- ou livro da divina consolao --. O Opus tripartitum foi concludo em 1323. Posterior  a sua obra Opus expositionum. A essas obras se devem acrescentar 
seus numerosos sermes, tanto em latim quanto em alemo, e cuja datao no  fcil. "A obra de Eckhart  a maior tentativa de justificar especulativamente a f 
-- diz Abbagnano --,  qual a ltima escolstica tirara toda a fundamentao das capacidades naturais do homem". Sua obra  substancialmente "uma teoria da f: sua 
fundamentao tenta estabelecer aquela unidade essencial entre o homem e Deus, entre o mundo natural e o sobrenatural" (Historia de la filosofa, I, 564). Por outro 
lado, no  simples o pensamento de Eckhart. E compreendemos as dificuldades dos historiadores que desejam enquadr-lo numa frmula ou design-lo com um nome. Alguns 
vem nele, antes de mais nada, uma mstica; outros uma dialtica platnica e plotiniana;  provvel que todos tenham razo. Mstica e dialtica esto longe de se 
exclurem. Talvez no nos afastaramos muito da verdade, imaginando Eckhart como alma devorada pelo amor de Deus, favorecida talvez por um intenso sentimento da 
presena divina e pedindo  dialtica todas as justificativas que ela era capaz de lhe dar. Com esse estilo, j podemos adiantar algumas de suas caractersticas, 
sempre com as reservas, contradies e antinomias que apresentam os seus escritos.

190 / Eckhart, Johann

-- Deus  o ser -- esse est Deus -- e o  na sua pureza e plenitude, esse purum et plenum. Deus  o Uno: o intelligere puro que se identifica com a unidade.  o 
mesmo que dizer que Deus  intellectus ex toto que Deus unus est. -- Ningum mais que Deus  o ser. A criatura  um puro nada, pelo menos no sentido de que por si 
mesma no . -- Mas a criatura , pelo contrrio, na medida em que participa do intelecto e do intelectual.  concebida para permitir a volta do homem ao Uno pelo 
conhecimento intelectual. -- A alma  uma substncia espiritual. Nela Eckhart descobre um elemento mais secreto e propriamente divino, que designa com imagens diferentes: 
"centelha", "chispa", "castelos da alma", "essncia da alma", "broto", "pobreza do esprito". Nomes todos que tm a sua origem histrica no "centro da alma" de Plotino 
e na "flor do intelecto" de Proclo. Ou melhor na mstica crist latina, especialmente em Santo *Agostinho, que a chama "acies cordis" ou agudeza do corao. E em 
So *Boaventura. Essa centelha ou chispa da alma  o "fundo ou fio da alma" de nossos msticos, de onde Deus sai ao encontro da alma. -- Que  essa "centelha" ou 
"chispa" da alma? Uma chispa do entendimento divino, una e simples como Deus. Uma das 28 proposies condenadas de Eckhart diz: "Na alma existe algo que  incriado 
e incrivel; se toda a alma fosse igual, seria incriada e incrivel, e isso  o entendimento".  a idia central no pensamento de Eckhart, e que nos leva, de forma 
direta,  unio da alma com Deus, posto que j no  mais do que o Uno. -- Para chegar a tal unio, o homem deve elevar-se acima das criaturas e compreender que 
elas so apenas um puro nada. A nica criatura que nos levar diretamente a Deus ser a nossa prpria alma que, livre de todas as travas que a limitam, perceber 
em si mesma a continuidade de seu ser com o ser do qual deriva. "Negando-se a

Educadores cristos / 191

si prprio pelo amor de Deus, o homem voltar a se encontrar a si mesmo." Somente assim a alma alcana sua independncia e sua total liberdade: sua mais pura essncia. 
Chegou  mais alta virtude: a pobreza e o desinteresse. Desde agora, a alma "j no sabe nada, j no pode nada, j no possui nada". A alma perdeu-se em si mesma, 
perdendo o sentido de toda determinao, por seu retorno a Deus. -- "O resultado dessa unio e abandono  que todas as prescries da moral so secundrias ou vazias. 
Orao, f, graa e sacramentos somente so preparaes e meios. Tornam-se inteis no momento em que se realiza na alma como que uma nova natividade de Deus. J 
pode renunciar a todas as coisas, inclusive ao prprio Deus, pois no tem de desejar o que j possui. Por tal virtude suprema, confunde-se com Deus na beatitude 
de sua comum unidade" (E. Gilson, o. c., 642s.).
BIBLIOGRAFIA: Obras: El libro del consuelo divino. Madrid 1955; Cuestiones parisienses, 1962; Sermones, 1970.

Educadores cristos (sc. XVI-XVII)
Sob essa epgrafe englobamos os homens e instituies dedicados ao ensino, nascidos no calor da Contra-Reforma. O cenrio  a Europa e a Amrica dos sc. XVI e XVII. 
J havamos visto as escolas e as universidades da Igreja na Idade Mdia (*Escolas e Universidades). Tambm se podem ver a atividade e a orientao pedaggica dos 
Irmos da vida comum (*Kempis, *Erasmo). No menos interessante foi a atividade pedaggica dos jeronimianos, que desde o sc. XIV se dedicaram  educao gratuita 
de todo tipo de crianas nos numerosos centros fundados por eles no centro da Europa. Para os jesutas, *Ratio Studiorum, *Santo Incio. Entre as numerosas instituies 
surgidas do esprito de Trento e fomentadas por Pio V e seus sucessores, queremos relembrar as seguintes: 1) O "oratrio" de So Filipe Nri; 2) So Carlos Borromeu 
e sua obra; 3) As "Escolas Pias" de So

192 / Educadores cristos

Jos Calasncio; 4) As "Escolas crists" de So Joo Batista de la Salle; 5) O "oratrio" de Pierre de Brulle na Frana etc. 1. So Filipe Nri (1515-1595), denominado 
o "Apstolo de Roma",  a figura do educador inteiramente consagrado  elevao das classes populares. No seu tempo foi conhecido como o "Santo Sorridente". Fundou 
o Oratrio com o fim de entreter e reeducar os rapazes dos bairros humildes de Roma, conseguindo desta forma sua formao religiosa e educao social. A instituio 
do Oratrio adiantou-se a seu tempo, oferecendo mtodos pedaggicos vivos e atraentes como passeios, jogos, recreio e trabalho comum, canto polifnico, acompanhando 
representaes teatrais. 2. O tpico homem da Contra-Reforma  So Carlos Borromeu (1538-1584), cardeal arcebispo da arquidiocese de Milo. Assistiu s ltimas sesses 
do Conclio de *Trento. Iniciou as reformas do Conclio em sua diocese e criou os primeiros seminrios para a formao do clero. Na questo de educao, favoreceu 
os jesutas, barnabitas e somascos; fundou o Instituto da escola, promoveu a criao de escolas, orfanatos, colgios, como o Colgio helvtico (1579). Seguindo as 
recomendaces do Conclio de Trento, disps com o carter obrigatrio que todo proco deveria criar gratuitamente uma escola elementar. E para a juventude universitria 
criou um centro, depois chamado Almo colgio Borromeu, para que, atravs da cincia e da f, conseguisse um nvel superior. Estimulou a beata ngela de Mrici na 
organizao das ursulinas (1544) para a formao das jovens. Sua obra escrita de grande alcance e influncia  o Catechismus romanus ad parochos (1564), texto oficial 
para o ensino cristo em sua diocese. E um tratado terico de formao pedaggica para seus centros de educao: A educao crist e poltica dos filhos, escrito 
por Slvio Antoniano, inspirado na doutrina e no esprito do santo bispo.

Educadores cristos / 193

3. So Jos Calasncio (1556-1648). Nascido em Peralta da Sal (Huesca), estudou em Alcal e Salamanca. Estabeleceu-se em Roma onde se dedicou ao ensino popular. 
 o fundador da escola popular moderna e patrono da escola primria crist. Abriu sua primeira escola popular no Trastevere romano em 1597. Para dar continuidade 
 sua obra, fundou uma congregao religiosa chamada das Escolas Pias, cujas constituies expressam as caractersticas, o estilo e o mtodo distintivos da nova 
instituio. Sob o lema "piedade e letras" incluram-se os ensinamentos fundamentais: leitura, escritura, clculo e lngua latina. Deu-se ao ensino um carter eminentemente 
prtico como preparao para o futuro trabalho. s Constituies (1610) deve-se acrescentar outros escritos, fundamentalmente cartas, dirigidos para manter e aperfeioar 
a obra, principalmente para a formao dos mestres. 4. Pierre de Brulle (1575-1629), conhecido por seus escritos espirituais, e tambm por ter criado o Oratrio 
de Paris (1611), que se estendeu por toda a Frana, Blgica, Savia e Roma. Inspirada nos princpios de So Filipe Nri, a obra de Brulle adquire um desenvolvimento 
tanto em seus mtodos quanto em seu programa e pblico. O oratrio francs  uma elevada instituio para a formao do clero e das elites. Ganhar a admirao de 
Descartes e de seu discpulo Malebranche. Sob a direo do superior geral P. Condren, redigiu-se um plano geral -- uma Ratio studiorum a magistris et professoribus 
congregationis Oratorii Domini Jesu observanda (1631) --, em que se tratava da disciplina, dos estudos e dos mtodos, acrescentando-se novas disciplinas ao curriculum. 
5. Na segunda metade do sculo XVII e no primeiro quarto do XVIII, encontramos So Joo Batista de la Salle (1651-1719). , de longe, a figura mais representativa 
da pedagogia popular francesa do sculo XVII. Nesta tentativa foi precedido e estimulado por notveis exemplos de sacerdotes e mestres dedicados ao ensino da ju-

194 / Educadores cristos

ventude, entre eles So Pedro Fourier. Em 1686, Joo Batista de la Salle uniu-se a vrios sacerdotes para criar uma nova congregao, totalmente dedicada ao ensino 
gratuito, ainda que para isso fosse necessrio que seus membros "pedissem esmola" ou "vivessem somente de po". Preocupado com a formao dos novos mestres, criou 
um seminrio de mestres urbanos e um seminrio para mestres rurais, que constituram os primeiros e srios ensaios de escolas normais que conhecemos. Seu trabalho 
pedaggico completou-se com as escolas dominicais para jovens operrios, a escola de artes e ofcio para a reeducao dos delinqentes, internos, classes de adultos, 
escolas noturnas, patronatos -- toda uma rede de servios pedaggicos concebidos dentro do que se conhece como "escolas crists". Para dar base terica s suas numerosas 
fundaes, La Salle publicou vrios tratados escolares como Os deveres do cristo; As regras de boas maneiras e urbanidade; Coleo de cnticos, com coplas para 
serem cantadas na escola. Mas a obra propriamente didtica  o Guia das escolas -- em seu original francs Conduite des coles Chrtiennes --, aplicao na prtica 
escolar de uma teologia da educao. 6. Em ltimo lugar, porm no menos importantes, citamos a Didactica Magna de Comenius, latinizao de Joo Ams Comensky (1592-1670), 
pertencente  ordem dos Irmos moravos. Escrita em tcheco em 1628, mereceu para seu autor o qualificativo de pai da pedagogia moderna e o organizador e propagador 
da escola nacional. "Teve a arte de integrar em suas obras idias dos melhores moralistas e pedagogos anteriores a ele, elaborando assim um interessante plano pedaggico 
de grande influncia posterior". Os sculos XVIII-XX produziram grandes pedagogos e instituies pedaggicas, algumas das quais esto resenhadas neste dicionrio.
BIBLIOGRAFIA: San Jos de Calasanz. Su obra. Escritos, I (BAC). Madrid 1956; S. Gallego, Teologa de la educacin en San Juan Bautista de la Salle. Madrid 1958;

Efrm, Santo / 195 V. Caballero, Orientaciones pedaggicas de San Jos de Calasanz. CSIC, Madrid 1945; F. Charmot, La pedagoga de los jesuitas. Madrid 1956; R. 
Ruiz Amado, Pedagoga ignaciana. Barcelona 1912; Enciclopdia da Educao, de Santillana, e obras gerais sobre a histria da educao; M A. Galino, Historia de 
la Educacin. Edad Antigua y Media. Gredos, Madrid 1973; Isabel Gutirrez, Historia de la Educacin. Intercincia, Madrid 1970.

Efrm, Santo (306-373)
Conhecido como Efrm o Srio, dicono de Edessa, a "ctara do Esprito Santo". Nasceu em Nsibe (Mesopotmia) e morreu em Edessa, cidade pela qual  conhecido. Telogo, 
poeta, grande compositor de hinos, foi declarado doutor da Igreja universal por Bento XV em 1920. A obra escrita de Efrm cobre uma ampla gama que vai desde a poesia 
 exegese bblica. Dicono a servio do bispo em tarefas de ensino, estabeleceu-se em Edessa, onde escreveu a maior parte de sua obra. Se acreditamos em Sozomenes, 
Efrm escreveu mais de 1.000 obras, uma verdadeira riqueza literria e teolgica. A primeira  formada pelos Carmina Nisibena -- Cantos de Nsibe, onde narra em 
verso os acontecimentos ocorridos em Nsibe ao ser tomada pelos persas. Como exegeta bblico, Efrm escreveu comentrios aos livros do Gnesis e do xodo e, principalmente, 
ps as notas da verso grecosiraca do Novo Testamento conhecida como o Diatessaron. Sua forma literria favorita foi o verso. Em verso, de fato, e em siraco, escreveu 
sermes, tratados e hinos. Seu freqente uso da metfora continuada e da alegoria amplificada torna-se hoje um tanto pesado. Serviu-se dos hinos para combater as 
heresias, de forma particular os gnsticos do sculo II como *Marcio e Bardasanes. Muitos de seus hinos so dirigidos tambm a combater as heresias de seu tempo, 
principalmente o arianismo. Seus temas favoritos so os da exaltao da Igreja, da f crist, da virgindade e da paixo e ressurreio de Cristo. Em particular, 
a nfase de sua poesia exalta a devoo  Virgem

196 / Egria

Maria, sua concepo sem mancha e sua prova de fidelidade. Mas, tanto em prosa quanto em verso, seu pensamento teolgico centra-se na eternidade do Pai, do Filho 
e do Espirito Santo; na unio da divindade e da humanidade em Cristo; na funo essencial do Esprito Santo na orao, especialmente em tornar possvel a presena 
real de Cristo na Eucaristia; e, de forma especial, na ressurreio de todos os homens. Sobre esse ponto mantm e defende a tradio siraca de que cada indivduo 
ter de esperar o juzo final para conseguir a bem-aventurana eterna.

Egria (sc. IV-V)
*Literatura autobiogrfica.

Eliot, Thomas (1888-1965)
*Literatura atual e cristianismo.

Ellacuria, I. (1930-1989)
*Libertao, Telogos da; *Zubiri,

Encclica
Em seu sentido originrio, uma encclica,  uma carta ou documento circular que corre entre os membros de um mesmo grupo, regio, circunscrio, nao. Pelo uso 
do termo, a encclica passou a ser uma carta pastoral que o bispo de Roma dirige a toda a Igreja sobre matrias de doutrina, de moral ou de disciplina. A prtica 
de dirigir cartas e outros documentos a todas as Igrejas ou a uma Igreja particular remonta aos prprios livros da Escritura. No Novo Testamento encontramos as chamadas 
*Cartas Catlicas dirigidas a todas as Igrejas. Paulo, tambm, as dirigiu a algumas das Igrejas que evangelizara, como a Carta aos Romanos, duas Cartas aos Corntios, 
aos Glatas etc. Essa mesma prtica a encontramos nas primeiras Igrejas:

Encclica / 197

escreviam-se de uma Igreja a outra, de um bispo a uma Igreja determinada. Incio de Antioquia e Policarpo as escreveram a diversas Igrejas. Tambm os papas costumavam 
escrev-las desde os primeiros tempos, fosse a uma, ou a todas as Igrejas. O exemplo mais antigo, temo-lo no Papa Clemente, que dirigiu suas duas cartas a toda a 
Igreja. A prtica tornou-se comum ao longo de toda a histria da cristandade at nossos dias. Cabe dizer, entretanto, que o qualificativo de Carta Encclica aplica-se 
somente a partir do sc. XVIII. Com essa denominao, conhece-se a primeira encclica Ubi primum de Bento XIV, sobre as obrigaes dos bispos, publicada em 1740. 
As encclicas tornam-se um meio ordinrio do magistrio dos papas a partir do sculo XIX. Pio IX (1846-1878) serviu-se desse meio de uma maneira peridica e regular. 
Os papas que o sucederam, *Leo XIII, Pio X, Pio XI, *Pio XII, *Joo XXIII, *Paulo VI, e *Joo Paulo II fizeram das encclicas um elemento imprescindvel de seus 
respectivos pontificados. As cartas so dirigidas, em primeiro lugar, aos bispos locais e a seus respectivos fiis. Excepcionalmente, como ocorreu com a Pacem in 
Terris de *Joo XXIII, dirigem-se tambm "a todos os homens de boa vontade". Esto escritas em latim e numa linguagem um tanto solene e ulica. A primeira ou as 
primeiras palavras diferenciam-nas das demais e por elas so conhecidas. Outro aspecto mais importante das encclicas  o seu valor doutrinal. Que valor ou fora 
tm para as Igrejas e para os fiis em particular? A teologia tem formulado juzos de valor que permitem ler, interpretar e aplicar as encclicas na vida concreta. 
No se trata de documentos infalveis. Com tais cartas do magistrio pontifcio "a luz dos princpios evanglicos aplica-se  realidade mutante das comunidades humanas; 
interpretam-se os `sinais dos tempos' e se assinalam as mximas necessidades dos homens, para onde caminha o mundo e quais so os grandes caminhos pelos quais se 
deve

198 / Enciclopdia, A

procurar uma paz fundamentada na justia". Os ensinamentos das encclicas colocam-se no num nvel puramente terico, nem tcnico, nem poltico no sentido imediato 
da palavra, mas de "responsabilidade pastoral". Neste sentido e nvel deve-se ler, interpretar e aplicar sua doutrina e orientao. Por isso mesmo tm tambm um 
carter normativo e de orientao na vida prtica. Os temas de maior incidncia nas encclicas so: Os temas sociais. A essa parte pertencem Rerum Novarum, sobre 
a situao dos operrios, de Leo XIII; Quadragesimo Anno, sobre a restaurao da ordem social, de Pio XI; Mater et Magistra, sobre o recente desenvolvimento da 
questo social, e Pacem in Terris, sobre a paz entre os povos, as duas de *Joo XXIII; Ecclesiam Suam, sobre o dilogo, e Populorum Progressio, sobre a necessidade 
de promover o desenvolvimento dos povos, ambas de Paulo VI. Mas no  exclusivo o tema social das encclicas. A famlia e a educao tm fornecido, ultimamente temas 
para as encclicas dos ltimos papas (*Pio XII, *Paulo VI, *Joo XXIII, *Joo Paulo II). Ver *Doutrina Social da Igreja.

Enciclopdia, A (1750-1780)
Quando falamos de A Enciclopdia, utilizamos esse termo especialmente para referir-nos  Enciclopdia Francesa do sc. XVIII. A Enciclopdia ou L'encyclopdie  
o termo que, na histria da filosofia e do pensamento, designa a "enciclopdia por antonomsia". Antes e depois do evento, houve muitas tentativas e xitos de enciclopdias, 
dicionrios, textos cientficos, summas etc., transmissores de um saber total ou geral das cincias e das artes. A palavra original grega enkuklios paideia indica, 
de fato, um sistema completo de educao que abrange todas as disciplinas e seus fundamentos. E passou depois a significar a exposio dos conhecimentos em forma 
sinttica e mais completa possvel. Nenhuma, porm, conseguiu em seu tempo, e posteriormente, os resultados desejados quanto A Enciclop-

Enciclopdia, A / 199

dia. Tanto  assim, que criou um estilo ou corrente de pensamento chamado "enciclopedismo", significativo das tendncias iluministas e liberais que se manifestam 
ou se deixam transluzir nos artigos de A Enciclopdia. O ttulo completo : Enciclopdia ou Dicionrio Raciocinado das Cincias, das Artes e dos Ofcios, por uma 
sociedade de homens de letras. Organizado e publicado por M. Diderot...; e a parte matemtica por M. d'Alembert. Entre 1751 e 1765 apareceram os 17 primeiros volumes 
do texto. Sucederam-lhe 11 volumes de pranchas ou lminas entre 1762-1772. Esses 28 volumes foram complementados com mais 5 volumes de suplementos (1776-1777), mais 
2 volumes de ndices (1780). Ao todo, 35 volumes em flio. Foram numerosos os autores que escreveram para A Enciclopdia, embora alguns deles annimos. Alm de Diderot 
e D'Alembert, colaboraram *Voltaire, Rousseau, Holback, F. Quesnay, A. R. J. Turgot, L. J. M. Daubenton, J. F. Marmontel e o abade A. Morellet. Diderot conseguiu 
reunir em torno de a A Enciclopdia os homens mais destacados do Iluminismo francs. Ele mesmo escreveu inumerveis artigos, principalmente de filosofia e de teoria 
social. Em 1782 fez uma nova edio corrigida e aumentada, mas por ordem sistemtica de matrias e no por ordem alfabtica, como tinha sido a primeira. Foi dada 
continuidade a essa edio, depois da morte de Diderot durante a Revoluo francesa, e se concluiu em 1832. A publicao de A Enciclopdia coincide com o auge do 
Iluminismo francs, e tambm europeu (*Desmo). Foi um dos grandes acontecimentos intelectuais e sociais da poca. E, principalmente, um dos instrumentos mais eficazes 
na difuso das idias que anos depois se cristalizariam na Revoluo Francesa: tolerncia religiosa, otimismo com relao ao futuro da humanidade, confiana no poder 
da razo livre, oposio  autoridade excessiva da Igreja, interesse pelos problemas sociais etc. Com tudo isso, formou-se um estado de esprito, cuja influncia, 
como expres-

200 / Epifnio, Santo

so do pensamento progressista, serviu de prlogo  Revoluo Francesa, e praticamente a todo o sculo XIX. Direta e indiretamente, a publicao de A Enciclopdia 
tem uma influncia decisiva no pensamento e na literatura crist dos ltimos 200 anos. Desde sua publicao, suscitou a reserva e a oposio tanto do estamento eclesistico 
quanto do governo.  sabido que foi submetida  censura dos jesutas e que o Conselho de Estado francs suprimiu vrios volumes (1752), chegando em 1759 a proibir 
sua publicao durante vrios anos. A Enciclopdia e os enciclopedistas, por outro lado, conseguiram criar duas fortes correntes de pensamento na Igreja: os conservadores 
ou ultramontanos e os liberais ou progressistas. Em torno destas duas correntes, transcorreu a passagem do cristianismo  modernidade.
BIBLIOGRAFIA: Joseph Le Gras, Diderot et l'Encyclopdie, 1928; Arthur M. Wilson, The Testing Years (1713-1759); The Appeal to Posterity (1759-1784), 1972.

Epifnio, Santo (+403)
*Joo Damasceno, So

Erasmo de Rotterdam, Desidrio (1467-1536)
Conhecido como "o prncipe dos humanistas cristos", recebeu sua primeira educao entre os Irmos da vida comum em Gouda (Holanda). Depois foi a Deventer, onde 
estudou a fundo o latim para ingressar mais tarde e fazer seus primeiros votos como cnego regular de Santo Agostinho (1486). Ordenou-se sacerdote e foi nomeado 
secretrio do bispo de Cambrai. Praticamente desligado de seus compromissos monsticos e sacerdotais, durante vrios anos deslocou-se para Paris (1495), Itlia, 
Oxford, Lovaina, Inglaterra, onde visitou Oxford, e foi o primeiro professor de grego na Universidade de Cambridge (15111514). Durante esse tempo observou e estudou

Erasmo de Rotterdam, Desidrio / 201

os movimentos humansticos da Europa, criando uma rede de amigos e colaboradores de sua obra. Merece destacar-se a amizade que sempre professou, desde sua primeira 
visita  Ilha (1494), a *Toms Morus. Essa amizade, partilhada pelo ingls, deu lugar a estadas prolongadas de Erasmo em Londres e tambm a uma colaborao estreita 
entre ambos os humanistas no campo da traduo. A casa de Morus era o lar de Erasmo, onde escreveu sua famosa obra o Elogio da loucura em oito dias. A partir de 
1521, Erasmo mudou-se para Basilia, onde morou na casa de seu impressor J. Froben. Mudou sua residncia para Friburgo (1529-1535), e voltou para morrer em Basilia. 
Sua vida e atividade se ambientaram na Europa de seu tempo. Da Europa dessa poca, Erasmo se preocupou com a poltica, a educao, os homens e a religio. De frente 
para essa Europa que bem conheceu, podemos traar os temas e problemas objeto de sua preocupao: a) Comea pelo problema do humanismo em sua primeira acepo: o 
retorno s letras antigas gregas e romanas. Erasmo encontrou nos mode-

202 / Erasmo de Rotterdam, Desidrio

los clssicos greco-latinos o modelo perfeito da humanitas. Durante os primeiros anos dedicouse com paixo e fervor ao estudo do latim e do grego. A leitura, o comentrio 
e a traduo dos autores clssicos sero o passatempo e exerccio constante ao longo de toda a sua vida. Leu Homero, de quem "somente ao ver a obra d-lhe alegria 
e o devora avidamente com os olhos". Leu e traduziu Ccero: De officiis (1501); De amicitia (1520); De senectute (1520). A partir de 1509, fez edies de Plauto, 
Terncio, Plato, Pndaro, Eurpides etc. Foi leitor assduo de Sneca e de Plutarco, de quem fez tradues e comentrios. Riu com a graa e a ironia de Aristfanes, 
Marcial, Juvenal e, principalmente, de Luciano, seu autor favorito, cujos Dilogos traduziu a quatro mos com Toms Morus. b) Esse retorno s fontes transformou-o 
no mais prestigiado editor dos clssicos de seu tempo. Junto com seus dois impressores Aldo Mancio (Veneza) e J. Froben (Basilia), preparou, revisou, fez o prlogo 
de edies de Ccero, Suetnio, Tito Lvio, Plnio, Aristteles, Demstenes e Ptolomeu, alm das j mencionadas. Para a compreenso e estudo dos clssicos, escreveu 
vrias de suas primeiras obras, como o Antibarbarorum liber (1494), contra os que falam mal o latim; os Colloquia, para o exerccio do latim (1495); os Adagia (1500); 
e, ao final de seus dias, Ciceronianus (1527). c) Essa preocupao pelas fontes levou-o ao estudo dos documentos da Bblia, particularmente o Novo Testamento, e 
da tradio crist, refletida nos escritos dos padres. J em 1516 publicou o Novum Instrumentum ou Novum Testamentum: uma edio bilnge -- grego e latim -- do 
NT. Dos textos gregos fez sua prpria verso latina, resultado de um confronto com os textos mais confiveis. Junto a esse estudo da Bblia, citamos a srie de estudos, 
comentrios e edies dos padres, principalmente de *Jernimo, Joo *Crisstomo, *Cipriano, *Agostinho etc.

Erasmo de Rotterdam, Desidrio / 203

d) Sua atividade literria no se encerrou aqui. Ao longo de sua vida, junto s edies de clssicos greco-latinos e cristos, sucedeu-se uma srie de obras nas 
quais apareceu o chamado erasmismo. Com seus livros, dirigiu-se s diversas classes e condies sociais de seu tempo -- crianas, casais, prncipes, papas, cristos 
em geral --, aos quais transmitiu uma nova forma de educao crist e humana. Nesta linha esto De civilitate morum puerilium (1526); Declamatio de pueris statim 
ac libenter instituendis (1529); Institutio Christiani Matrimonii (1526); Vidua Christiana (1529). Estes foram precedidos por obras mais conhecidas como o Enchyridium 
Militis Christiani (1503); o Encomium stultitiae -- Elogio da loucura -- (1511), e Institutio Principis Christiani (1516). e) A atividade literria de Erasmo dirigiu-se, 
finalmente, para os problemas polticos e religiosos de seu tempo. Odiou visceralmente a guerra, que para ele era antimoral e anti-evanglica, sejam guerras internacionais, 
sedies ou guerras civis. A paz, ao contrrio, era um fim em si mesmo que se deve conseguir a qualquer custo. Em todas as suas obras volta a esse tema da paz e 
da guerra como um obsesso. O Evangelho  uma mensagem de paz, a guerra  o anti-Evangelho. Por isso escreveu seus dois livros sobre a paz contra as guerras de Jlio 
II: Julius exclusus e coelis (1513) e em especial o Querella pacis (1516). f) A situao religiosa, todavia, causou-lhe maior preocupao. Para ele, a Igreja de 
seu tempo apresentou a distopia: a corrupo e a desordem mxima na hierarquia eclesistica, as ordens religiosas, os reis e prncipes que se diziam cristos. A 
experincia de uma Igreja e de uma sociedade afastadas do ideal do cristo far com que ele deixe as palestras para lanar-se contra papas, bispos, abades e clrigos 
que desmentiam em sua pessoa e em seu ofcio o nome e o ideal de cristos. Sua correspondncia epistolar e suas obras pediram e prepararam uma reforma da Igreja 
in capite et in corpore. Lutero ver nele um de seus mais fortes aliados, mas perceber tambm de

204 / Erasmo de Rotterdam, Desidrio

quanto se diferenciava dele na sua maneira de entender a reforma crist. -- Que nos resta de Erasmo? Evidentemente, Erasmo no  um telogo profundo nem um reformador 
social radical. Seu pensamento religioso segue uma linha de evoluo que o leva a amadurecer, em uma cada vez mais meditada ortodoxia. -- Fica para ns sua radical 
sinceridade que o leva a detestar o farisasmo. Esse homem paradoxal e polmico amou e defendeu a pura espiritualidade do cristianismo. Sua philosophia Christi, 
baseada na Christi sodalitas, tem um contedo profundo capaz para armar o cristianismo e defender-se de seus inimigos. Advoga por uma religio de converso interior, 
de retorno  Escritura e aos padres, assim como de exigncia, de harmonia social e de paz entre as naes. -- Deixa-nos sua crtica  sociedade e  Igreja, principalmente 
no Elogio da loucura. "A publicao da Moria -- diz Bataillon --to agressiva, sob o vu da ironia, contra tudo o que parecia morto no catolicismo, pe Erasmo na 
vanguarda dos inovadores." Esse livro representa um novo estilo e um novo modo de compreenso das idias. Atravs da stira aos soldados, mercadores, prncipes, 
sbios, telogos, monges e prelados, conduz-nos ao paradoxo de uma sabedoria mais elevada: a sabedoria crist. -- Permanece, finalmente, a "excepcional eficcia 
dos livros de Erasmo. Carregado com os tesouros da Antigidade crist e com tudo o que a cristandade poderia reivindicar da herana greco-romana, Erasmo soube administrar 
esses bens com surpreendente conscincia das necessidades do mundo moderno. Falou a esse mundo com a linguagem familiar; sria o necessrio para seduzi-lo. Foi sbio 
e edificante, refinado e popular" (Bataillon). -- Para a Espanha, concretamente, Erasmo "gozar de maior crdito intelectual entre os espanhis do que em nenhum 
outro povo europeu" (J. L. Abelln). Foi ao mesmo tempo iluminao

Erigena, Johannes Scotus / 205

e progresso das luzes. Ofereceu  Espanha o que tem de mais ntimo e universal. Enriqueceu o seu patrimnio de forma imperecedoura" (Bataillon).
BIBLIOGRAFIA: Opera. Leyden 1703-1706, 11 vols.; reimpresso em Hildesheim 1961-1962; Opus epistolarum. Oxford 1906s., 9 vols.; Obras escogidas. Traduo, comentrios 
e notas de L. Riber. Madrid 31971; Elogio de la locura. 3 Traduo de Pedro R. Santidrin. Madrid 1985; M. 2 Bataillon, Erasmo en Espaa. Mxico 1966.

Erigena, Johannes Scotus (810-877)
Nasceu na Irlanda. Homem e pensador singular, preocupado em integrar a filosofia grega e neoplatnica com a f crist. "Na pobreza cultural e investigadora de seu 
tempo, esse homem, dotado de um esprito extremamente livre, de excepcional capacidade especulativa e de vasta erudio greco-latina, apareceu como um milagre" (Abbagnano, 
Historia de la filosofa, I, 312). Desde 845 o vemos na corte de Carlos, o Calvo, da Frana, como professor de gramtica e dialtica. Depois foi nomeado pelo prprio 
rei diretor da Schola palatina de Paris. Participou das disputas teolgicas sobre a Eucaristia e a predestinao, escrevendo sua primeira obra contra o monge Godescalco, 
De divina praedestinatione, livro condenado, mais tarde, pela Igreja. A partir da morte de Carlos, o Calvo, em 877, nada h de seguro sobre sua vida. Para uns, morreu 
na Frana naquele mesmo ano. Para outros, teria sido chamado pelo rei ingls Alfredo, o Grande,  escola de Oxford, para ser depois assassinado pelos monges sendo 
abade de Malmesbury. Podemos distinguir dois perodos na atividade filosfico-teolgica de Erigena. No primeiro inspirou-se principalmente nos padres latinos *Gregrio 
Magno, *Isidoro e, principalmente, *Agostinho. Pertence a esse perodo De divina praedestinatione. O segundo perodo  marcado pela influncia dos telogos e filsofos 
gregos. No ano 858, traduziu os escritos do *PseudoDionsio; em 864 traduziu tambm Ambigua de

206 / Escolas e universidades

*Mximo, o Confessor, algumas obras de So *Gregrio de Nissa e de Santo Epifnio. Com isso, ps em circulao, no Ocidente, o pensamento do Pseudo-Dionsio, de 
tanta influncia posterior na teologia e na espiritualidade. Esses estudos capacitaram Johannes Erigena para redigir sua obra principal e pela qual ficou conhecido, 
De divisione naturae, escrita entre 862-866. Constitui uma tentativa de reconciliar a doutrina neoplatnica da emanao com o princpio cristo da criao. Dividida 
em 5 livros e escrita em forma de dilogo entre mestre e discpulo, concebe a natureza: a) como aquilo que cria e no  criado; b) o que cria e  criado; c) o que 
no cria e  criado; d) o que no cria e no  criado. -- A e c so Deus como princpio e fim; b e c so o modo dualista de existncia das coisas criadas, as inteligveis 
e as sensveis. Todas as criaturas voltam a Deus a partir da libertao do pecado e da morte fsica, e entram na vida futura. -- Concebe o homem como microcosmos 
que sente, que raciocina e examina as causas das coisas e da natureza inteligvel, e que tem uma inteligncia capaz de contemplar a Deus. A redeno introduz o homem 
na unio com Deus e o liberta de sua animalidade. O livro foi condenado pela Igreja por suas implicaes pantestas. No entanto,  o primeiro grande livro especulativo 
da Idade Mdia. Nele j aparece o carter de investigao escolstica que o autor maneja com grande maestria. Sua cultura e sua capacidade especulativa, alm do 
domnio do grego, colocam-no acima de seus contemporneos.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 122; DTC V, I, 410-434.

Escolas e universidades (sc. IX a XIII)
Para conhecer o pensamento cristo e sua evoluo,  imprescindvel entender o papel das es-

Escolas e universidades / 207

colas e universidades. Tambm  necessrio saber o papel que a Igreja desempenhou na gnese e no desenvolvimento destas instituies. J vimos algumas das escolas 
teolgicas da Antigidade, estabelecidas em volta dos centros urbanos e culturais (*Escolas teolgicas). Agora nos referimos s escolas e universidades como centros 
da cincia e do saber no apenas religioso, mas tambm geral. Depois da queda do Imprio no Ocidente, a Igreja destacou-se na transmisso da cultura clssica. E 
o fez fundamentalmente atravs das escolas que se formaram em volta dos mosteiros: so as chamadas escolas monsticas ou abaciais. Posteriormente, com o auge das 
catedrais formaram-se em volta destas as escolas catedralcias ou capitulares. E, a partir do sc. IX, as escolas palacianas ou reais, nascidas sob o patrocnio 
dos reis. Exemplos destas ltimas podem ser as organizadas por Carlos Magno, sob a direo de *Alcuno, como as escolas palatinas de Aquisgrano e de Tours. Das catedralcias, 
tornou-se famosa a de Chartres. E das monsticas, as de St. Gall, Corbie e Fulda, e as da Irlanda e Inglaterra. Nos mosteiros, proporcionava-se educao no apenas 
queles alunos destinados a converter-se em membros da ordem religiosa, mas tambm a outros discpulos. O mesmo acontecia nas escolas capitulares e palatinas. Quanto 
ao conjunto de matrias de estudo, ou curriculum, consistia, alm do estudo da teologia e da exegese, especialmente para os discpulos que se preparavam ao sacerdcio 
ou  vida religiosa, no estudo do Trivium e Quadrivium. Estes constituram, durante muito tempo, na Idade Mdia, as chamadas "sete artes liberais", isto , as artes 
do homem livre, diferentes das artes do homem servil, chamadas "artes mecnicas". Essa diviso, conhecida desde a Antigidade clssica, ficou definitivamente consagrada 
por Alcuno. O Trivium compreendia: gramtica, dialtica e retrica. E o Quadrivium: aritmtica, geometria, astronomia e msica.

208 / Escolas e universidades

A evoluo e a influncia dessas escolas pertence  histria da Idade Mdia. Para ns  interessante relembrar a contribuio das mesmas  cultura: foram um centro 
do saber antigo e transformaram-se, a maior parte delas, em bibliotecas de obras teolgicas e religiosas, que constituam o grosso dos catlogos: obras jurdicas 
ou gramaticais e certo nmero de autores clssicos. Exemplo delas  a escola de York (Inglaterra), principal centro de educao do pas, famosa pela riqueza de sua 
biblioteca. O mesmo se pode dizer da de Tours, na Frana, e da de Palncia, na Espanha. A riqueza de seus pergaminhos identificou-se com a de seu saber. Das escolas, 
principalmente das catedralcias, surgiram no sc. XIII as universidades. A "universitas" ou universidade no designava, na Idade Mdia, o conjunto de faculdades 
estabelecidas numa mesma cidade, mas o conjunto de pessoas, mestres e discpulos, que participavam no ensino que se dava nessa cidade. Bastava a necessidade de se 
dirigir ao conjunto de professores e estudantes que residiam num mesmo lugar, para que a expresso se empregasse naturalmente. Um studium generale, ou universale, 
ou tambm commune, no era o lugar onde se estudavam todos os conhecimentos, mas um centro de estudos no qual podiam ser admitidos estudantes de procedncias diferentes. 
A expresso aplicava-se, principalmente, s escolas abertas pelas ordens religiosas nas cidades, que podiam ser centros importantes do ponto de vista da ordem, mas 
que no possuam universidade. O surgimento das universidades  um fenmeno europeu, assim como o das catedrais. A primeira universitas que se transformou num corpo 
organizado regularmente e numa entidade coletiva anloga s nossas universidades  a de Bolonha (1119). Seguiram-lhe a de Paris (1150), Oxford (1166), Cambridge 
(1200), Palncia (1208), Salamanca (1218), e muitas outras. Todas elas nascidas das escolas catedralcias, adquiriram j no sculo XIII o carter de instituies 
de educao superior de artes liberais e cincias,

Escolas e universidades / 209

com colgios maiores e escolas profissionais com competncia para conferir graus. A partir tambm do sc. XIII, as universidades adquiriram a independncia econmica 
e jurdica, que lhes conferiram principalmente os imperadores e os papas. Tambm a partir desta poca, transformaram-se em universidades ou centros onde se estudavam 
as "essncias" ou "universais", isto , a generalidade dos estudos. Porm, as universidades, no seu incio, so, como a de Paris, "o meio de ao mais poderoso de 
que dispunha a Igreja para expandir a verdade religiosa no mundo inteiro, ou ainda uma fonte inesgotvel de erros, capaz de envenenar toda a cristandade. Inocncio 
III foi o primeiro a querer, resolutamente, fazer dessa universidade uma mestra de verdade para a Igreja inteira, e que transformou esse centro de estudos num organismo 
cuja estrutura, funcionamento e lugar foram definidos na cristandade com esse nico ponto de vista". "Se o esquecemos tanto -- continua E. Gilson -- que freqentemente 
discutimos sobre esse organismo como se fosse comparvel a qualquer de nossas universidades, os homens da Idade Mdia tinham, ao contrrio, clara conscincia do 
carter especial e nico da Universidade de Paris. O studium parisiense foi uma fora espiritual e moral cuja significao mais profunda no foi nem parisiense nem 
francesa, mas crist e eclesistica; foi um elemento da Igreja universal, dotado do mesmo direito que o sacerdcio ou o imprio" (E. Gilson, A filosofia na Idade 
Mdia). O mesmo vale para a Universidade de Oxford. "O interesse religioso era to forte quanto em Paris". "O pensamento filosfico ingls ps a servio da religio 
a Matemtica e a Fsica, tal como acabavam de revelar-lhes as obras dos sbios rabes (Ibid.). Das universidades saram aperfeioados os currculos de estudos, os 
mtodos de ensino, como a lio e a discusso, as quaestiones disputatae e as quaestiones quodlibetales, que caracterizariam todo o sistema educativo medieval. Delas 
saram eminentes professores e mestres. Tambm

210 / Escolas teolgicas, Primeiras

proveio das universidades uma doutrina filosfica e teolgica conhecida como Escolstica. E finalmente, "o monumento no qual o pensamento medieval alcana plena 
conscincia de si prprio e encontra a sua expresso acabada, a Summa theologica de Santo *Toms de Aquino.  o resumo completo e sistematicamente ordenado de todas 
as verdades da teologia natural e sobrenatural, classificadas conforme uma ordem lgica, acompanhadas de demonstraes mais breves, enquadradas entre os mais perigosos 
que a contradizem e a refutao de cada um destes erros: tudo para uso dos principiantes em teologia. A Summa theologica de Santo *Toms e o Comentrio s Sentenas 
de So *Boaventura so magnficos exemplos das fecundas virtualidades que possui o exerccio de um ensino elevado para o pensamento do prprio mestre" (E. Gilson, 
o.c., 373).
BIBLIOGRAFIA: B. Llorca-R. Garca Villoslada-F. J. Montalbn, Historia de la Iglesia Catlica, II (BAC 104). Madrid 1968. Concretamente: II. La enseanza universitaria, 
918-970, com a extensa bibliografia que acompanha.

Escolas teolgicas, Primeiras (sc. II-V)
Aos padres apostlicos e apologistas dos sc. I-II, seguiu-lhes um novo tipo de escritor com uma disposio e orientao completamente originais. At a data, nenhum 
escritor cristo tentara considerar o conjunto da doutrina crist como um todo. Tambm, a reflexo crist perdeu o carter de arma contra o inimigo e se transformou 
em instrumento de trabalho pacfico dentro da prpria Igreja. Pretendia-se dar aos catecmenos, cada vez mais numerosos, uma instruo  altura de seu meio ambiente 
e formar mestres para esse fim. Assim foi como se criaram as escolas teolgicas, bero da cincia sagrada. Estas nasceram sob o amparo dos grandes centros do helenismo 
e das cidades onde j se sentia a presena crist. Tais foram as escolas teolgicas de Alexandria, Antioquia, Cesaria, Jerusalm etc.

Escolas teolgicas, Primeiras / 211

Assinalamos a seguir as principais: 1) Escola de Alexandria. A mais famosa de todas e a que melhor conhecemos  a de Alexandria, no Egito. Essa cidade, fundada por 
Alexandre em 331 a. C., era centro de uma brilhante vida intelectual muito antes do cristianismo. Foi onde nasceu o helenismo: a fuso das culturas oriental, egpcia 
e grega deu origem a uma nova civilizao. Nesta cidade, comps-se a obra que constitui o incio da literatura judaicohelenstica: A traduo dos Setenta (Septuaginta). 
E nessa cidade viveu o melhor representante dessa cultura: Flon. Sob o nome de "padres alexandrinos" ou "escola teolgica alexandrina", formou-se um grupo de telogos 
cristos que se destacaram em Alexandria entre os sculos II-V d.C. Os nomes mais destacados desta escola so: Panteno, seu fundador (200 d.C.), *Clemente (150-215 
d.C.), *Orgenes (186-255), e, mais tardiamente, outros como Santo *Atansio, So *Cirilo etc. A Escola de Alexandria  o centro mais antigo de cincias sagradas 
na histria do cristianismo. O ambiente em que se desenvolveu imprimiu-lhe os traos caractersticos: a) marcante interesse pela pesquisa metafsica do contedo 
da f; b) preferncia pela filosofia de Plato; c) interpretao alegrica das Sagradas Escrituras; d) concepo do ideal cristo como uma verdadeira gnose, iluminada 
pela f crist, que antecipa as coisas invisveis; e) concepo do ideal mstico como deificao com base bblica e neoplatnica; f) aceitao na ascese da apatheia 
estica e da providncia, s quais se d um sentido cristo. A escola alexandrina influiu decisivamente no pensamento e na mstica crist dos primeiros sculos. 
2) Escola de Antioquia. Antioquia foi a capital da Sria, fundada perto do ano 500 a.C. Segundo Atos 11,19-26, nesta cidade comearam a chamar-se "cristos" os "seguidores 
do caminho" ou "discpulos de Cristo". Na segunda metade do sc. I de nossa era, Antioquia foi o ponto de apoio

212 / Escolas teolgicas, Primeiras

da atividade missionria da primitiva Igreja (At 13,1-3). Antioquia tambm foi famosa por sua escola teolgica, denominada "escola antioquena". Desabrochou entre 
os sculos III-V. Seus mestres mais importantes foram Incio, Policarpo, *Luciano de Samosata, *Ario, So *Joo Crisstomo, e muitos outros. A escola antioquena 
apareceu como rival e diferente da alexandrina. Centrava cuidadosamente a ateno no prprio texto e encaminhava seus discpulos para a interpretao literal e para 
o estudo histrico e gramatical da Escritura. Conseqentemente, essa escola: a) cultivou a catequese e a exegese bblica, dando-lhe um sentido literal, no simblico 
nem espiritual; b) a escola antioquena tratou de resolver os problemas colocados pela heresia sobre a pessoa e natureza de Cristo; c) contrariamente  escola alexandrina, 
a antioquena baseou-se numa filosofia realista de carter aristotlico, portanto, racionalista. Essa escola foi o bero de uma grande tradio exegtica. Alcanou 
seu apogeu sob a direo de Diodoro de Tarso, nos finais do sc. IV, que foi mestre de So *Joo Crisstomo. Dela saram homens extremistas como Teodoro de Mopsustia 
e Ario. Sua tendncia racionalista foi a causa de se converter em foco de heresias. 3) Escola de Cesaria. Nesta cidade refugiouse *Orgenes ao ser desterrado do 
Egito (232), e fundou a escola de Cesaria, que herdou o legado de idias e livros de Orgenes. Suas obras formaram o fundo de uma biblioteca que o presbtero Pnfilo 
transformou em centro de erudio e saber. Como diretor, continuou a tradio do mestre. Nesta escola educaram-se Gregrio, o Taumaturgo, e Eusbio de Cesaria. 
Os padres capadcios, *Baslio Magno, *Gregrio de Nissa e *Gregrio Nazianzeno receberam a influncia e inspirao da teologia de Cesaria e de seu grande mestre 
Orgenes. Houve tambm outras escolas como a de Jerusalm, a de Odessa, Nsibe etc.

Eusbio de Cesaria / 213

Eunmio (sc. IV)
*Gregrio Nazianzeno, So; *Baslio Magno, So.

Eusbio de Cesaria (265-340)
Nasceu em Cesaria da Palestina. Foi nomeado bispo desta mesma cidade em 313, onde morreu. Eusbio  um dos personagens chaves da histria eclesistica de seu tempo 
e tem um lugar reconhecido como historiador da Igreja. De fato, sua vida est intimamente ligada s lutas trinitrias do sc. IV, ao arianismo e  figura do imperador 
Constantino, de quem foi bigrafo e amigo. Antes de mais nada, Eusbio  conhecido por sua Histria eclesistica, um riqussimo arquivo de dados, documentos e extratos 
de obras de toda classe, desde a primeira poca da Igreja at o ano 324. Diz-se que sua Histria eclesistica  para a Igreja dos primeiros sculos o mesmo que os 
Atos dos Apstolos foram para as comunidades crists. Embora esse livro lhe tenha valido o ttulo de "pai da histria eclesistica", a historiografia de hoje no 
lhe perdoa o carter apologtico que Eusbio d a sua obra, seu tratamento inadequado  heresia e sua quase total ignorncia ou omisso de tudo que era relativo 
 Igreja Ocidental. Como historiador tem tambm outro livro intitulado Histrias diversas e a Vida de Constantino, panegrico que, alm de importantes dados histricos, 
demonstra uma admirao e uma exaltao exagerada pelo papel e misso excepcionais deste imperador. Alm das obras histricas, Eusbio escreveu obras dogmticas: 
Contra Marcelo e Sobre a teologia eclesistica, na qual surge uma tendncia acentuada para o arianismo, defendendo a no identidade de natureza entre o Pai e o Logos. 
Seu livro apologtico mais importante  a Preparao evanglica, em 20 livros, dos quais restam apenas 10. Servindo-se da rica biblioteca de Cesaria, que herdou 
de seu mestre Pnfilo,

214 / utiques

acumulou um vastssimo material de extratos de escritos gregos, cujos originais se perderam. Essa obra  regida pelos seguintes princpios: -- A filosofia e a revelao 
so idnticas. A verdade encontrou sua plena expresso no cristianismo que j havia surgido nos filsofos gregos. -- Plato  considerado como um profeta ou como 
um Moiss tico. Plato e Moiss combinam e tm as mesmas idias. -- Plato conheceu a Trindade Divina porque ps a alma do mundo ao lado de Deus e do Logos. Nas 
doutrinas ticas e pedaggicas coincidem Plato e Moiss, Plato e So Paulo. Porm, Plato chegou apenas at o vestbulo da verdade, no  prpria verdade. -- A 
verdade foi revelada pelo cristianismo, verdadeira e definitiva filosofia. No cristianismo, no s os homens so filsofos, tambm o so as mulheres, os ricos e 
os pobres, os escravos e os senhores. Como se v,  a mesma convico que havia animado *Justino, *Clemente, *Orgenes e, em geral, os padres alexandrinos.
BIBLIOGRAFIA: Historia eclesistica de Eusebio de Cesarea. Ed. bilnge por A. Velasco (BAC), 2 vols.

utiques (378-454)
*Leo I, Papa

Evgrio (345-399)
*Hesiquia; *Monaquismo

Evangelho, evangelhos (sc. I)
Nossa ateno centra-se, principalmente, nas significaes do termo, do livro ou livros que contm a Boa Nova ou Evangelho de Cristo. Sabese que a palavra evangelho 
significa, em grego, boa notcia ou notcia que causa alegria. Deste primeiro significado deriva o verbo evangelizar,

Evangelho, evangelhos / 215

a ao de transmitir a boa notcia. Significa tambm o contedo, doutrina e mensagem da transmisso. Outro significado importante de evangelho  o instrumento ou 
meio atravs do qual nos chega a mensagem. Neste sentido falamos dos evangelhos que contm e transmitem a doutrina de Cristo. A seus autores denominamos "evangelistas". 
1. Os evangelhos, no plural, referem-se aos diferentes relatos que, sobre a doutrina de Cristo, comearam a ser redigidos depois da morte de Jesus. Os quatro evangelhos 
"segundo *Mateus, *Marcos, *Lucas e *Joo" so to-somente os quatro reconhecidos como oficiais ou cannicos pela Igreja. Foram escritos na segunda metade do sc. 
I. Existem tambm outros evangelhos conhecidos como apcrifos, que no so reconhecidos como cannicos pela Igreja. O abuso que fazem do fantstico e do maravilhoso 
classifica-os dentro da lenda, embora ofeream dados de interesse histrico para se conhecer a poca. Apareceram no final do sc. I e durante todo o sculo II (*Apcrifos). 
2. J falamos sobre o contedo, data de redao e autor desses quatro evangelhos ao estudarmos seus autores. O que nos interessa agora  apontar alguns dos problemas 
que afetam o prprio gnero literrio dos evangelhos, o texto, seu valor histrico e outros. E o primeiro de todos  sua origem: Como nasceram? Convm saber que, 
como textos escritos que so, os Evangelhos foram e ainda esto sendo submetidos  anlise histrica, literria,  crtica textual etc., como qualquer outro texto 
da Antigidade. Quanto  sua origem, podemos dizer que os evangelhos comeam com a pregao oral dos apstolos, centrada em torno do "querigma" que anunciava a morte 
redentora e a ressurreio do Senhor. Acompanhavam essa primeira pregao relatos mais detalhados, como o da paixo. Vieram logo depois fatos curiosos da vida do 
Mestre que esclareciam sobre sua pessoa, sua misso, seu poder, por algum episdio ou palavra memor-

216 / Evangelho, evangelhos

vel, milagre, sentena, parbola etc. Os episdios transmitidos de viva voz e de forma isolada foram-se agrupando em pequenas antologias de palavras e aes. Surgiu, 
ento, rapidamente a preocupao de pr em escrito essa tradio. Em conseqncia, as palavras, aes e episdios relativos  figura e doutrina de Cristo tenderam 
a agrupar-se numa ordem cronolgica; em ordem lgica, primeiro em pequenas sees, depois em conjuntos mais extensos. Apareceram os evangelistas, autores materiais 
dos quatro evangelhos. -- Que valor histrico tm os evangelhos? Sem dvida, nem os apstolos nem os demais pregadores e narradores evanglicos tentaram fazer "histria" 
no sentido tcnico da palavra. Seu propsito era menos profano e mais teolgico; falaram para converter e edificar, para inculcar e ilustrar a f, para defend-la 
contra os adversrios. Mas o fizeram apoiando-se em testemunhas verdicas e controlveis. Os redatores evanglicos fizeram-no com o mesmo af de honrada objetividade 
que respeita as fontes. Resumindo: a) a origem apostlica e a gnese literria dos trs sinticos justificam seu valor histrico; b) se os trs sinticos no so 
"livros de histria", no  menos certo que no tentam oferecer nada que no seja histrico. Isto no significa, por outro lado, que cada uma das aes ou palavras 
sejam considerados como reproduo rigorosamente exata do que aconteceu na realidade. O mesmo vale para a ordem em que estes se acham dispostos entre si. H que 
reconhecer que muitas narrativas ou palavras evanglicas perderam sua relao primitiva com o tempo e lugar em que foram pronunciadas. Em todo caso, tais comprovaes 
de modo algum anulam a autoridade desses livros inspirados pela f dos cristos.
BIBLIOGRAFIA: X. Lon-Dufour, Los evangelios y la historia de Jess. Cristiandad, Madrid 1982.

Fnelon, Franois de Salignac / 217

F
Faber, Frederick William (1814-1863)
Estudante em Oxford, esteve dentro da rbita e idias de J. H. Newman. Educado no calvinismo, ordenou-se sacerdote anglicano. Em 1945 passou ao catolicismo, junto 
com muitos outros discpulos e companheiros de *Newman. Com outros convertidos do anglicanismo, formou uma pequena comunidade que, em 1848, se uniu ao Oratrio de 
So Filipe Nri. Foi superior do Oratrio de Londres (Brompton Oratory), onde escreveu hinos para a liturgia e livros de devoo.

Fabri, Diego (1911-)
*Literatura atual e cristianismo.

Feijo, Benito (1676-1764)
*Cincia e f.

Fnelon, Franois de Salignac (1651-1715)
Filsofo, telogo, escritor literrio e pedagogo. Suas idias polticas e pedaggicas, assim como sua concepo da orao mstica, amor puro, valeram-lhe a oposio 
tanto da Igreja quanto do Estado. Descendente da alta nobreza, nasceu no castelo de Fnelon (Prigord). Em 1672, iniciou seus estudos superiores no seminrio de 
So Sulpcio de Paris. Ordenado sacerdote, foi destinado  educao das jovens catlicas convertidas do protestantismo. O fruto dessa educao dada s jovens  seu 
primeiro Tratado da educao das jovens

218 / Fnelon, Franois de Salignac

(1687). Apesar do tom conservador da obra, no deixam de ser originais suas idias sobre a educao feminina, assim como suas crticas aos mtodos coercitivos de 
seu tempo. Nesta mesma linha pedaggica, e j como tutor do delfim da Frana, Fnelon publicou sua obra mais conhecida, As aventuras de Telmaco (1699), que expressa 
as idias polticas bsicas do autor. Nos 18 livros das Aventuras, escritos para o delfim, descreve o ideal do soberano humanamente rico, capaz de compreender e 
guiar seu povo. Os preceitos morais e religiosos esto acompanhados, no curso das aventuras, com os mais variados encontros de homens e deuses, com observaes de 
natureza poltica e econmica, que do  obra outros valores, alm do pedaggico e do literrio. No Exame de conscincia sobre os deveres da realeza abre-se aos 
problemas de natureza tico-poltica, que mostram a complexa personalidade de Fnelon. Depois de sua eleio  Academia Francesa (1693) e ao arcebispado de Cambrai 
(1695), perodo de mxima popularidade nos crculos oficiais, Fnelon viu-se envolvido numa polmica que o jogou no isolamento e na oposio tanto da Igreja quanto 
do Estado. Iniciado na experincia religiosa de Madame Guyon (1688), elaborou e explicou o que na histria da filosofia e das idias religiosas se conhece pela "doutrina 
do amor puro". Segundo essa doutrina,  necessrio que o esprito se deixe levar livremente pela orao para que alcance um "gosto ntimo". Ento se ama a Deus com 
um amor puro, que no depende nem da esperana de recompensas nem do temor a castigos. O amor puro chega a no possuir conscincia de si, sem que signifique que 
seja independente da vontade.  fruto de um consentimento, mas se realiza quando a vontade se entrega a Deus sem reservas. Com essa doutrina, Fnelon alinhava-se 
nas filas do quietismo, junto a Miguel Molinos e outros. Teve a mesma sorte que o aragons *Molinos. Foi denunciado publicamente por *Bossuet, e seu livro Explicao 
das mximas dos santos sobre a vida interior (1697) foi

Feuerbach, Ludwig / 219

condenado pelo papa. Morreu exilado na sua diocese em 1717. -- De suas idias filosfico-teolgicas informam-nos seus dois ltimos livros: Tratado da existncia 
e dos atributos de Dios (1705) e Cartas sobre diversos temas de metafsica e de religio (obra pstuma, 1716). Renem os grandes temas da existncia de Deus e da 
liberdade humana e se movem dentro da filosofia de Descartes, Malebranche e, em especial, Bossuet.
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes. Paris 1852, 10 vols.; Correspondance de Fnelon, 1972, 3 vols.; E. Carcasonne, Fnelon, l'homme et l'oeuvre, 1946; Pietro Zovatto, 
Fnelon e il quietismo, 1968.

Feuerbach, Ludwig (1804-1872)
Iniciador do chamado "naturalismo humanista" ou "humanismo naturalista" no pensamento moderno, que preparou o caminho ao materialismo dialtico de Marx, Feuerbach 
fez parte da "esquerda hegeliana", da qual o marxismo tomar os seus postulados bsicos. Tambm pode reivindicar uma nova atualidade no pensa-

220 / Feuerbach, Ludwig

mento contemporneo, principalmente com relao ao existencialismo de esquerda de *Sartre e de *Camus. Eis seus dois postulados fundamentais: 1) "O ser enquanto 
ser  finito", porque sempre est nos limites do tempo e do espao concretos, e "onde no h limites, nem tempo, nem necessidades, tambm no h qualidades, energia, 
spiritus, fogo, nem amor algum". 2) A negao de Deus  o fundamento para a afirmao do homem: "Eu nego a Deus", escreve Feuerbach, isto significa para mim: "Eu 
nego a negao do homem" (Diccionario de filsofos). Entre a imensa obra filosfica deste filsofo de vida discreta, que viveu seus ltimos anos na misria, destacamos 
suas duas obras principais: A essncia do cristianismo (1841), seguida, em 1845, de A essncia da religio. Todas as demais obras de carter filosfico-religioso 
no so mais do que a ampliao das anteriormente mencionadas. Nessas duas obras expressa a crtica que se deve fazer da religio em geral e do cristianismo em particular, 
como religio positiva e revelada. Segundo Feuerbach, no lugar de "Deus" deve-se pr e escrever "humano", de forma que a essncia divina que se revela na natureza 
no seja mais do que a sua prpria natureza. A natureza, pois, "no  somente o objeto primeiro e originrio, seno tambm o fundo permanente e o fundamental desenvolvimento 
da religio". A natureza sensvel e concreta  a base do real. -- Segundo a crtica de Feuerbach, deve-se fazer descer a religio da teologia  natureza e  antropologia. 
"O ser absoluto, o Deus do homem,  o ser prprio do homem." Em conseqncia, "no foi Deus quem criou o homem", mas foi o homem que criou Deus com a sua prpria 
imaginao, ao unir a especulao  base de abstraes, em oposio aos sentidos". "Deus  o princpio imaginado ou fantstico da realizao total de todas as vontades 
e desejos humanos." Daqui o princpio: "Como  o teu corao, assim  o teu Deus". Tais como so os desejos dos homens,

Feuerbach, Ludwig / 221

assim so as suas divindades. Acreditar em Deus  "Criar Deus". A divinizao dos homens  o objetivo ltimo da religio. -- A crtica ao cristianismo aprofunda 
a instncia antropolgica individualista: o cristianismo genuno  a anttese do paganismo, porque no cristianismo autntico o indivduo  somente uma parte do gnero 
e este se encontra somente na humanidade imediata. A expresso mais clara do gnero e do indivduo no cristianismo  Cristo: o Deus verdadeiro dos cristos. Cristo 
 o modelo, o conceito existente da humanidade, o compndio de todas as perfeies morais e divinas... "O mistrio da Encarnao  o mistrio do amor de Deus pelo 
homem, o mistrio do amor de Deus, mas na realidade  o mistrio do amor do homem a si prprio..." Esse dogma fundamental do cristianismo expressa, pois, o princpio 
supremo e ltimo da filosofia, ou seja, a unidade do homem com o homem. Em conseqncia, e essa  a finalidade de toda a obra de Feuerbach, "o homem  o Deus do 
cristianismo, e a antropologia  o segredo da teologia crist". -- Feuerbach considera essa humanizao de Deus como a misso da Idade Moderna. A gnese de Deus 
a partir da projeo que o homem faz de si prprio e da sua essncia produz neste a alienao, que expropria o homem de sua prpria natureza ou substncia de ser 
sensvel e a coloca fora dele: em Deus. Ao mesmo tempo produz a servido: submetimento e venerao a algo estranho erguido contra a realidade sensvel e o homem. 
A verdade  que o homem  um "ser sensitivo" e seu ser abre-se e fecha-se em relao  natureza e  comunidade dos outros homens mediante o amor. Tal  a luta que 
deve empreender o homem moderno. Sua importncia histrica est ligada  influncia decisiva e amplamente reconhecida que a sua obra exerceu na formao do materialismo 
dialtico de *Marx. De fato, o jovem Marx reconheceu que Feuerbach "fundou o verdadeiro materialismo e a cincia real, elaborando sua teo-

222 / Ficino, Marclio

ria". Por isso, a obra de Feuerbach toma parte da "biblioteca dos clssicos" do marxismo. A crtica ao cristianismo, tanto de protestantes quanto de catlicos, no 
se fez esperar. Feuerbach reduzia a religio  filosofia e a teologia  antropologia. "O segredo da teologia est na antropologia" repete com freqncia. Sua teoria 
da religio  puro sensualismo e materialismo, que no acrescenta nada s posies do atesmo grego ou do Iluminismo francs do sc. XVIII. Todos reconhecem, no 
entanto, que faz uma anlise brilhante do homem, que no plano ttico "pode ser til para a denncia das falsificaes do homem moderno". A qualificao que mais 
se adapta ao seu pensamento  a de realismo humanista. E  inexato caracterizar o pensamento de Feuerbach unicamente como atesmo (Diccionario de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Obras completas. Ed. de W. Bolin e F. Jodl, 1903-1911, 10 vols.; reimpresso em 13 vols., 19601964; La esencia del cristianismo; La esencia de la religin; 
Lecciones sobre la esencia de la religin; M. Cabada Castro, El humanismo premarxista de L. Feuerbach, 1975; A. Alessi, L'Ateismo di Feuerbach. Fondamenti metafisici, 
1975.

Ficino, Marclio (1433-1499)
Platnico e humanista, Ficino  uma das figuras representativas da cultura italiana e florentina do sc. XV. Representa o trnsito da etapa filolgica do humanismo 
 filosfica, como afirmao do lugar central do homem no universo e revalorizao da histria humana. No se pode duvidar de sua profunda e sentida f crist. No 
entanto, como muitos de sua poca, encara a reao contra a escolstica que havia subordinado a teologia  filosofia. Para a renovao da teologia e do cristianismo, 
aposta em Plato e no neoplatonismo que lhe emprestam a base e a forma de seu pensamento. -- Considerado como o mais importante neoplatnico renascentista, j que 
professou verdadeiro culto a Plato, comeou o estudo do gre-

Ficino, Marclio / 223

go na dcada de 1450. Em 1459 foi apresentado a Cosme de Mdicis, que projetava para Florena uma escola de platonismo. Rodeado de intelectuais e eruditos com quem 
formou a Academia, pde traduzir pela primeira vez do original grego ao latim todos os dilogos de Plato (entre 14631477). Durante outros 20 anos ocupou-se dos 
comentrios aos Dilogos de Plato. Entre esses comentrios fez-se clssico o do Banquete ou Convvio. -- Alm do estudo e traduo de Plato, traduziu e estudou 
as Enneadas de Plotino, que apareceram em 1492. -- Sua obra original filosfico-teolgica aparece sobretudo em De religione christiana (1474); Theologiae platonicae 
de inmortalitate animorum libri XVIII (1482); De triplici vita (1489). Importantes so tambm suas epstolas, dilogos, tratados e comentrios sobre os principais 
pontos de seus ensinamentos. Em toda a sua obra aparece sua vasta formao humanista e esse incipiente ecletismo que ser nota dominante dos humanistas posteriores. 
--  tpica de Ficino a concepo de Deus, que toma de Plotino. Deus  o Uno, que coleta na simplicidade da prpria natureza a infinita multiplicidade dos arqutipos 
ideais das coisas. Deus  o criador, o bem, a verdade e a beleza por excelncia, isto , a presena interior em tudo, assim como nas partes do ser originrio. -- 
Deus  tambm o artfice da natureza -- seu artfice interior -- que faz do universo como um s ser vivo; e  em cada vivente como a razo seminal que traz a vida. 
-- De Plato e do neoplatonismo toma sua idia da alma e do homem como copula mundi e vera universorum conexio, onipresente, porque tudo no mundo  animado. Assim, 
o homem participa da natureza divina da alma universal -- situado entre o eterno e o tempo -- e  ao seu modo todas as coisas,  o microcosmos. -- Sobre tais idias 
projeta a sua f crist: o Deus cristo cria o mundo e o ama como criatura

224 / Filipe Nri, So

sua. A emanao plotiniana transforma-se, em Ficino, em criao como ato que tem suas razes na bondade de Deus. O Filho de Deus feito homem  o ponto de encontro 
entre o homem e Deus. O amor  descendente e ascendente: vem de Deus em seu Filho e retorna a Deus por ele. O homem pode voltar livremente ao seu lugar de origem, 
fazendo-se Deus pela graa de Cristo. "A alma ascende pelos diversos graus do amor -- do furor divinus -- e vai percorrendo, em seu caminho ascendente, as mesmas 
etapas do descenso csmico." -- Esse ecletismo de conceitos platnicos e cristos torna-se mais visvel quando mistura e combina idias pags e crists. Por exemplo: 
o "amor platnico" como preparao e aproximao ao verdadeiro amor espiritual; a relao entre o cristianismo e as religies anteriores; a interpretao que faz 
dos antigos pr-cristos: egpcios, gregos, e outros. Essa antiga sabedoria -- prisca gentilium theologia --  uma teologia que contm indcios da verdade crist. 
O mesmo se percebe em seu gosto pelos escritos hermticos, em seu interesse pela magia e pela astrologia. Nesse aspecto, Ficino -- que defende o carter nico do 
cristianismo -- suscitou as suspeitas de Roma. E iniciou tambm um caminho de sabedoria pag e crist que muitos humanistas e renascentistas seguiriam.
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Ed. de E. Garin, Basilia1576 -- Turim 1959, 2 vols.; P. O. Kristeller, Ocho filsofos... Mxico 1974; Id., The Philosophy of Marsilio 
Ficino. Nova York 1954; Humanismo y renacimiento (Textos de Lorenzo Valla, Marclio Ficino...). Seleo e traduo de Pedro R. Santidrin. Madrid 1986.

Filipe Nri, So (1515-1595)
*Educadores cristos

Filocalia
*Hesiquia.

Florino / 225

Flon de Alexandria (20 a.C.-50 d.C.)
Entre os muitos escritores e obras do judasmo que podem iluminar o pensamento cristo dos dois primeiros sculos do cristianismo, devemos citar Flon de Alexandria 
e Flvio Josefo (37-100 d.C.). Os dois no seu gnero permitem-nos conhecer melhor o mundo em que aparece e se desenvolve o cristianismo. Filsofo e exegeta judeu, 
Flon viveu na dispora em Alexandria.  um dos autores mais importantes para se conhecer o helenismo alexandrino, as idias do judasmo da dispora e a influncia 
exercida sobre os escritores cristos da poca, especialmente na *escola de Alexandria. Sua imensa produo est escrita em grego. A doutrina de Flon gira em torno 
destes pontos: a) Interpretao do Antigo Testamento judeu em categorias gregas, tomadas fundamentalmente do platonismo. Tende  explicao analgica da Bblia. 
b) Interpreta mesmo assim o logos grego como mediador entre Deus e o mundo, uma espcie de demiurgo platnico. c) Sua antropologia  marcadamente rfico-platnica, 
dualista. A alma  preexistente ao corpo e imortal. Fala da metempsicose ou reencarnao. Sua influncia fez-se sentir no neoplatonismo e no cristianismo, em especial 
na escola crist de Alexandria, principalmente em *Orgenes.
BIBLIOGRAFIA: Philonis Alexandrini Opera quae supersunt. Edio crtica por L. Cohn e P. Wendland, Berolini 1896-1930, 7 vols. Edio francesa das obras de Flon: 
Les Oeuvres de Philon d'A. Ed. bilnge, 1961s., 34 vols.; J. Danilou, Ensayo sobre Filn de Alejandra, 1963.

Flvio Josefo (37-100)
*Flon de Alexandria.

Florino (sc. II)
*Gnsticos.

226 / Fcio

Fcio (810-897)
*Padres da Igreja.

Fourier, So Pedro (1768-1830)
*Educadores cristos.

Francisco de Assis (1181-1227)
Francesco Bernardone nasceu em Assis. Na ausncia do pai, sua me o batizou com o nome de Joo Batista. No sabemos quando nem por que o nome de Francisco, em desuso 
naquele tempo, substituiu o de Joo. Tampouco temos sua autobiografia, e seus irmos, muito cedo divididos, interpretaram suas palavras e seus escritos em sentidos 
diferentes. No  fcil descobrir o verdadeiro So Francisco. " paradoxal que o simples, o aberto, o tantas vezes comentado So Francisco, oculte-se atrs de um 
dos enigmas mais confusos da historiografia. A primeira dificuldade vem dos seus escritos. O santo, em sua humildade, no fez sua prpria biografia. No se pode 
esperar de sua obra nenhuma informao precisa de sua vida. No encontramos mais do que aluses a alguns de seus comportamentos, que ele comunica a seus irmos como 
exemplo. Assim, no seu testamento, o mais autobiogrfico de seus escritos, lembra que sempre tentou viver do trabalho de suas mos, para que os irmos fizessem o 
mesmo. Alm do mais, pelo menos um de seus escritos mais importantes, a primeira Regra que escreveu em 1209 ou 1210, se perdeu. Perderam-se tambm suas cartas, assim 
como a maior parte de seus poemas (no conservamos mais do que aquele que , provavelmente, sua obra de arte, o Cantico di Frate Sole)." Mas a principal dificuldade 
para descobrir o verdadeiro So Francisco  a existncia, ainda estando ele com vida, de duas tendncias na ordem. Cada uma delas tentava ganhar o fundador

Francisco de Assis / 227

e interpretar a seu modo suas palavras e seus escritos..." (Jacques Le Goff, 2.000 aos de cristianismo, 3, 202s.). Apesar de tudo isso, ou talvez por isso, sua 
figura teve e continua tendo a capacidade de gerar espanto e produzir uma literatura e um pensamento como poucos personagens da histria tiveram. Desde So *Boaventura 
-- que escreveu a vida oficial do santo ou Legenda Maior (1263) e Toms de Celano que escreveu a Vita Prima e a Vita Secunda (1228-1244) e o Tratado dos milagres 
(1253), passando pela Legenda dos trs companheiros, o Espelho da perfeio dos irmos menores, a Legenda Antiqua, As bodas espirituais de So Francisco com a pobreza 
e Os fioretti --, a figura de So Francisco no deixou de apresentar perfis e aspectos novos. Sua prpria vida e obra  um milagre permanente. Representa a utopia 
crist levada at as suas ltimas conseqncias: reproduo viva de Cristo, pregao do seu Evangelho, amor e entrega aos outros, amor universal a todas as criaturas. 
-- "Depois que o Senhor me concedeu irmos, diz em seu Testamento, ningum me mostrou o que deveria fazer. Mas o Altssimo em pessoa revelou-me que eu deveria viver 
segundo o modelo do santo evangelho. Ento mandei escrever um texto em poucas e simples palavras, e o Senhor Papa me deu sua aprovao. Os que se aproximavam para 
compartilhar essa vida distribuam aos pobres o quanto possuam e contentavam-se com um avental remendado por dentro e por fora, com o cordo e calas. ramos simples 
em tudo e submissos a todos... O Senhor revelou-me esse cumprimento que deveramos usar: `O Senhor vos d a paz'". -- "Altssimo, onipotente, bom Senhor, teus sos 
os louvores, a glria, a honra e toda bno... Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmo sol, o qual faz o dia e nos d a luz... 
Louvado sejas, meu Senhor, pela irm lua e as estrelas...

228 / Francisco de Sales, So

Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irm me terra. .." (Cntico do irmo sol). -- So Francisco deixou-nos sua doutrina e seu exemplo. Legou-nos tambm o franciscanismo 
vivo nos frades menores, nas freiras clarissas e na ordem terceira dos leigos. Esse franciscanismo se renova na vida de instituies e de pessoas ao longo do tempo.
BIBLIOGRAFIA: Escritos e biografias de S. Francisco de Assis; crnicas e outros testemunhos do primeiro sculo fransciscano, Fr. Ildefonso Silveira e Orlando dos 
Reis (orgs), Petrpolis, 1993; San Francisco de Ass. Escritos. Biografas. Documentos de la poca. Edio de J. A. Guerra (BAC); Escritos de santa Clara y documentos 
complementarios. Edio bilnge por J. Omaecheverra (BAC); E. Gemelli, El franciscanismo.

Francisco de Sales, So (1567-1622)
Em So Francisco de Sales v-se o prottipo do homem santo cristo, pleno de humanidade e abertura, disposto a dar tudo aquilo com que a natureza e a graa o enriqueceram. 
Doutor e mestre da Igreja (1877), foi nomeado patrono e modelo dos escritores e jornalistas por Pio XI (1923). A esses ttulos acrescenta-se o de humanista devoto 
que oferece seu otimismo realista a todos os que, no mundo, procuram a perfeio. Descendente de uma nobre famlia, foi educado no colgio dos jesutas de Clermont 
(15801588) e fez seus estudos de direito na Universidade de Pdua (1591). Depois de um breve exerccio de advocacia no senado de Savia, ordenouse sacerdote em 1593. 
O restante de seus dias e sua atividade, dedicou-os a seus labores pastorais como sacerdote e como bispo de Annecy (1602). As principais frentes do seu apostolado 
foram: a) A luta contra os calvinistas. Ainda estudante em Paris, as doutrinas destes sobre a predestinao provocaram-lhe uma crise profunda at acreditar-se condenado. 
Somente pde recuperar a paz num voto de confiana e de amor a Deus. J sacerdote, dirigiu todo seu empenho em dialogar e trabalhar com os calvinistas do

Francisco de Sales, So / 229

Chablais, distrito que se separara de Savia e se havia tornado calvinista. Com a ajuda de Carlos Manuel, duque de Savia, reconquistou a maior parte da populao 
do Chablais ao catolicismo. b) Uma segunda frente da sua atividade foi a reorganizao e o cuidado pastoral de sua diocese: visitas, catecismo, pregaes, reforma 
das comunidades religiosas e fundao de outras. Em 1612, com a ajuda de Santa Joana de Chantal, fundou a Ordem da Visitao, destinada  perfeio das religiosas 
e ao ensino cristo da juventude. c) Outra das atividades de So Francisco de Sales foi a direo espiritual atravs de uma espessa rede de correspondentes em toda 
a Frana e no estrangeiro. Seus 11 volumes de cartas mostramnos um diretor espiritual e mestre de toda classe e condio de pessoas. So Francisco de Sales ainda 
teve tempo para escrever. Fez da pena seu apostolado permanente, que o transformou num clssico da literatura francesa e, ao mesmo tempo, um mestre espiritual imprescindvel. 
Suas obras principais so a Introduo  vida devota (1604) e o Tratado do amor de Deus (1612), e outras menores, como tratados de controvrsia contra os calvinistas, 
cartas, sermes e documentos sobre a vida e a administrao pastoral de sua diocese. "Inspirado em sua experincia de missionrio e de diretor espiritual, renova 
a vida interior dos cristos que vivem no mundo, sugerindo-lhes uma verdadeira devoo alimentada pela orao e pelos sacramentos, assim como pelas `pequenas virtudes' 
que impregnam seu comportamento. Seu Tratado do amor de Deus amplia as perspectivas da Introduo  vida devota, multiplicando as anlises teolgicas e as observaes 
psicolgicas. O otimismo realista desse humanismo devoto ajuda o cristo a levar uma vida espiritual consciente."
BIBLIOGRAFIA: Obras selectas de San Francisco de Sales. Edio preparada por F. de la Hoz (BAC), 2 vols.; A. Royo Marn, Los grandes maestros de la vida espiritual 
(BAC).

230 / Francke, Auguste H.

Francke, Auguste H. (1663-1727)
*Pietistas.

Freire, Paulo (1921-1997)
Pedagogo e filsofo brasileiro nascido em Recife. No departamento de Educao e Cultura da Universidade de Pernambuco criou os crculos de cultura popular que deram 
lugar ao movimento de Educao de Base, patrocinado pelo episcopado brasileiro (1961). Posteriormente exilou-se no Chile (1964), para trabalhar depois na UNESCO 
(1968), no *Conselho Mundial das Igrejas (1970) e no Centro Intercultural de Documentao de Cuernavaca (CICDC), colaborando com I. Illich. Paulo Freire transformou-se 
num autor clssico e muito popular na pedagogia do sculo XX. Defende uma educao humanista e libertadora, baseada nestes princpios: a tomada de conscincia do 
oprimido sobre a realidade sociocultural; a educao como prtica da liberdade e o processo de alfabetizao como uma forma de reconstruo da realidade. Sobre a 
base de conscientizao ou aproximao crtica da realidade, escreveu obras como Conscincia e Alfabetizao (1963); A educao como prtica da liberdade (1967); 
Pedagogia do oprimido (1979); Mtodo psicossocial (1970); Ao cultural para a liberdade (1972) etc. Nas suas duas ltimas obras surgidas em castelhano: La naturaleza 
poltica de la educacin (1990) reuniu suas idias e obras dos ltimos anos e vincula, em parte, sua obra  da Teologia da Libertao. Esta, de fato, inspira-se 
na educao libertadora de Paulo Freire, apoiando seus mtodos. A segunda: Alfabetizacin: lectura de la palabra, lectura de la realidad (1989), em colaborao com 
Donaldo Macedo,  um dilogo em torno da alfabetizao, em que se examinam as experincias realizadas em pases do Terceiro Mundo.

Freud, Sigmund / 231

Como concluso geral, devemos afirmar que a pessoa e a obra de Paulo Freire esto intimamente ligadas  revoluo cultural dos pases do Terceiro Mundo. Alm disso, 
vem inspirando grande parte dos movimentos de libertao pacfica suscitadas pela Igreja, de maneira particular pela Igreja do Brasil, em todo o mundo. (*Teologia 
da libertao, *Boff, Hlder *Cmara).
BIBLIOGRAFIA: Ao cultural para a liberdade e outros escritos; Alfabetizao; Aprendendo com a prpria histria; Cartas a Cristina; Cartas a Guin-Bissau; Contribuies 
da interdisciplinaridade; Cuidado, Escola!; Dilemas scio-ambientais e desenvolvimento sustentvel; Ecucao como prtica da liberdade; Educao e mudana; Educao 
na cidade; Essa escola chamada vida; Extenso ou comunicao?; Fazer escola conhecendo a vida; Importncia do ato de ler; Pedagogia do oprimido; Por uma pedagogia 
da pergunta; Professora sim, tia no e outras.

Freud, Sigmund (1856-1939)
Neurologista austraco, fundador da psicanlise. As teorias freudianas tiveram um grande impacto na psicologia, na psiquiatria e em outros campos. Alm disso, Freud 
levou suas concluses psicanalticas ao campo mitolgico e cultural, assim como aos fenmenos antropolgicos e religiosos. Reconhecido como um dos "filsofos da 
suspeita", junto a *Marx e *Nietzsche, suas teorias tm sido uma verdadeira revoluo na interpretao do comportamento do homem. Freud ingressou na Universidade 
de Viena em 1873, para passar ao hospital geral da universidade em 1882. Em 1885, mudou-se para Paris a fim de estudar, ao lado de Charcot, os fenmenos da histeria. 
De volta a Viena, colaborou com Breuer em seus primeiros estudos sobre a histeria (1895), em que j aparecem as linhas do mtodo psicanaltico. Foi evoluindo para 
o estudo dos planos mais profundos da mente: o inconsciente. Passou depois ao estudo das neuroses. Em 1899, publicou A interpretao dos sonhos, em que analisa os 
complexos processos simblicos subjacentes  formao dos sonhos. Em 1905 apareceu sua

232 / Freud, Sigmund

controvertida obra Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade, que apresenta seus descobrimentos relativos  sexualidade infantil, assim como as etapas do complicado 
desenvolvimento sexual, no qual inclui a formao do complexo de dipo. Seguiram-se muitas outras obras famosas como Ttem e Tabu (1913); O mal-estar na civilizao 
(1930), Moiss e o monotesmo (1939), em que projeta suas teorias e inquietaes religiosas. E outras como O ego e o id (1923) e Lies de introduo  psicanlise 
(1932), em que aparece sua interpretao definitiva do inconsciente: Id, ego, superego. Da teoria da personalidade e do inconsciente, Freud elaborou uma interpretao 
da religio, cujos pontos assim se resumem: a) A representao edpica do pai  para Freud a base da crena num Deus que clama culto e obedincia e que castiga o 
pecado. b) Na base da religio, de toda atitude religiosa, est o temor s foras da natureza, das quais depende o homem para sobreviver e s quais no pode controlar. 
E, junto ao temor, a frustrao do instinto que impe ao indivduo a vida em companhia dos demais. "D-se ento -- diz -- uma resposta coletiva, e tanto as representaes 
fantsticas individuais quanto a conduta neurtica confundem-se com a fantasia coletiva e com o ritual religioso." c) A religio, portanto,  conseqncia dos instintos 
falidos do amor e segurana que o homem no encontra no seio da sociedade. Conclui-se, ento, que as classes sociais mais baixas experimentam uma necessidade maior 
de religio porque sofrem uma maior frustrao nos seus instintos do que as classes dirigentes. d) Nessas condies, a religio serve para frear o instinto de rebeldia 
das massas ou, no mnimo, de sua exigncia de uma igualdade de oportunidades para satisfazer seus desejos. "Enquanto as classes dirigentes desfrutam no somente 
de um nvel real de satisfao desses desejos, seno tambm de uma satisfao vicria atravs da arte e da literatura, as massas, sem acesso a eles, necessitam de 
representaes fantsticas compensatrias de carter religioso."

Gemelli, A. / 233

Desses princpios, Freud tira a concluso de que a tica sancionada pela religio, atravs do superego justiceiro, impe aos instintos humanos mais restries que 
as devidas para manter a ordem e a paz na sociedade. Mesmo assim, a cincia proporciona uma sensao de controle e segurana diante das ameaas dos desastres naturais. 
Nesta situao, as crenas religiosas perdem intensidade. Quanto mais cincia, maior segurana, maior flexibilidade social e menos religio.
BIBLIOGRAFIA: Obras em portugus: Adolescncia; Ego e os mecanismos de defesa; Freud e a cocana; Freud/ Jung: correspondncia completa; Infncia normal e patologia; 
A interpretao dos sonhos; No interesse da criana?; Histeria: primeiros artigos, I e II e outras; A. Pl, Freud y la religin. Estudo introdutrio pelo Dr. Rof 
Carballo (BAC minor).

G
Galileu Galilei (1564-1642)
*Cincia e f.

Gardeil, A. (1859-1931)
*Teologia atual, Panorama da.

Garrigou-Lagrange, R. (1877-1964)
*Neo-escolsticos.

Gemelli, A. (1878-1959)
*Neo-escolsticos.

234 / Germano, So

Germano, So (634-733)
Patriarca de Constantinopla (715). Anteriormente fora um dos promotores do Quinto/sexto Conclio de Constantinopla (692). Condenou a doutrina dos monotelitas e se 
ops valentemente ao primeiro edito do imperador Leo III contra a venerao das imagens, vendo-se obrigado a abandonar sua sede de Constantinopla em 730. A obra 
teolgica e de controvrsia de So Germano  extensa. Escreveu um tratado De haeresibus et synodis e vrias cartas dogmticas. Ficaram clebres suas homilias em 
defesa do culto e devoo  Virgem Maria. Junto com So Joo *Damasceno, foi um dos grandes defensores do culto e venerao das imagens na longa luta iconoclasta.

Gerson, Joo (1363-1429)
Jean Charlier de Gerson, estudante e doutor em teologia pela Universidade de Paris, chegou a ser seu chanceler em 1391. Empreendeu uma grande atividade como homem 
de Igreja para pr fim ao grande Cisma do Ocidente. Em 1415 participou como telogo no Conclio de Constncia, onde defendeu a superioridade do *Conclio sobre o 
papa. Pediu, mesmo assim, que os telogos tivessem voz no Conclio junto aos bispos. Tomou parte na redao dos chamados "Quatro Artigos" de Constncia. Sua denncia 
sobre as proposies de J. Petit a favor do tiranicdio valeram-lhe o dio do duque de Burgndia, pelo que no pde voltar a Frana at 1419. Alm de suas idias 
teolgicas sobre a "teoria conciliar", mas sem rechaar a primazia do papa, Gerson continuou o nominalismo radical de *Ockham: nada  objetivamente bom ou mau. A 
bondade ou maldade dos atos depende exclusivamente da vontade de Deus.  doutrina tomista da graa contraps a nova corrente nominalista baseada na doutrina mstica 
agostiniana. Dentre sua imensa produo literria, teolgica e espiritual, destacam suas Considerationes de theologia

Gide, Andr / 235

mystica speculativa; De theologia mystica practica; De perfectione cordis e Consolatio theologiae. A influncia de Gerson, tanto na teologia quanto na vida espiritual 
e mstica, foi enorme ao longo dos sculos XV-XVI.
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Amberes 1706, 5 vols.; Oeuvres compltes. Ed. de P. Glorieux, 1960-1973, 10 vols.; J. B. Schawab, J. Gerson, 1958.

Gertrudes, Santa (1256-1302)
Mstica alem que nos deixou a sua experincia mstica de orao e contemplao no livro intitulado Legatus divinae pietatis. Das quatro partes de que se compe, 
parece que somente a segunda foi escrita por ela; as outras trs foram compostas sobre a base de notas e escritos da santa. O Legatus divinae pietatis  considerado 
como um dos livros mais belos do misticismo cristo.  um dos testemunhos mais primitivos de devoo ao Corao de Cristo.

Gide, Andr (1869-1951)
A presente anlise no quer nem pode ser um estudo completo da complexa personalidade de Gide. Tendo como fundo sua vida e sua obra, tenta orientar a leitura deste 
escritor e moralista francs que recebeu o prmio Nobel em 1947. E mais:  uma orientao para se descobrir sua atitude ante os valores morais e cristos. A influncia 
que esse autor teve na primeira metade do sculo e a "Considerao de grande humanista e moralista na grande tradio do sculo XVII francs" so as razes de sua 
presena aqui. A obra literria de Gide sustenta-se sobre o argumento de si mesmo.  um relato pessoal da sua difcil e atormentada travessia pelos mares deste mundo. 
Em torno do tema de seu eu, escreveu as frases mais brilhantes e ambguas: "No sou mais que um menino que se diverte, e ao

236 / Gide, Andr

mesmo tempo um pastor protestante que o enfastia" (Dirio, 1907). "Nunca soube instalar-me na vida. Sempre sentado de lado, como num brao de sof: disposto a levantar-me, 
a partir." Em 1926 confessar, em meio a sua angstia, a sua procura de Deus: "O catolicismo  inadmissvel; o protestantismo intolervel; e eu me sinto profundamente 
cristo", para acabar criando a sua prpria tica, anulando seu sentido de culpa, e chegar a ser ele mesmo. Os que o conheceram e com ele conviveram viram nele a 
"inverso generalizada" incapaz de cumprir em si mesmo o "dever de ser feliz", "de amar e ser amado", primeira e ltima razo de sua vida e de sua obra. "Seria mais 
fcil caracteriz-lo como um caso de coquetismo absoluto, que iludiu todo compromisso, em especial o religioso, depois de desfrutar as emoes de uma vaga piedade 
pantestica, de uma tradicional moral calvinista e de uma aproximao ao catolicismo... E tambm o compromisso poltico, limpando -- Retorno da URSS -- as possveis 
implicaes de uma viagem (1936) em que, na Praa Vermelha, havia descoberto, pela primeira vez, que `o escritor no  um opositor'. Mas tambm no passando a um 
anticomunismo militante"

Gide, Andr / 237

(Jos M. Valverde, Historia de la literatura universal, 8, 83s.). A obra de Gide possui "a sugesto do narcisista, que atrai os demais porque somente est atrado 
por si mesmo -- neste caso, atrado mas no absorto --; certamente, uma atrao que deve muito  sua prosa ntida e equilibrada, que no parece esforar-se para 
conquistar-nos" (Ibid., 486-487). Sempre elusivo e automarginalizado, disponvel somente para si mesmo, em 1891 e com o ttulo Cadernos de Andr Walter, exps suas 
tendncias homossexuais. Procura a salvao de sua angustiada juventude no matrimnio com sua prima, a quem no desejava: "Teu corpo me cobe e as possesses carnais 
me espantam". Sua tendncia vai por outro lado, como nos lembra em O imoralista (1902). Atravs de suaves veladuras seminovelsticas, "aparece a pederastia em contraste 
com uma viagem ao mesmo tempo matrimonial, quase em branco, e cheia de afeto e angstia pela tuberculose que passa de um para outro". O mais importante na obra de 
Gide  seu livro Os alimentos terrestres (1897). O autor incita um jovem, Natanael, a amar a terra, a vida e as coisas, em tom ao mesmo tempo sensual e religioso. 
Sua mensagem final: "No te amarres em ti mais do que ao que sentes que no est em nenhuma parte mais do que em ti mesmo". A sua novelstica incorpora uma enorme 
problemtica religiosa e moral, como em A porta estreita (1909) e A sinfonia pastoral (1909). O tema de si mesmo o encontramos em Coridon (1923), onde defende suas 
inclinaes e costumes, uma vez que sua mulher separou-se dele depois de conhecer sua inclinao. A partir dessa data, abundam seus escritos autobiogrficos, sobretudo 
o seu famoso Dirio, a mais sugestiva de suas obras e cheia de agudeza nas suas observaes. "Eu era bastante semelhante ao filho prdigo, que vai dilapidando grandes 
bens", escreveu Gide em 1932. De um ambiente puritano desejoso de vida pura e transcendente, primeiro junto  sua

238 / Gil de Roma

me e depois ao lado de sua mulher, o escritor passar a descobrir "os alimentos terrestres". "Eu continuo sendo filho desta terra", dir no final de sua vida. H 
em Gide uma constante converso para a vida, o mundo e os sentidos. Acaba rompendo definitivamente com sua vida e com suas primeiras convices crists. "O que me 
entristece, aponta Charles Moeller,  a espcie de fervor `apostlico' com que Gide prope seu antitesmo; ele d a impresso de estar na posse de uma verdade derradeira 
a entregar aos homens... Parece que fazia, durante os ltimos anos da sua vida, uma espcie de apostolado ao inverso. Ele aproveitava todas as ocasies para tentar 
convencer os seus melhores amigos da verdade do seu atesmo. Gide sectrio, proslito da descrena, ele que dizia no querer comprometer-se nem servir nenhuma ideologia! 
Na verdade, esta final metamorfose do nosso Proteu tem qualquer coisa de trgico" (Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, I, 184s.).
BIBLIOGRAFIA: Obras em portugus: Coridon; Os frutos da terra; Os moedeiros falsos; Paludes; A porta estreita; Se o gro no morre; A sinfonia pastoral e outras; 
nos Clsicos del siglo XX. Plaza e Jans, Barcelona, 5 vols.; Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo. I.

Gil de Roma (1243-1316)
Nascido em Roma, entrou para os ermitos de Santo Agostinho em Paris, terminando como arcebispo de Bourges (1295). Gil de Roma  um slido filsofo e telogo escolstico. 
Fez comentrios sobre Aristteles e *Pedro Lombardo. Escreveu tratados contra *Averris, sobre os anjos e sobre o pecado original. O mais conhecido e popular de 
seus livros  De regimine principum, escrito em 1285, e dedicado a seu discpulo, o futuro rei Filipe Belo, no qual estabelece os princpios do poder temporal do 
prncipe. Complemento desta obra  seu tratado De summi pontificis potestate. Nele se inspirou e se apoiou Bonifcio VIII para escrever sua

Gnsticos / 239

famosa bula Unam sanctam (1302), que declara no haver mais do que uma "s Igreja, fora da qual no existe nem salvao nem perdo dos pecados".

Gilson, Etienne (1884-1978)
Dificilmente se pode resumir o trabalho de E. Gilson como filsofo tomista e como historiador, pesquisador e crtico da filosofia, teologia e espiritualidade medieval. 
A ele se deve, em parte, a renovao e o novo enfoque dos estudos atuais sobre a Idade Mdia. Graas a ele temos uma nova viso do que foi a cincia, a filosofia, 
a arte, a espiritualidade e a Igreja do perodo medieval. Seus estudos sobre filosofia medieval (A Filo5 sofia na Idade Mdia, 1982), sobre So *Boaventura, Santo 
*Agostinho, So *Bernardo, *Abelardo, *Dante, Santo *Toms e o tomismo, sobre a filosofia e a mstica crist, fazem de E. Gilson um dos pensadores e pesquisadores 
mais slidos da doutrina crist.

Gnosticismo
*Gnsticos.

Gnsticos (sc. II-III)
Escritos gnsticos ou literatura gnstica. Durante os trs primeiros sculos do cristianismo floresce uma literatura muito rica de autores.  a denominada literatura 
gnstica, que tem como contrapartida a literatura agnstica dos escritores alexandrinos e de outras escolas. O fenmeno destes escritos pode ser comparado ao atual 
"boom" das seitas. Como as seitas atuais, o gnosticismo e outras correntes de ento organizaram uma propaganda muito eficaz e ganharam adeptos nas comunidades crists, 
valendo-se de uma interpretao do cristianismo baseada na gnose ou filosofia religiosa dos gregos. Alm dos inimigos externos -- o judasmo e o paganismo

240 / Gnsticos

-- os autores cristos tm uns inimigos internos muito mais perigosos: o gnosticismo e o montanismo, que tratam de minar, por dentro, tanto a fundamentao espiritual 
e o carter religioso do cristianismo, quanto sua misso e carter universais. As origens do gnosticismo devem ser procuradas na poca helenstica. Como conseqncia 
das conquistas de Alexandre no Oriente (334-324 a.C.), desenvolveu-se uma estranha mescla de religio oriental e de filosofia grega, conhecida como gnosticismo. 
Das religies orientais tomou sua f num dualismo absoluto entre Deus e o mundo, entre a alma e o corpo. Colocava a origem do bem e do mal em dois princpios totalmente 
diferentes, e procurava com nsia a Redeno e a imortalidade. Da filosofia grega, o gnosticismo recebeu seu elemento especulativo. Assim, do neoplatonismo tomou 
a especulao sobre a Redeno e os mediadores entre Deus e o mundo; do neopitagorismo herdou um misticismo naturalista; e, do estoicismo, o valor do indivduo e 
o sentido do dever moral. O gnosticismo penetrou nas comunidades crists quando essas se estabeleceram nas grandes cidades. As diferentes seitas gnsticas trataram 
de elevar o cristianismo do nvel da f ao da cincia. A produo literria do gnosticismo foi enorme, principalmente no sc. II, e grande parte dela  annima. 
 formada por muitos evangelhos apcrifos, cartas e feitos dos apstolos. Sua enorme difuso e o carter popular destes escritos fez estragos entre o povo. Mas tambm 
essa literatura gnstica compreende tratados teolgicos, compostos pelos mesmos fundadores de seitas e por seus discpulos. At h poucos anos, considerava-se perdida 
a maior parte dessa literatura. Em 1945 descobriuse no Egito superior uma biblioteca gnstica de 48 tratados, todos eles inditos. Entre os numerosos autores gnsticos, 
resenhamos aqui os principais: -- Baslides, professor de Alexandria, que vi-

Gnsticos / 241

veu durante o imprio de Adriano e Antonino Pio (120-145). Escreveu um Evangelho e um comentrio do mesmo, chamado Exegtica, que desapareceu. O resumo de sua doutrina 
 dado por Santo *Irineu (Adv. haer., 1, 24, 3-4). -- Valentim, egpcio de nascimento e educado em Alexandria, instalou-se em Roma e ali propagou sua doutrina. De 
suas obras restam somente fragmentos de cartas, homilias. Alguns lhe atribuem algum tratado. Valentim teve muitos adeptos tanto no Oriente quanto no Ocidente. Merecem 
ser citados entre os seus inumerveis discpulos: Ptolomeu, que escreveu uma Carta a Flora, sem dvida a pea mais importante da literatura gnstica que possumos; 
Heraclio, o discpulo predileto de Valentim; Florino, contra quem Santo *Irineu escreveu duas cartas; Bardasanes, Harmnio, Teodoto e Marco so considerados tambm 
discpulos de Valentim no Oriente. -- Marcio , sem dvida, o autor gnstico mais importante. Nascido em Snope (Ponto), instalou-se em Roma prximo ao ano 140. 
Muito cedo comeou a difundir suas idias gnsticas, pelo que foi excomungado. Depois desse fato, Marcio formou a sua prpria Igreja, com bispos, presbteros e 
diconos. Sua liturgia era muito semelhante  da Igreja Romana. Talvez por isso conseguiu mais seguidores do que as demais seitas gnsticas. So *Justino nos diz 
que a sua Igreja se "havia estendido por toda a humanidade". A nica obra que Marcio escreveu, Anttesis, perderam-se, assim como uma carta dirigida aos chefes 
da Igreja de Roma, na qual dava conta de sua f. Conservam-se, no obstante, muitos fragmentos. Marcio rechaa o Antigo Testamento, e Cristo no  o Messias profetizado 
por ele. No nasceu da Virgem, nem sequer em aparncia. Manifestou-se de repente na sinagoga de Cafarnaum, e desde ento manteve uma aparncia humana que conservou 
at a sua morte na cruz. Derramando o seu sangue, redimiu todas as almas do poder do demiurgo. Os corpos no foram redimidos e continuam sob o poder do demiurgo.

242 / Gonzlez, Zeferino

Teve como discpulo Apeles, que lecionou em Alexandria e Roma. Segundo *Eusbio, nesta cidade teve uma discusso com Rdon, qualificada por *Harnack como "a mais 
importante disputa religiosa da histria". Aqui est a relao do prprio Rdon: "O ancio Apeles, quando veio conversar conosco, ficou convencido de que havia muitas 
afirmaes falsas. Desde ento costumava dizer que no  necessrio pesquisar a fundo o assunto, mas que cada qual deve permanecer em sua prpria crena. Afirmava 
que todos os que depositam sua confiana no Crucificado sero salvos desde que perseverem nas boas obras. Mas, como dissemos, a parte mais obscura de suas doutrinas 
 o que dizia sobre Deus"... (Eusbio, Hist. Ecles., 5, 13, 5-7).
BIBLIOGRAFIA: Sobre os primeiros gnsticos, ver J. Quasten, Patrologa, I, 243-267; Los evangelios apcrifos (BAC), 3 vols. Os fragmentos gnsticos, em W. Volker, 
Quellen zur Geschichte der christlischen Gnosis. Tbingen 1932; A. Orbe, Cristologa gnstica, introduccin a la soteriologa de los siglos II y III (BAC), 2 vols.; 
Los Gnsticos. Introdues, tradues e notas de J. Montserrat Torrens. Gredos, Madrid, 2 vols.

Gonzlez, Zeferino (1831-1894)
*Neo-escolsticos.

Grabmann, Martin (1875-1949)
Grabmann  considerado um dos grandes historiadores e intrpretes da filosofia e da teologia medievais. De 1918 at a sua morte, foi professor de teologia em Munique. 
Seguindo os passos de H. S. *Denifle e outros historiadores da Idade Mdia, investigou a evoluo da escolstica desde a poca patrstica. Seus estudos expuseram 
as mudanas e a evoluo que oferecem as obras de Santo *Toms, acentuando estes mais do que o esquema de um sistema fixo e imvel. Seu trabalho de telogo e investigador 
ficou plasmado em seus estudos sobre Santo *Toms, histria da teologia catlica, Santo *Alberto Mag-

Granada, Frei Lus de / 243

no etc. Como pesquisador deve-se a ele o descobrimento de manuscritos, edies crticas destes e numerosas e importantes correes e precises de datas e autores 
medievais.

Graciano (c. 1140)
*Livros penitenciais.

Granada, Frei Lus de (1504-1588)
"Granada, que exerceu uma considervel influncia em toda a Europa, com sua mescla de atitude popular e tcnica clssica, com um sentido ingnuo e bondoso da religiosidade, 
figura com traos inconfundivelmente pessoais entre os quatro ou cinco pices de nossa mstica asctica e entre os primeiros que pode oferecer qualquer outra literatura." 
Andaluzo, granadino, cheio de imaginao e de sentido fino e detalhista; de origem humilde, filho de uma lavadeira, tudo o predispunha a uma atitude franciscana 
diante das coisas; bom, crdulo, demasiado confiante nos homens, quase ingnuo. Por sua formao dominicana, conservou uma disposio sistemtica das grandes obras 
de procedncia tomista, aristotlica, mas seu esprito estava mais prximo de Santo *Agostinho e de Plato. H em suas obras muitas citaes de Santo *Toms, porm, 
no menos de Santo Agostinho. Sua atitude diante da natureza, em cujas obras v um reflexo da beleza e bondade de Deus,  essencialmente franciscana. -- Desse amor 
a toda a natureza nasce sua fervorosa religiosidade: amvel, franciscana tambm: "Senhor, Deus meu, nada deseja mais minha alma do que amar-vos". Seu dom da palavra 
e dotes oratrios -- foi comparado a Ccero e a So Joo Crisstomo -- pe a servio da f e da doutrina crist. Antes de tudo, Frei Lus de Granada foi um pregador, 
ministrio que exerceu durante toda a sua vida, inclusive desde que se instalou em Portugal. Ainda em 1581, Filipe II

244 / Granada, Frei Lus de

escreveu a suas filhas: "Por ser tarde, no tenho tempo de dizer-vos mais, seno que ontem pregou aqui, na capela, Frei Lus de Granada, e muito bem, embora seja 
muito velho e sem dentes". -- Complementos dessa prdica so as obras escritas que nos deixou e pelas quais  considerado um verdadeiro mestre espiritual: Introduo 
ao smbolo da f; Livro da orao e da meditao e Guia de pecadores. -- Toda a primeira parte da Introduo ao smbolo da f (1583-1586), sua obra mestra,  um 
comentrio s belezas das coisas criadas, para nos elevarmos por elas ao conhecimento de Deus. Frei Lus de Granada baseia-se em Plnio, em Eliano, em passagens 
da Bblia, para falar-nos de certas propriedades dos brutos, mas, ao lado de seus comentrios pessoais a tais textos, acrescenta muitas impresses prprias de sua 
observao. Todas as belezas da natureza so motivo para aproximar-nos do Criador, e Frei Lus no faz outra coisa do que "filosofar neste grande livro de criaturas". 
To evidente  o sinal de Deus em todos os seres da natureza que, como Santo Agostinho, antes duvidaria de haver alma em seu corpo do que "duvidar se h Deus neste 
mundo". Em seus argumentos combina e vai dosando os testemunhos dos padres com os filsofos, principalmente de Ccero e Sneca, de Santo Toms e de Aristteles. 
No em vo foi um homem do Renascimento. A 2 parte do livro refere-se s excelncias da f catlica e  histria de diversos mrtires com o triunfo da religio 
de Cristo sobre a idolatria. A 3 parte toca o mistrio da redeno. A 4 trata do mistrio da redeno pelas profecias que o anunciaram e pelas objees que possa 
suscitar. Na 5 parte resume as anteriores. Obra teolgica prolixa, repetitiva s vezes, de muito discutido valor literrio. A verdadeira obra mestra do escritor 
amante da natureza encontra-se na 1 parte. As outras, bem inferiores em conjunto, apresentam, contudo, fragmentos e detalhes de indubitvel formosura.

Gratry, Auguste / 245

-- O Livro da orao e da meditao  fruto da piedade efusiva do dominicano. Sua meditao centra-se nos mistrios da vida e paixo de Cristo desde o nascimento 
at depois da morte. -- A principal obra asctica de Frei Lus de Granada  o Guia de pecadores (1556).  um tratado completo de asctica, em que aponta o caminho 
que leva a Deus, os meios que temos e os perigos que nos espreitam. Para empreender esse caminho at Deus, coloca-se diante de ns a excelncia da virtude e do servio 
de Deus. -- Com esses livros, o padre Granada transformou-se num clssico que nos transmite de forma amena e slida a doutrina de Cristo.
BIBLIOGRAFIA: Obra selecta de Frei Lus Granada. Seleo de textos (BAC); lvaro Huerga, Fray Luis de Granada. Una vida al servicio de la Iglesia (BAC). Madrid 1990.

Gratry, Auguste (1805-1872)
Filsofo e pensador religioso com grande influncia no pensamento catlico francs da segunda metade do sculo XIX. Deixou uma obra abundante de filosofia religiosa: 
Do conhecimento de Deus (1853); Do conhecimento da alma (1857); A filosofia do credo (1861); A paz (1861); Comentrio ao evangelho de So Mateus (1863); A moral 
e a lei da histria (1868); Recordaes da minha juventude (1874). A doutrina filosfica de Gratry, com ressonncias em *Blondel e outros filsofos modernos, insiste 
nestes pontos: a) Uma alma completa  a primeira condio para uma filosofia vlida e fecunda, porque no se pesquisa somente com o entendimento, mas com todo o 
ser. b) Todas as filosofias contemporneas -- fidesmo, positivismo, neocriticismo, neo-hegelianismo etc. -- so expresses de um pensamento parcial, afastado do 
que deve constituir o humus e o horizonte do pensamento. c) A filosofia coleta as contribuies de todas as cincias,  o ideal da cincia comparada. d) Admite a 
solidez e o valor das provas da existncia de Deus, mas as integra e

246 / Greene, Graham

completa numa perspectiva de sugesto vital. Para comprovar a existncia de Deus, apela ao "sentido divino", de funo anloga ao "sentido externo" que nos testemunha 
a realidade exterior. A culminao da metafsica  a teodicia, onde encontram seu nico ponto de referncia e sua nica fonte, as normas e diretrizes de nossa vida 
e as leis que iluminam a histria. e) A f sobrenatural  o complemento legtimo, se bem que gratuito, de nosso horizonte. A verdade crist garante a paz da inteligncia 
e do corao, conferindo-lhes, com a possesso de Deus, uma felicidade to abundante e sublime que quase se pode identificar com a da viso beatifica. f) No campo 
social, a f liga os homens mais estreitamente entre si e os faz conscientes de participar num projeto comum mais elevado. Gratry restaurou o Oratrio na Frana 
e foi um dos pensadores cristos mais slidos de seu tempo.
BIBLIOGRAFIA: Julin Maras, La filosofa de P. Gratry, em Obras, II.

Greene, Graham (1904-1991)
Novelista ingls, criador de um mundo originalssimo de idias e de personagens. Foi qualificado como "narrador de problemas", e "fabulador do mundo moral e do pecado". 
Convertido em 1926 ao catolicismo, educou-se na Universidade de Oxford. Depois de um breve perodo como jornalista no "Times" de Londres, comeou sua carreira de 
escritor e crtico em 1929. Durante 60 anos foi-nos dando uma rica galeria de intrigas e de personagens em forma de novelas de suspense, de entretenimento, de dramas 
e de artigos, entrevistas etc. "As histrias contadas por Graham Greene so aparentemente profanas; nunca o novelista lhes deu aquela demo que orienta o tema num 
sentido edificante; vrios romances seus lem-se como histrias policiais. A tcnica cinematogrfica empresta aos sucessivos quadros um incompar-

Greene, Graham / 247

vel poder de sugesto. Uma atmosfera opressiva paira sobre cada livro: o calor mido do Mxico, a luxria melanclica de Brighton, o Expresso do Oriente lanado 
atravs da Europa, com o seu carregamento de destinos cmicos ou trgicos, a frialdade matemtica de Estocolmo, a nudez quente e putrefacta da Serra Leoa. O leitor 
mais desatento adivinha contudo que para alm do drama aparente se desenrola outro; uma espcie de contraponto oculto, de estranha ressonncia aos menores gestos, 
nas mais insignificantes palavras. Logo se percebe que a atmosfera  habitada por outra presena, a do mal e do pecado" (Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, 
I, 291). Como compreender G. Greene? As leituras e interpretaes, que a cada dia se fazem deste escritor ingls, deixam-nos perplexos.  simplesmente um escritor 
de novelas policiais?  um revolucionrio simpatizante do comunismo? , por outro lado, um escritor ou novelista catlico? Essas e muitas outras perguntas se fazem, 
a cada dia, inumerveis leitores do todo o mundo. Onde est sua originalidade e qual  a diferena que faz deste autor nico e diferente de todos? Talvez a resposta 
a tudo isto a encontremos numa frase atribuda ao prprio G. Greene: "Gostaria de ser conhecido antes como um catlico novelista, do que como um novelista catlico". 
O mundo de G. Greene  um mundo cado, e nele est onipresente o mal. A obsesso de Greene  a presena de Satans: "a graa, a bondade, o poder de Deus esto de 
tal modo submersos no oceano do mal, que Deus parece morto, crucificado mais uma vez num mundo cego e perverso; seus cristos ficam a tal ponto fascinados por essa 
`morte de Deus', que se sentem esmagados; no so santos; por vezes menos que homens. A impotncia aparente de Deus manifesta-se nesses romances, com uma fora nunca 
igualada at agora. A tentao maior  o desespero diante do silncio de Deus" (Ch. Moeller, o. c., I, 291-292). Rara  a obra em que no aparece um tema

248 / Greene, Graham

moral e religioso, do tipo poltico, social ou simplesmente humano. Assim, em O poder e a glria (1940) aparece um sacerdote mexicano, bbado e com um filho, na 
poca das perseguies anticlericais em seu pas, que aceita o risco de morte por auxiliar um moribundo. Em O revs da trama (1948), o desenvolvimento religioso 
e moral resulta um tanto paradoxal: um homem, abandonado por sua mulher e unido a uma jovem tambm abandonada, no quer se separar dela, mas tambm no quer deixar 
de receber a comunho, e sua escapatria para evitar a continuao do sacrilgio  o suicdio, confiante na misericrdia divina. Fim de caso (1951) apresenta o caso 
curioso de uma mulher que teme que seu amante adltero tenha morrido num bombardeio. Isto a leva a prometer a Deus, em quem talvez j no acredita, renunciar a ele 
se ainda estivesse vivo: assim se cumpre, e nas folhas de seu dirio comea a crescer a presena de um "Outro", o Deus possvel, rival especialmente temvel para 
um amante mortal. Encontramos a temtica da f e da moral em quaisquer de suas novelas. Clebre e discutida  a sua comdia O quarto de estar (1953), onde problemas 
de moral matrimonial fazem aflorar problemas de f. Provisrio e, logicamente, no definitivo nem dogmtico deve ser o juzo sobre a obra literria de Greene. Tambm 
no se pode reduzir sua obra numa nica mensagem. So muitas as leituras. Mas uma coisa  certa: Graham  o "mrtir da esperana". O silncio de Deus  a paz de 
Deus; a ausncia de Deus, a sua presena mais profunda; e no fundo do crime, a misericrdia lana suas chamas mais prementes. "A obra de Greene, conclui Ch. Moeller, 
nada mais  que um comentrio das palavras divinas: `No julgueis'. No julgueis o mundo que vos parece abandonado por Deus: ele est habitado por Deus. No julgueis 
a humanidade que, aparentemente, matou Deus; ela foi salva por Deus. No julgueis a derrota de Deus, espezinhado em instituies que se entregam a Satans, zombando 
da debilidade dos seus sa-

Gregrio de Nissa, So / 249

cramentos; o poder e a glria de Deus esto ali presentes" (o. c., I, 339).
BIBLIOGRAFIA: Muitas das obras de G. Greene esto traduzidas para o portugus: Os farsantes; Fim de Caso; O homem de muitos nomes; Um lobo solitrio; O poder e a 
glria; Os planetas interiores; O dcimo homem e outras. Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, I; L. Durn, Las crisis del sacerdote en Graham Greene 
(BAC).

Green, Julien (1920-)
*Literatura atual e cristianismo.

Gregrio XVI (1765-1846)
*Syllabus.

Gregrio de Nissa, So (335-395)
A personalidade de Gregrio de Nissa destaca-se entre os demais capadcios por sua sistematizao doutrinal da f crist sobre a base de um encontro substancial 
com a filosofia grega, principalmente platnica. Torna a repetir o empenho de *Orgenes de iluminar a f com a grande filosofia grega. Nascido em Cesaria de Capadcia, 
seguiu bem de perto os passos e as lutas dogmticas de seu irmo So *Baslio Magno, e de So *Gregrio Nazianzeno. Comeou como professor de retrica, e depois, 
prximo de 360, passou ao estudo da teologia e da vida monacal sob a inspirao e guia de seu irmo Baslio. Em 372 foi consagrado bispo de Nissa, mas prontamente 
foi acusado e deposto por instigao de Valente, at que, na morte deste, foi chamado pelo povo  sua sede episcopal. A partir desse momento, entregou-se a seu trabalho 
como bispo e em vrias misses de frente, pela pacificao das Igrejas da Transjordnia. Em 381 tomou parte no II Conclio Ecumnico de Constantinopla, onde foi 
reconhecido pelo imperador Teodsio como um dos grandes defensores da comunho ortodoxa. Foi

250 / Gregrio de Nissa, So

considerado, desde ento, o maior defensor da f catlica contra os arianos. Gregrio de Nissa foi, antes de tudo, um homem de estudo, um telogo. Sua principal 
obra  o Grande discurso catequtico, em que, de forma sistemtica, mostra o lugar dos sacramentos na restaurao da imagem de Deus na natureza humana perdida pelo 
pecado de Ado. Escreveu tambm um tratado Contra Eunmio, outros dois Contra Apolinrio, tratados e dilogos Contra os gregos, Sobre a f, Sobre a Trindade, Sobre 
a alma e a ressurreio. Destaca-se tambm seu labor exegtico, principalmente no Apologtico sobre o Hexmeron e a Criao do homem. Uma das facetas mais pessoais 
de So Gregrio de Nissa so os seus escritos ascticos e msticos. Citemos, por exemplo, a Vida de Macrina, sua irm; o tratado Da virgindade, e principalmente 
sua obra mstica Vida de Moiss. A travessia do deserto realizada por Moiss  modelo do progresso da alma atravs das tentaes do mundo para chegar a Deus. Uma 
de suas idias fundamentais neste ponto  que a perfeio no  esttica, mas est em constante crescimento. Completa-se seu labor pastoral nas cartas e sermes, 
destinados a celebrar os santos de Capadcia, ou abordar os problemas de ordem dogmtica e moral prprios de seu tempo. -- Em So Gregrio de Nissa tornamos a encontrar 
toda a temtica dos padres capadcios e das formulaes de *Orgenes: doutrina sobre a Trindade j expressa em termos que seriam o ponto de partida para a teologia 
posterior; doutrina sobre a natureza de Cristo, sobre a f da Igreja, sobre os sacramentos etc. Particular interesse oferece sua doutrina sobre a criao do mundo 
e a criao do homem, esta "por um ato de amor superabundante". O homem  um microcosmos, e  tambm imagem de Deus. Seu tributo fundamental  a liberdade. Sem liberdade 
no haver virtude, nem mrito, nem pecado. Somente na liberdade est a origem do mal. O corpo no  um mal, nem a causa do mal, porque  uma criao

Gregrio de Tours, So / 251

de Deus. O mal est em nosso interior e consiste no desvio do bem devido ao livre-arbtrio. Pelo pecado, o homem perde sua condio de imagem e semelhana de Deus. 
-- Para dirigi-lo em seu caminho de retorno ao ideal primeiro, tal como saiu o homem das mos de Deus, foi necessria a encarnao do Logos. A natureza divina uniu-se 
 humana como a chama se une ao corpo inflamvel, ou como a alma supera os limites de nosso corpo e se movimenta livremente com o pensamento atravs da criao inteira. 
A redeno de Cristo transformar os homens e os conduzir novamente  sua condio primeira. -- "Pela encarnao e redeno de Cristo, toda a natureza, e principalmente 
todo o homem, chegar  apocatstasis,  reconstruo da condio feliz" (Or. Cath., 10). "At o inventor do mal, isto , o demnio, unir sua prpria voz no hino 
de gratido ao Senhor" (Ibid., 26). Com a ressurreio do corpo, o homem entra no conhecimento mstico de Deus, o xtase. Este paira por cima das aparncias e da 
prpria razo. O ver consiste em no ver, j que a energia divina  inconcebvel e inefvel. Gregrio de Nissa: a) representa a expresso mxima da especulao crist 
dos primeiros sculos, acima, inclusive, de Orgenes. b) A doutrina crist tem nele sua primeira sistematizao doutrinal, sobre o fundamento de uma filosofia grega, 
particularmente platnica e neoplatnica. c) Fez avanar a teologia trinitria, e do mesmo modo que os demais capadcios no conseguiu explicar satisfatoriamente 
a unidade (essncia) das pessoas com sua diversidade (individualidade).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 44-46; Quasten, Patrologa, II, 267s.; de J. Danilou (SC 1, 1956).

Gregrio de Tours, So (540-596)
So Gregrio, bispo de Tours desde 573, passou  histria literria por duas obras fundamentais. A primeira e mais valiosa  a sua Historia

252 / Gregrio Magno, So

Francorum. Comeou a escrev-la em 576 e cobre um longo perodo, desde a criao do mundo at o ano 591 de nossa era.  particularmente detalhista nos ltimos vinte 
anos, em que relata fatos recentes da histria da Frana. A Historia Francorum  de capital importncia para a histria da Igreja e da Frana. De menor peso documental 
 o seu Miraculorum libri, uma srie de relatos hagiogrficos nos quais abunda o milagroso e o sobrenatural. Iniciou tambm a literatura hagiogrfica, to em moda 
ao longo da Idade Mdia.

Gregrio Magno, So (540-604)
Nasceu em Roma e morreu nessa mesma cidade. Passou  histria como o arquiteto do papado medieval. Papa de 590 a 604,  reconhecido como um eminente telogo, administrador 
e reformador social, litrgico e moral. Considerado o ltimo doutor da Igreja latina, tratou de modelar as idias agostinianas de A cidade de Deus numa sociedade 
que cristalizaria, mais tarde, no que hoje conhecemos como cristandade. Seria uma societas reipublicae christianae, onde a autoridade secular estaria submetida  
autoridade eclesistica. So conhecidas as suas facetas de monge -- fundou sete mosteiros --, de reformador e de missionrio. Foi o grande impulsor da vida monstica 
iniciada por So *Bento. Em 596 iniciou um dos grandes feitos de seu pontificado, enviando missionrios  Inglaterra, de onde mais tarde partiriam So Wilibrordo 
e So Bonifcio para a evangelizao do centro da Europa. Meno especial merece seu trabalho como administrador e organizador da Igreja. Sem nunca renunciar  sua 
condio de monge, consolidou o patrimnio de Pedro, chegando a ser, sem perceber, o fundador do que se conheceria mais tarde como Estado Pontifcio e da autoridade 
temporal do papa. Mas sempre pensou que o

Gregrio Magno, So / 253

patrimnio de Pedro deveria estar a servio imediato da Igreja e dos pobres. Entendeu seu governo como servio da caridade sobre a autoridade. Assim o demonstra 
o epitfio de sua tumba: Cnsul de Deus. A atividade pastoral de So Gregrio Magno est registrada no Registrum epistolarum, coleo de suas cartas oficiais. Como 
bom romano, a caracterstica de Gregrio  sua praticidade. Seus escritos em geral carecem de originalidade especulativa. Sua formao eclesistica no foi to extensa 
e profunda como a dos padres capadcios. No captou, como esses, os valores caractersticos da cultura e da arte. Sua fonte  o sentido organizativo e prtico. Da 
sua preocupao com o encaminhamento da vida monstica, a formao do clero e do povo, a reforma da Missa e do canto cho, conhecido como canto gregoriano. Da tambm 
sua preferncia pela parte prtica da teologia: valor dos milagres, exemplos da vida dos santos, a doutrina do purgatrio e a conseguinte satisfao com as Missas 
chamadas gregorianas etc. Trs de suas obras exerceram uma influncia decisiva no pensamento e na prxis posterior da Igreja: 1) Liber regulae pastoralis, conhecido 
como a Regra pastoral, que se transforma no guia espiritual e prtico dos bispos da Idade Mdia. 2) Os dilogos sobre a vida e milagres dos primeiros santos da Igreja 
na Itlia. Destaca a vida de So *Bento. 3) Moralia in Job, o texto clssico por excelncia e encontro obrigatrio sobre a moral e interpretao bblica, que marca 
um caminho na histria da moral crist. Figuram tambm entre suas obras duas colees de homilias sobre os evangelhos e sobre Ezequiel. A importncia de Gregrio 
consiste em ter procurado conservar, num perodo de decadncia total da cultura, as conquistas dos sculos anteriores.
BIBLIOGRAFIA: Obras de san Gregorio Magno. Regra pastoral. Homilias sobre a profecia de Ezequiel. Quarenta homilias sobre os evangelhos (BAC).

254 / Gregrio Nazianzeno, So

Gregrio Nazianzeno, So (330-390)
Amigo pessoal de So *Baslio, sua vida correu paralela  deste ltimo: monge, bispo, pregador e escritor. Nascido em Nazianzo, foi educado em Cesaria, Alexandria 
e posteriormente em Atenas, onde conheceu So Baslio. Primeiro monge e depois bispo de Ssima e de Constantinopla (379), sua incapacidade para governar obrigou-o 
a se retirar para a vida solitria e dedicar-se ao trabalho literrio. Morreu em Arianzo. Os traos mais caractersticos de sua vida so sua fidelidade e colaborao 
com a obra de So Baslio, sua luta contra o arianismo e semiarianismo e os imperadores *Juliano e Valente, defendendo a doutrina trinitria tal como ficou expressa 
em "o credo comumente chamado de Nicia"; sua doutrina contra o apolinarismo, na qual defende a integridade da natureza humana em Cristo. A obra literria de Gregrio 
Nazianzeno compreende discursos, cartas e poesias. Em colaborao com So Baslio devemos situar sua primeira obra chamada Filocalia, uma antologia do pensamento 
teolgico e devocional tomado das obras de *Orgenes. De seus sermes, que ele chama de Oraes teolgicas, que lhe valeram o ttulo de "telogo", destacam-se 5 
dos 45 que conservamos. So os que vo do nmero 27 ao 31. Foram pronunciados em Constantinopla e destinados a justificar a doutrina trinitria contra o ariano Eunmio 
e o semi-ariano Macednio. Suas numerosas cartas, com um estilo bem cuidado, aludem a sucessos de sua vida, a seus parentes. Somente a ltima se refere a questes 
teolgicas. O restante de seus escritos, as poesias, so de carter polmico. H um longo poema autobiogrfico conhecido como Carmen de se ipso, e muitos pequenos 
poemas de escasso valor potico. So dirigidos especialmente contra os apolinaristas.

Grcio, Hugo / 255

O valor de So Gregrio est vinculado, como nos padres capadcios,  sua luta contra o arianismo; a defesa da f de Nicia, principalmente na sua afirmao trinitria 
e cristolgica, sua eloqncia posta a servio da causa comum da Igreja: entre seus ouvintes teve uma testemunha de exceo, o jovem estudante da Bblia: So Jernimo; 
e finalmente seu sentido da paz e da concrdia, que o levou a renunciar a seu bispado em Constantinopla. Para sermos completos, teramos de aludir  sua incapacidade 
para o governo e cuidado pastoral, ainda que as condies e circunstncias que o rodeavam no fossem nada favorveis.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 35-38; J. Quasten, Patrologa, II, 251s., com a bibliografia e textos ali citados.

Grcio, Hugo (1583-1645)
Jurista e telogo holands, criador do "jusnaturalismo" e um dos "pais do direito internacional". Pertencente  corrente teolgica armnia e de estilo pacfico e 
liberal, Grcio escreveu duas obras fundamentais: De veritate religionis christianae (1622), um manual de teologia prtica para os missionrios. Nele destacamse 
duas tendncias: a) o apoio a uma teologia natural concebida desde a natureza e a razo; b) a superioridade do cristianismo sobre as outras religies. Mas sua obra 
mais famosa  De iure belli et pacis (1625). Nela: a) separa o direito da teologia; b) estabelece os princpios da justia e do direito sobre a base inaltervel 
da lei natural (jusnaturalismo); c) essa lei nasce do homem como ser social. Em questes religiosas, Grcio manifestou opinies a favor da tolerncia, mas esta no 
consiste num "deixar fazer", mas no respeito  lei civil, fundamentada na lei natural.
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia theologica. Amsterd 1679, 4 vols.

256 / Groote, Grard

Groote, Grard (1340-1384)
*Toms de Kempis.

Guardini, Romano (1885-1968)
Esse professor talo-germnico  um dos grandes valores do pensamento atual cristo. Nascido em Verona (Itlia), viveu toda a sua vida de docncia e magistrio na 
Alemanha. Realizou seus estudos em Tubinga e Friburgo, onde se doutorou em teologia em 1915. Em 1923 passou a explicar a filosofia da religio em Berlim, sendo privado 
da ctedra pelos nazistas em 1939. Desde 1945 professou a mesma disciplina em Tubinga e Munique (1948). A vida e a atividade de Romano Guardini tm sido a de um 
extraordinrio e sbio professor. Sua numerosa obra persegue uma interiorizao psicolgica e potica de fundamento teolgico, ao mesmo tempo que uma viso unitria 
e total da existncia humana. A concesso do prmio Erasmo, em 1961, foi o reconhecimento a um homem e  sua obra que contriburam com a reconstruo da Europa na 
pax christiana e na cultura clssica. Permanecem para sempre as suas obras como O esprito da liturgia (1918), sem dvida, o livro que mais contribuiu para fomentar 
o movimento litrgico anterior ao *Vaticano II. Seguem-lhe: O universo religioso de Dostoiesvski (1933); Consciencia crist. Ensaios sobre Pascal (1935); O Senhor. 
Consideraes sobre a pessoa e a vida de Cristo (1937); Essncia do cristianismo (1839); Conhecimento da f (1944); A me do Senhor (1954). Atravs de seus livros 
e conferncias, Guardini fez da teologia e do pensamento cristo uma forma original, cheia de sensibilidade e de cultura, para aproximar-se do homem culto de hoje. 
Como P. Lippert, K. *Adam e outros, Guardini permanecer como o renovador culto do pensamento cristo que prepara o caminho para o Conclio Vaticano II.

Hales, Alexandre de / 257

Guranger, Prosper (1805-1875)
Monge beneditino vinculado  restaurao do movimento litrgico na Frana durante o sculo XIX. Desde a abadia de Solesmes, que ele comprou e restaurou (1832-1837), 
realizou um amplo movimento de renovao litrgica, que se difundiu por toda a Frana e envolveu toda a Igreja. Solesmes transformou-se no centro mundial de estudo 
e piedade litrgica, que atraiu tanto o povo quanto as elites cultas e os escritores. Parte dessa renovao foi motivada pelo estudo das fontes litrgicas e pela 
interpretao do canto gregoriano.

Guilherme de Champeaux (1070-1121)
*Abelardo, *Vtor, Escola de So.

Gutirrez, Gustavo (1928-)
*Libertao, Telogos da.

Guyon, Madame (1648-1717)
*Fnelon; *Quietismo.

H
Hales, Alexandre de (1186-1245)
 conhecido como o "doctor irrefragabilis". Estudou artes e teologia em Paris, onde se doutorou em 1220. Tornou-se frade franciscano em

258 / Hring, Bernhard

1236, mantendo sua ctedra na Universidade de Paris.  considerado o fundador da escola franciscana de teologia, e um de seus mritos  ter sido mestre de So *Boaventura. 
A Summa Theologica que se atribui a ele  sua s em parte.

Hring, Bernhard (1912-)
Nasceu em 1912 em Bttingen (Alemanha). Ordenado sacerdote em 1937, participou como soldado enfermeiro na frente russa na II Guerra Mundial (1940-1945). Terminada 
a guerra, obteve o doutorado em teologia em Tubinga. Desde 1949 dedicou-se ininterruptamente ao estudo e  docncia da teologia moral. Ao final do curso acadmico, 
1987-1988, deu sua ltima lio na Academia Alfonsiana de Roma. Desde 1988, reside em Gars, povoado prximo de Munique. O nome de Hring est vinculado, indissoluvelmente, 
 renovao da teologia moral catlica. O que fizeram, em princpios do sc. XX, P. Lippert, R. *Guardini, K. *Adam no campo da teologia dogmtica, fez ele uns anos 
mais tarde no terreno da teologia moral. Sua tentativa foi redescobrir uma moral bblica em torno da idia da imitao de Cristo. O repdio a uma moral casusta 
e ao juridicismo foi o que o guiou em seu esforo para recriar uma moral catlica. Esse repdio  dirigido contra o moralismo e prope uma superao do formalismo 
e do legalismo para dar a primazia ao amor, que  a vida com Cristo e em Cristo. Resgata para a moral crist o personalismo como relao da pessoa com o tu, com 
o tu absoluto: Deus. Realiza essa volta ao enfoque essencial da moral em sua obra fundamental A lei de Cristo. Teologia moral para acerdotes e leigos (1954), que 
o transforma num dos pais da nova teologia moral catlica. Por sua concepo, estrutura e estilo, a obra conseguiu interessar a grandes setores do mundo eclesistico, 
apesar de seus trs grossos volumes. As edies sucederam-se

Hring, Bernhard / 259

ininterruptamente ao longo desses 40 anos, tanto em alemo quanto em suas tradues para as lnguas cultas. Seus esforos para conseguir uma sntese vital entre 
a moral e a vida, partindo da superao da dicotomia existente entre o dogma e a moral, cristalizam-se nestas coordenadas: 1. Uma moral do credo. Hring parte do 
mistrio da salvao, que ele resume na palavra central da Bblia: "Basilia", o reino. Este expressa tanto o domnio quanto o reinado de Deus, no pela fora, mas 
pelo amor. A autenticidade bblica deste conceito, seu contedo existencial, universal, missionrio e escatolgico, d estrutura e forma  moral de Hring, tranformando-a 
em "boa notcia", termo que repete constantemente. Dentro desta sntese destaca a espiritualidade no esquema da teologia moral. O objeto da moral no so os pecados; 
seu ncleo central deve ser o amor direcionado  perfeio ou  "imitao de Cristo at copi-lo". 2. Uma moral da vida. Na moral de Hring, f e vida esto sempre 
unidas. Sua teologia moral tem muito de existencial, porque a encarna como cincia de "Deus em relao comigo". A moral "no pode ser exercida" em forma neutra ou 
sem se comprometer. Da: a) seu conceito integral da pessoa. O homem deve ser visto inserido na realidade de seu "contexto social": ambiente e comunidade; b) da 
responsabilidade. O homem  pessoa. Por isso lhe vem o que por si e de si responda. 3. O chamado de Cristo. Somente h uma resposta quando antes h um chamado. A 
partir desta idia central de responsabilidade, ramifica-se a teologia moral de Hring em torno de dois grandes ncleos: o chamado de Cristo e a resposta do homem. 
Em torno deste chamado de Cristo e  resposta do homem, oferece Hring todos os temas cristos da moral crist: a conscincia, a liberdade, a lei, o pecado, a converso, 
os mandamentos etc.

260 / Hring, Bernhard

Esse magistrio de Hring atravs de sua obra central A lei de Cristo (Herder, 1960), ampliada e refundida em suas ltimas edies sob o ttulo de Livres e fiis 
em Cristo (Paulinas), ampliou-se ao longo dos anos em quatro frentes fundamentais: a) Publicaes de livros e colaboraes em revistas cientficas e populares. Hring 
escreveu mais de 40 obras sobre os diversos problemas morais. Mencionamos algumas: Fora e fraqueza da religio; Cristo e o mundo; O matrimnio em nosso tempo; 
A mensagem crist e a hora presente etc. b) Cursos e conferncias a grupos especializados e a religiosos e seculares de toda classe e condio, praticamente em todas 
as partes do mundo. c) Seu trabalho docente na "Academia Alfonsiana", em contato direto com milhares de sacerdotes e educadores ao longo de 40 anos. d) Finalmente, 
mas no em ltimo lugar, Hring foi um impulsor do esprito e da obra do Conclio *Vaticano II. Sua participao ativa e direta no Conclio, em concreto na redao 
da Gaudium et Spes, posteriormente no debate gerado em torno da Humanae Vitae de Paulo VI, e em geral em toda a renovao ps-conciliar da teologia moral fazem dele 
o pioneiro e o impulsor do movimento renovador no campo moral do esprito do conclio. Somente resta dizer que, apesar do reconhecimento unnime e universal que 
seu trabalho obteve, ou talvez por isso, sua pessoa e sua obra viram-se submetidas recentemente a um "processo doutrinal" por parte da Congregao da Doutrina da 
F (1975-1979). Conta os pormenores em seu ltimo livro de carter autobiogrfico: F, histria e moral. Esse processo doutrinal  a raiz da crise da Humanae Vitae 
em 1968. Recrudesce quando em janeiro de 1989 escreveu um artigo, pedindo ao papa uma reconsiderao da doutrina oficial sobre a contracepo.
BIBLIOGRAFIA: Grande parte da obra de B. Hring foi traduzida em portugus por diversas editoras, por exemplo:  tudo ou nada e  possvel mudar (Ed. Santurio); 
V. Schurr-Marciano Vidal, Bernardo Hring y su nueva Teologa Moral Catlica. PS, Madrid 1989.

Harnack, Adolf / 261

Harmnio (sc. II)
*Gnsticos.

Harnack, Adolf (1851-1930)
Historiador e telogo da chamada "escola liberal" alem. Depois de ter passado por vrias universidades, exerceu o magistrio na Universidade de Berlim de 1889 a 
1921. Considerado o melhor especialista de sua poca em temas patrsticos do perodo anterior a Nicia (325), provocou a oposio de grande parte das Igrejas crists 
por sua interpretao dos evangelhos, da figura de Jesus, assim como do dogma e da moral crist. A obra mais volumosa de Harnack  a Histria do dogma (1886-1889). 
Seus trs volumes originais cobrem a histria do cristianismo desde as origens at depois da Reforma. Nela expe suas teorias sobre a histria do cristianismo: a) 
O evangelho foi corrompido pela influncia da filosofia grega, e mais concretamente pela "helenizao" subseqente. b) A religio simples de Cristo foi trocada por 
Paulo em "religio sobre Cristo". c) Essa religio sobre Cristo sofreu uma transformao ulterior no dogma da Encarnao do Filho de Deus. Harnack resumiu seu pensamento 
sobre o cristianismo numa srie de conferncias populares que se publicaram depois com o ttulo de A essncia do cristianismo (1898-1900). Do ponto de vista histrico, 
Harnack estuda a figura de Cristo e sua mensagem. Distingue o medular do evangelho e o acrescido ao longo do tempo. Resume a essncia do evangelho nestes pontos: 
a) Cristo anunciou o Reino de Deus e sua vinda. b) Deus  Pai. c) O mandamento do amor constitui a suprema lei e santidade. Tudo o mais no  essencial  mensagem 
do Evangelho  "um adendo da histria". Tal , por exemplo, a poluio do evangelho pela filosofia grega, a asfixia da liberdade evanglica pelo

262 / Hecker, Isaac Thomas

legalismo eclesistico e a fossilizao da mensagem viva num dogma imutvel. Porm, apesar de tudo, a doutrina do evangelho continua viva e chega at ns. Foi enorme 
a influncia de Harnack na "escola liberal" e em geral no mundo cientfico leigo. Popularizou a imagem do Jesus histrico desprovido de todo halo sobrenatural e 
fez da teologia uma simples narrao histrica.

Hecker, Isaac Thomas (1819-1888)
Nascido em Nova York e convertido ao catolicismo em 1844. Em 1845, ingressou no noviciado com os Redentoristas na Blgica, e voltou aos Estados Unidos em 1851. Dificuldades 
com os superiores da congregao o levaram a pedir a dispensa dos votos em 1857. Anos mais tarde, fundou a congregao dos "Paulistas", instituto muito difundido 
na Amrica do Norte e caracterizado por sua atividade apostlica em vrias frentes. O padre Hecker esteve envolvido na corrente do "americanismo", condenado em 1899 
por *Leo XIII. O "americanismo" procurava, entre outras coisas, a adaptao da vida da Igreja  cultura moderna. Exaltava as chamadas "virtudes ativas" e apenas 
diferenciava o catolicismo das demais confisses crists. A biografia do padre Hecker com o ttulo de O padre Hecker  um santo, transformou-o num dos missionrios 
mais destacados da Amrica do Norte atual.

Hegel, Georg W. F. (1770-1831)
*Kierkegaard.

Hegesipo, So (sc. II)
Historiador eclesistico. Um dos historiadores da Igreja, predecessor de *Eusbio de Cesaria, de Scrates e de *Sozomenes. Escreveu cinco livros de Memrias, contra 
os gnsticos.

Hesiquia / 263

O mais importante de Hegesipo  ter-nos transmitido uma lista dos primeiros bispos de Roma. O fato de a mesma lista aparecer no livro sobre as Heresias (27,6) de 
Santo *Epifnio (sc. IV) demonstra que  a testemunha mais antiga dos nomes dos bispos de Roma.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 5, 1307-1328.

Heraclio (145-180)
*Gnsticos.

Hermas, O Pastor de (sc. II)
*Padres apostlicos.

Hermias (c. 200)
*Apologistas.

Hesiquia
Hesiquia ou hesiquismo so duas palavras gregas que significam tranqilidade, quietude, serenidade. Designam, ao mesmo tempo, um estado interior de paz, de silncio 
profundo, em que se instala o monge, e a condio exterior propcia para que possa acontecer esse estado. A Hesiquia no representa um fim em si mesma;  um meio 
para favorecer a vida contemplativa e chegar  unio com Deus. Historicamente  um mtodo e uma escola de orao que, partindo da Bblia, pratica-se na Igreja, sobretudo 
no Oriente, e que tem dado grandes mestres e seguidores, alguns dos quais podem ser consultados neste mesmo dicionrio (Gregrio *Palamas, *Cabasilas). Tambm se 
chamou "orao do corao" ou "orao de Jesus". Que  hesiquia? Segundo So Joo Clmaco, "a hesiquia do corpo  a disciplina e o estado pacfico dos costumes e 
dos sentimentos; a hesiquia da alma  a disciplina dos pensamentos e um

264 / Hesiquia

esprito inviolvel". "O hesicasta  aquele que aspira circunscrever o incorporal numa morada corporal, que  o supremo paradoxo... A cela do hesicasta so os estreitos 
limites de seu corpo e essa cela contm toda uma casa de conhecimentos" (Degrau 25 da escada mstica). , portanto, uma prtica e mtodo de interiorizao de Deus 
na alma, valendo-se de recursos exteriores que a memria recorda uma vez ou outra. O hesicasta tenta chegar  unio e contemplao de Deus atravs dos meios que 
lhe oferece o mundo exterior e que encontra  sua mo. Serve-se fundamentalmente de pequenas oraes, como o "pai-nosso" -- a orao de Jesus -- ou a invocao do 
nome de Jesus: "Jesus, Filho de Davi, tem compaixo de mim". Essas pequenas frmulas, constantemente repetidas, "tm o efeito surpreendente de nos colocar diante 
de Deus" invocando-o com suas prprias palavras. A repetio da orao favorece a volta da memria. Por sua vez, o hbito da orao, que conduz  orao constante, 
transforma-se num estado permanente em que memria, entendimento e vontade sentem-se submersos em Deus. Isto permite  alma um estado de repouso nele. Por outro 
lado, o silncio e a solido aumentam a memria de Deus naqueles que, paulatinamente, se sentem possudos por ele. Isto leva a evitar tudo o que nos pode afastar 
de Deus ou alterar a alma. Da a necessidade de vigiar o corao, de descer constantemente ao fundo de si prprio para poder chegar a uma orao pura: "Persevera 
sem cessar no nome do Senhor Jesus -- diz So Joo *Crisstomo -- a fim de que o corao assimile o Senhor e que o Senhor absorva o corao, e que os dois se tornem 
um s". Tal como assinalamos, a hesiquia  fruto de uma prxis que nasceu com os primeiros cristos acostumados a pronunciar o nome de Jesus, ou frmulas breves 
de orao que contm esse nome. Mas principalmente uma prxis cultivada e aperfeioada na solido e no silncio do deserto por anacoretas e monges.  uma orao 
breve e contnua, da qual temos referncias nas vidas dos

Hesiquia / 265

padres do deserto (*Sentenas dos Padres). Entre essas breves frmulas destaca-se a invocao de Jesus: "Senhor meu, Jesus Cristo, tem piedade de mim"; "Meu Senhor 
Jesus, socorre-me" (So Macrio). E outras, como "Senhor Jesus, guiame"; "Senhor Jesus, abenoa-me" etc. Evgrio transmitiu-nos muitas exemplos desta orao dos 
padres do deserto (*Evgrio, *Cassiano). A hesiquia no acaba no deserto do Egito. Encontramo-la tambm na espiritualidade de trs grandes centros do Oriente: no 
mosteiro de Santa Catarina do monte Sinai, no do Stoudion de Constantinopla e no monte Athos da Grcia. No primeiro deles encontramos So Joo Clmaco, autor da 
Escada santa ou escada espiritual (570649). Esse monge, junto com Hesquio, Sinata (sc. VIII-IX), desenvolveram o mtodo hesicasta a partir de uma experincia 
pessoal. No mosteiro de Stoudion (estuditas) encontramos tambm a figura de So Teodoro (759-826). Entregou-se  orao contnua, o que lhe valeu o apelido de "aquele 
que no dorme", ou "acemetes". Seguiulhe So Simeo o "Novo Telogo" (949-1022), o grande mstico bizantino. "Sem experincia -- diz -- a teologia  intil; com 
a experincia,  demais". Em meados do sc. X, o monte Athos transformou-se em algo assim como a capital do monaquismo oriental. Afastados do mundo, os monges de 
Athos formaram pequenas comunidades. Seu mtodo de orao foi a hesiquia. Houve entre os monges grandes mestres e tambm opositores, entre eles Barlao de Seminaria 
(+1348), chamado o Calabrs, clebre por sua polmica com So Gregrio *Palamas, monge de Athos (1296-1359), a propsito da hesiquia. Athos continua sendo o expoente 
mximo da hesiquia. Foi particularmente importante a presena da hesiquia na espiritualidade ortodoxa russa. A orao de Jesus foi introduzida na Rssia no sc. 
XIV por hesicastas vindos de Bizncio. Homens como o metropolita de Kiev, Cipriano (1340-1406), So Srgio (1314-1392), fundador do monaquismo russo, e Nil Majokov 
(1433-1508), conheciam

266 / Hesquio, Sinata

bem a hesiquia nos mosteiros de Athos e de Bizncio. Quando esta ltima foi tomada em 1453, a Rssia continuou a tradio hesicasta praticamente at os nossos dias. 
Foi o Relato de um peregrino russo o livro que permitiu ao grande pblico de nosso tempo conhecer e descobrir a "orao de Jesus". Surgido pela primeira vez em 1870 
e reeditado em Kazn em 1884, essa obra annima poderia ter sido copiada pelo abade do mosteiro de So Miguel de Tcheremisses de Kazn, o famoso padre Paissy (1722-1794). 
Esse monge promoveu a vida espiritual por meio da traduo de escritos como a Filocalia do erudito monge do monte Athos, Nicodemos, o Hagiorita (1748-1809), obra 
que revelou ao mundo contemporneo a espiritualidade hesicasta. De qualquer forma, o autor seria um campons russo que, tendo perdido tudo, empreendeu, aos 30 anos, 
uma peregrinao. Tendo entrado na igreja num domingo, escutou estas palavras de So Paulo: "Orai sem cessar". Essa exortao colocou-o em marcha e constitui o seu 
vitico. O peregrino mstico  um dos tantos camponeses que, pelos sculos, percorrem os caminhos da Rssia. "Na impossibilidade de fixar-me em alguma parte, dirigi-me 
at a Sibria, at So Inocncio de Irkoutsk, pensando que nas plancies e nos bosques da Sibria encontraria mais silncio para entregar-me mais comodamente  leitura 
e  orao". O peregrino acaba encontrando um "staretz" ou pai espiritual que lhe transmite os rudimentos da Orao de Jesus. Antes de morrer, o "staretz" entregou-lhe 
a Filocalia que, junto  Bblia, lhe serviria de alimento espiritual e de guia em sua peregrinao.
BIBLIOGRAFIA: J. M. Moliner, Historia de la espiritualidad. Burgos 1971; B. Jimnez Duque-L. Sala Balust, Historia de la espiritualidad. Barcelona 1979, 4 vols.; 
L'oraison du coeur. Cerf, Paris 1990.

Hesquio, Sinata (sc. VIII-IX)
*Hesiquia.

Hildegarda, Santa / 267

Hesiquismo
*Hesiquia.

Hxapla
*Orgenes.

Hilario, Santo (291-371)
*Jernimo, So.

Hilrio de Poitiers, Santo (315-367)
Conhecido como o "Atansio do Ocidente". Convertido do neoplatonismo, foi eleito bispo de Poitiers em 353. A controvrsia ariana obrigou-o a exilar-se durante quatro 
anos. Em 359, encontramo-lo j no Conclio de Selucia, defendendo a causa da ortodoxia. Como telogo, Santo Hilrio defendeu a doutrina trinitria contra os arianos 
em De Trinitate. Deixou-nos outras duas obras de histria: De synodis e Opus historicum. Na primeira fornece-nos dados importantes para a histria de seu tempo.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 9-10.

Hildegarda, Santa (1098-1179)
Conhecida como a "Sibila do Reno", foi abadessa de Rupertsberg. De famlia nobre, viveu, desde menina, extraordinrias experincias religiosas. Entrou na comunidade 
beneditina de Diessenberg (1116), onde foi abadessa em 1136. De 1141 a 1151 ditou seu famoso livro das vises, Scivias, provavelmente uma forma abreviada de Sciens 
vias. So 26 vises que contm duras denncias do mundo, assim como enigmticas profecias de desastres. Sua literatura enquadra-se no gnero apocalptico e da "profecia 
do desastre". A influncia dos escritos de Santa

268 / Hilton, Walter

Hildegarda foi grande nos sculos posteriores  Idade Mdia.

Hilton, Walter (+1396)
Escritor mstico ingls. Iniciou estudos de direito cannico em Cambridge, retirando-se depois  vida eremtica. Acabou seus dias como cnego regular de Santo Agostinho. 
Hilton  considerado um dos grandes msticos ingleses na linha de *A Nuvem do no-saber. Sua obra Scala perfectionis, escrita em ingls, trata de restabelecer a 
imagem confusa de Deus na alma em duas etapas: a) pela f; b) pela f e a experincia sensvel. Deus encontra-se separado da alma por uma "noite escura". A alma 
afastada das coisas terrenas  dirigida pela f at as coisas do esprito. No final est a verdadeira imagem do Deus vivo. Hilton escreveu tambm outras obras espirituais 
em latim.

Hinos e cantos
Lugar destacado na literatura crist merecem os hinos, salmos e cnticos e, em geral, a poesia. Desempenham um papel importante na liturgia e na vida particular. 
So fonte ou lugar comum da f e das crenas crists num determinado momento. No Novo Testamento, encontramos os primeiros cnticos cristos como o Magnificat, o 
Benedictus, Gloria in excelsis, Nunc dimittis. *Clemente de Alexandria comps um hino mtrico em anapestos a Cristo salvador: "Rei dos santos, Verbo todo-poderoso 
do Pai, Senhor Altssimo...". Do sc. II  tambm o famoso hino vespertino: "Phos Hilarion": "Luz serena da glria santa do Pai eterno,  Jesus Cristo". Dos princpios 
do sculo II so as Odes de Salomo, descobertas em 1905, de carter msti-

Hinos e cantos / 269

co, nas quais se quer reconhecer a influncia do evangelho de So *Joo. Da mesma poca so os Orculos sibilinos cristos, poemas didticos em hexmetros. A poesia 
crist faz sua apario tambm nos epitfios, e o faz muito cedo. Por sua antigidade e importncia, merecem ser mencionados os textos dos epitfios de *Abrcio 
(finais do sc. II) e de Pectrio (sc. II). A redao do primeiro est feita num estilo mstico e simblico, segundo a disciplina do arcano, para ocultar seu carter 
cristo aos no iniciados: "Chamo-me Abrcio, sou discpulo do pastor casto que pastoreia seus rebanhos de ovelhas por montes e campos, que tem os olhos grandes 
que olham por todas as partes". Por sua vez, o epitfio de Pectrio, cujos primeiros cinco versos esto unidos entre si pelo acrstico Ichthys, diz assim: " raa 
divina do Ichthys, conserva tua alma pura entre os mortais, tu que recebeste a fonte imortal de guas divinas!" Os sculos III-IV incorporam definitivamente os hinos 
 liturgia. Do sc. IV escolhemos dois exmios poetas: Santo *Efrm Ciro (307-373), nascido em Nsibe (Mesopotmia) e morto em Edessa.  conhecido pelo atributo 
de "Ctara ou harpa do Esprito Santo". O segundo poeta do sc. IV  Aurlio Clemente *Prudncio, nascido em Saragoa em 348. Muitos dos hinos desses dois poetas 
passaram  liturgia tanto oriental quanto ocidental. A partir, principalmente, da legalizao do cristianismo (313), encontramos um desenvolvimento sistemtico dos 
hinos. Surgem com maior profuso na liturgia bizantina do que na latina. Santo *Hilrio de Poitiers comps um hinrio por volta de 360. E, no muito depois, Santo 
*Ambrsio criou em sua Igreja de Milo o canto coral de salmos e hinos, em parte para rejeitar os hinos cantados pelos arianos. Da influncia desses hinos e de sua 
beleza temos o testemunho pessoal de Santo Agostinho em suas Confisses (l, IX-X). A histria dos hinos e de sua implantao na

270 / Hiplito de Roma

liturgia e na piedade da Igreja chega at nossos dias. Seu tratamento recebeu variadas formas musicais: melodias populares, canto gregoriano, polifnico, coral etc. 
 conhecido o papel que os hinos e salmos tiveram na propagao da Reforma Luterana e em geral das Igrejas Reformadas.
BIBLIOGRAFIA: Para os primeiros hinos cristos, ver J. Quasten, Patrologa, I, 155s., com a bibliografia ali reunida; Obras completas de Aurelio Prudencio. Edio 
bilnge preparada por A. Ortega e I. Rodrguez (BAC). Para informao geral do tema, ver Encyclopaedia Britannica, vol. 6, Hymn.

Hiplito de Roma (170-236)
Primeiro antipapa e mrtir,  venerado pela Igreja como santo at nossos dias. Em uma de suas obras perdidas, afirma ser discpulo de Santo *Irineu, coisa que explica 
o prprio cuidado de seu mestre pela defesa da doutrina catlica contra as heresias. Talvez esse cuidado excessivo o tenha levado a enfrentar-se com o Papa Calixto 
por ter mitigado a disciplina para os penitentes, acusando-o de herege. Foi eleito bispo de Roma, por um reduzido e influente crculo de cristos, sendo assim o 
primeiro antipapa. Morreu mrtir na "ilha da morte", e posteriormente seu corpo foi trasladado para o cemitrio da via Tiburtina, que ainda leva o seu nome. O Papa 
*Dmaso decorou a tumba de Hiplito com uma inscrio. Nela est escrito que fora discpulo de Novaciano, e logo mrtir, depois de aconselhar seus seguidores a se 
reconciliarem com a Igreja. No mesmo cemitrio, seus admiradores erigiram-lhe uma esttua, descoberta em 1551, em cuja cadeira aparecem gravadas a sua tabela pascal 
e uma lista completa de suas obras. A produo literria de Hiplito foi comparada  de seu contemporneo Orgenes, por seu volume, no pela profundidade e originalidade 
de pensamentos. Hiplito preocupa-se mais com questes prticas do que com problemas cientficos. Publicou tratados anti-herticos, uma Crnica, um Ordo, e at poesia 
religiosa.

Hiplito de Roma / 271

Os escritos de Hiplito tiveram a mesma sorte que os de Orgenes. De suas numerosas obras muito poucas se conservam em seu texto original grego. As razes desta 
perda so atribudas  cristologia hertica do autor e  sua condio de cismtico durante algum tempo. A obra mais preciosa de Hiplito so os Philosophumena ou 
Refutao de todas as heresias. Consta de dez livros, nos quais o autor demonstra o carter no cristo das heresias, provando a sua dependncia da filosofia pag. 
Outra obra importante, da qual somente nos restam fragmentos,  o Syntagma ou Contra as heresias. Desta obra nos falam *Eusbio, Santo *Jernimo e, mais tardiamente, 
*Fcio. Temos tambm o tratado dogmtico De antichristo, o nico que nos chegou completo. Dentro da literatura patrstica, esse tratado  a dissertao de maior 
envergadura sobre o problema do anticristo. Seguem-lhe os tratados exegticos, como o Comentrio sobre Daniel, o Cntico dos Cnticos, sobre algumas passagens do 
Gnesis etc. E as Homilias sobre os salmos. -- Outras obras importantes de Hiplito so a Crnica da histria do mundo, que abrange desde a criao at o ano de 
sua composio (234). Foi escrita para tranqilizar a ansiedade dos que acreditavam na proximidade do juzo final e do milnio. E o Cmputo pascal, com o qual desejou 
libertar a Igreja do calendrio judeu e calcular cientificamente a lua cheia da Pscoa. Desta obra restam poucos fragmentos. -- Particular interesse merece a Tradio 
apostlica. O ttulo desta obra figura na cadeira da esttua de Hiplito, erigida no sc. III. Seu texto completo foi identificado em princpios de nosso sculo. 
A Tradio apostlica  a mais antiga, depois da *Didaqu, e a mais importante das constituies eclesisticas da Antigidade. Compreende trs partes principais: 
1) Contm um prlogo, cnones para a eleio e consagrao de um bispo, a orao de sua consagrao, a liturgia eucarstica que segue essa cerimnia, e as bn-

272 / Hirscher, J. B.

os do azeite, do queijo e das azeitonas, normas para a ordenao de sacerdotes e diconos. Falase tambm de confessores, vivas, virgens etc. 2) D normas para 
os seculares: para os neoconversos, sobre as artes e profisses proibidas aos cristos, sobre os catecmenos, o Batismo, a Confirmao e a Primeira Eucaristia. A 
descrio do Batismo que encontramos aqui  de inestimvel valor porque contm o primeiro smbolo romano. 3) A terceira parte trata de vrios costumes cristos: 
Eucaristia dominical, regras para o jejum e para o gape etc. H normas para o enterro, para a orao da manh, para a instruo catequtica e outras. Santo Hiplito, 
um escritor brilhante, e o ltimo dos escritores latinos que escreveu em grego, tem para a Igreja o mrito de ser a testemunha da tradio e do pensamento cristo 
primitivo.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 10, 16, 3; J. Quasten, Patrologa, I, 452-496.

Hirscher, J. B. (sc. XIX)
*Instituies morais.

Hofbauer, So Clemente M (1751-1820)
*Schlegel, Friedrich.

Holbach, F. (1723-1789)
*Enciclopdia, A.

Hopkins, Gerard Manley (1844-1889)
Poeta religioso ingls, o mais personalizado dos escritores vitorianos. Embora sua obra potica no tenha sido publicada at 1918, a influncia de Hopkins se pode 
sentir nos grandes poetas ingleses do sculo XX: T. S. *Eliot, Dylan Thomas, W. H. Auden, Steven Spender e C. Day Lewis.

Hopkins, Gerard Manley / 273

Aluno do Balliol College de Oxford, onde estudou lnguas clssicas, participou da grande crise religiosa de seu ambiente e poca, originada pelo movimento de Oxford. 
Foi recebido na Igreja Catlica em 1866 por quem, mais tarde, seria cardeal: John H. *Newman. Em 1868 entrou na Companhia de Jesus, queimando todos os versos de 
sua juventude, determinado a "no escrever mais, pois no  prprio de minha profisso". S muito tempo depois de sua morte, sua obra potica e praticamente toda 
a sua produo literria foi reconhecida. Somente em 1918 puderam ser conhecidos, numa edio reduzida, os Poemas de Gerard Manley Hopkins, editados por seu amigo 
e confidente R. Bridges (1918). Seguiu uma segunda edio (1930) que o tornou conhecido no mundo literrio e que o reconheceu como um dos grandes e mais personalizados 
poetas ingleses. O universo literrio de Hopkins completa-se com seu abundante Epistolrio, seus Dirios e papis e um conjunto de Sermes e Escritos devocionais. 
Homem profundamente sensvel, dotado para as lnguas, a msica e a pintura, "serviu-se do verso para projetar nele suas profundas experincias pessoais, seu sentido 
do mistrio de Deus, sua grandeza e misericrdia". Seu olhar contempla incansavelmente a natureza como revelao divina, enquanto no deixa de observar ao seu redor 
os humanos, vivendo e morrendo. Em suas cartas aparece tambm o impulso espiritual de seus versos. Estou sempre pensando no "comunismo do futuro" -- diz em carta 
de 2 de agosto de 1871. "Horrvel afirm-lo, de certa forma sou comunista." Preocupava-lhe a situao social da Inglaterra; declarou-se pessimista e decidiu no 
escrever mais sobre o assunto. Embora Hopkins possa ser mais estudado como fenmeno literrio e potico, sua criao religiosa e crist  exemplar e estimulante.
BIBLIOGRAFIA: Antologa de poetas ingleses modernos. Gredos, Madrid 1962.

274 / Hugo de So Vtor

Hugo de So Vtor (1096-1141)
*Escola de So Vtor.

Humanistas (sc. XIV-XVI)
Este no  o lugar apropriado para falar do termo e do conceito de "humanista", "humanismo". Nem queremos analisar a evoluo do conceito at chegar a nossos dias. 
Queremos simplesmente aludir ao "humanismo" e aos "humanistas" tal e como se produziram e surgiram num perodo histrico (sculos XIV-XVI). Nosso interesse est 
centrado, particularmente, nas pessoas e valores que encarnam o chamado "humanismo cristo" desta poca. Como em outras pocas e momentos, nosso dicionrio quer 
coletar a forma pela qual os autores e suas obras captam, vivem e expressam o cristo. Tratamos basicamente do humanismo renascentista. Partimos desta constatao: 
quando desde os sc. XIV-XVI falamos de um "humanismo cvico", de uma "teoria humanista da educao", de um "humanismo artstico", de um "humanismo cientfico", 
e at de um "humanismo utilitrio", devemos ter presentes duas coisas: a) Que o ncleo do humanismo era a preocupao ntima do humanista pela correo de seu texto: 
se retirarmos do termo "humanismo" o cheiro da lmpada do erudito, estaremos utilizando-a de forma enganosa. b) De igual modo, percebe-se nele oposio a um cristianismo 
que "os humanistas desejavam, no geral, completar, no contradizer, atravs de sua paciente escavao da antiga sabedoria de inspirao divina" (Enciclopdia do 
Renascimento italiano). Essa constatao, inclusive no chamado "humanismo paganizante",  representada em grande parte pelos italianos, embora com notveis excees. 
O redescobrimento da Antigidade suscitou um entusiasmo to vivo que se esqueceram quinze sculos de cristianismo. Contudo, esse humanismo no  anticristo. Se, 
ao con-

Humanistas / 275

trrio, examinamos o "humanismo cristo", vemos que se caracteriza por um retorno s fontes, ao evangelho, aos grandes textos da tradio, porm despojados dos acrscimos 
por certa teologia escolstica e pelos comentrios medievais, que muitas vezes os falseavam. Esse humanismo, caracterizado pelo amor e pelo estudo da sabedoria clssica 
e pela demonstrao de sua concordncia fundamental com a verdade crist, produziu resultados admirveis: a) Produziu uma pedagogia, base da revoluo cultural, 
indispensvel  sua poca, e contribuiu poderosamente para coloc-la em prtica. b) Exaltou o evangelismo como "philosophia Christi" e como modo de vida, refletido 
em tantas obras da poca como o Enchiridion militis christiani (*Erasmo) e Do benefcio de Cristo (annimo, 1543). Nos dois encontramos que o "cristianismo  essencialmente 
interioridade e no consiste na observncia dos ritos externos;  um combate contra as paixes, que nos eleva sobre os bens materiais at Cristo salvador". c) Descobriu 
o conceito da funo civil da religio e da tolerncia religiosa (*Morus): a cidade terrena deve realizar, enquanto seja possvel, a harmonia e a felicidade da cidade 
celestial. A harmonia e a felicidade pressupem a paz religiosa. O ideal da paz religiosa  a forma com que se apresenta tanto no Humanismo quanto no Renascimento, 
a exigncia da tolerncia religiosa. d) Finalmente, os humanistas rejeitaram a herana medieval e escolheram a herana do mundo clssico, porque queriam fazer reviver 
essa herana como instrumento de educao, isto , de formao humana e social. O privilgio concedido por eles s chamadas letras humanas, ou seja,  poesia,  
retrica,  histria,  moral e  poltica, fundamentavase na convico herdada tambm dos antigos, de que tais disciplinas so as nicas que educam o homem enquanto 
tal, e o colocam na posse de suas faculdades autnticas. Dos diferentes humanismos da poca, coletamos neste dicionrio algumas amostras. Do

276 / Hume, David

humanismo florentino (*Lorenzo Valla, *Pico de la Mirndola, *Marclio Ficino). Do restante da Europa (*Morus, *Erasmo, *Melnchton, *Lus Vives, *Lefvre D'taples).
BIBLIOGRAFIA: F. Hermann. Historia doctrinal del humanismo cristiano. Valencia 1962, 2 vols.; J. Gmez Caffarena. La entraa humanista del cristianismo. Estella 
2 1987; H. de Lubac, El drama del humanismo ateo. Madrid 1967; Humanismo y Renacimiento (textos de Lorenzo Valla, Marclio Ficino, Angelo Poliziano, Pico de la Mirndola 
etc.). Seleo de Pedro R. Santidrin. Madrid 1986.

Hume, David (1711-1776)
Hume , sem dvida, um dos homens mais representativos e caractersticos do sculo XVIII. Em contato com todos os homens importantes do *Iluminismo francs, criou 
a sua prpria filosofia empirista, trazendo uma nova interpretao do conhecimento humano, da moral, da religio, que influir depois no apenas em *Kant, mas em 
toda a filosofia e pensamento cientfico posteriores. Nascido em Edimburgo (Esccia), cedo abandonou o negcio de seu pai para seguir "sua paixo dominante": o desejo 
de celebridade literria. Muito jovem, entrou em contato com a literatura e com a cultura francesa. Estudou no famoso Colgio de la Flche (1734-1737), onde teve 
seu primeiro contato com os clssicos como Ccero, Sneca, e os modernos Montaigne, Bayle, e outros cticos. Aqui compreendeu que o seu campo era a filosofia, e 
aqui escreveu o seu primeiro Tratado da natureza humana. Esse livro foi objeto de reelaborao praticamente ao longo de toda a agitada vida de Hume. Sua edio definitiva 
consta de trs partes: Do entendimento (L. I); Das paixes (L. II); Da moral (L. III). Entre 17411742 surgiram seus Ensaios de moral e poltica. E finalmente, a 
Histria natural da religio (1757),  qual seguiu post mortem, Dilogos sobre a religio natural (1779). As obras mencionadas no so mais do que uma nfima parte 
de sua fabulosa produo. Devemos acrescentar ainda sua abundante correspondncia (2 vols.) e sua

Hume, David / 277

autobiografia, Minha prpria vida (1777) que quis colocar como prlogo de suas obras completas. Do ponto de vista deste dicionrio, interessa assinalar a postura 
de Hume ante a moral e a religio. Naturalmente, toda a sua doutrina forma um sistema bem travado em que todas as idias dependem mutuamente e se explicam. Mas  
preciso relembrar que onde se evidencia a mentalidade de Hume, com toda a fora destrutiva de seu ceticismo,  na filosofia da religio. Mina pela base, no s cristianismo, 
mas tambm o resduo que se pretendia salvar com a idia de "religio natural" que forjou o *desmo. Suas idias com relao  religio podem ser sintetizadas nestas 
proposies: a) No existe uma religio natural comum a todos os povos. b) Existe uma histria natural das religies, variadas conforme as diversas pocas e civilizaes. 
c) A origem do sentimento religioso encontra-se no medo da morte e no horror aos castigos, assim como na nsia de uma felicidade prometida. d) O politesmo  a forma 
primeira e mais genuna do sentimento religioso dos homens, que inventaram heris e santos para faz-los propcios e favorveis ao culto. e) O monotesmo  fruto 
da prevalncia de um deus sobre outro. Como o restante dos iluministas, na religio no v mais do que luta de supersties, fanatismos, hipocrisias imorais, ambies 
de poder temporal, intolerncia e averso  liberdade de pensamento. No entanto, o pensamento de Hume sobre a religio que acabamos de expor no  completo nem definitivo. 
Em seus Dilogos percebe que o atesmo no corresponde ao seu ceticismo. Ataca o problema da existncia de Deus, no a priori, porque semelhante demonstrao implica 
que a existncia  to pensvel quanto a no existncia de Deus, e em ambos os casos  similar  realidade da idia. Dos argumentos a posteriori nem o argumento 
da finalidade nem a moral so satisfatrios  mente humana. Que resta, ento? Resta a concluso cautelosa dos Dilogos: "Desmontadas as pretenses do racionalismo

278 / XXXXXXXXXXXXXXXXX

teolgico, subsiste o fato de que, no mundo da experincia, onde nada  peremptoriamente demonstrvel, tampouco o homem pode prescindir da crena, ou seja, de uma 
f". Um agnosticismo seria a melhor concluso, "j que no se pode encontrar uma soluo mais satisfatria no que tange a uma questo to magnfica e extraordinria". 
Por isso, "o sentimento mais natural que um esprito bem disposto sentir, nesta ocasio, ser uma espera e um desejo ardente de que possa o cu dissipar, ou pelo 
menos aliviar, essa profunda ignorncia, oferecendo  humanidade alguma revelao particular, descobrindo-lhe algo da natureza divina de nossa f, de seus atributos 
e de suas operaes, com o que uma pessoa penetrada de um justo sentimento das imperfeies da razo natural voar  verdade revelada com a mxima avidez". "O ceticismo 
filosfico, ou seja, crtico, pode ser assim o primeiro passo e o mais essencial que conduz a ser um cristo verdadeiro, um crente". Assim acabam os Dilogos. Ainda 
quando fala nas Investigaes sobre o tema dos milagres, escrever: "H um milagre mais maravilhoso do que qualquer outro: a prpria f sobre a qual se fundamenta 
a nossa santssima religio crist, onde o que  movido pela f a aceit-la tem conscincia de um milagre contnuo que ocorre em sua pessoa, e transtorna todos os 
princpios de sua inteligncia e lhe determina acreditar o que  mais contrrio ao hbito e  experincia". De todas as formas, Hume tem um inimigo constante: o 
dogmatismo. Toda certeza em qualquer esfera -- na cincia, na moral ou na religio --  somente certeza moral. Da que seja difcil concluir que foi um testa, um 
ateu ou um agnstico; sua atitude  freqentemente agnstica e, por assim dizer, moderadamente testa, mas em nenhum caso dogmaticamente testa ou atia (Ferrater 
Mora, Diccionario de filosofa).

Huxley, Aldous / 279 BIBLIOGRAFIA: Obras: The Philosophical Works of David Hume, 4 vols., reimpresso de 1963; The Letters of David Hume 1954, 2 vols.; Investigacin 
sobre el conocimiento humano. Alianza, Madrid; Mi vida, Cartas de un caballero a su amigo de Edimburgo. Alianza, Madrid; Tratado (1933); Investigacin sobre los 
principios de la moral (1941); Dilogos sobre la religin natural (1942); Tratado de la naturaleza humana (1974).

Huss, Joo (1370-1415)
*Marslio de Pdua; *Wiclef, Joo

Husserl, Edmund (1859-1938)
*Stein, Edith.

Huxley, Aldous (1894-1963)
Escritor ingls, com residncia, desde 1938, nos Estados Unidos.  considerado o arauto e inspirador dos "Twenties": uma gerao que sentiu o horror do "grande vazio 
da paz" nascido da 1 Guerra Mundial. Desta primeira poca recordam-se a suas novelas Crome Yellow (Amarelo Brilhante) (1921) e Point Counter Point (Ponto e Contraponto) 
(1928), em meio de uma srie de novelas curtas que o tornaram conhecido em todo o mundo. Na evoluo literria de Huxley costumam-se distinguir trs etapas. Sua 
personalidade desliza da etapa esttica  etapa tica, e desta  religiosa. De fato, a primeira etapa distingue-se por uma hiperestesia intelectual, iconoclasta 
e cnica, idealizadora do sexual e do pacifismo. Prximo  dcada de trinta, caminha em direo a uma crtica progressiva da cultura e da sociedade at desembocar 
numa utopia negativa, como  o caso de Admirvel mundo novo (1932); Eminncia parda (1941); Depois de muitos veres (1939). Depois da 2 Guerra Mundial, inicia-se 
a terceira etapa de Huxley, a etapa religiosa e mstica. Cada vez est mais preocupado com os grandes problemas religiosos. Assim ocorre, por exemplo, em

280 / Huxley, Aldous

A filosofia perene (1946), antologia comentada da espiritualidade de todos os tempos; Cu e inferno (1954) etc. Huxley acaba por transformarse num profeta, proclamando 
a necessidade de voltar ao transcendente. Para isso, dirige-se, principalmente,  filosofias orientais. Ao leitor das obras de Huxley lhe interessa saber que, para 
esse autor, como para tantos outros, principalmente os anglo-saxes, enojados do marxismo, cheios de ressentimento contra um catolicismo que identificam com os regimes 
totalitrios, o mundo oriental exerce uma espcie de fascinao. Procura no conjunto das religies da ndia uma nova forma de salvao, cujos princpios podem ser: 
-- Repdio de uma religio encarnada no tempo. Tudo o que pretende ser histrico nas religies deve ser rechaado. No se pode tomar a srio a doutrina crist da 
encarnao de Cristo. Os mitos religiosos no tm mais do que um valor simblico. O erro fundamental dos cristos  conceder  encarnao do Verbo um lugar excepcional, 
fazer dela um acontecimento nico que se insere no curso da histria. Mais do que encarnao, deve-se falar, segundo Huxley, de encarnaes, de "avatares do divino". 
-- Mais do que uma religio, a sua  uma mstica baseada nos princpios monistas da advaita.

Hipcia / 281

O homem liberta-se quando intui e discerne que o seu eu se identifica com o absoluto. O efeito desta intuio liberta a pessoa de sua implicao no mundo ilusrio 
em que vive e do ciclo da reencarnao. Enquanto isso no se produz, o homem continua sendo vtima da ignorncia e da iluso. -- Esse misticismo de Huxley baseia-se, 
portanto, na Bblia que, segundo ele, perdeu toda a fora de persuaso para os espritos ocidentais. Ele se basear nas menes e nos testemunhos dos msticos, "cuja 
autoridade  muito maior do que a dos escritos includos no cnon da Bblia". -- No mais, sua filosofia perene no  uma religio, nem uma filosofia, nem um reflexo 
da tradio bblica, porque no  mais do que o produto do mais cru empirismo. "Huxley volta-se para a mstica porque tudo o mais fracassou; a procura do absoluto 
 uma experincia a mais, a nica que pode ter xito; seu prprio xito prova sua legitimidade" (Ch. Moeller, o. c.). Neste sentido, sua concepo de Deus, do homem, 
da redeno, da outra vida, no se inspiram na doutrina bblica e crist. Entre ns, a obra mais conhecida de Huxley  Admirvel mundo novo, uma viso desconcertante 
de uma sociedade futura, produto da poltica e da tcnica. Alguns viram nele uma utopia  inversa, uma distopia, que levaria o mundo a uma catstrofe se tal sistema 
de castas e de homens se produzisse. Outros somente vem nela um exerccio literrio de fico cientfica.
BIBLIOGRAFIA: Obras em portugus: O admirvel mundo novo; Chapu mexicano; Contos escolhidos; Contraponto; Os demnios de Loudun; Folhas inteis; O Gnio e a deusa; 
Huxley e Deus; A ilha; O macaco e a essncia; Moksha; A situao humana; O tempo deve parar e outras; Obras nos Clsicos del siglo XX. Plaza e Jans. Barcelona, 
3 vols.; Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, I.

Hipcia (375-415)
*Cirilo de Alexandria.

282 / Iconoclastas

I
Iconoclastas (sc. VIII-IX)
*Joo Damasceno, So.

Ildefonso de Toledo, Santo (607-667)
*Isidoro de Sevilha.

Iluminismo (sc. XVIII)
*Desmo, *Hume, *Kant, *Voltaire.

Incio de Antioquia (+110)
*Padres apostlicos.

ndex de livros proibidos (1557)
Seu ttulo original: Index librorum prohibitorum. Lista ou catlogo oficial de livros que a Igreja catlica "proibia que os fiis cristos lessem ou possussem". 
A primeira edio apareceu em 1557 e foi preparada pela Congregao da Inquisio, mais comumente conhecida por Santo Ofcio. A partir de 1571, So Pio V estabeleceu 
a Congregao do ndex, encarregada de revisar a lista e de nela incluir novos livros. Em 1917 passou a depender do Santo Ofcio, hoje Congregao para a Doutrina 
da F. O ndex foi abolido depois do *Vaticano II em 1966. A histria do ndex, paralela  da Inquisio, oferece captulos e dados muito obscuros. Sua funo e 
sua utilidade na Igreja e na vida de seus membros foi julgada negativa no geral por estar exposta  subjetividade dos homens e dos tempos.

Instituies morais / 283

Instituies morais (moral casusta) (sc. XVII)
Aos *Livros penitenciais e s *Summas dos confessores, seguem as Instituies morais ou textos de moral casusta. "O surgimento nos incios do sculo XVII, exatamente 
em 1600, das Instituies morais do jesuta espanhol Juan Azor marca o nascimento de um gnero literrio novo na teologia moral. Desligada daqui por diante da filosofia 
viva, do dogma, e inclusive de uma teologia moral especulativa, alheia  espiritualidade e  mstica, esta Theologia moralis practica, modesta servente do confessor, 
chamava-se pomposamente Theologia moralis" (L. Vereecke, Introduccin a la historia de la teologa moral). O desenvolvimento histrico da moral casusta vai do sc. 
XVII at o Conclio *Vaticano II, por assinalar um momento singular. Durante esse perodo, a histria da teologia moral se reduz a um esquema simples: luta entre 
laxistas e rigoristas, entre probabilistas e probabilioristas. Autores como Juan Azor (1536-1603), j mencionado, *Bartolomeu de Medina, Busembaum com sua obra Medulla 
theologiae moralis (1650), os *Salamanticenses com o Cursus theologiae moralis, Caramuel (1606-1682) e muitos outros, militam nas fileiras de um e outro grupo. A 
luta entre laxistas e rigoristas exigiu a interveno do magistrio eclesistico. Alexandre VII e Inocnio XI condenaram proposies laxistas, e Alexandre VIII condenou 
tanto proposies laxistas quanto rigoristas. Coube a Santo Afonso Maria de *Ligrio ter encontrado uma postura equilibrada entre esses dois extremos.  tambm o 
pilar seguro de toda a moral casusta posterior. O sculo XIX oferece poucas novidades em matria de moral catlica. Fora do movimento de renovao moral de J. M. 
Sailer (1751-1832), de J. B. Hirscher e de M. Jocham, na Alemanha, a moral catlica continuou plasmando-se em manuais de moral casusta.

284 / Instituies morais

O Vaticano II marca o final da moral casusta ou ps-tridentina.  verdade que houve tentativas de renovao, ao longo do sculo XX, sobretudo a partir da II Guerra 
Mundial. Primeiro foi a crtica  moral casusta, tachando-a de legalista, de desvinculao da Escritura, da teologia, de vinculao excessiva com "a prxis penitencial". 
Depois e a partir dos anos 50, com o surgimento de manuais em que "entrava a imposio bblica e cristocntrica, ambos os aspectos foram decisivos na renovao teolgica 
posterior. Autores como Tillmann (+1953), G. Thils, J. Leclercq, que publica seu livro sobre O ensinamento da moral catlica (1950), "considerado como um arete 
implacavelmente demolidor"; e finalmente, *B. Hring, que em 1954 publica A lei de Cristo, rompem o esquema tradicional da moral casusta. Durante alguns anos sero 
o smbolo da moral renovada. O Vaticano II formula um "votum" para que se coloque um "especial empenho em renovar a teologia moral" (OT 16).  a "culminncia de 
todos os esforos realizados at o presente para renovar a teologia moral, e significa, sem dvida alguma, o comeo de uma nova poca". O prprio Conclio especifica 
os traos desta moral: carter cientfico, especificidade crist, orientao positiva e de perfeio, carter eclesial, unificada na caridade e aberta ao mundo. 
Mesmo sendo bastante difcil fazer um balano da reflexo teolgico-moral depois de Vaticano II, consignamos uma srie de dados que em seu conjunto nos ajudam a 
formar uma idia do estado atual da teologia moral. Destacamos os seguintes: a) Criao, nas faculdades de teologia, dos ciclos de "licenciatura especializada" em 
moral. Sobressaem-se os Institutos Superiores, dedicados exclusivamente  pesquisa e ao ensino da teologia moral. Destacam-se a Academia Alfonsiana de Roma e o Instituto 
Superior de Cincias Morais de Madri. b) Multiplicam-se as associaes de moralistas, os congressos, semanrios e revistas dedicadas exclusivamente ao tema moral.

Irineu, Santo / 285

c) Multiplicam-se os estudos monogrficos em que surgem autores novis; aparecem dicionrios e obras coletivas que evidenciam o esforo comum e a convergncia de 
mentalidades. "Na dcada de 80, a teologia moral oferece um panorama de notveis conquistas, de decidido progresso e de caminhos abertos para se continuar avanando. 
O balano do ps-conclio  francamente positivo no que diz respeito  reflexo teolgico-moral" (M. Vidal, Moral de Actitudes, I. Moral Fundamental, Ed. Santurio, 
p. 20).
BIBLIOGRAFIA: M. Vidal, Moral de Atitudes, I. Moral fundamental, 87-132, com a abundante bibliografia ali citada. A contribuio desse autor e de sua obra para a 
renovao da teologia moral ou "tica teolgica", como prefere chamar,  decisiva entre ns. Paralela a essa atividade de M. Vidal est a obra do Instituto Superior 
de Cincias Morais e seu rgo de expresso "Moralia", revista especializada em temas de moral.

Instituto de Teologia Contextual (ITC)
*Smangaliso Mkhatshwa.

Irineu, Santo (c. 130-200)
Nasceu na sia Menor, provavelmente em Esmirna. Encontramo-lo como bispo da Igreja de Lyon na perseguio de Marco Aurlio, durante a qual, segundo a tradio, foi 
martirizado sem que possamos precisar a data. Das diferentes obras que *Eusbio atribui a Santo Irineu somente nos chegaram alguns fragmentos (PG 7, 1225-1274). 
Permanece, no entanto, uma grande obra contra o gnosticismo, intitulada Refutao e desmascaramento da falsa gnosis, conhecida comumente como Adversus haereses, 
verso latina do original que data do sc. IV. Irineu preocupou-se em defender a doutrina crist frente ao gnosticismo (*Gnsticos).

286 / Irineu, Santo

-- A verdadeira gnose  a que nos transmitiram os apstolos da Igreja. Mas essa gnose no tem a pretenso de superar os limites do homem, como a falsa gnose dos 
herticos. -- Deus  incompreensvel e no pode ser pensado. Todos os nossos conceitos so inadequados. " melhor no saber nada, mas acreditar em Deus, e permanecer 
no amor de Deus, do que arriscar-se a perd-lo com pesquisas sutis" (Ad. haer., II, 28, 3). -- O que ns podemos conhecer sobre Deus, podemos conhec-lo somente 
por revelao: sem Deus no se pode conhecer Deus. -- A blasfmia mais grave dos gnsticos  afirmar que o criador do mundo no  Deus, mas uma emanao dele. -- 
Afirma a igualdade de essncia e de dignidade entre o Filho, o Esprito Santo e o Pai, frente  doutrina gnstica de que o logos e o Esprito so cones subordinados. 
No se pode admitir a emanao do Filho e do Esprito, do Pai. A simplicidade da essncia divina no permite tal separao. -- O homem  composto de alma e corpo, 
contra a distino gnstica de corpo, alma e esprito. O esprito  somente uma capacidade da alma, pela qual o homem chega a ser perfeito e se constitui em imagem 
de Deus. O corpo, assim como a alma,  uma criao divina e no pode, portanto, causar o mal  sua natureza. A origem do mal est no abuso da liberdade, e  fruto 
no da natureza, mas do homem e de sua escolha. -- O bem conduz o homem  imortalidade, que  concedida  alma por Deus, mas que no  intrnseca  sua natureza. 
O mal  castigado com a morte eterna. Tambm os corpos ressuscitaro, mas o faro na nova vinda de Cristo, que se verificar depois do Reino do anticristo. A principal 
contribuio de Irineu foi ter lutado contra o gnosticismo, ter servido de ponte entre a teologia oriental (grega) e a ocidental (latina).

Isidoro de Sevilha, Santo / 287

Uma segunda obra de Santo Irineu chegounos atravs de uma traduo armnia recentemente encontrada. Intitula-se Demonstrao da pregao apostlica. Nela se enfatizam 
os elementos principais da Igreja: a) A verdadeira Igreja est baseada na tradio apostlica. b) Essa tradio pode ser comprovada em todas as Igrejas do mundo. 
c) Essa tradio encontra-se no Credo dos Apstolos, que contm o Antigo e o Novo Testamento. Irineu  um dos primeiros que falam do NT como fonte de f no mesmo 
nvel do AT.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 7, 1225-1274; A. Orbe, Antropologa de San Ireneo (BAC); Id.; Parbolas evanglicas en San Ireneo (BAC), 2 vols.

Isidoro de Pelsio, Santo (+435)
*Monaquismo.

Isidoro de Sevilha, Santo (560-636)
Nasceu em Cartagena e morreu em Sevilha. Bispo desta cidade, foi considerado o ltimo dos padres da Igreja Ocidental. Une esse ttulo ao de Doutor da Igreja Universal. 
A sua inquestionvel contribuio  cultura medieval est vinculada  sua obra principal: Originum sive etymologicarum libri viginti, mais conhecida como as Etimologias. 
Talvez se encaixe melhor no nome moderno de "enciclopedistas". Porque, alm deste livro fundamental, esto: 1) Seus tratados teolgicos e apologticos, como Sententiarum 
libri tres; De fide catholica contra iudaeos. 2) Suas obras teolgico-cosmolgicas e cosmogrficas, tais como De ordine creaturarum e De rerum natura. 3) E, finalmente, 
suas obras histricas: Liber de viris illustribus; Historia de regibus gothorum etc. Em todos esses trabalhos ressaltam dois interesses: a sistematizao e a universalizao 
da cultura e do saber, o que fica evidente, principalmente, nas Etimologias. Com a ajuda de consideraes etimolgicas, definem-se os principais ter-

288 / Isidoro de Sevilha, Santo

mos e expresses vigentes na cultura latina de sua poca. Seu carter enciclopdico  observado no esquema das Etimologias: Livro I (gramtica); II (retrica e dialtica); 
III (aritmtica, geometria, msica e astronomia); IV (medicina); V (leis e tempos); VI (livros e ofcios eclesisticos; VII (Deus, os anjos); VIII (Igreja, seitas); 
IX (lnguas, pessoas); X (vocbulos), o livro mais utilizado. Os livros XI-XX tratam dos omni re scibile: homens, monstros, animais, o mundo e suas partes, a terra, 
prdios e campos, pedras e metais, agricultura, guerra e jogos etc. A obra de Santo Isidoro no  a de um pensador original e profundo. Sua originalidade est em 
ser transmissor da cincia e da cultura clssicas, em especial a latina. Suas obras eram destinadas s escolas abaciais e episcopais onde se educavam os clrigos. 
Atravs de sua obra foram salvos os legados da cincia antiga, e destinados a alimentar o trabalho intelectual da Idade Mdia. No mais, vale a pena destacar em sua 
obra a continuidade da tradio, tanto eclesistica quanto latina. Seu Sententiarum libri tres  um manual de moral e de teologia baseado nas obras de Santo *Agostinho 
e de So *Gregrio Magno. Em De officiis ecclesiasticis, rene a tradio litrgica e, ao estilo de Santo *Ambrsio, estende-se aos deveres dos membros do clero. 
Com relao s Etimologias, suas fontes principais so Servius, gramtico latino do sc. IV, os *padres da Igreja e o sempre imprescindvel Donato (sc. IV).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 81-84; Etimologas de San Isidoro de Sevilla. Edio bilnge (BAC), 2 vols.

Jansnio, Cornlio / 289

J
Jacopone de Todi (1230-1306)
*Nuvem do no-saber, A.

Janduno, Joo de (1280-1328)
*Marslio de Pdua.

Jansnio, Cornlio (1585-1638)
Com o nome latinizado Cornelius Jansenius surgiu uma figura polmica e por trs dela uma corrente de pensamento e de espiritualidade conhecida como jansenismo. Essa 
corrente causou duras lutas e paixes de pessoas e instituies eclesisticas, praticamente ao longo de dois sculos. Boa parte dessas lutas tm como centro o mosteiro 
de freiras cistercienses de Port-Royal, o mosteiro prximo a Paris, onde se aprenderam e de onde se difundiram as idias de Jansnio. Sem identificar ambos os movimentos, 
 comum falar deles como se fossem a mesma coisa. Falaremos, pois, de Jansnio, os jansenistas ou port-royalistas, e de sua doutrina. Os autores e a literatura implicados 
nesta contenda so altamente significativos. Cornelius Otto Jansen nasceu em Acquoi (Holanda). Ingressou na Universidade de Lovaina para estudar teologia, em 1602. 
Nela recebeu a doutrina de Miguel *Bayo, morto em 1589, mas cuja influncia ainda se deixava sentir. Segundo Bayo, o homem fica de tal forma afetado pelo pecado 
de Ado, desde o seu nascimento, que  arrastado necessariamente ao mal. Somente a graa de Cristo pode salv-lo, graa dada somente aos poucos que foram predestinados 
ao reino dos

290 / Jansnio, Cornlio

cus. Essa doutrina definitivamente causou impacto a Jansnio e a outro companheiro seu chamado Jean Duvergier de Hauranne (1581-1643), conhecido como abade *Saint-Cyran. 
Finalizados os seus estudos, ambos decidiram renovar a teologia como homenagem devida a Deus pelos homens, j que o orgulho dos sbios do Renascimento havia afastado 
os cristos de Jesus que se comprazia nos simples e humildes de corao. Depois de alguns anos dedicados ao ensino (1612-1616), voltou a Lovaina, onde dirigiu o 
colgio de Santa Pulquria, criado para estudantes holandeses. Era o momento da violenta disputa entre os seguidores de Bayo e os jesutas. Nele se dedicou  leitura 
e ao estudo das obras de Santo *Agostinho, que, como ele mesmo nos diz, leu "dez vezes consecutivas". Interessou-se particularmente pelos textos, dirigidos pelo 
santo, contra os pelagianos. Foi ento quando comeou sua grande obra, o Augustinus. Esse livro custou-lhe 22 anos de esforo. Foi publicado depois de sua morte, 
em 1638, aps ter sido reitor da Universidade de Lovaina e bispo de Yprs.

Jansnio, Cornlio / 291

Foram esquecidas, praticamente, todas as demais obras e folhetos, em particular os comentrios aos evangelhos e ao Pentateuco. Desde sua publicao em 1640, o Augustinus 
transformouse num ponto de referncia obrigatrio para jansenistas e seus contrrios. Qual era sua doutrina? Esta ficou resumida nas cinco proposies condenadas: 
1) alguns preceitos divinos no podem ser cumpridos pelos justos apenas com a fora da natureza humana, portanto, lhes  necessria a graa; 2) a graa interior, 
que opera sobre a natureza corrompida,  irresistvel; 3) para o mrito ou demrito se requer unicamente a liberdade da coao externa; 4) os pelagianos ou semipelagianos 
so hereges, visto que admitem a possibilidade de a vontade humana resistir ou obedecer  graa; 5)  errado afirmar que Cristo morreu por todos os homens. Essas 
proposies, elaboradas pelos telogos jesutas foram contestadas pelos port-royalistas. Receberam uma primeira condenao em 1641. Em 1643, *Arnauld pediu em seu 
livro Da comunho freqente uma reforma moral e eclesistica congruente com as doutrinas jansenistas. Em 1653, Inocncio X condenou as cinco proposies. Desde ento 
e at a primeira metade do sc. XVIII continuou a polmica jansenista. Alguns aceitaram as disposies papais, os "aceitantes"; outros apelaram, os "apelantes". 
Nesta luta estiveram envolvidas figuras como Arnauld, Nicole, *Pascal, *Quesnel, *Saint-Cyran (1634-1719) e outros. A luta jansenista transpassou as fronteiras dos 
Pases Baixos. Em 1723 constituiu-se a Igreja Autnoma Jansenista, que ainda existe. Em 1786, o Snodo de Pistia defendeu as teses mais extremistas do jansenismo. 
-- Alm de comportar uma dogmtica, tal como o apontamos, o jansenismo comporta tambm uma moral e uma asctica rigorista.  o que se qualificou de "vontade sombria" 
do jansenismo. Essa vontade pessimista e sombria dos "solitrios" de *Port-Royal passou para suas escolas e mtodos, dando a todo o movimento jansenista um ar de 
rigidez caracterstica.

292 / Jernimo, So BILBIOGRAFIA: J. Orcibal, Les origines du Jansnisme, 7 vols. publicados entre 1957-1965. Para o Jansenismo na Espanha: M. Menndez y Pelayo, 
Historia de los Heterodoxos Espaoles, III. El jansenismo regalista en el siglo XVIII (BAC).

Jernimo, So (347-420)
Nasceu em Stridon (Dalmcia), prximo da atual cidade de Lubiana, na Eslovnia, e morreu em Belm. Tido como o mais sbio dos padres latinos, reuniu em sua pessoa 
o ermito, monge e escritor preocupado com os assuntos da Igreja.  conhecido principalmente por sua traduo da Bblia para o latim, chamada Vulgata. Filho de uma 
famlia crist, aos doze anos de idade j se encontrava em Roma, onde estudou gramtica, retrica e filosofia. Sua inclinao pelo estudo cedo o transformou num 
apaixonado entusiasta da literatura latina. Concludo seu perodo de formao em Roma, foi batizado, provavelmente pelo Papa Librio (366). Os vinte anos seguintes 
viveu num estilo de vida nmade, distribuda entre as suas nsias de solido e de estudo. Fez seus primeiros ensaios de monge e pesquisador em torno do bispo Valeriano 
(369-373), e logo depois foi para o Oriente. No ano 374, encontrava-se em Antioquia como hspede de Evgrio. A comps suas primeiras obras, e teve seu famoso sonho, 
no qual era levado ao tribunal de Cristo acusado de ser mais ciceroniano do que cristo, e em seguida severamente aoitado. Prometeu no voltar a possuir ou ler 
literatura pag, promessa que ir mitigando com o tempo. Os anos 375-377 so os do deserto de Calcdia, lugar escolhido por Jernimo para a solido e a paz interior. 
Estudo, penitncia e orao foram seus companheiros de deserto. Neste deserto fecundo, aprendeu o hebraico graas a um judeu convertido; estudou o grego, foi reunindo 
uma slida biblioteca de manuscritos e manteve uma polmica correspondncia epistolar. A partir de 378, final de seu retiro em Calcdia, viu-se envolvido nas disputas 
teolgicas do tem-

Jernimo, So / 293

po: sabelianismo, arianismo. Ordenado finalmente sacerdote por Paulino de Antioquia, seguiu de perto as idias de Apolinrio de Laodicia, de *Gregrio de Nissa 
e de Anfilquio de Icnio, acompanhando-os no Conclio de Constantinopla (381). Sob a influncia destes, aperfeioou seu grego e comeou a sentir uma admirao profunda 
por *Orgenes, cujas 39 homlias traduziu para o latim. Os trs anos seguintes (382-385), passou-os em Roma na qualidade de secretrio do papa So *Dmaso; prossegue 
a seu estudo da Bblia, revisa a verso latina dos evangelhos e a verso latina do saltrio. Desdobrou-se numa atividade inusitada: pregou nas igrejas, atendeu 
um grupo de vivas e virgens, a quem iniciou no estudo da Bblia e do hebraico, algumas das quais o acompanharo no seu retiro definitivo de Belm. Descobriu-se 
reformador, arremetendo-se contra o clero romano, os monges relaxados e acomodados, e as virgens hipcritas. Inconformista, abandonou a Babilnia que era Roma para 
dirigir-se  Terra Santa. Desde 386 at a sua morte viveu numa gruta nas proximidades de Belm. Foi a sua poca mais fecunda. O legado literrio de So Jernimo 
pode ser dividido em trs grandes lotes: a) Histria e controvrsia, fruto das lutas teolgicas em que se viu envolvido. b)Tradues e comentrios da Escritura. 
c) Obras ascticas e correspondncia. Suas obras ocupam 9 volumes da coleo de Migne (vols. 22-30). Comeando pela histria, temos sua traduo da Crnica de *Eusbio 
de Cesaria, que continuou at 378. Mais conhecido  seu livro De viris illustribus, escrito entre 372-373: um pulso cristo na cultura pag. Da vertente apologtica 
e de controvrsia, destacamos suas diatribes Adversus Iovinianum, exaltao da virgindade frente ao matrimnio; Contra Vigilantium, onde faz uma defesa da vida monstica, 
do celibato dos clrigos e de certas prticas relativas ao culto dos mrtires; seu Dialogi contra Pelagianos  sua obra

294 / Jernimo, So

de controvrsia mais aguda. Em todas elas, So Jernimo mostra-se excessivamente duro com seus inimigos. As preocupaes e doutrina ascticas refletemse no apenas 
em suas obras de controvrsia, mas tambm em biografias como a de Malco, capturado pelos bedunos, e a de Santo Hilrio. Nessa mesma linha est a traduo para o 
latim de obras ascticas coptas, por exemplo a Regra de So Pacmio, as homilias aos monges e um vultoso nmero de cartas com os mais diversos destinatrios. Fica, 
finalmente, sua obra escriturstica, que dividimos desta forma: 1) Estudos introdutrios  Escritura. Tais so, por exemplo, seu Liber locorum: uma traduo e adaptao 
da obra de Eusbio sobre os nomes dos lugares da Palestina; e o Liber interpretationis hebraicorum nominum, lista alfabtica dos nomes prprios hebreus da Bblia. 
2) Tradues da Bblia. Reviso da Vetus Latina, feita do texto grego dos LXX. Entre 391406 fez a traduo latina do AT, baseada no texto original hebraico. 3)  
importante a sua obra de comentrio ao Gnesis, aos salmos, aos profetas maiores e menores, a algumas das cartas de So *Paulo e ao evangelho de *Mateus, sem esquecer 
as tradues que fez dos 39 sermes sobre So Lucas, escritas por *Orgenes. Um juzo de conjunto da pessoa e da obra de So Jernimo leva-nos  considerao de 
uma personalidade singular, diferente de todos os padres da Igreja. Um homem que, acima de tudo, quis ser cristo. Um homem profundamente interessado pela cultura 
clssica e que, apesar de ter renunciado a tudo, levou consigo a biblioteca at o deserto. Sua obra, sua reviso e posteriormente sua traduo da Bblia, conhecida 
como Vulgata, fizeram-no credor do perptuo agradecimento da Igreja. Sua preparao para o trabalho do estudo e da traduo da Bblia -- chegou a dominar as lnguas 
hebraica, grega, latina e copta -- so para ns um exemplo admirvel de preparao cientfica.

Joo da Cruz, So / 295 BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 22-30; Cartas de San Jernimo. Edio bilnge por Daniel Ruiz Bueno (BAC) 2 vols.; F. Moreno, La espiritualidad 
del desierto, San Jernimo (BAC).

Jernimo de Nadal (sc. XVI)
*Ratio studiorum.

Jernimo de Praga (1370-1416)
*Marslio de Pdua.

Joana Frmyot de Chantal, Santa (1572-1641)
*Literatura autobiogrfica; *Francisco de Sales.

Joana Ins da Cruz, Sror (1651-1695)
*Literatura autobiogrfica.

Joo Batista de la Salle (1651-1719)
*Educadores cristos.

Joo da Cruz, So (1542-1591)
Juan de Yepes y Alvarez nasceu em Hontiveros ou Fontiveros (vila) e morreu em Ubeda (Jan). Estudou gramtica e filosofia no colgio da Companhia de Jesus de Medina 
do Campo. Ingressou na ordem carmelitana em 1563, com o nome de Frei Joo de So Matias. Na Universidade de Salamanca, estudou humanidades, Escritura, teologia, 
padres da Igreja e teorias escolsticas. Em 1568, depois de um encontro com Santa *Teresa em Medina, uniu-se  "reforma" empreendida por ela. A reforma de homens 
o encheu de angstias e perseguies. Joo foi encarcerado e levado  priso de Toledo. Aps oito meses de sofrimen-

296 / Joo da Cruz, So

tos causados pelos carmelitas calados, conseguiu escapar, refugiando-se em Andaluzia (1578), onde praticamente viveu o restante de seus dias: Granada, Baeza, Jan, 
Ubeda so o cenrio onde reza, medita, escreve. Tem breve estadia em Castilla (1588), para morrer em Ubeda. Joo da Cruz era um homem pequeno -- "meio frade", chamou-o 
Santa Teresa, por sua pequena estatura --, tmido, desejoso de solido e recolhimento. Era um poeta puro e profundo: o santo poeta e grande contemplador da natureza. 
"Muitas noites inteiras passava o venervel Frade Joo da Cruz apoiado na janela de sua cela, onde se viam o cu e o campo." Afastava-se igualmente do convento, 
"prximo a uma fonte, onde havia muitas rvores", e ali orava. Outras vezes, antes de amanhecer, "ia  horta e, entre uns arbustos, perto de um canal de irrigao, 
ficava rezando, at que o calor do sol o expulsava dali". Ou ento o viam "por noites inteiras com os braos em cruz, sob as rvores, ou louvando a Deus, olhando 
a gua, se havia arroio ou rio, ou olhando as ervas". Dessa contemplao absorta na natureza, em Deus, saiu sua profunda e personalssima poesia.  essa contemplao 
de Deus na natureza e em si mesmo que fez de So Joo um grande mstico: o mstico cristo por excelncia. Raro poeta lrico, cheio de musicalidade e de harmonia, 
culminou no mstico luminoso e, por sua vez, oculto nas trevas da noite profunda. -- So Joo da Cruz nos deixou sua experincia mstica em sua vida e em sua obra 
escrita. Nela alternam-se a poesia e a prosa. Na poesia rompe a "cantar sua desolao e seu desconsolo, seu contentamento e sua embriaguez de amor". Na prosa, ao 
comentar as poesias, expe toda a doutrina mstica de tradio medieval, e da nova disposio carmelitana. Sem dvida, a formao tomista e universitria de So 
Joo deu uma grande solidez  sua obra doutrinal. "Aquela slida filosofia aristotlico-tomista que aprendeu nas aulas salamanquinas  a que corre profunda por todos 
os seus escritos -- diz o padre Silvrio

Joo da Cruz, So / 297

--, dando-lhes forte ligao e a consistncia da rocha grantica, ainda quando se eleva a regies onde parece que folga toda humana especulao". -- As quatro obras 
capitais de So Joo da Cruz constituem uma unidade orgnica, correspondendo aos diversos graus e vias da mstica: a) Subida do Monte Carmelo, a asctica mais penosa 
da purgao do sentido e do espiritual. Uma subida difcil por montes speros, como a via purgativa; penosa, de lenta meditao pelo triste desprendimento de tudo 
o que no  tudo, do nada do mundo, para chegar  nudez espiritual e ao vazio de tudo o que no  Deus. b) A noite escura da alma e o Cntico espiritual ocupam o 
ponto central da doutrina na mstica do santo. Na Noite escura continuamos "morrendo por verdadeira mortificao a todas as coisas" na negao que a alma faz de 
si prpria e "caminhamos, como na noite, s escuras". c) A Chama viva de amor corresponde ao estado da alma, j na divina unio, banhada de glria, prxima ao estado 
de bemaventurana, em que suspira por romper totalmente a envoltura da vida terrena, para permanecer glorificada. "Em torno dos trs poemas, Em uma noite escura, 
Onde te escondeste e  chama viva de amor, agrupam-se comentrios que constituem um tratado completo, emocional e fervoroso, de teologia mstica. O poema e o tratado 
se completam e causam o mesmo efeito sob pontos de vista diferentes. Deixam uma impresso nica desse lrico insupervel na emoo e na musicalidade, desse telogo 
mstico que, com slida sistematizao filosfica, no se prende ao factual, e superam os outros livros de mstica europia de seu tempo" (Valbuena Prat, Historia 
de la Literatura Espaola). Toda a obra de So Joo da Cruz -- em prosa e em verso: avisos, recomendaes, canes, romanas, cartas, conselhos etc. -- cheia de 
sabedoria divina, mereceu o reconhecimento da Igreja que o declarou o doutor mstico por excelncia. Conhecedor a fundo da teologia e da tra-

298 / Joo Damasceno, So

dio mstica anterior, encaixa a sua doutrina mstica na mais s tradio teolgica. Sua sntese doutrinal  simples e audaz. Prope levar as almas ao grau mais 
alto possvel da unio com Deus neste mundo. Alm da unio natural e da unio sobrenatural pela graa, h outra unio integral ou total, fruto do amor, e chamada 
"unio de amor". Essa unio chama-se "transformadora porque leva a alma a fazer tudo o que agrada a Deus e porque a vontade divina vai comunicando  alma as suas 
perfeies e tornando-as, cada vez mais, semelhantes a Deus". Nesta situao "unese completamente a Deus e se transforma completa e sobrenaturalmente em Deus" (Subida, 
II, 5, 4). Para isso prope a doutrina nada-tudo: "Para vir a gost-lo todo, no queiras ter gosto por nada; para vir a sab-lo todo, no queiras saber algo em nada; 
para vir a possu-lo todo, no queiras possuir algo em nada; para vir a s-lo todo, no queiras ser algo em nada". -- Todo comentrio e explicao torna-se pouco 
e trai a experincia mstica deste doutor iluminado.  melhor l-lo e segui-lo diretamente at onde for possvel.
BIBLIOGRAFIA: A subida do monte Carmelo; Noite escura; O amor no cansa nem se cansa; Poesias completas; Cntico Espiritual; Vida y obras de San Juan de la Cruz 
(BAC). Madrid 1978, com bibliografia citada na obra, p. 811.

Joo Damasceno, So (675-749)
Nascido em Damasco, morreu em Jerusalm. Pertencente a uma famlia crist, foi o sucessor de seu pai no cargo de oficial administrativo a servio do califa rabe. 
Joo, na verdade, tinha o nome rabe de Mansur. Sendo ainda funcionrio do governo, escreveu os trs Discursos sobre as sagradas imagens

Joo Damasceno, So / 299

(prximo de 730) defendendo sua venerao contra o imperador bizantino Leo III e os iconoclastas. Iniciava, assim, sua vida de escritor e telogo, e que logo apareceria 
como porta-bandeira na luta iconoclasta. Pouco depois o vemos como monge em Massaba, prximo de Jerusalm, onde passou o restante de seus dias estudando, escrevendo 
e pregando. Seus contemporneos conheceram-no como o "orador de ouro", "Chrysorrhoas", o "manancial ou corrente de ouro". Entre suas cerca de 150 obras escritas 
sobressai a Fonte do conhecimento, dividida em trs partes.  uma sntese da filosofia e doutrina crist, que influiu de maneira decisiva no pensamento latino da 
Idade Mdia e se transformou no texto principal da teologia ortodoxa grega. A primeira parte, filosfica ou dialtica,  tomada da Isagoge de Porfrio e segue bem 
de perto a metafsica e a lgica de Aristteles. A segunda parte, histrica,  uma transcrio do Panario de Epifnio, uma histria das heresias at o sc. IV. A 
terceira e mais importante  a Exposio da f ortodoxa, mais conhecida como De fide ortodoxa, traduzida para o latim por Burgndio de Pisa (sc. XII) e que se transformou 
num dos textos fundamentais da escolstica. Na essncia,  um resumo dos padres capadcios do sc. IV, porm com uma formulao aristotlica. Embora se trate de 
uma compilao, tem o mrito de coletar e organizar sistematicamente toda a especulao patrstica grega que a Igreja reconheceu e fez sua. Sua obra , portanto, 
uma espcie de antologia da prpria patrstica, unificada com o critrio da ortodoxia. Joo Damasceno assenta o princpio da subordinao das cincias profanas  
teologia. A filosodia deve ser serva da teologia. Estabelece, tambm, o princpio escolstico de que tudo o que  criado  mutvel. Tudo o que existe no mundo, seja 
sensvel ou espiritual,  mutvel e, por conseguinte, criado. Pressupe, pois, um criador, que no seja criado, mas

300 / Joo de vila, So

incriado; e esse  Deus. Por outro lado, a conservao e durao das coisas pressupem a existncia de Deus. Finalmente, a ordem e a harmonia do mundo no podem 
ser produzidas pelo puro acaso, e pressupem um princpio organizador, que  Deus (De fide orth., 1, 3). A existncia de Deus pode ser alcanada pela razo humana; 
sua essncia, ao contrrio,  incompreensvel. Podemos negar tudo o que repugna a sua perfeio infinita e atribuir-lhe tudo o que est implcito em tal perfeio. 
O caminho mais seguro para falar de Deus  o negativo, porque cada atributo positivo  totalmente diferente quando aplicado a Deus. Aplica o mesmo procedimento  
natureza da alma humana, que considera imortal, pertencente s substncias incorpreas e espirituais e dotada de livre-arbtrio. Menos conhecida  a sua antologia 
de exortaes morais, intitulada Paralelos sagrados, em que combina textos bblicos com outros tomados dos padres. Tambm se sobressai por sua reviso e participao 
nos hinos da literatura oriental, sua famosa obra Octochos.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 94-96.

Joo de vila, So (1499-1569)
*Literatura autobiogrfica.

Joo, Evangelista, So (sc. I-II)
Conhecido tambm por "Joo o Telogo" e o "discpulo amado" de Jesus. Joo, de fato, foi um dos apstolos, junto a Tiago e Pedro, escolhidos por Jesus para ser testemunha 
de acontecimentos muito importantes da vida do Mestre, como por exemplo a transfigurao no monte Tabor e a agonia de Getsmani. Joo, alm disso, reclinou sua cabea 
no peito de Jesus na ltima ceia e foi-lhe confiada a Me de Jesus aos ps da cruz. Foi tambm testemunha da tumba vazia na manh da res-

Joo, Evangelista, So / 301

surreio e do reconhecimento do Senhor no mar de Tiberades. A tradio nos diz que se retirou a feso, sendo desterrado a Patmos, onde escreveu o Apocalipse. De 
volta a feso, segundo a mesma tradio, escreveu o que hoje conhecemos como o quarto evangelho e as trs cartas, conhecidas como 1, 2 e 3 Joo. Sobre o Apocalipse 
(*Apocalipse, Apocalptica). Em torno do 4 evangelho -- diferente no contedo e no ponto de vista dos trs anteriores, conhecidos como sinticos -- colocam-se uma 
srie de problemas que os estudiosos denominam "questo joanina". Segundo a tradio, que remonta  segunda metade do sc. II, o quarto evangelho foi escrito pelo 
apstolo Joo. Hoje, muitos pesquisadores negam a origem apostlica do livro. Outros, baseados na leitura e diferente estilo do texto, preferem pressupor dois autores. 
O texto teria tido duas redaes: a primeira pelo que chamamos evangelista, e outra, posterior  sua morte, realizada por um discpulo. Outros, finalmente, pensam 
que no h nada no prprio evangelho que se oponha  tradio, pois se apresenta sob a garantia de um discpulo amado do Senhor, testemunha ocular dos fatos que 
narra. O evangelho de Joo diferencia-se dos sinticos, em primeiro lugar, por seu estilo. Os dizeres de Jesus organizam-se em discursos e dilogos longos. Ordena 
a atividade de Jesus de forma diferente: a vida pblica teria durado dois ou trs anos. Dispe o material de forma que desenha a figura de Jesus, colocando em destaque 
que  o Messias, o Filho de Deus. Seu tema fundamental, portanto,  que Jesus  o enviado de Deus. Interessa-lhe destacar a pessoa de Jesus, sua misso, origem e 
destino, assim como a atitude dos homens diante dele. Dito de outra forma: o quarto evangelho, melhor ainda que os sinticos, pretende esclarecer o sentido da vida, 
das aes e das palavras de Jesus. O quarto evangelho  uma obra complexa. No  um simples relato dos milagres e do ensinamento

302 / Joo Paulo II

de Cristo ao povo, mas uma representao bem meditada de sua pessoa e doutrina, fruto de um esforo sustentado sob a direo do Esprito Santo. No  toa, desde 
a antiguidade, seu autor foi chamado: "Joo, o Telogo". Sua data de composio fixa-se entre 90-100. Entre as sete "cartas catlicas", trs so atribudas a Joo. 
"Apresentam tal parentesco literrio e doutrinal com o evangelho que  difcil no atribu-las ao prprio autor, a Joo, o apstolo." A primeira carta, a mais importante 
e extensa,  por seu estilo e doutrina a que mais se aproxima do evangelho. Resume a experincia religiosa de Joo, que consiste na fidelidade ao duplo mandamento 
da f em Jesus Cristo e do amor fraterno. Pe-se em guarda contra a doutrina dos falsos mestres.
BIBLIOGRAFIA: J. Mateos-J. Barreto, El Evangelio de Juan. Anlisis lingstico y comentario exegtico. Cristiandad, Madrid 1979; R. Schnackenburg, El evangelio segn 
san Juan. Herder, Barcelona 1980-1987, 4 vols.

Joo Paulo II (1920-)
Karol Wojtyla, nome original de Joo Paulo II, nasceu em Wadowice, Polnia, em 1920. Foi eleito papa em 1978, sendo o primeiro no italiano em 456 anos. A 2 Guerra 
Mundial truncou seus estudos de literatura polonesa na Universidade de Cracvia, vendo-se obrigado a trabalhar numa fbrica de soda. Participou da resistncia contra 
os invasores nazistas e atuou num grupo de teatro antifascista. Em 1942 determinou tornar-se sacerdote, ordenando-se em 1946. Ampliou seus estudos na Universidade 
Angelicum de Roma e na Universidade Catlica de Lublin. Exerceu a docncia como professor de tica na faculdade de filosofia de Lublin e, mais tarde, na faculdade 
de teologia de Cracvia. Bispo auxiliar de Cracvia em 1958, foi nomeado arcebispo da mesma cidade em 1964 e feito cardeal em 1967. Joo Paulo II ascendeu ao pontificado 
romano com uma densa obra literria e teolgica la-

Joo Paulo II / 303

vrada em seus anos de docncia universitria e de vida pastoral. Alm de suas narrativas e obras de teatro, publicou em 1960 Amor e responsabilidade, onde critica 
os mtodos no naturais de controle de natalidade; seguiram-lhe Pessoa e ao (1969), anlise da teoria do conhecimento; Os fundamentos da renovao (1972), assim 
como uma monografia sobre Max Scheler. A esses trabalhos devem-se acrescentar mais de 500 ensaios e artigos, alguns deles reunidos no ABC da tica moral (1975). 
Se a isto acrescentarmos as cartas pastorais, alocues, conferncias, discursos e encclicas, teremos um dos papas mais fecundos no apostolado da palavra e da escrita. 
O servio  palavra em todas as suas formas , de fato, uma das constantes do atual pontfice. Grande comunicador e poliglota, transformou-se em porta-voz da Igreja 
e do Evangelho no mundo. Alm de seu ministrio ordinrio em Roma, as viagens realizadas aos cinco continentes permitiram-lhe falar e transmitir a mensagem crist 
de muitas e diversas formas e a mltiplas audincias em todo o mundo. As viagens pastorais e as mensagens nelas transmitidas sero, de fato, uma das chaves para 
compreender seu pontificado. A informao de suas viagens pela imprensa e pela TV fizeram do Papa Wojtyla um dos personagens mais conhecidos. A chave de interpretao 
da atividade de Joo Paulo II est nos centros de interesse dos grandes setores da Igreja e suas prioridade. A Igreja do Ocidente est preocupada com problemas da 
secularizao, da procura de um sistema de valores, de uma reforma moral. Diante desta situao, acusa-se o papa polons de querer fazer da Europa um novo fortim 
medieval com essa espcie de medo da verdadeira modernidade. Com a Igreja da Amrica Latina, interpelada pela misria, pela explorao econmica e pela revoluo 
social, e que opta pela "Teologia da Libertao", o Papa Wojtyla mostrou-se reticente e cauteloso. A mesma atitude de cautela encontramos por parte do papa frente 
a uma Igreja de dilogo e a servio

304 / Joo XXIII

dos homens e do mundo. Essa atitude de prudente cautela levou-o a tenses com telogos, com grupos, pelo que denominam "autoritarismo" e "involucionismo" do pontificado 
de Wojtyla. A Igreja do Papa Peregrino, que soube devolver o orgulho a numerosas comunidades catlicas nacionais, aparece hoje muito mais forte no mundo se considerarmos 
seu prestgio poltico e social. Joo Paulo II apostou inclusive com sua vida -- foi vtima de um atentado a 13 de maio de 1981 -- por uma ordem democrtica e social 
baseada na liberdade e na justia; condenou o comunismo e outros regimes autoritrios; saiu na defesa e recuperao dos direitos humanos; pronunciou-se contra a 
guerra "como o mal sem retorno". "Pertence a seu pontificado um trabalho diplomtico em continuidade com o de seus predecessores, que aproveitou com perseverana, 
de cada abertura e de cada oportunidade de enfrentamento com os regimes comunistas, numa tentativa constante para que as Igrejas locais exercessem uma ao pastoral 
mais decisiva." Se a essa luta social e poltica acrescentarmos a voz do pontfice contra o materialismo, o chamado  fidelidade conjugal,  pureza e santidade dos 
jovens e da vida familiar, teremos algumas das chaves do pontificado de Joo Paulo II. Foi e  contestado. Mas certamente, se tivesse uma linguagem espiritual, dogmtica 
ou piedosa que parecesse convir a todos, essa linguagem seria julgada ento inadequada para responder s situaes concretas de hoje.

Joo XXIII (1881-1963)
Angelo Giuseppe Roncalli, conhecido como o Papa Roncalli, ou Joo XXIII, foi e continua sendo "um dos homens mais queridos e amados do mundo". Nascido em uma famlia 
humilde de camponeses em Sotto il Monte, perto de Brgamo, viveu sua vida de sacerdote na simplicidade e na entrega ao servio da Igreja. Bulgria (1931), Turquia 
e Grcia (1934), Paris (1944) foram os

Joo XXIII / 305

lugares de seu trabalho como delegado e Nncio Apostlico. Nomeado cardeal em 1953, foi designado patriarca de Veneza, at que, na morte de *Pio XII, foi eleito 
Papa, a 28 de outubro de 1958. Sua idade avanada e o escasso destaque que sua conciliadora personalidade at ento havia demonstrado fizeram crer que seria um "papa 
de transio", depois do pontificado to pessoal de Pio XII. Mas o novo papa surpreendeu a todos. No dia 25 de janeiro de 1959 anunciou a convocao de um conclio 
ecumnico. Em sua mente, esse conclio estava destinado a: 1) Promover a unio dos cristos das diversas Igrejas, que o papa pensava, se deveria fazer num prazo 
curto, algo assim como a parusia para os primeiros cristos. 2) Adaptar e renovar a Igreja e o apostolado a um mundo em plena transformao. A palavra aggiornare, 
aggiornamento foi colocada em circulao pelo papa em todo o mundo. No se tratava tanto para a Igreja de lutar contra os seus adversrios; tratava-se mais de encontrar 
um modo de expresso no meio do mundo em que vivia e que parecia ignorar. Expresses como "devem-se sacudir o p imperial" que recobre a Igreja, "deve-se abrir as 
janelas para que entre um ar fresco", "deve-se examinar os sinais do tempo" foram frases e "slogans" carregados de fora e significativos do que o papa queria para 
o futuro conclio. A 11 de outubro de 1962 abriu o Conclio *Vaticano II. No ato de abertura chamou a ateno da assemblia, composta de 2.400 bispos, contra a tentao 
do pessimismo e do integrismo. Realou o carter pastoral, de renovao, no condenatrio, que o conclio deveria ter. Ao falar de Joo XXIII neste dicionrio, fazse 
necessrio aludir a seu magistrio. Em consonncia com o conclio, que desencadeia a revoluo pacfica mais extraordinria do sculo, o papa dirigiu-se pela primeira 
vez ao mundo inteiro, "a todos os homens de boa vontade, no apenas aos cristos", com duas encclicas: Mater et Magistra

306 / Joaquim de Fiore

(1961) sobre os problemas sociais, e Pacem in Terris (1963) sobre a paz e as relaes internacionais. -- "Como no passado, tambm no nosso tempo os progressos da 
cincia e da tcnica influem poderosamente nas relaes sociais do cidado. Por isso  preciso que, tanto na esfera nacional, quanto na esfera internacional, tais 
relaes se regulem com um equilbrio mais humano" (MM 212). -- "Nenhuma poca poder apagar a unidade social dos homens, j que consta de indivduos que possuem, 
com igual direito, uma mesma dignidade natural. Por esta causa, sempre ser necessrio, na mesma natureza, atender devidamente o bem universal, isto , o que afeta 
toda a famlia humana..." (PT 132). Contudo, o surpreendente de Joo XXIII  sua prpria personalidade, que inaugurou uma nova era na histria da Igreja catlica, 
por sua abertura para a mudana e para o mundo, por sua imensa humanidade. Esse pontfice corpulento e baixo de estatura -- nunca pde dominar sua tendncia  gordura 
-- foi-se apoderando gradualmente do mundo at ser tido como o "pai do mundo". Quando morreu em 1963, o corao dos homens estava com ele.
BIBLIOGRAFIA: J. L. Martn Descalzo, El Concilio de Juan y Pablo (BAC) 1967; H. Kng, Iglesia en Concilio. Sgueme, Salamanca 1965; Joo XXIII, Dirio espiritual,; 
As encclicas sociais de Joo XXIII, Rio de Janeiro, 1963; Encclicas, vrias edies em portugus.

Joaquim de Fiore (1145-1202)
Nasceu em Dorfe Celico, Cosenza (Itlia) e morreu na Calbria, no mosteiro de So Joo de Fiore, fundado por ele e do qual era abade desde 1191. A lenda apoderou-se 
deste abade profeta, mstico, telogo, comentarista bblico e filsofo da utopia. Os dados sobre sua vida so tardios, pois procedem de um monge do sc. XVI. Destes 
dados, transmitidos por J. Greco do cenbio de

Joaquim de Fiore / 307

Fiore, sabe-se que Joaquim de Fiore, depois de uma viagem  Terra Santa, onde se livrou de uma peste, entregou-se ao ascetismo. Novamente na Itlia, entrou no mosteiro 
cisterciense de Sambrucino e Corazzo (Siclia), onde foi abade. Posteriormente se retirou para a vida de anacoreta (1119), fundando ento o cenbio de So Joo de 
Fiore, onde reuniu muitos discpulos. Mais interessante do que sua vida  a sua doutrina, alis, sua vida  a sua prpria doutrina. De sua numerosa produo restam 
trs obras fundamentais: 1) Concordia Veteris et Novi Testamenti. 2) Expositio in Apocalypsim; 3) Psalterium decem chordarum. Alm destas obras indiscutveis, se 
lhe atribuem estas outras: Tractatus super Quattuor Evangelia; De unitate et essentia Trinitatis contra Pedro Lombardo; um escrito Adversus Judaeos; uma exposio 
sumria da f catlica, intitulada De articulis fidei. E finalmente, o Liber figurarum, descoberto em 1937, um livro de desenhos e figuras reconhecido pelos pesquisadores 
como autntico. Nele expressa a sua doutrina de forma simblica em rvores que produzem flores e frutos, em figuras geomtricas e em vises de formas estranhas em 
que as rvores se transformavam em guias etc. Quais so as idias e a originalidade deste homem to pesquisado e estudado hoje em dia? Seguindo um pouco a ordem 
e o contedo de suas trs obras fundamentais, podemos resumir seu pensamento desta forma: Concordia Veteris et Novi Testamenti. Neste livro, J. de Fiore elabora 
sua filosofia da histria. A compreenso espiritual da Escritura, meta e tarefa contnua de Joaquim, leva-o a superar o sentido literal tanto do Antigo quanto do 
Novo Testamento. A histria culminar numa era final, produto das duas anteriores, a do AT e a do NT. Assim  como se constri a sua filosofia trinitria da histria, 
em que as trs Pessoas da Trindade se transformam numa estrutura temporal: a era do Pai, Antigo Testamento; a era do Filho, Novo Testamento; a era do Esprito Santo, 
o tempo atual

308 / Joaquim de Fiore

da histria at o final dos tempos. Seu incio seria prximo ao ano 1260. Seria a irrupo do Esprito que varreria a corrupo da Igreja e implantaria a verdadeira 
religio. Na Expositio in Apocalypsim anuncia a iminente crise do diabo, tal como a pintam as imagens do Apocalipse, personificado na figura do anticristo, e a subseqente 
vida do Esprito que preencher a terra. Seu Psalterium decem chordarum interpreta a doutrina da Trindade atravs do smbolo e viso do saltrio de dez cordas. Ope-se 
ao pensamento de *Pedro Lombardo, que de tanto distinguir entre a essncia e as trs pessoas, parecia admitir uma quarta. Joaquim de Fiore  um grande poeta e artista. 
 principalmente o homem que luta constantemente contra "o sentido literal" para chegar ao esprito, porque este  o que d vida e sentido  histria. Esse esprito 
 o que faz dele um profeta dos novos tempos. Suas especulaes trinitrias vinculam-se, assim, numa mensagem proftica que nos leva ao "Evangelho eterno", obra 
do Esprito que supera toda letra e toda lei. O terceiro estado que h de vir, se caracterizar por uma inteligncia da Palavra divina, j no literal, mas espiritual. 
Os homens conhecero verdadeiramente o seu significado real. "A mensagem joaquinista  documento de uma grande expectativa do advento e dos valores espirituais j 
sobre a terra. Suas aspiraes renovadoras se cristalizaro e se expressaro melhor em sucessivos movimentos ortodoxos. Influenciou principalmente o movimento franciscano, 
no j em sua inspirao original, mas em sua evoluo especulativa. Notvel  o seu influxo terico sobre muitos escritores, especialmente sobre Dante" (Diccionario 
de filsofos). Sua importncia e influncia so grandes na construo da utopia crist.
BIBLIOGRAFIA: E. Gebhart, La Italia mstica, 1945; Historia Universal, Siglo XXI. 11, c.10, com a bibliografia.

Juliano Apstata / 309

Juliana de Norwich (1342-1413)
*Nuvem do no-saber, A.

Juliano Apstata (332-363)
Flavius Claudius Iulianus foi imperador romano desde 361. Sobrinho de Constantino, foi educado no cristianismo para seguir depois neoplatonismo e iniciar-se nos 
mistrios de Elusis. Em 355 foi apresentado como Csar, sendo aclamado imperador por suas tropas em 360. A partir da morte de Constncio II (361), atacou uma srie 
de grandes reformas baseadas na restaurao da cultura e religio gregas. Seu alvo foi o esmagamento do cristianismo e a promoo do paganismo por todos os meios 
que no fossem a perseguio aberta. Foi um escritor prolfico. Seu tratado Contra os Galileus podemos conhec-lo somente em parte pela refutao que dele fez So 
*Cirilo de Alexandria. Muitos dos argumentos formulados por Juliano contra os cristos foram-se repetindo ao longo de toda a histria da Igreja. Junto a *Celso, 
*Luciano e Porfrio,  um dos grandes inimigos do cristianismo. So tambm notveis os dicursos II, IV, V, VIII, a Carta a Temistio e o Banquete ou a festa dos saturnais. 
"Temperamento mstico mais do que especulativo, no foi um filsofo autntico. Seu paganismo foi uma expresso psicolgica mais do que uma convico profunda. No 
chegou a compreender o que era o cristianismo, que nunca o entusiasmou. Seus escritos (panegricos, discursos, cartas) so preponderantemente polmicos, carentes 
de sistematizao... Do cristianismo rejeitou, em particular, a exegese bblica e a liturgia..." (Diccionario de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Obras: Contra los Galileos. Cartas y fragmentos. Testimonios. Leyes. Introdues, traduo e notas por J. Garca Blanco e P. Jimnez Gazapo. Gredos, 
Madrid; Id., Discursos. Introdues, traduo e notas de J. Garca Blanco. Gredos, Madrid, 2 vols.

310 / Jungmann, J. A.

Jungmann, J. A. (1889-1975)
*Teologia atual, Panorama da.

Justino, Mrtir, So (sc. II)
Flvio Justino nasceu no primeiro decnio do sc. II em Flvia Nepolis, a antiga Siqum, atual Nablus, na Palestina. Filho de pais pagos, freqentou as diversas 
escolas filosficas de esticos, peripatticos e pitagricos. Depois de ter professado durante longo tempo as doutrinas dos platnicos, converteu-se ao cristianismo. 
Viveu muito tempo em Roma, onde fundou uma escola e onde sofreu tambm o martrio entre os anos 163-167. De So Justino conservam-se trs obras autnticas: O Dilogo 
com o judeu Trifo e I e II Apologia. A primeira e mais importante delas  dirigida ao imperador Antonino Pio e deve ter sido escrita entre os anos 150-155. A segunda, 
que vem a ser um apndice da primeira, foi motivada pela morte de trs cristos, rus por se professarem tais. O Dilogo com o judeu Trifo apresenta uma discusso 
ocorrida em feso entre Justino e Trifo, e quer demonstrar que a pregao de Cristo realiza e completa os ensinamentos do AT. A doutrina fundamental de So Justino 
pode ser resumida nos seguintes pontos: -- O cristianismo  a "nica filosofia segura e til" (Dil., 8), resultado ltimo e definitivo ao qual a razo deve chegar 
em sua investigao. E a razo nada mais  do que o Verbo de Deus, isto , Cristo, do qual participa todo gnero humano (Apol., I, 46). -- Os que viveram conforme 
a razo so cristos, embora tenham sido considerados ateus... "De modo que aqueles que nasceram e viveram irracionalmente foram malvados e inimigos de Cristo e 
assassinos dos que vivem segundo a razo; mas aqueles que viveram e vivem segundo a razo, so cristos impvidos e tranqilos."

Kant, Emmanuel / 311

-- Porm, esses cristos anteriores no conheceram toda a verdade. Havia neles sementes de verdade que no puderam entender perfeitamente (Apol., I, 44). -- Tudo 
o que de verdade se tenha dito pertence a ns, cristos; j que, alm de Deus, ns adoramos e amamos o logos do Deus ingnito e inefvel, o que se fez homem por 
ns, para nos curar de nossas doenas, participando delas" (Apol., II, 13).
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 6; Corpus Apologetarum Christianorum saeculi II. Ed. Otto, Jena 1847-1872, 9 vols.; H. Yaben, San Justino. Apologas, Madrid 1943; Padres 
apologetas griegos. Edio bilnge (BAC).

K
Kant, Emmanuel (1724-1804)
Kant nasceu, viveu e morreu na cidade alem de Knigsberg. Professor de lgica e metafsica na mesma universidade de sua cidade, fez seu o lema do *Iluminismo: "Sapere 
aude", "atreva-se a pensar". Submeteu a razo humana ao juzo para que pudesse responder s quatro perguntas fundamentais da filosofia: Que posso conhecer? Que devo 
fazer? Que posso esperar? Que  o homem? Sua passagem pela filosofia deu a esta um giro copernicano. Mas suas idias filosficas transcendem o mbito acadmico e 
afetam todos os campos da vida, particularmente o moral e o religioso. Homem de arraigada f protestante e de formao e educao pietistas, submeteu a moral e a 
religio  crtica, principalmente  existncia de Deus, chegando a umas concluses que tero

312 / Kant, Emmanuel

influncia decisiva nas idias e na conduta posteriores. Na Crtica da razo pura aplica sua teoria do conhecimento ao mundo religioso, e em particular ao conhecimento 
de Deus, da alma e da eternidade e imortalidade. Segundo Kant, no podemos conhecer o que so as coisas em si mesmas, mas tal como ns as experimentamos atravs 
dos sentidos. Em conseqncia: a) Os argumentos ontolgico, cosmolgico e teolgico no servem para demonstrar a existncia de Deus. b) Rejeita tambm toda pretenso 
de conhecer como  Deus, porque suporia aplicar ao mbito do incondicional ou absoluto algo que somente tem vigncia no terreno do finito e fenomnico. c) Deste 
princpio, chega  concluso de que no  vlida a tentativa de provar que Deus existe. A razo no tem uma forma sensvel que lhe permita dar o salto at Deus. 
A Deus somente chegamos pela f, no pelo conhecimento. No obstante, o conceito de Deus atua como "princpio regulador" que nos mostra um objetivo terico capaz 
de orientar nossa vida. Na Crtica da razo prtica, na Crtica do juzo e na Metafsica dos costumes, Kant aborda a fundamentao da moral e da religio. Sustenta 
que os conceitos de Deus, alma, liberdade e imortalidade so postulados necessrios para dar sentido s exigncias incondicionais da moral. A razo prtica, a conscincia: 
a) Descobre esses conceitos como postulados que a razo  incapaz de demonstrar, mas que se impem por si mesmos. b) Descobre deste modo que o homem  livre ao dar-se 
a si mesmo a lei. c) Descobre finalmente que a liberdade exige a imortalidade e a existncia de um ser divino, um Deus justo que reivindique os direitos ou exigncias 
da justia vulnerados pelas injustias e desajustes deste mundo. As concluses a que essa doutrina de Kant conduz no podem ser mais claras: 1) No h por que pensar 
numa religio revelada, como pode ser a revelao histrica do cristianismo. No h necessidade dela. 2) Tambm no h necessidade

Kierkegaard, Sren / 313

de um redentor especial e particular. Cristo seria to-somente um mestre ou um filsofo dos homens. 3) A religio no  mais do que o reconhecimento de nossos deveres 
como mandatos divinos.  um puro reconhecimento da razo prtica. No h, portanto, lugar para a chamada experincia mstico-religiosa. A filosofia de Kant deu uma 
base racional e filosfica s idias do *Iluminismo sobre o desmo e a religio natural. (*Desmo). Ao lado de *Hume, so os dois pensadores mais slidos que chegaram 
a propor as bases do agnosticismo filosfico e religioso modernos.

Karlstadt (1480-1541)
Andreas Bodenstein, reformador alemo conhecido pelo lugar de seu nascimento. Foi um dos primeiros professores da nova Universidade de Wittenberg (1505). A visita 
a Roma, realizada em 1515 provocou-lhe uma profunda crise espiritual. Desde ento manteve a doutrina pessimista da extrema debilidade da vontade humana, incapaz 
por si mesma de nada bom. Na disputa com Eck (1519), sustentou as teses protestantes, sendo reconhecido como um dos reformadores mais extremistas. Prximo a 1521, 
celebrou o primeiro servio protestante da comunho, ou ceia, "sem vestimentas nem cnon, recebendo os leigos a comunho sob as duas espcies". Tendo-se oposto a 
Lutero por suas excentricidades, renunciou  sua ctedra em 1524, passando o restante de seus dias na Sua.

Kazantzakis, Nikos (1885-1957)
*Literatura atual e cristianismo.

Kierkegaard, Sren (1813-1855)
Foi educado por seu pai ancio numa severa religiosidade. Depois de uma infncia triste e isolada, inscreveu-se na faculdade de teologia de

314 / Kierkegaard, Sren

Copenhague, onde primava a inspirao hegeliana. Dominado sempre por uma "autocompaixo", nunca pde arrancar de seu corpo a melancolia e a angstia que lhe invadiram 
toda a vida. Graduou-se em teologia em 1840, mas no se decidira estudar e escrever at praticamente seus ltimos anos. Seu Dirio no-lo apresenta summamente angustiado. 
Ele prprio viveu totalmente a figura que to bem descreve nas pginas finais do Conceito da angstia: "O que eu sou  um nada; isto d a mim e a meu carter a satisfao 
de conservar minha existncia no ponto zero, entre o frio e o calor, entre a sabedoria e a necessidade ou entre o algo e a nada, como um simples talvez". O ponto 
zero  a indeciso permanente, o equilbrio instvel entre as alternativas opostas que se abrem diante de qualquer possibilidade. O ponto de partida da filosofia 
de Kierkegaard deriva da crtica de Hegel. Este, segundo Kierkegaard, ignorou os traos passionais da subjetividade humana. A verdade no  o "puro pensamento", 
como acreditava o filsofo alemo; a verdade  a subjetividade. A filosofia, em conseqncia, como sistema de dedues,  uma pura

Kierkegaard, Sren / 315

falcia. Para Kierkegaard, a verdade fica vinculada e limitada ao sujeito existente, concreto e particular, no a seu objeto. Isto torna impossvel, em ltima instncia, 
que a verdade possa comunicar-se com outros indivduos. A existncia , pois, opo e paradoxo. Esta concepo da verdade e da existncia de cada sujeito permitiu 
ver nele o pai do existencialismo tanto cristo quanto secular. Levou essas concluses ao campo religioso, e mais concretamente ao cristianismo. Se a filosofia no 
 uma especulao, mas um modo de ser do indivduo, tambm no se deve falar de uma teologia sistemtica: conjunto ou sistema objetivo de verdades doutrinais. Ser 
cristo  viver a f desde a prpria existncia paradoxal no Deushomem, no num conjunto de verdades. Kierkegaard acentua o abismo entre o tempo e a eternidade, 
entre o finito e o infinito, entre o homem e Deus. "Deus  o absolutamente desconhecido." Existe tambm um abismo entre o pecado do homem e a santidade de Deus. 
"Sem pecado, no h cristianismo... Tirar a conscincia pecadora seria como fechar as igrejas e transformlas em sales de baile. Isto  o que torna paradoxal a 
f do cristo: que Deus  absolutamente real e absolutamente incompreensvel. Por isso mesmo, no se pode falar de Deus nem muito menos formular uma teologia." Somente 
Deus pode salvar o homem do abismo entre ambos. E isto Deus o fez na pessoa de Cristo. Deus revelou-se a si mesmo em Jesus Cristo, mas  uma revelao sob vus. 
Deus se manifestou em Jesus Cristo, mas isto no  patente para o observador casual. Somente aos olhos da f, Deus  visto em Jesus Cristo. Somente os que tm f 
o reconhecem e o encontram. A f no  racional.  a aceitao do absurdo, do paradoxal. Kierkegaard aceita a expresso de *Tertuliano: "Credo quia absurdum". A 
f  uma deciso pessoal, um ato de afirmao, um salto na escurido. Pressupe risco e compromisso pessoal e, atravs deste, chegamos a conhecer Deus.

316 / King, Martin Luther

Como era natural, Kierkegaard no oferece um sistema completo de doutrina. Ele prprio descreveu sua obra como "um pouco de pimenta", como um revulsivo ou corretivo. 
Suas obras devem ser encaradas como uma "espcie provocativa e proftica", mais que como uma dieta regular e completa. Se levadas muito a srio, podem causar grandes 
desarranjos gstricos. Mencionamos as mais importantes: O conceito de ironia (1841); Dirio de um sedutor (1843); Migalhas filosficas (1844); O conceito de angstia 
(1844); A enfermidade mortal (1846-47); Discursos religiosos etc. Toda a sua obra e a sua vida foram dedicadas a pr em destaque o "escndalo" e o "paradoxo" da 
f crist, o carter mundano da Igreja dinamarquesa, alvo de seus ataques, e a corrupo do cristianismo por parte da filosofia de Hegel. O seu  a "existncia crist" 
ou o religioso paradoxal. Seu individualismo exerceu uma influncia decisiva na teologia dialtica e no existencialismo. *Unamuno foi um dos seus admiradores e seguidores 
mais fervorosos.
BLIOGRAFIA: J. Collins, El pensamiento de Kierkegaard, 1958.

King, Martin Luther (1929-1968)
Nasceu em Atlanta, Gergia, Ministro da Igreja Batista e lutador pelos direitos civis da populao negra dos EUA. Estudou na Universidade de Boston, onde se doutorou 
com uma tese sobre Paul *Tillich. A partir de 1954, quando foi nomeado pastor de uma Igreja Batista em Montgomery, Alabama, sua vida se envolveu completamente no 
trabalho pastoral e na luta poltica em favor da raa negra. A luta pelos direitos civis da populao negra comeou para M. L. King em 1955, quando uma mulher negra 
foi levada  priso por no ter cedido seu lugar no nibus a um branco. O resultado foi um boicote ao sistema de apartheid nos nibus por parte da comunidade negra. 
Em 1957 criou a Conferncia de lderes cristos do sul para

Knox, John / 317

coordenar a ao no violenta pelos direitos civis. Reconhecido como lder indiscutvel, adotou o mtodo da ao direta no violenta, conforme a doutrina de Gandhi. 
A essa primeira medida de estratgia acrescentou a do controle e uso do voto dos negros. Foi levado  priso em 1960 e 1962. Nessa ocasio escreveu no crcere: "Sabemos, 
por penosa experincia, que o opressor jamais concede livremente a liberdade, e que esta deve ser exigida pelo oprimido". No ano de 1963, dirigiu a clebre marcha 
sobre Washington e, nela, a sua melhor e mais conhecida palestra a mais de 200.000 seguidores: "Tive um sonho de que chegar um dia em que meus quatro filhos vivero 
numa nao onde no sero julgados pela cor da pele, mas pelo valor de sua prpria pessoa...". Os anos entre 1960-1965 constituram o pice de sua glria, quando 
obteve o apoio de Kennedy e Johnson. Em 1964, o Congresso dos EUA aprovou a Lei de Direitos Civis e, em 1965, a Lei do Direito ao Voto. No ano anterior, foi-lhe 
concedido o Prmio Nobel da Paz. A partir de 1965, o movimento da no violncia patrocinado por M. L. King foi criticado e torpedeado pelos grupos do Poder Negro, 
partidrios da violncia. Em 1968 foi assassinado em Memphis. Nesses anos de luta, o exemplo de M. L. King influenciou decisivamente a luta pelos direitos civis 
em todo o mundo.
BIBLIOGRAFIA: N. Blzquez, Los derechos del hombre. Reflexin sobre una crisis (BAC).

Knox, John (1513-1572)
Reformador escocs de tendncia luterana e, depois, calvinista. Redigiu a primeira Confisso de f da Igreja da Esccia em 1560, de carter calvinista. Assim mesmo, 
formou uma comisso que aboliu a autoridade do papa e a celebrao e assistncia  Missa. Em 1561, com um grupo de reformadores, redigiu o Livro da disciplina, ao 
que seguiu, em

318 / Knox, Roland

1564, o Livro da ordem comum. Todos esses livros, de contedo dogmtico, disciplinar e litrgico, foram aprovados pelo Parlamento Escocs e estiveram vigentes at 
que em 1647 se adotou a Confisso de Westminster. Knox deu  reforma da Igreja da Inglaterra um forte contedo luterano-calvinista. Durante o perodo de Eduardo 
VI, interveio na redao do Livro da orao comum. Posteriormente se ops  rainha Maria Tudor (catlica); no foi aceito pela rainha Elizabeth I, e lutou contra 
Maria Stuart da Esccia. Contra as trs mulheres parece ter escrito sua primeira obra: Primeiro toque de trombeta contra o reinado das mulheres (1558). A luta frente 
a essas trs mulheres ocupou praticamente toda a sua vida, tanto na Alemanha, onde fugiu da perseguio de Maria, quanto na Esccia e na Inglaterra. Apesar disso, 
ainda pde escrever sua obra de maior empenho: Histria da reforma da religio no reino da Esccia (1644).

Knox, Roland (1888-1957)
*Literatura atual e cristianismo.

Kosuke Koyama (1929-)
*Libertao, Telogos da.

Kng, Hans (1928-)
Telogo catlico suo, professor de teologia catlica e ecumnica na Universidade de Tubinga. Considerado como o telogo mais polmico e problemtico de hoje, seus 
69 anos apresentam, em retrospectiva, um panorama esplndido de atividade acadmica, cientfica e literria como muito poucos podem oferecer. Seu pensamento destina-se 
a esclarecer o genuinamente cristo e catlico, desmascarando, sem medo, tudo o que de esprio e corrupto se introduziu no cristianismo ao longo de sua histria 
de sculos. O viver e o acontecer da Igreja  seu campo de pesquisa e

Kng, Hans / 319

sua luta, que o levaram a enfrentamentos, acareaes e condenaes da Igreja oficial. Algum disse que o seu trabalho cientfico e teolgico reproduz na Igreja de 
Roma o que sculo e meio realizara *Newman na Igreja da Inglaterra: procurar razes e fundamentos para a sua f catlica. Desde a tese doutoral, Justificao. A 
doutrina de Karl Barth e uma reflexo catlica (1957), passando pelo trabalho como conselheiro no Vaticano II, at a ltima obra Projeto de tica global (1990), 
toda a sua produo  uma pesquisa do cristo em todos os seus planos e dimenses. Assim devemos ler os seus livros: Existe Deus?; Ser cristo; Infalvel?. Todos 
eles suscitaram polmica e o colocaram contra a parede. Negaram-lhe o ttulo de telogo e at o de cristo. Muitos se perguntaram: Kng  verdadeiramente catlico? 
Por que continua sendo catlico? Ele mesmo se fez esta pergunta e lhe responde da seguinte forma: "A resposta, tanto para mim, quanto para muitos outros,  que no 
quero deixar que me arrebatem algo que faz parte de minha vida. Nasci no seio da Igreja Catlica: incorporado pelo Batismo  imensa comunidade de todos os que acreditam 
em Jesus Cristo, vinculado por nascimento a uma famlia catlica que amo entranhadamente, a uma comunidade catlica da Sua  qual volto com prazer em qualquer 
oportunidade; em uma palavra, nasci num solar catlico que no gostaria de perder nem abandonar, e isto como telogo...". "Desde muito jovem conheo Roma e o papado 
mais a fundo do que muitos telogos catlicos, e no guardo, apesar do que se tem dito contra, nenhum afeto anti-romano. Quantas vezes ainda terei de falar e de 
escrever que no estou contra o papado nem contra o papa atual, mas que sempre tenho defendido, ante os de dentro e frente aos de fora, um ministrio de Pedro purificado 
de traos absolutistas, de acordo com os dados bblicos! Sempre me pronunciei a favor de um autntico primado pastoral no sentido da responsabilidade espiritual, 
direo interna e solicitude ativa pelo bem da Igreja universal... Um

320 / Kng, Hans

primado no de domnio, mas de servio abnegado... "Desde muito jovem vivi a universalidade da Igreja Catlica e nela pude aprender e receber muitas coisas de inumerveis 
homens e amigos de todo o mundo. Desde ento resulta-me mais claro que a Igreja Catlica no se identifique mais com a hierarquia nem com a burocracia romana... 
"Por que, ento, continuo sendo catlico? No apenas em razo de minhas razes catlicas, mas tambm em razo dessa tarefa que para mim  a grande oportunidade de 
minha vida e que somente posso realizar plenamente, sendo telogo catlico no marco de minha faculdade teolgica. Mas isso nos leva a outra pergunta: Que significa 
propriamente o catlico, isso que me impulsiona a continuar sendo telogo catlico? "Segundo a etimologia do termo e da antiga tradio,  telogo catlico quem, 
ao fazer teologia, sabe-se vinculado  Igreja Catlica, isto , universal, total. E isto em duas dimenses: temporal e espacial... Nesse duplo sentido, quero continuar 
telogo catlico e expor a verdade da f catlica com uma profundidade e abertura igualmente catlicas. Neste sentido podem ser tambm catlicos certos telogos 
que se chamam protestantes ou evanglicos, coisa que acontece de fato e, particularmente, em Tubinga. Isso deveria constituir um motivo de alegria para a Igreja 
oficial... "Essa aceitao da catolicidade no tempo e no espao, na profundidade e na abertura, significa que  preciso aprovar tudo o que as instncias oficiais 
ensinaram, prescreveram e observaram ao longo do sculo XX?... No, no  possvel que se refira a uma concepo to totalitria da verdade... De tudo se depreende 
que ser catlico no pode significar aceitar e suportar tudo submissamente com uma falsa humildade em aras de uma pressuposta `plenitude', `totalidade' e `integridade'. 
Isso constituiria uma m complexio oppositorum, um trgico amlgama de contradies, de verdade e erro...

Laberthonnire, Lucien / 321

"Em todo caso, a catolicidade deve ser entendida sempre com um sentido crtico fundamentado no Evangelho... A catolicidade  dom e tarefa, indicativo e imperativo, 
enraizamento e futuro. Nesta tenso quero continuar fazendo teologia e continuar expondo a mensagem de Jesus aos homens de hoje com a mesma resoluo que at agora, 
disposto a aprender e retificar sempre que se trate de um dilogo amistoso e fraterno...".
BIBLIOGRAFIA: Para o estudo da teologia no momento atual, ver La teologa en el siglo XX (BAC), 3 vols.; Jos Maria Gmez Heras, Teologa protestante. Sistema e 
historia (BAC minor); H. Kng, Teologa para la postmodernidad. Fundamentacin ecumnica. Alianza, Madrid 1988.

L
Laberthonnire, Lucien (1860-1932)
Um dos telogos do movimento modernista, junto a *Tyrrell, *Loisy e outros. O movimento modernista, tolerado por *Leo XIII, foi condenado por Pio X em 1907. Laberthonnire 
desenvolveu em seus livros uma idia pragmtica da verdade religiosa que ele qualificou de "dogmatismo moral". Aplicado esse princpio ao cristianismo, e mais concretamente 
a seu processo histrico tal como se manifesta na Igreja, o que interessa  o estado atual da doutrina, no as suas origens. Suas obras Ensaios de filosofia religiosa 
(1903) e Realismo cristo e idealismo grego (1904) foram postas no *ndex em 1913. Igual sorte tiveram: Positivismo e catolicismo (1911) e No caminho do catolicismo 
(1912). Dentro da apologtica blondeliana, Laberthonnire se ops

322 / Lacordaire, Henri D.

ao intelectualismo neotomista. Com o fim de reviver o pensamento cristo, tentou fund-lo num sentido concreto e vivente da existncia e do ser. A f  algo vivente, 
isto , algo "que se faz"; a primeira coisa que se deve fazer com a f  "interioriz-la". A f, portanto, tem um desenvolvimento histrico e reside essencialmente 
no sujeito individual humano.

Lacordaire, Henri D. (1802-1861)
A esse clebre dominicano francs esto vinculadas trs grandes misses dentro do catolicismo francs e da Igreja: a) Foi o iniciador, entre 1835-1836, da primeira 
srie de conferncias ou sermes de Notre Dame de Paris. Em anos posteriores, e j no sc. XX, sucederam-lhe no plpito de Nossa Senhora os melhores oradores franceses, 
reunindo em torno deles a "inteligncia francesa". b) Lacordaire foi um dos lderes da "renovao e restaurao" da Igreja na Frana durante o sc. XIX. O ter unido 
em sua pessoa um liberalismo aberto nas idias e um "ultramontanismo" favorvel ao poder do papa criou-lhe srios problemas dentro e fora da Igreja. c) Uma terceira 
misso teve Lacordaire: restabelecer a ordem dos pregadores na Frana em 1843, depois da abolio decretada em 1790. Em 1850 foi nomeado provincial dos dominicanos 
franceses. A vida, as idias e o estilo de Lacordaire suscitaram muitas vocaes  vida religiosa e ao apostolado dos leigos. Sua obra escrita ainda  um estmulo 
e um exemplo para hoje. Do ponto de vista doutrinal e poltico, a vida de Lacordaire parte da condenao pelo papa de "L'Avenir", peridico que fundara juntamente 
com *Lamennais. Em 1832 foram condenados o peridico e as idias teolgico-filosficas de Lamennais (1834). Desde esse momento, Lacordaire combateu o sistema de 
Lamennais, criando seu prprio estilo e sua apologtica de base filosfica e racional, mas no tradicionalista nem "pseudo-racional".
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres, 1911-1912, 9 vols.

Lagrange, Marie Joseph / 323

Lactncio (240-317)
Seu nome romano era Lucius Caecilius Firmianus Lactantius. Converteu-se ao cristianismo no ano 300, perdendo o cargo de professor de retrica que exercia em Nicomdia. 
Mais tarde foi para a corte imperial, sendo tutor de Crispo, filho de Constantino. De Lactncio ficaram-nos muitas obras, todas elas escritas em perfeito latim de 
estilo ciceroniano. Na Antigidade crist Lactncio foi considerado como um dos mestres da lngua latina e da retrica. Sua obra apologtica, slida e direta, ficou 
plasmada fundamentalmente nas Divinae institutiones e em De mortibus persecutorum. Na primeira apresenta, aos homens de letras romanos, a postura crist diante da 
vida. A vida no acaba com a morte. A segunda descreve a morte dos perseguidores da Igreja. Lactncio  considerado na patrstica como um dos grandes escritores 
"apologistas" dos sc. III-IV.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 6-7; Institutiones divinas. Introduo, traduo e notas de E. Snchez Salor. Gredos, Madrid 1978, 2 vols.; Sobre la muerte de los perseguidores. 
Introduo, traduo e notas de R. Teja. Gredos, Madrid 1968.

Lagrange, Marie Joseph (1855-1938)
Dominicano francs, considerado o iniciador dos estudos bblicos modernos dentro da Igreja Catlica. Foi o principal colaborador de *Leo XIII na implantao e restaurao 
dos estudos bblicos. Para isso, fundou a Escola prtica de Estudos bblicos em Jerusalm (1890) e, no ano seguinte, a "Revue Biblique" (1891). Seus trabalhos de 
crtica literria, crtica textual e histria bblica o colocaram no pice dos estudiosos da Bblia. Sua aproximao das teses da alta crtica textual valeram-lhe 
srios desgostos e contratempos em seu trabalho. A obra de Lagrange sobrevive atualmente na Escola de Estudos Bblicos de Jerusalm, conhe-

324 / Lain Entralgo, Pedro

cida entre outros trabalhos pelo texto e pela traduo da chamada Bblia de Jerusalm.
BIBLIOGRAFIA: L. Alonso Schkel, Hermenutica de la Palabra. Madrid 1986s., 3 vols.

Lain Entralgo, Pedro (1910-)
*Zubiri.

Lamennais, Flicit Robert de (1782-1854)
Polmico escritor religioso e poltico francs, ordenado sacerdote contra a sua vontade em 1816. Sua primeira e prematura obra Ensaio sobre a indiferena em matria 
de religio (1818) invoca e defende o princpio da autoridade, que identifica com a "razo geral" ou com o "sentido comum". Afirma tambm que o indivduo depende 
da comunidade na aquisio e no conhecimento da verdade. Entre 1821-1823 publicou vrios volumes de obras em que desenvolve outros princpios relacionados com a 
religio. Assim: a) Identifica cristianismo com religio da humanidade. b) Nega o carter sobrenatural do cristianismo. c) Dispensa os sditos do dever de lealdade 
aos soberanos quando estes se negam a adequar sua conduta aos ideais cristos. d) Prope o papa como lder supremo de reis e povos para combater todos os males. 
Assim, Lamennais pensa numa teocracia, para acabar anunciando uma revoluo de todos os homens em unio e liberdade. Suas idias foram condenadas por Gregrio XVI, 
em 1832, na encclica Mirari vos. A rplica a essa condenao papal foi a sua famosa obra Palavras de um crente (1834), condenada no mesmo ano. Nela admite a autoridade 
da Igreja em matrias de f, mas no na esfera do poltico. Lamennais deixou a Igreja a partir desse momento, fracassando todas as tentativas que se fizeram para 
reconcili-lo com ela.

Leo, Frei Lus de / 325 BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes, 1836-1837, 12 vols.; Louis Le Guillou, L'volution de la pense religieuse de F. Lamennais, 1966.

Leo, Frei Lus de (1528-1591)
Nasceu em Belmonte do Tejo (Cuenca), "mas sua segunda ptria, como no caso de *Unamuno, foi Salamanca, a Salamanca dos humanistas e dos inquietos estudantes do sc. 
XVI, misto de grandeza clssica e misria picaresca, de boato e formulismo e de srios trabalhos literrios e escolsticos". Estudou em Salamanca na poca de seu 
maior esplendor e teve como mestre o grande telogo Melchior *Cano: "Ouvindo o mestre Cano, que foi meu mestre, escrevi-lhe no geral as lies que ouvia dele, como 
 costume em Salamanca". Esse frade agostiniano foi chamado "mestre e catedrtico" da Universidade de Salamanca j em 1561. De fato, pertencente  ordem de Santo 
Agostinho desde 1544, desempenhou a ctedra de Bblia com geral satisfao entre seus numerosos discpulos. A partir de 1565, envolveu-se num processo inquisitrio 
em que "a inveja e a mentira" o mantiveram fechado no crcere durante cinco anos. Acusavam-no de menosprezar a autoridade da *Vulgata e por sua traduo clandestina 
do Cntico dos Cnticos. Absolvido em dezembro de 1576, foi recebido triunfalmente em Salamanca, dirigindo-se a seus discpulos como a sua famosa frase: "Dicebamus 
externa die: Dizamos ontem". Continuaram suas aulas: a partir de 1578, na nova ctedra de filosofia moral, obtida por oposio e, no ano seguinte, na da Bblia. 
Durante todo o ano de 1583, interveio muito ativamente no debate sobre a predestinao e o livre-arbtrio, que novamente o colocou face a face com o Santo Ofcio. 
Terminou seus dias como provincial dos agostinianos, morrendo em seu convento de Madrigal de la Altas Torres, em 1591. Esse  o retrato que Pacheco nos deixou dele: 
"Foi pequeno de corpo, em devida proporo; a cabea grande, bem formada, povoada de cabelo um

326 / Leo, Frei Lus de

tanto crespo e a franja densa; a testa larga; o rosto mais redondo do que comprido; cor trigueira, os olhos verdes e vivos". Tinha o "dom do silncio, agudeza no 
falar, sobriedade no comer e beber, grave, limpo e honesto; de natural colrico, mas se controlando". -- Frei Lus de Leo, em seus diversos aspectos -- o escritor, 
o neo-escolstico das obras latinas, o poeta e prosador em castelhano --, "tem um preciso denominador comum essencial: o elemento religioso. Renascimento cristo, 
catlico, o da poca de Felipe II, rene os aspectos culturais na unidade. Do humanismo se faz escriturrio". De fato, Frei Lus  um humanista, um telogo e um 
escritor perfeito, conhecedor das antigidades clssicas. Seu conhecimento do grego e do latim, suas leituras, sua interpretao dos clssicos numa tcnica moderna 
unem o seu nome ao de um Maquiavel, de um Leonardo ou de um Erasmo. Quando se encontrava no crcere da Inquisio, pediu para ler obras de Sfocles e Pndaro. Sua 
lrica encontra-se plena de horacionismo, e na prosa realiza a mais bela sntese que qualquer literatura possa apresentar do estilo e tcnica do dilogo platnico 
com o assunto e sentimento cristo e, dentro do cristo, teolgico. -- De Frei Lus possumos: a) Tradues em verso de Virglio e Horcio, de Pndaro e Tibulo. 
b) Tradues diretas do hebraico: Salmos, Cntico dos Cnticos e Livro de J. c) A obra relativamente breve de sua "poesia", editada por Quevedo em 1637, e da qual 
disse: "Entre as ocupaes de meus estudos, em minha mocidade, e quase na minha infncia, caram de minhas mos estas obrinhas". d) As obras em prosa -- latim e 
castelhano -- das quais se destacam A casada perfeita e Os nomes de Cristo. Dos sermes, parte importante de sua atividade e personalidade, apenas se conservam exemplos. 
-- Como poeta, Frei Lus deixa uma obra relativamente breve, porm modelar. Poesias como Qu descansada vida -- de estilo horaciano, em

Leo, Frei Lus de / 327

que substitui o tom epicreo e ctico do venusino por um desenganado estoicismo cristo -- ou a ode a Salinas: El aire se serena e a Noche serena de tom platnico 
-- elevam-nos da natureza inferior ao reino da harmonia dos universos e das idias. Porm, em Frei Lus culmina o poeta cristo que deixava para trs Pitgoras, 
Plato, Virglio e Horcio, para expressar sua f na ode La Ascensin ou Morada del cielo com acentos verdadeiramente cristos. Penetra nas alturas da mstica com 
um sentimento da natureza associado ao pastor divino. -- Em verso, Frei Lus  o criador de auges de beleza. Em prosa  ao mesmo tempo o acerto e o domnio constante 
de um estilo. Em prosa castelhana, deixou-nos um modelo de elegante e trabalhada simplicidade em dois livros de tema teolgico-moral: Os nomes de Cristo e A casada 
perfeita. Este ltimo, surgido em Salamanca em 1583, quer ser um espelho exemplar da esposa crist. Toma como base o captulo 31 do livro dos Provrbios. Combina 
as stiras antifeministas da literatura patrstica com as observaes dos costumes mais pinturescos de seu tempo. Um documento para conhecer as damas espanholas 
do sc. XVI. -- A obra mais perfeita quanto ao estilo e ao pensamento  Os nomes de Cristo. Grande parte dela foi composta na priso. Publicou-se pela primeira vez, 
em Salamanca, em 1583. Explica os nomes de Cristo na Escritura: Criana, Faces de Deus, Caminho, Monte, Pai do Sculo Futuro, Brao de Deus, Rei de Deus, Prncipe 
de Paz, Esposo, Pastor, Filho de Deus, Amado, Jesus, Cordeiro. A figura de Cristo aparece em toda a sua radiante humanidade e divindade: "Olhemos o semblante formoso 
e a postura grave e suave, e aqueles olhos e boca, esta nadando sempre em doura, e aqueles muito mais claros e resplandecentes que o sol; e olhemos toda a compostura 
do corpo, seu estado, seu movimento, seus membros concebidos na mesma pureza e dotados de inestimvel beleza".

328 / Leo I, Papa, So

-- Frei Lus fala-nos de Cristo chamando a alma, "unida sempre  aldrava de nosso corao". Nele aparecem todas as vivncias e emoes de sua alma religiosa, como 
a devoo a Maria: "Atrevo-me a cham-la minha em particular, porque desde a minha infncia ofereci-me totalmente ao seu amparo". E sobretudo a mstica atrao da 
pessoa de Jesus, o "deleite da alma e sua doce companhia". Frei Lus, que "como poeta figura entre os cinco ou seis pices da lrica em lngua castelhana,  na prosa 
o autor mais equilibrado, mais clssico, mais perfeito; poeta e prosador, a representao mais harmnica do Renascimento espanhol" (A. Valbuena Prat, Historia de 
la Literatura Espaola).
BIBLIOGRAFIA: Obras completas castellanas de Fray Lus de Len. Ed. del P. Flix Garca (BAC); La poesa de Fray L. de Len. Universidad de Salamanca, 1970; AA. 
VV. Fray Lus de Len. Salamanca 1981.

Leo I, Papa, So (+461)
Conhecido na histria como "So Leo Magno", foi papa de 440 a 461.  o expoente do pontificado romano por sua defesa da ortodoxia e manuteno da unidade da Igreja 
do Ocidente sob a supremacia papal. Uma terceira qualidade ressalta neste papa: seu valor. Em 452 enfrentou-se pessoalmente com tila, persuadindo-o a retirarse 
e no atacar Roma. Em 456, no ataque dos vndalos a Roma, evitou tambm a destruio e a matana. A supresso da heresia de utiques foi sua primeira e principal 
tarefa. E o fez no apenas condenando a heresia, mas tambm formulando a doutrina ortodoxa. Em sua Epstola dogmtica a Flaviano (Tomo a Flaviano, 449) condenam-se 
os erros de *Nestrio e de utiques. Ao mesmo tempo se define de uma maneira precisa e sistemtica a doutrina cristolgica sobre a dupla natureza de Cristo numa 
nica pessoa. utiques defendia uma s natureza divina em Cristo, pois sua

Leo XIII, Papa / 329

natureza humana havia sido absorvida pela natureza divina. O Conclio de Calcednia (451), convocado para condenar o eutiquianismo, aceitou a doutrina do Papa Leo 
como a verdade definitiva. Ao mesmo tempo reconheceu, em sua doutrina, "a voz de Pedro". A doutrina sobre o "primado romano" deve a So Leo seu primeiro e principal 
defensor. Em suas 432 Cartas e 96 Sermes expressa e define sua doutrina sobre a primazia do papa na jurisdio da Igreja. Sustenta que o poder do papa foi concedido 
por Cristo somente a *Pedro, e que esse poder passou de Pedro a seus sucessores. Assim adverte o bispo de Tessalnica, dizendo-lhe que, "embora lhe tenham confiado 
o ofcio e compartilhasse a solicitude do prprio Leo, no possua a plenitude de poder". Isto significa que o papa, como herdeiro de So Pedro, herdou toda a autoridade 
dada por Cristo a Pedro (Mt 16,18-19). Assim, o papa  "algo mais que primus inter pares". A autoridade dos bispos vem do papa, que tem a responsabilidade de governar 
a Igreja. Apesar de tais afirmaes, todos viram nele um homem de governo, prtico e responsvel. Longe da cultura e do talento de Santo *Ambrsio e de Santo *Agostinho, 
So Leo aparece como o exemplo do gnio romano, artfice da unidade e da disciplina na Igreja. A ele se deve o primeiro missal, conhecido mais tarde como Sacramentrio 
Leonino. Foi declarado doutor da Igreja, em 1754, por Bento XIV.

Leo XIII, Papa (1810-1903)
Considerado "primeiro papa social", ou "o papa da renovao dos estudos eclesisticos", Leo XIII marcou um estilo novo de abertura e de compreenso para o mundo 
moderno. Seus 25 anos de pontificado so um exemplo dessa renovao interna da Igreja e dessa abertura ao mundo, sem negar a f, o esprito e a tradio crists. 
No h dvida de que o pontificado de Leo XIII caracterizou-se por um novo esprito. Em

330 / Leo XIII, Papa

suas relaes com os governos civis, mostrou sua preferncia pela diplomacia, conseguindo, atravs dela, conquistas incontestveis. A grandeza deste papa consistiu 
precisamente em no ter sido exclusivamente um papa poltico, apesar de seu gosto pela poltica. Foi tambm um intelectual, que se simpatizou com o progresso cientfico 
e que viu a necessidade de a Igreja abrir-se para ele. E, principalmente, foi um pastor interessado na vida interna da Igreja e em difundir sua mensagem atravs 
do mundo. Seu interesse pela renovao do dilogo entre a Igreja e o mundo moderno foi manifestado nas encclicas que publicou a esse respeito. No plano doutrinal, 
exps e deu resposta a todos os problemas surgidos pela transformao da sociedade moderna: sustentou os direitos da autoridade (Diuturnum, 1884) e condenou a maonaria 
(Humanum Genus, 1884); definiu, no entanto, o limite legtimo das liberdades populares (Immortale Dei, 1885) e da liberdade em geral (Libertas, 1888); defendeu a 
famlia crist da onda

Leo XIII, Papa / 331

de divrcios (Arcanum, 1880) e combateu o socialismo (Quod Apostolici, 1878). Dois aspectos ou preocupaes do pontificado de Leo XIII merecem uma ateno especial. 
A primeira  o impulso dado aos estudos exegticos e de pesquisa cientfica (Providentissimus Deus, 1893); abriu aos pesquisadores os arquivos vaticanos e patrocinou, 
de maneira decisiva, o estudo da filosofia de Santo *Toms nas aulas. A ele se deve fundamentalmente a renovao da chamada *"neo-escolstica" e a criao das "universidades 
catlicas" em muitas partes do mundo contemporneo. O segundo aspecto do pontificado de Leo XIII  a sua ateno aos problemas sociais. Props-se a criar uma ordem 
crist baseada na justia social. A culminncia de todo o seu trabalho social foi a encclica Rerum Novarum (1891). Nela constata que a sociedade mudou; que a concentrao 
das riquezas traz consigo uma "misria no merecida" dos trabalhadores. O socialismo  um remdio falso, j que prope a supresso da propriedade privada querida 
por Deus. O verdadeiro remdio situa-se nos princpios cristos ensinados pela Igreja: as desigualdades so uma lei da natureza.  necessria a unio de todos, e 
por isso no  aceitvel a luta de classes: "No h capital sem trabalho, nem trabalho sem capital". O Estado tem de intervir para uma distribuio conveniente dos 
bens, para a durao do trabalho, o descanso semanal, o salrio familiar... Condenase, portanto, o liberalismo econmico. So teis e necessrias as associaes 
profissionais de patres e operrios, mas no exclui os sindicatos somente de operrios. "Estamos convencidos de que  preciso acudir em auxlio aos homens das classes 
inferiores com medidas prontas e eficazes, j que esto, em sua maioria, numa situao de infortnio e de misria no merecida" (Rerum Novarum). A importncia desse 
documento  evidente. Suscita na Igreja uma legio de apstolos, associaes e sindicatos operrios de carter cristo

332 / Lebreton, J.

que chegam at nossos dias. A importncia da encclica situa-se no interior da Igreja, fixando a ateno no no passado, mas na realidade que tem diante de si. Pede-se 
aos catlicos que considerem o mundo em que vivem e se coloquem no marco das instituies existentes: regimes polticos, sindicatos etc. E, principalmente, a encclica 
levou  formao do que se denominou a *doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos papas posteriores. Esse papa, "dotado de uma inteligncia superior, de um temperamento 
enrgico, de uma aguda conscincia de seu valor pessoal e de um fino sentido das relaes pblicas", quis confrontar todos os problemas que lhe colocaram a Igreja 
e o mundo. E embora seu pontificado no captasse, de forma imediata, a relao da Igreja catlica com o mundo, iniciou atitudes novas que foram amadurecendo em dcadas 
sucessivas (*Conclio, *Neo-escolsticos).
BIBLIOGRAFIA: Suas encclicas esto nos "Documentos Pontifcios"da Ed. Vozes; R. Soderini, Il pontificato de Leone XIII, 1932-1933, 3 vols.; E. Dolleans, Historia 
del Movimiento obrero. Algorta 1970, 3 vols.

Lebreton, J. (1873-1956)
*Teologia atual, Panorama da.

Lefvre d'Etaples (1455-1537)
No movimento humanista francs, inspirado no italiano, destaca-se Lefvre d'Etaples.  o tipo de humanista que coleta e expe, com grande liberdade especulativa, 
os temas da filosofia humanstica. Iniciador dos estudos humansticos, aspirou a restaurar primeiramente o verdadeiro Aristteles. Mais tarde inclinou-se para um 
movimento de pensamento vinculado, por sua vez, com os florentinos, em particular *Ficino e *Pico de la Mirndola, com *Llio e com *Nicolau de Cusa. Dos florentinos, 
de Llio e particularmente do Cusano far edies, apresentando-os como

Lefvre d'Etaples / 333

mestres da filosofia crist. A publicao desses livros, viagens pela Frana, Alemanha e Itlia fizeram dele homem de letras conhecedor perfeito de tudo o que produziram 
a filosofia, a teologia e a mstica anteriores a ele. -- O trabalho literrio e editorial de Lefvre estende-se  edio e estudo de algumas obras de Plato, para 
passar depois ao estudo e publicao da Escritura e dos santos padres. Iniciado tardiamente no hebraico, publicou uma edio comentada dos Salmos e das Cartas de 
So *Paulo. Em 1530, Lefvre concluiu sua traduo completa da Bblia, o que em seu tempo representava um verdadeiro desafio. A esta precedera (1524) sua traduo 
do Novo Testamento, com aprovao real e dedicatria a Leo X. -- Nesse humanista esconde-se um mstico de vida irrepreensvel. Alm de editar as Contemplaes de 
Llio, publicou o tratado De Trinitate de Ricardo de So Vtor, As bodas espirituais de *Ruysbroeck e outros livros de piedade e de liturgia. Lefvre buscou constantemente, 
tanto na Escritura quanto nos escritos espirituais, o sentido de carter mstico. Bem longe de *Lutero, parece admitir, seno uma deificao imediata  maneira de 
*Eckhart, pelo menos um acesso possvel, j nesta vida,  plenitude do Corpo Mstico. -- Como em todos os humanistas cristos, particularmente em *Erasmo, em Lefvre 
aparece o aspecto de reformador da Igreja. Quer uma Igreja reformada in capite et in membris. "Mas Lefvre no critica nem as peregrinaes nem o culto s relquias; 
das indulgncias no rechaa mais do que seu abuso simonaco, e reconhece o valor das prticas ascticas que reprimem as rebelies da carne. Se as obras so a seus 
olhos, antes de tudo, "sinais de penitncia", admite com So Tiago que "vivificam" a f e que quem delas se abstm pode "perder a graa da justificao". Certamente, 
os monges no so os nicos perfeitos, porque existem "diversos estados de religio", mas Lefvre est muito longe de condenar o esta-

334 / Le Fort, Gertrudis von

do monstico. Se destaca em particular o memorial da Ceia, no pe em dvida nem a presena real do Corpo e do Sangue sobre o altar, nem o carter sacrificial da 
Missa. Menciona discretamente o carter recente do celibato eclesistico e os escndalos demasiado numerosos que acarreta, assim como a inconvenincia de ofcios 
celebrados numa lngua cada vez mais desconhecida pelos fiis.  preciso assinalar, no entanto, as linhas quase apocalpticas em que recorda, depois da "primeira 
besta" -- isto , Maom, sempre ameaador --, a proximidade da "segunda besta", mais temida ainda para a unidade crist: "a defeco da monarquia romana" (Historia 
de la filosofa. Sculo XXI, 5, 174). -- Lefvre termina sua vida longa um tanto saturado pelos acontecimentos de um movimento reformador que, de acordo com sua 
inteno, no deveria indispor a f, a nica que salva, contra a filosofia, e menos ainda contra a contemplao mstica na qual ambas culminam.
BIBLIOGRAFIA: R. G. Villoslada, La Universidad de Pars durante los estudios de Francisco de Vitoria (15071522). Roma 1938.

Le Fort, Gertrudis von (1876-1971)
*Literatura autobiogrfica; *Literatura atual e cristianismo.

Legenda urea (1264)
"Entre os autores da Idade Mdia mais destacados pela fama e prestgio proporcionados pelos seus escritos, nenhum alcanou tanta glria e tanto renome como Tiago 
de Vorgine, que com sua compilao da vida dos santos colheu, durante mais de trs sculos, elogios bem superiores a quaisquer das pessoas que escreveram sobre 
essa matria". Assim escrevia em 1845 o Dr. Graesse como prlogo  primeira edio crtica da obra. A Legenda urea ou Lenda dourada  um dos

Legenda urea / 335

livros clssicos da piedade crist. Foi escrita por volta de 1264, pelo dominicano genovs Tiago de Vorgine. Com o surgimento da imprensa, multiplicaram-se as edies 
da Lenda dourada e em cada uma delas apareciam, alm dos 182 captulos iniciais do frei Tiago de Vorgine, um nmero maior ou menor de outros autores desconhecidos. 
A edio crtica do Dr. Graesse inclui 243 captulos: os 182 originais e 61 mais, escritos posteriormente por autores annimos. A obra escrita em latim intitula-se 
Legenda aurea. A palavra legenda (lenda) no tem um significado pejorativo de lenda fantstica ou fabulosa, embora apresente muitas lendas de santos do calendrio 
cristo. Significa, principalmente, escrito para ser lido. O ttulo faz parte de um gnero literrio muito em voga na Idade Mdia e posteriormente. Seria algo assim 
como o que mais tarde se denominou Leituras exemplares ou modelo. O adjetivo dourada traduz o latim aurea e  evidentemente ponderativo. Essas colees ou Lendas 
douradas foram a primeira tentativa do que se chamou Ano cristo ou Vida dos Santos. O livro mais conhecido deste gnero seria o Ano cristo do padre Croiset (sc. 
XVIII), seguido por outros ao longo dos sc. XIX-XX. Foram o livro de cabeceira dos cristos piedosos. A obra segue os tempos do ano litrgico. "De acordo, pois, 
com a ordem estabelecida pela Igreja, trataremos das festas que caem no tempo da renovao, ou seja, das compreendidas entre Advento e Natal. Em seguida, das que 
se celebram entre Natal e Septuagsima. Depois, das que ocorrem entre Septuagsima e Pscoa. E, finalmente, das correspondentes  etapa da peregrinao, isto , 
das compreendidas entre Pentecostes e Advento". As festas dos santos ficaram marcadas nos ciclos litrgicos no dia correspondente a sua celebrao segundo o calendrio 
cristo. Convm advertir o leitor culto e crtico de nosso tempo que evite preconceitos "com relao  ingenuidade e  excessiva credulidade de nosso autor". Como 
adverte o Dr. Graesse, "que

336 / Lenda dourada

o nosso autor colete numerosas historietas mais ou menos fantsticas no significa que ele as tenha por verdadeiras ou que pretenda que as aceitemos como tais... 
Por outra parte, resultam muito teis para interpretar corretamente inmeras passagens obscuras das obras dos poetas e escritores medievais".
BIBLIOGRAFIA: Santiago de Vorgine, La leyenda dorada. Traduo de Frei Jos Manuel Macias, O. P. Madrid 3 1987, 2 vols.

Lenda dourada (1264)
*Legenda urea.

Liberatore, G. (1810-1892)
*Neo-escolsticos.

Libertao, Telogos da
A "Teologia da Libertao"  um dos fenmenos mais complexos da Amrica Latina, j transportado para outras regies como frica e sia.  um fenmeno universal em 
nvel sciocultural e poltico e, sobretudo, eclesial. Dada a confuso e desorientao em torno do tema, e dada a imensa literatura produzida em volta dele, fazemos 
uma nota sobre as causas, os autores e o alcance de tal teologia. Embora o fenmeno venha de longe, nos ltimos quarenta anos a Amrica Latina vive e sente a profunda 
decepo de comprovar como o desenvolvimento, com toda a sua seqela de populismos, justicialismos, comunismos, no conseguiu tir-la do subdesenvolvimento. Comea 
tambm a tomar conscincia no s deste, mas da dependncia econmico-poltica, causa, em boa parte, desse subdesenvolvimento. Constatase assim a misria de grande 
parte de seus habitantes junto  escandalosa desproporo na distribuio da riqueza e da cultura, que coloca o poder de todo tipo em mos de uns poucos.

Libertao, Telogos da / 337

As solues propostas a esta situao propiciaram todo tipo de movimentos desde o comunismo em Cuba at as diferentes ditaduras que, como febre recorrente, sucederam-se 
durante esses anos, em boa parte das repblicas sul-americanas, sem se esquecer,  claro, a guerrilha e as frentes de libertao. At os homens da Igreja tomam as 
armas para lutar por uma justia que no parece poder conseguir-se de outro modo. Tal  o caso, verdadeiramente espetacular, do padre colombiano Camilo Torres, morto 
em 1966 e que passar  mitologia guerrilheira. Na Igreja do Conclio *Vaticano II surge outra linguagem. A reflexo sobre a sua doutrina ps em circulao os termos 
"conscientizao" e "libertao". Urge conscientizar o povo de sua msera situao e empurr-lo  sua libertao. "Poderamos dizer -- escreveu Paul Richard, telogo 
da libertao -- que a Igreja europia viveu o Conclio sob o signo da revoluo da burguesia moderna e que a Igreja latino-americana viveu o Conclio sob o signo 
da revoluo dos explorados por essa burguesia moderna. A teologia europia confrontava o problema f-cincia e entrava num processo de secularizao, desclerizao 
e desmitologizao. A Igreja latino-americana, ao contrrio, confrontava o problema f-revoluo e entrava num processo de libertao". Esse "processo de libertao" 
foi tomando conscincia e aplicao na prxis das comunidades de uma forma lenta, mas progressiva. Um de seus fatores mais importantes  representado pelos "telogos 
da libertao" que refletem individualmente e em equipe em Roma, no Escorial, em Lima, na Blgica etc., sobre os diferentes aspectos do problema. Pouco a pouco vai-se 
sistematizando uma doutrina, perfila-se um mtodo, criam-se agentes pastorais. E, o que  mais importante, geram uma nova conscincia e uma nova disposio. Nascem 
as comunidades eclesiais de base. O primeiro em sistematizar a doutrina da libertao  o sacerdote peruano Gustavo

338 / Libertao, Telogos da

*Gutirrez, em sua Teologia da libertao (1971), obra traduzida para todas as lnguas modernas. Esta teologia no quer ser uma "teologia universal", aplicvel em 
todo tempo e situao.  uma teologia para a situao que vive a Amrica Latina, que "no  de subdesenvolvimento, mas de opresso". Medelln a chamar "situao 
de injustia ou de violncia institucionalizada, em virtude das estruturas que violam os direitos bsicos do povo". Para Gutirrez, a Teologia da Libertao "no 
oferece tanto uma nova temtica de reflexo quanto um novo mtodo de fazer teologia". Contrariamente  teologia tradicional europia, parte da situao concreta 
da opresso em que vive o povo, frente  qual se compromete com os oprimidos. Por isso, a Teologia da Libertao " uma reflexo crtica sobre a prxis crist  
luz da Palavra". Servindo-se da anlise da realidade que faz o marxismo, esta teologia postula "uma libertao total do homem e da realidade", "uma salvao aqui 
e agora" do homem completo. A salvao  interpretada em termos de libertao poltica, de compromisso real com o pobre, e das estruturas de opresso em que vive. 
Os telogos da libertao inspiram-se na exegese bblica, dando um papel central ao texto do xodo. Negam alm disso que textos como Lc 6,20-21; 24-25 e outros semelhantes 
nada tenham a ver com a pobreza; que a morte de Jesus no tenha nenhum aspecto poltico e que a justificao esteja brigada ou divorciada da justia de cada dia. 
Segundo Gustavo Gutirrez, na Teologia da Libertao cabem trs nveis de significao "libertao poltica, libertao do homem ao longo da histria, libertao 
do pecado e entrada na comunho com Deus". Como se v, o termo libertao, amplamente utilizado, encerra uma grande riqueza de significados, conforme os contextos 
e mbitos em que se empregue, e tambm segundo os diferentes autores ou telogos da libertao. Jos Porfrio Miranda, mexicano, estudou a libertao na B-

Liga de Malinas / 339

blia sob o ponto de vista de Marx e do comunismo. Assim, em Marx e a Bblia (1971); Comunismo na Bblia (1981); O humanismo cristo de Marx (1978) e em outras obras. 
O jesuta uruguaio Juan Lus Segundo acentua a dimenso pastoral do movimento com sua Teologia para os artfices de uma nova humanidade (1968-1972) e Libertao 
da teologia (1975). Dom A. Oscar Romero defendeu a libertao desde a "radicalidade evanglica", at dar a vida por seu povo. E *Hlder Cmara, desde a injustia 
e a opresso que sofre a populao desprotegida do Brasil: "Trato de enviar homens ao cu, no ovelhas. E certamente no ovelhas com o estmago vazio e esmagados 
seus testculos". Outros matizes da idia de libertao podem encontrar-se em telogos como Comblin, C. e L. *Boff, I. Ellacura, J. Sobrino, e no mesmo J. Mguez 
Bonino, protestante, que escreve sua teologia na perspectiva argentina. Deste fundo comum, cabe ver e interpretar a teologia asitica do japons Kosuke Koyama (1929-); 
a africana de John Mbiti (1931-), queniano; do sul-africano *Smangaliso Mrhatshwa (n. 1939); do haitiano, depois presidente da Repblica do Haiti, padre Aristides, 
e outros que fazem uma teologia da libertao negra, feminista, "de cor" etc., baseada no evangelho "do amor e da justia".
BIBLIOGRAFIA: R. Oliveros, Liberacin y teologa. Gnesis y crecimiento de una reflexin (1966-1976). Mxico 1977; Teologa de la liberacin: Misso aberta 4 (1984); 
Prxis de Libertao e f crist, Concilium 96 (1974); R. Manzanera, Teologa y salvacin-liberacin en la obra de G. Gutirrez. Bilbao 1978; Juan Jos Tamayo-Acosta, 
Para comprender la teologa de la liberacin. Verbo Divino, Estella 31991.

Lig, Pierre-Andr (1922-1979)
*Congar, Yves M Joseph.
e

Liga de Malinas (1921-1925)
*Beauduin, Lambert

340 / Ligrio, Santo Afonso M de

Ligrio, Santo Afonso M de (1696-1787)
A vida de Afonso de Ligrio,  extensa quanto ao tempo: 90 anos completos e densa quanto  atividade desenvolvida. Transcorreu na rea social do reino de Npoles 
e no ambiente ideolgico do sc. XVIII, poca de fermentao de grandes revolues socioculturais (*Desmo). Deixando de lado sua atuao inicial como advogado (1713-1723) 
e restando os anos de formao sacerdotal (1723-1726), assim como os ltimos anos de sua vida em que sua atividade diminuiu extremamente (1777-1787), a vida plenamente 
ativa de Afonso desenvolveu-se durante quatro dcadas. Um perodo longo para o que era e  a mdia de vida do ser humano. A densa atividade  a caracterstica de 
sua vida. Por temperamento e por compromisso de seu trasbordante zelo apostlico, entregou-se de tal modo ao trabalho que lhe pareceu faltar tempo para realizar 
as tarefas empreendidas. Smbolo de tal caracterstica  o voto que fez de no perder um minuto de tempo, voto especialmente relevante se se contextualiza no ideal 
da vida napolitana, para a qual "il dolce farniente"  um dos traos tpicos. A vida ativa de Afonso desdobrou-se em trs grandes captulos: fundao e organizao 
da Congregao do Santssimo Redentor (redentoristas); ministrio pastoral -- da pregao, da confisso e da direo espiritual -- como sacerdote e como bispo (1726-1775); 
e labor literrio. A personalidade histrica resume-se em trs traos fundamentais: fundador, pastor e escritor. No se podem separar as trs facetas indicadas. 
Formam um todo indivisvel. Mutuamente se implicam e se explicam. Tambm no  procedente estabelecer graus de importncia entre elas. No entanto, a faceta de escritor 
 to bvia que, no retrato simblico de Ligrio, no podem faltar nem a "pena" nem os "livros". A essas trs facetas se deve acrescentar os ttulos pstumos que 
a Igre-

Ligrio, Santo Afonso M de / 341

ja lhe reconheceu proclamando-o "doctor celantissimus" (1871) e patrono de "confessores e moralistas" (1950). A obra literria de Afonso de Ligrio costuma ser dividida 
em trs grandes blocos: 1) Obras de teologa moral; e cabe citar, entre essas, sua principal obra, Theologia moralis (1748). A verso popular, ou resumo da mesma 
feita pelo autor, est nos livros: Instruo e prtica do confessor; Homo apostolicus e O confessor da gente do campo. 2) Escritos ascticos e devocionais: Glrias 
de Maria; Preparao para a morte; A verdadeira esposa de Jesus Cristo (para religiosas); Visitas ao SSmo. Sacramento etc. 3) Temas pastorais e teolgicos: Selva 
de matrias para pregao (para sacerdotes); A vocao religiosa; A orao, grande meio de salvao. E outros. A classificao, evidentemente, no  completa. A 
obra literria de Afonso abrange ainda suas "anotaes de conscincia", sua numerosa correspondncia e, principalmente, seus escritos para o servio interno de sua 
congregao: circulares, cartas a religiosos de sua ordem, constituies etc. Esses documentos, melhor do que nenhum outro, apresentam-nos os problemas espirituais 
e materiais da personalidade psquica e humana de Afonso.  indispensvel falar de sua atividade como moralista, concretizada principalmente em sua Teologia moral. 
Seguindo Marciano Vidal (Frente al rigorismo moral, benignidad pastoral. Estudios de tica teolgica), formulamos os seguintes juzos globais: -- No sculo XVIII, 
Afonso representa a defesa do direito do cristo simples a viver em tranqilidade de conscincia e a sentir a graa do amor que Deus outorga com abundncia atravs 
de Cristo. A obra moral afonsiana significou o final, no penas cronolgico, mas tambm e sobretudo causal, da crise do rigorismo, uma crise que ha-

342 / Ligrio, Santo Afonso M de

via submetido a conscincia catlica a uma overdose de angstia e de abatimento intolerveis. -- O significado de Afonso como moralista no reside tanto no contedo 
direto e preciso de seus escritos morais quanto na atitude global adotada por ele em relao  vida moral dos cristos. -- Desde a segunda metade do sc. XX iniciou-se 
o segundo grande movimento histrico de converso para Afonso enquanto guia da moral catlica. Tambm essa nova leitura da moral afonsiana fixou-se mais no esprito 
do autor do que na letra de seus escritos. Por exemplo, ao analisar o sistema moral afonsiano, procura-se mais o fundo antropolgico-teolgico do que as regras tcnicas 
que dirigem o juzo de conscincia. Nesse fundo antropolgico-teolgico aparece a orientao personalista da atitude moral proclamada por Afonso: primazia axiolgica 
da liberdade, paixo pela verdade, estima e cultivo do juzo prudente da conscincia. -- Se precisasse selecionar um nico trao como caracterstica peculiar da 
obra moral afonsiana, no duvidaria em afirmar que a moral de Afonso  uma moral salvfica, isto , pensada para servir de caudal  abundante salvao crist. A 
partir desta compreenso salvfica, o projeto moral afonsiano organiza-se como uma estratgia contra o rigorismo (M. Vidal, o. c., 225-228). -- Assim nasceu o projeto 
moral afonsiano como uma moral da benignidade pastoral, recriao pessoal do esprito evanglico, que  ao mesmo tempo benigno e exigente (Ibid., 28).
BIBLIOGRAFIA: Opere Ascetiche (ed. Crtica), Roma a partir de 1933; Obras ascticas de San Alfonso M de Ligorio (BAC), 2 vols.; Th. Rey-Mermet, Afonso de Ligrio, 
uma opo pelos abandonados, Ed. Santurio; M. Vidal, Frente al rigorismo moral, benignidad pastoral, Alfonso de Liguori (1696-1787). PS, Madrid 1986; Theologia 
Moralis. Gaud, Roma 1905-1912, 4 vols.; Homo apostolicus. Pela Editora Santurio: Glrias de Maria, Prticas de amar a Jesus Cristo, A orao, Visitas ao Santssimo.

Literatura atual e cristianismo / 343

Literatura atual e cristianismo
Na impossibilidade de apresentar todos os escritores cristos modernos, oferecemos um panorama da chamada "gerao de profetas escritores". "Nas trs primeiras dcadas 
do sculo XX -- escreve Martn Descalzo -- produz-se no mundo um fenmeno que, pelo menos por sua extenso e caracterstica,  nico na histria de Igreja: o nascimento 
de um grupo de escritores -- poetas, novelistas, autores teatrais -- que desde as filas da secularidade transformam sua arte literria numa muito especial apologtica 
da f" (2000 aos de cristianismo, IX, 155). A diferena que traz essa nova gerao de "profetas escritores"  imensa obra escrita de autores cristos de outros 
sculos  que se trata de escritores, no de pregadores; de apstolos em luta por suas crenas, no de simples divulgadores do j aceito por todos. Trata-se de novelistas, 
dramaturgos ou poetas que so fervorosos filhos da Igreja, mas que trabalham nela "livremente",  margem das estruturas hierrquicas e s vezes contra a corrente 
em relao a elas. Embora em algum caso fossem apresentados como uma nova onda de pais da Igreja, eles se contentam, na realidade, com ser seus filhos... No se 
trata desta vez dos clssicos crentes que, com sua boa f, fazem m literatura, mas de um autntico avano da arte de escrever em nossos dias. Vinte deles, pelo 
menos, merecem figurar, (e figuram de fato) nas mais exigentes antologias da literatura contempornea... No se trata de escritores "morais" no sentido tradicional 
da palavra, que contraponham as boas "condutas" frente s ms. So escritores telogos -- no melhor sentido da palavra --, que se aprofundam nas realidades transcendentes 
e na raiz dos problemas religiosos do homem contemporneo. Teologicamente, esto sempre na fronteira, na raia, quase sempre dez centmetros alm da linha da ortodoxia, 
talvez porque toda verdade se torna desmesurada quando se vive...

344 / Literatura atual e cristianismo

Como surgiu esse grupo? No certamente como uma "ao catlica literria", como "brao hierrquico na novela, no teatro ou na poesia". Ningum manda, organiza ou 
dirige esse grupo. Surgem quase contemporneos em diversas naes, talvez como fruto das grandes inquietudes espirituais que acompanharam e seguiram a Primeira Guerra 
Europia. Dividimo-los em quatro ou cinco grupos, segundo as naes: 1. Franceses. O grupo espiritualmente mais importante  o francs. Configura-se em volta da 
figura gigante de Lon Bloy, que criou um longo rasto de discpulos em todos os campos do pensamento, por exemplo, Jacques e Rassa *Maritain em filosofia, Rouault 
na pintura, os novelistas e escritores belga e holands respectivamente Maxence van der Meersch e Pieter van der Meer de Walcheren, e outra longa fila como Pguy, 
*Bernanos etc. Lon Bloy (1846-1917) deixou-nos o testemunho de uma f ardente, bramante, pattica, em luta constante contra a mentira dos ricos e em favor dos pobres. 
Restam-nos dele seus oito tomos de memrias e livros como O sangue do pobre; Exegese de lugares comuns; O desesperado; A mulher pobre etc. Apesar do desmesurado 
de sua literatura e de seu quixotismo religioso e patritico,  um exemplo de unio entre vida e obra, dor e criao artstica. Charles Pguy (1873-1914) apresenta-nos 
o exemplo de sua vida dramtica entre o socialismo utpico e sua f no prprio limite da Igreja: "Uma espcie de herege fervorosssimo, de no praticante que no 
sasse jamais da orao". "Um dos cristos mais vivos e sangrantes de nosso sculo." De sua f dramtica restam-nos os testemunhos de O mistrio da caridade de Joana 
d'Arc; O prtico da terceira virtude; O mistrio dos santos inocentes, e suas inesquecveis Tapearias. Outro dos grandes escritores franceses dessa poca  G. *Bernanos 
(1888-1948), de quem j

Literatura atual e cristianismo / 345

falamos. E Paul Claudel (1868-1955), que reencontrar a f perdida aps uma longa peregrinao pela frica e por todos os abismos do pecado. Deixou-nos, em sua obra 
barroca e empolada, um dos testemunhos mais vivos dos grandes problemas do homem contemporneo em quatro livros fundamentais: Partilha do Sul; O sapato de cetim; 
o Livro de Cristvo Colombo e A anunciao a Maria. Paul Claudel continua sendo o grande poeta, apesar de suas intransigncias de cruzada ou de certas defesas do 
nacional-catolicismo. O mais importante deste grupo  o novelista Franois Mauriac (1885-1970). Sua densa novelstica cria um mundo de pecadores e de ardentes procuradores 
da graa. Novelas como o Mistrio de Frontenac; N de vboras; TeresaDesqueiroux, e outras, podero envelhecer em suas formas, mas no no profundo tremor de seu 
esprito. O mesmo tremor interior qualifica a obra de Julien Green (1900-). Green  um novelista a quem ningum pode ler sem se sentir empurrado para as mais radicais 
meditaes e ao mais brutal choque com o mundo sobrenatural. Moira; Leviat; Varouna; Cada homem em sua noite, e seu extenso Dirio so testemunhos de um esprito 
doentio, porm, profundamente aberto para a transcendncia. Junto a esses, citamos uma lista interminvel de escritores franceses que, embora menos conhecidos, no 
deixam de ser importantes. Assim, Joseph Malgue (1867-1940), autor da obra provavelmente mais importante do pensamento religioso contemporneo: Agostinho. Uma novela 
que  uma minuciosa anlise da f no homem de hoje e um canto inesquecvel ao "mistrio da doce humanidade de Jesus". No terreno restritamente literrio seguem-lhe 
Charles du Bos (1883-1939), Henri Gheon (1875-1974). E outros muito prximos a ns como Cesbron, Renard, Luc Estang, Jean Cayron, Jean Sullivan, Daniel Rops etc. 
(Para outros pensadores franceses da poca, ver

346 / Literatura atual e cristianismo

*Blondel, *Gilson, *Teilhard de Chardin, *G. Marcel). 2. Escritores de lngua inglesa. Semelhante ressurgir de escritores profetas encontramos nas regies de lngua 
inglesa. De alguns deles apresentamos referncias especiais (*Newman, J. H. *Chesterton, *Graham Greene, *Merton). Dentre os numerosos escritores de lngua inglesa 
merecem ser citados Bruce Marshall, autor de obras como O mundo, a carne e o P. Smith; O milagre de padre Malaquias; A cada um seu dinheiro. Essas obras so animadas 
pelo humor, pela luz e pela mais terna alegria, afastadas de toda complicao novelstica. Maior qualidade alcana a obra do ingls Evelyn Waugh (1903-), prodgio 
da ironia e do melhor humor ingls. Obras como Um punhado de p; Retorno a Brideshead etc., acrescentam a todo o conjunto de escritores crentes um rosto, o risonho 
e feliz, que os escritores do grupo francs jamais souberam pintar nos crentes. Na mesma linha cabe citar o australiano Morris West, autor de duas obras que prometiam 
um grande novelista religioso: O advogado do diabo, e As sandlias do pescador. Junto a Morris West,  justo citar dois novelistas: Cronin e Morton Robinson, autores 
de novelas como As chaves do reino e O cardeal, ambas levadas ao cinema. Seria injusto no mencionar o grande historiador e crtico, Hilaire Belloc, amigo de *Chesterton; 
o monsenhor Ronald Knox, brilhante escritor de ensaios e novelas policiais e sbio tradutor da Bblia para o ingls. Na lista de escritores cristos de lngua inglesa, 
merece um lugar especial o "anglocatlico" e grande poeta Thomas Eliott (1888-1965). Sua pea de teatro Assassinato na catedral  uma das obras fundamentais da espiritualidade 
literria atual. E sua obra potica Quarteto alcana o mais alto destaque da poesia religiosa. 3. Itlia e Alemanha oferecem uma boa amostra de escritores-profetas 
desta gerao. O nome mais conhecido na Itlia  o de Giovanni Papini

Literatura atual e cristianismo / 347

(1881-1956). Tenso lutador do esprito, procurador incansvel -- considerava a si prprio um "pequeno Unamuno" --, deixou uma obra vastssima e irregular. Suas Cartas 
do papa Celestino VI e sua Vida de Cristo -- em algumas de suas pginas -- jamais sero esquecidas. Junto a Papini cabe citar Carlo Coccioli com sua novela O cu 
e a terra; Hugo Betti (1892-1953), com obras to perturbadoras e vertiginosas como Delito na ilha das cabras; Corrupo no palcio de Justia e, principalmente, 
O jogador. Tambm se deve acrescentar a obra de Diego Fabri. Suas duas peas teatrais: Viglia de armas e O processo de Jesus tiveram seu xito durante algum tempo. 
E. I. Silone, ex-comunista, cuja obra Aventura de um pobre cristo  uma das peas-chave da literatura catlica contempornea. E como no recordar G. Guareschi com 
seu inesquecvel Dom Camilo? A literatura de carter cristo na Alemanha  menos conhecida entre ns. Cabe destacar a figura de Gertrudis von Le Fort (1876-1971), 
convertida ao catolicismo em 1925. Ofereceu-nos algumas das obras mais belas e atuais da literatura deste sculo, como por exemplo: O vu de Vernica; A ltima no 
cadafalco; O papa do gueto, em que d forma e vida a decises de f. 4. Na Espanha contamos com dois soberbos personagens de tendncias literrias e feies bem 
diferentes. O primeiro, Marcelino Menndez y Pelayo (1856-1912), escritor, crtico e pesquisador. Entre suas melhores obras, fruto de uma extraordinria formao 
humanstica, de uma grande sensibilidade crtica e de um profundo patriotismo, e ao mesmo tempo de uma religiosidade profunda levada com freqncia at  polmica, 
devemos mencionar: Histria das idias estticas na Espanha; A cincia espanhola, e Histrias dos heterodoxos espanhis. Com freqncia, a direita eclesistica e 
poltica espanhola viramno como apoio e defesa de ideais patriticos e cristos vinculados ao passado. Do lado oposto coloca-se Miguel de

348 / Literatura autobiogrfica

*Unamuno, que abre um sulco inesquecvel de preocupaes com a Espanha atual e com o transcendente cristo. No campo estritamente literrio, apenas encontramos as 
tentativas mais catequticas de Pemn ou Calvo Sotelo; os mergulhos de Carmen Laforet em A nova mulher; de Jos M Gironella em sua trilogia da guerra civil espanhola; 
e de M. Delibes em seu encontro com a alma castelhana de suas novelas. Talvez seja preciso fazer uma exceo a essa falta de literatura crist atual na Espanha e 
Amrica Latina: a de Jos L. Martn Descalzo, jornalista, poeta, dramaturgo e novelista que levou a seus escritos a preocupao com os temas cristos numa prosa 
limpa, cheia de sinceridade e luz. A ele se devem em parte as opinies deste artigo sobre literatura e cristianismo. H uma falta de escritores cristos no "boom" 
da recente literatura latino-americana, to prolfica e to em evidncia atualmente. Porm, deve-se ressaltar a criao potica espanhola de carter religioso intimista 
de um Dmaso Alonso, Filhos da ira, de Lus Rosales, Gerardo Diego, Jos M Valverde Versos do domingo -- e inclusive Leopoldo Panero... 5. Em outras naes europias 
encontramos tambm nomes significativos: a norueguesa Sigrid Undset, o dinamarqus Pr Lagerkwist, o grego Nikos Kazantzakis e o polons Jan Dobraczynski. E tantos 
outros que produziram obras de alto interesse religioso.
BIBLIOGRAFIA; J. L. Martn Descalzo, Una generacin de profetas-escritores, em 2000 aos de cristianismo, 9, 159s.; Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo.

Literatura autobiogrfica
O gnero autobiogrfico -- dirios, memrias, itinerrios, confisses e autobiografias propriamente ditas -- tem sido cultivado na histria do cristianismo de forma 
constante e esplndida. Em todas as pocas encontramos exemplos magnfi-

Literatura autobiogrfica / 349

cos desta literatura. Como simples informao, e sem querer esgotar todos os autores, oferecemos um breve resumo da histria literria da autobiografia. O valor 
deste tipo de relatos reside nos testemunhos diretos e pessoais de uma experincia e de uma f vividas. Sua linguagem  concreta e fala de fatos ocorridos com algum 
que sabe que so verdadeiros. Entre todas as formas apresentadas por esse gnero autobiogrfico, sobressaem os relatos dos convertidos. Nossa poca  testemunha 
deste tipo de narraes e do impacto que causaram entre ns. E leitor desse tipo de literatura encontrar uma ampla gama de textos de homens que vm ou retornam 
 f do comunismo, da indiferena, do agnosticismo, da quebra e do pecado, de qualquer caminho e situao. Podese afirmar que tais histrias so paralelas s confisses 
do atesmo, da descrena, da literatura geral atual? Talvez, mas o certo  que fica o valor deste relato testemunhal que o leitor saber apreciar, em ltima instncia, 
a melhor prova da presena do invisvel e do transcendente na existncia humana. Outro dos subgneros que se deve levar em conta  o epistolar. Mais ntimo e confidencial, 
oferece-nos uma fonte de experincias e vivncias religiosas insuspeitas. Por trs de todos os grandes escritores h uma correspondncia que merece ser lida. A grande 
riqueza psicolgica e religiosa das cartas estimula-nos a l-las; no entanto, sua leitura ficou praticamente para estudiosos e eruditos. O gnero autobiogrfico 
a j parece no Novo Testamento. So tpicas as Cartas de So *Paulo, nas quais constantemente se ouve a sua voz em primeira pessoa. Sua experincia mstica e seu 
conhecimento do mistrio de Cristo no  algo inventado. Os relatos em primeira pessoa encontram-se nos Atos dos Apstolos. A partir do captulo 20, fala-se na primeira 
pessoa do plural, dando  narrao um ar muito pessoal de quem conta os fatos porque os viveu. Esse mesmo carter

350 / Literatura autobiogrfica

autobiogrfico aparece no ltimo livro da Bblia: o *Apocalipse. Se deixarmos o marco restrito do NT, logo encontraremos as Cartas de Santo *Incio de Antioquia, 
a Carta e o Martrio de So *Policarpo, assim como muitas das Atas dos mrtires. Tm o selo do pessoal e confidencial. O cristianismo antigo deixou-nos pelo menos 
duas jias da literatura universal: as Confisses de Santo *Agostinho (388) e o Itinerrio da Virgem Egria (sc. IV-V). De suas peregrinaes a Jerusalm, a espanhola 
Egria deixou-nos um documento vivo daquela comunidade, seus hbitos e costumes. Por sua vez, Santo Agostinho inicia propriamente o gnero autobiogrfico, colocando-se 
como modelo no s da literatura religiosa, mas da universal. As Confisses so o livro de referncia obrigatria para falar de converso. A Idade Mdia apresenta-nos 
tambm notveis exemplos de literatura autobiogrfica. Aludiremos to-somente a alguns exemplos que tm a sua referncia prpria neste dicionrio. Prestese ateno 
 presena feminina desta poca: *Gertrudes,*Hildegarda, *ngela de Foligno, *Catarina de Sena, Juliana de Norwich, entre outras. A obra dessas mulheres  eminentemente 
pessoal, confidencial e mstica. Embora j tenhamos feito aluso a *Abelardo, convm destacar sua produo autobiogrfica como a Historia calamitatum, sem esquecer 
as Cartas de Abelardo e Elosa, um dos documentos mais relevantes da Idade Mdia. Abelardo tem ainda duas Confisses de f admirveis. Se algo merece ser destacado 
na literatura religiosa do Renascimento e da Idade Mdia  seu carter vivencial em cartas, relatos, autobiografias, poesia religiosa etc. Lembraremos Santa *Teresa, 
So *Joo da Cruz, Santo *Incio, *Ins da Cruz, Maria da Encarnao, *Bunnyan etc. Os movimentos espirituais da poca -- pietistas, quietistas, port-royalistas 
-- ofereceram uma riqueza impressionante de doutrina espiritual baseada na experincia. Na obra de *Toms Morus,

Literatura autobiogrfica / 351

por exemplo, no se pode esquecer sua mensagem e seu testemunho nas Cartas da torre. Riqueza psicolgica nas cartas de direo de mestres espirituais como So *Francisco 
de Sales, So Vicente de Paulo, e nas de almas como Santa Joana Frmyot de Chantal, Santa Lusa de Marillac, Santa Margarida M Alacoque etc., que brilharam no sc. 
XVII francs. O mesmo se diz dos grandes mestres da direo espiritual e de pregadores desta poca (sc. XVI-XVII): So Joo de vila, Segneri, Vieira, para no 
citar mais que alguns. Passando por cima do sc. XVIII, escasso em literatura religiosa confidencial, adentramos os sculos XIX e XX, que podem ser caracterizados 
por um "boom" da literatura autobiogrfica, paralela  que floresce no campo profano. O gnero epistolar, as memrias, os relatos, as autobiografias, as confisses 
de f etc., prodigalizam-se de forma inusitada. Seria interminvel citar aqui a relao completa de obras e autores. No sculo XIX temos documentos esplndidos desta 
literatura. Mencionarei, como exemplo, os mais conhecidos: Apologia pro vita sua do cardeal *Newman, junto  produo nascida em torno do "movimento de Oxford". 
Uma segunda obra  o Relato de um peregrino russo, *hesiquia, que foi uma verdadeira revoluo quando foi descoberto nos meados do sculo passado. E outro exemplo 
mais entre muitos: Histria de uma alma, de Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897), um dos textos mais delicados da espiritualidade moderna. Do sculo XX  
impossvel dar uma lista suficiente, no completa, de obras e autores deste gnero. Autores como *Chesterton, *Merton, Psichari, G. von Le Fort, Sigrid Undset, E. 
Zolli, e um longo etectera, escreveram sua experincia e sua aventura crist. Eles e muitos outros vm demonstrando a vitalidade e a atualidade deste tipo de escritos. 
Joo XXIII deixou-nos seu Dirio espiritual, um verdadeiro documento autobiogrfico.
BIBLIOGRAFIA: Para a leitura dos autores e obras citados, remetemos aos artigos correspondentes deste dicio-

352 / Livros penitenciais nrio. Como complemento, indicamos os seguintes: Severing Lamping, Hombres que vuelven a la Iglesia, Madrid 1948; John O'Brien, Los prodigios 
de la gracia (The Road to Damascus). Trad. de Pedro R. Santidrin. Madrid 1952; Douglas Hyde, Yo cre (I Believed). Trad. de Pedro R. Santidrin. Barcelona 1954; 
Testimonios de la fe. Relatos de conversiones. Sigrid Undset, Peter Wust, Mac Jacob... (Patmos). Rialp, Madrid 1950; E. Zolli, Mi encuentro con Cristo (Patmos). 
Rialp, Madrid 1950; Joo XXIII, Diario de un alma; Paulo VI, Testamento espiritual.

Livros penitenciais (sc. VII-XII)
Com esse nome designam-se catlogos de pecados e de penas expiatrias, destinados principalmente a guiar os sacerdotes no exerccio de seu ministrio, em especial 
na administrao do Sacramento da Penitncia. Preenchem o perodo que transcorre entre o final da poca patrstica e o sculo XII. Aparecem no Ocidente no incio 
da Idade Mdia, quando a penitncia cannica cedeu passagem ao regime de penitncia privada. Os Penitenciais tm uma grande importncia na evoluo da penitncia 
na Igreja. Sua ptria de origem  a Irlanda; desenvolvem-se nas comunidades clticas da GrBretanha, passam ao continente e se estendem principalmente pela Alemanha, 
Frana e Espanha. Tm seu apogeu entre os anos 650 e 800. Ante a proliferao excessiva e a confuso que criaram, surgiu frente a eles uma reao negativa por parte 
dos bispos durante a reforma carolngia. Aparecem novamente durante a reforma gregoriana (850-1050). A era dos Penitenciais termina com Graciano (1140). Em geral, 
os Penitenciais so obras annimas, constitudas por longas listas de pecados, com sua valorizao moral e sua pena ou castigo correspondente. A ordem ou esquema 
seguido neles  muito variado.
BIBLIOGRAFIA: L. Vereecke, Introduccin a la historia de la teologa moral. PS, Madrid 1969; M. Vidal, 5 Moral de Actitudes, I Madrid 1981, 105s.

Loyola, Santo Incio de / 353

Loisy, Alfred (1857-1940)
Loisy  o mais destacado representante do movimento modernista francs. Especialista em temas bblicos, aplicou o mtodo histrico-crtico ao estudo da Bblia. Sua 
obra primeira e fundamental, O evangelho e a Igreja (1902), parte da idia de que a essncia do Evangelho deve ser encontrada no na figura histrica de Jesus, como 
pretendia *Harnack, mas na f da Igreja,  medida que esta evolui sob a direo do Esprito. Esse livro, condenado primeiro pelo arcebispo de Paris, foi posto no 
*ndex em 1903 por Pio X, junto  sua segunda obra O quarto evangelho. Loisy fez um primeiro ato de submisso formal  deciso pontifcia e retirou-se para o campo. 
A ruptura com a Igreja produziu-se em 1907, quando o mesmo Pio X condenou o modernismo. A resposta de Loisy foi a publicao de Simples reflexes sobre o decreto 
"Lamentabili" do Santo Ofcio e do segundo volume de Os evangelhos sinticos (1908). Publicou o primeiro em 1907. Dois meses depois foi excomungado. De 1909 a 1930, 
Loisy foi professor do Colgio de Frana e continuou escrevendo sobre temas bblicos. Apesar de sua vida de mstico preocupado pastoralmente com os temas religiosos, 
sua obra posterior foi muito desigual e demasiado partidarista. De Loisy permanecem sua preparao cientfica e sua dedicao aos estudos bblicos: um teste e um 
estmulo para os estudiosos posteriores da Bblia.
BIBLIOGRAFIA: Para a evoluo do pensamento de A. Loisy, Mmoires pour servir a l'histoire religieuse de notre temps, 1931, 3 vols. Para sua biografia, A. Houtin 
e F. Sartaux, Alfred Loisy, sa vie, son oeuvre, 1960.

Loyola, Santo Incio de (1491-1556)
Nascido em Loyola (Guipzcoa), passou sua adolescncia entre os pajens da corte real. Cedo destacou-se tanto por sua inclinao militar quanto por seus dotes diplomticos. 
Abraou a carreira

354 / Loyola, Santo Incio de

militar, sendo ferido no cerco a Pamplona (1521). A leitura da Vida de Cristo de Dionsio *Cartuxo e as vidas dos santos fizeram-no decidir ser soldado de Cristo. 
Depois de pendurar sua espada no altar do santurio de Montserrat, retirou-se durante um ano numa gruta de Manresa (15221523), de onde escreveu a maior parte de 
seus Exerccios espirituais. Daqui partiu para Jerusalm com a firme inteno de passar o restante de seus dias nos Santos Lugares. Obrigado a regressar  Espanha, 
fez seus estudos superiores em Alcal, Salamanca e Paris. Em 1534, Incio e mais seis companheiros, fizeram em Montmartre voto de pobreza e castidade, juntamente 
com o ir em peregrinao a Jerusalm, se as circunstncias o permitissem. Impedidos na realizao da viagem, dedicaram-se a trabalhos apostlicos, dirigindose  
Itlia em 1537, onde ofereceram seus servios ao papa. Em Roma foi amadurecendo pouco a pouco a idia e deciso de fundar um instituto religioso, livre das observncias 
de tipo monstico e consagrado inteiramente ao apostolado. Assim nasceu, em 1540, a Companhia de Jesus. A partir desta data, o fundador no saiu de Roma. De sua 
cela, dirigiu a marcha da Companhia com minucioso controle, atravs de uma abundante correspondncia e empregando o restante de seu tempo na lenta e fatigante redao 
das Constituies da Ordem (1547-1550). Quando de sua morte, a Companhia de Jesus contava com mil membros. Havia chegado at a ndia e o Japo, fundara em Roma o 
Colgio Romano e o Colgio Germnico, e por diversas maneiras havia prestado seus servios  Igreja na Alemanha, na Frana, na Espanha e em Portugal. -- A obra escrita 
de Santo Incio  variada, porm no muito numerosa. No  uma obra literria perfeita na forma, mas reflete seu pensamento de modo adequado, ajustando-se perfeitamente 
ao programa que traou de servio a Cristo e  Igreja. Temos em primeiro lugar, embora no cronologicamente, sua Autobiografa: um dirio que registra sua vida espiritual 
 um dos documentos

Loyola, Santo Incio de / 355

de experincia religiosa e mstica mais novos e originais. Essa autobiografia ou dirio, em que aparece a profunda e sentida piedade e vida espiritual do santo  
freqentemente esquecida. -- A obra capital de Santo Incio  o livro dos Exerccios espirituais, que iniciou em Manresa em 1522-1523 e que veio  luz em 1548. Os 
Exerccios no so uma obra literria; so um instrumento ou mtodo de introspeco, de composio de lugar que permite ao homem entrar no caminho de Cristo e segui-lo 
com resoluo e firmeza. O prprio ttulo do texto  significativo. Diferentemente de *Lutero, e tambm de *Eckhart e dos msticos do "abandono", Incio espera da 
vontade um esforo progressivo que prepare o pecador para receber a graa, em cuja ao esta cooperar ativamente. Deste modo, o domnio de si mesmo transforma-se 
numa virtude primordial. O livro dos Exerccios, cuja meta  descobrir a vontade de Deus sobre a pessoa, procura a dedicao completa a servio de Cristo. Os exerccios 
so concebidos como um programa de quatro semanas. Na primeira, o exercitante enfrentase com a sua realidade pessoal de pecador. Na segunda coloca-se diante do Reino 
de Cristo. O discpulo medita na vida de Cristo e decide alistar-se sob a sua bandeira, rechaando a bandeira do mundo e do demnio. Na terceira semana, o discpulo 
dedica-se  meditao da paixo de Cristo. Na quarta semana, dedica-se a meditar o mistrio de Cristo ressuscitado. Com isso, espera-se que, ao final dos exerccios, 
o exercitante, que em sua primeira inteno foi jesuta, siga Cristo, trabalhando por seu Reino. Para isso inserem-se as Regras para pensar com a Igreja, to caractersticas 
do mtodo e da espiritualidade inaciana. -- Dentro da obra escrita de Santo Incio assinalamos duas fundamentais: suas Cartas e suas Constituies, cuja redao 
levaram-lhe vrios anos. A maior parte das cartas so dirigidas a membros particulares da Companhia, e a esta em geral. As Constituies definem o que o santo

356 / Lubac, Henri de

queria que fosse sua instituio, a Companhia. "A maior glria de Deus... o que principalmente nesta jornada de Trento pretende-se por ns, procurando estar juntos 
em alguma honesta parte,  pregar, confessar e ler, ensinando moos, dando exerccios, visitando pobres em hospitais e exortando o prximo... a confessar, comungar 
e celebrar com freqncia Exerccios espirituais e outras obras pias", escrevia o santo.
BIBLIOGRAFIA: Obras completas de San Ignacio de Loyola. Edio crtica de C. de Dalmases-I. Iparaguirre (BAC); San Ignacio de Loyola. Nueva biografa (BAC). Madrid 
1986.

Lubac, Henri de (1896-1991)
 considerado um dos principais representantes do pensamento religioso contemporneo. Seu campo de preocupao e estudo vai desde os *padres da Igreja  teologia 
medieval e ao atesmo contemporneo. Especializado em temas da Igreja,  fundador com Danilou da coleo de textos cristos "Sources chrtiennes". Em 1967, recebeu 
o "Grande Prix" catlico de literatura, dando a conhecer ao grande pblico a importncia deste fundador de uma teologia aberta, em dilogo permanente e positivo 
com as diversas correntes do pensamento moderno. Nascido em Cambrai (Frana), entrou na Companhia de Jesus para atuar muito cedo como professor de Teologia Fundamental 
e Histria das Religies na Universidade Catlica de Lyon e na faculdade dos jesutas de Fourvire. Suas qualidades de escritor, sua grande erudio e a agudeza 
de seu pensamento cedo o levaram ao primeiro plano da investigao teolgica francesa. Iniciou sua produo com o ensaio Catolicismo, sobre os aspectos sociais do 
dogma. Fruto de seu estudo da histria da teologia patrstica e medieval  a criao de "Sources chrtiennes", coleo de textos da literatura crist. A partir de 
1950, apareceram seus estudos sobre patrstica e teologia medieval, Histria e esprito, que reabilita

Lucas, Evangelista, So / 357

Orgenes e pe em destaque o que significou sua doutrina no pensamento da Igreja. A partir de 1959, apareceram os quatro grossos volumes de Exegese medieval. Como 
todos os grandes telogos da poca, Henri de Lubac foi objeto, durante algum tempo, de crtica e suspeita por seu livro O sobrenatural. Neste livro denuncia a noo 
escolstica de "natureza pura" e desenvolve a idia de uma continuidade da natureza e da graa no ser. Outra das grandes incurses de Lubac foi o pensamento moderno 
em estudos sobre Proudhon, Blondel, o budismo japons e temas relacionados com o atesmo. Mas sem dvida o trabalho mais importante  dar a conhecer e reabilitar 
a obra de *Teilhard de Chardin, e seu apoio e participao no Conclio *Vaticano II. Seu humanismo  concebido e expresso numa perspectiva crist e transcendente: 
"o humanismo exclusivo  um humanismo inumano", dir. Seu comentrio  constituio conciliar sobre a divina revelao -- Deus se l na histria (1974) --  um exemplo 
deste humanismo transcendente.
BIBLIOGRAFIA: Obras: O drama do humanismo ateu; Dilogo sobre el Vaticano II (BAC popular); La teologa en el siglo XX (BAC maior), 3 vols.

Lucas, Evangelista, So (sc. I)
O nome de Lucas est vinculado a dois livros cannicos do Novo Testamento: o terceiro evangelho sintico e os Atos dos apstolos. A tradio da Igreja est de acordo 
em identificar seu autor com Lucas. "Jamais se props seriamente, nem na Antigidade, nem em nossos dias, nenhum outro nome". As qualidades e caractersticas de 
estilo e de composio destes dois livros coincidem com as que sabemos de Lucas. O autor aparece como um cristo, judeu muito helenizado ou, melhor ainda, grego 
de ampla instruo, conhecedor a fundo das coisas judias e da Bblia grega, com conhecimentos em medicina e, sobretudo, companheiro de viagem de So Paulo.

358 / Lucas, Evangelista, So

A ningum, de fato, melhor do que a Lucas se encaixam estas caractersticas: srio de Antioquia, conforme uma antiga tradio, mdico e de origem pag.  apresentado 
por Paulo "como o querido mdico" (Cl 4,14) e que esteve a seu lado durante dois cativeiros romanos. -- Evangelho segundo Lucas. Como vimos, atribudo desde o sc. 
II a So Lucas, e reconhecido como cannico desde essa poca. A data de composio mais provvel situa-se entre 75 e 90 d.C. O mrito especial do terceiro evangelho 
vem da atrativa personalidade de seu autor, que transparece constantemente. So Lucas  um escritor de grande talento e uma alma delicada. Elaborou sua obra de forma 
original, com af de informao e de ordem (Lc 1,3). O evangelho, escrito em grego, tem como principal caracterstica sua insistncia na vida, morte e ensinamento 
de Cristo como mensagem de salvao universal dirigida a todos os homens, no apenas aos judeus. Lucas acentua a misericrdia e compreenso humana de Jesus com os 
pecadores e marginalizados. H tambm retratos de mulheres que no aparecem nos outros evangelhos. Insiste em quais devem ser as atitudes do discpulo de Cristo: 
amor ao prximo, como sinnimo de servio. Atravs do amor e do servio, o discpulo entra numa nova relao com Deus, a quem pode chamar de Pai. Outra caracterstica 
de Lucas  a insistncia na orao de Jesus. -- Atos dos Apstolos. O autor  o mesmo que o do terceiro evangelho, identificado desde o sc. II com Lucas, "o querido 
mdico". Nem todos os estudiosos compartilham essa identificao. A data de composio costuma situar-se entre 8090 d.C. "O terceiro evangelho e o livro dos Atos 
se compuseram como partes integrantes de uma s obra, que hoje chamaramos de `Histria das Origens do Cristianismo'. Separaram-se as duas obras quando os cristo 
desejaram dispor dos quatro evangelhos num mesmo cdice. E deve ter ocorrido muito cedo, antes do ano 150". -- Os Atos no pretendem ser uma histria

Llio, Raimundo / 359

completa, mas assinalar os acontecimentos mais importantes com relao  expanso do Evangelho e, especialmente, da grande deciso de anunci-lo aos pagos. A obra 
 composta com grande destreza e resulta de uma amenidade extraordinria. O autor prope como exemplo a poca apostlica e, em concreto, a vida da primitiva comunidade 
de Jerusalm. Mostra como a Igreja continua a verdadeira tradio de Israel e deixa claro que a difuso do Evangelho entre os pagos se faz por expressa vontade 
de Deus. Paulo  o protagonista da mensagem que quer transmitir o livro: a salvao prometida para os tempos finais j est presente na Igreja guiada pelo Esprito 
de Jesus, que se vai estendendo com a pregao.
BIBLIOGRAFIA: Joo de Maldonado, Comentarios a los cuatro evangelios (BAC), 3 vols.; J. A. Fitzmayer, El evangelio de Lucas. Cristiandad, Madrid 1986, 2 vols.; X. 
Len-Dufour, Los evangelios y la historia de Jess. 3 Cristiandad, Madrid 1982.

Luciano de Samosata (125-192)
*Apologistas; *Celso; *Escolas teolgicas, Primeiras.

Lusa de Marillac, Santa (1591-1660)
*Literatura autobiogrfica.

Llio, Raimundo (Ramon Llull) (1235-1315)
"Fui casado, pai de famlia em boa situao financeira, lascivo e mundano. Renunciei a tudo isto de bom grado com o fim de poder honrar a Deus, servir ao bem pblico 
e exaltar nossa santa f. Aprendi o rabe, viajei muitas vezes para pregar aos sarracenos. Detido, encarcerado e aoitado pela f, trabalhei durante cinco anos para 
comover os chefes da Igreja e os prncipes cristos em favor do bem pblico. Agora sou velho, agora sou pobre, mas no mudei de propsito e perma-

360 / Llio, Raimundo

necerei no mesmo, se Deus o concede, at a morte." Eis o auto-retrato de R. Llio tal como o d em seu Disputatio clerici et Raymundi phantastici. Nascido em Palma 
de Maiorca, serviu na corte de Jaime II. Como conseqncia de uma viso, tornou-se tercirio franciscano (1265) para dedicar-se  converso dos muulmanos, tanto 
com a palavra e testemunho direto quanto com seus escritos. Essa causa dominou toda a sua vida. A partir de 1288, comeou a viajar por diferentes cidades para propagar 
suas idias. Nesse mesmo ano lecionou em Paris sobre o que depois veio a ser seu Ars generalis ou Ars magna, uma lgica que concebe como cincia universal, base 
de todas as cincias. De Paris passou  Tunsia, Npoles e Oriente. Depois de vrios anos, regressou pelo mesmo caminho e voltou a visitar as cidades europias, 
sempre com o propsito de interessar prncipes e hierarquias eclesisticas por suas idias. Finalmente, em 1314, embarcou rumo  Tunsia e, segundo a lenda, morreu 
apedrejado pelos muulmanos no dia 29 de junho de 1315. A histria no nos pode fazer esquecer de toda a lenda em torno deste homem fantstico, missionrio e filsofo, 
literato catalo, mstico e poeta, cavaleiro andante de sua idia e um pouco mgico. Conhecemos mais de 250 obras suas, escritas em catalo e em rabe, que ele procurou 
traduzir para o latim. Nestas, Llio fala com freqncia de si mesmo como um homem fantasioso ("phantasticus") e inclusive como um iluminado. "Doctor illuminatus" 
, efetivamente, o ttulo deste mestre que acredita ter recebido sua doutrina de uma revelao divina, e que se dedicou com um ardor um tanto quimrico e quixotesco 
a propagar um mtodo apologtico inventado por ele. A obra de Raimundo Llio  a expresso de seu carter polifactico. Costuma ser dividida em cinco grandes blocos: 
1) Obras enciclopdicas, como o Liber contemplationis, escrito primeiro em rabe e traduzido depois para o catalo: Contemplaci en Deu (1271-73), e o Arbor scientiae 
(1295). 2) Obras cientficas: Liber

Llio, Raimundo / 361

principiorum medicinae; Ars compendiosa inveniendi veritatem, seu Ars magna et maior; Ars inveniendi particularia in universalibus; Liber propositionum etc. 3) Msticas: 
Llibre de amic e amar, Llibre de Erast e Blanquerna, compreendidos os dois ltimos no ttulo mais geral de Art de contemplaci. 4) Finalmente, uma srie de obras, 
umas publicadas e outras inditas, teolgico-filosficas. So apcrifos os escritos alquimistas e cabalsticos que levam o seu nome. Observada a vida e, um pouco, 
a obra de R. Llio, surge a pergunta: quem realmente era e quem continua sendo R. Llio? Que juzo merecem hoje a vida e a obra deste homem? Num af de sntese, 
apontamos estes valores: 1. Em primeiro lugar, R. Llio era um franciscano de mente e esprito, com a sensibilidade do prprio So Francisco. Um franciscano devorado 
pelo zelo da converso dos infiis, entre os quais considera os muulmanos. 2. Um homem de um forte ideal. "O que Llio pretende  converter o infiel, mas no  
possvel atingir essa finalidade se a razo no apia a crena. Da a necessidade de demonstrar racionalmente os artigos da f a que responde o Ars magna ou Ars 
generalis, que  em ltima instncia um `ars inveniendi', uma arte da inveno na idia da mathesis universalis prosseguida por Descartes e Leibniz" (Ferrater Mora). 
3. Isto transforma Llio num dos grandes mestres da lgica. Em Ars magna, estabelece os princpios de uma cincia geral na qual esto implcitos os das cincias 
gerais. Mediante esta cincia, podem-se aprender facilmente as cincias particulares. Portanto, a Ars magna  a arte de combinar os termos simples e predicados absolutos 
-- 9 predicados relativos, 9 questes, 9 sujeitos, 9 virtudes e 9 vcios -- para o descobrimento sinttico dos princpios das cincias. Esta  a idia mais original 
de Llio, que tantos discpulos e seguidores lhe proporcionaram. At o prprio Leibniz recolheu mais tarde o conceito luliano de uma arte

362 / Lutero, Martinho

combinatria, dirigida a descobrir, por via sinttica, as verdades das cincias. 4. E como ponto culminante h algo profundo e misterioso na figura de Llio: seu 
misticismo, seu iluminismo que tem suas razes em Plato, Santo *Agostinho, So *Francisco, So *Boaventura. "Parece que lhe deram uma luz para discernir as perfeies 
divinas -- diz de si prprio -- em relao a algumas de suas propriedades e relaes mtuas, segundo todas as relaes que tm entre si... Por essa mesma luz conheceu 
que o ser total da criatura no  outra coisa do que uma imitao de Deus." "O mundo moderno est cheio de idias crists que se tornaram loucas" (Chesterton). Muitas 
idias crists elaboradas por Llio correm hoje em lbios de quem nem sequer o conhece. Tal  a fecundidade deste grande mestre e doctor iluminado que ainda surpreende 
o mundo.
BIBLIOGRAFIA: Obras literarias de Ramn Llull: Libro de Caballera; Libro de Evast y Blanquerna; Fnix de las maravillas; Poesa (em catalo e castelhano). Edio 
preparada por M. Batllori e M. Caldentey (BAC); Id., Obres essencials, 1957-1960, 2 vols., com a bibliografia ali apresentada.

Lutero, Martinho (1483-1546)
Nascido em Eisleben, Saxnia, no dia 10 de novembro de 1483, morreu na mesma cidade em 18 de fevereiro de 1546. De famlia de camponeses, conseguiu entretanto estudar 
filosofia na Universidade de Erfurt, em um ambiente impregnado de ockhamismo. As doutrinas de Ockham e de seus discpulos Gabriel Biel e Pierre d'Ailly empolgaram, 
desde ento, Lutero, que no ocultar dizer: "Sum occamicae factionis, Occam magister meus dilectus". Tudo isso, mais a leitura posterior do mstico Tauler, por 
quem Lutero sentia profunda admirao e cujas obras utilizava e anotava pessoalmente, influenciaro decisivamente o reformador. Em 1505, conseguido o doutorado, 
entrou no

Lutero, Martinho / 363

convento dos ermites de Santo Agostinho de Erfurt. Ordenou-se sacerdote dois anos depois e foi transferido para Wittenberg, onde ensinou primeiro tica e depois 
teologia e exegese, comentando sucessivamente os salmos e diversas Cartas de So Paulo. Foi o perodo de 1512-1518 o que marcou melhor sua evoluo interior. Comeou 
explicando os Salmos (1513-1515), a Carta aos Romanos (1515-1516), Glatas (1517) e Hebreus (1518). Simultaneamente, Lutero aprofundou-se no conhecimento do ockhamismo, 
como na mstica alem, principalmente de Tauler, tirando da uma idia da nulidade absoluta do homem diante de Deus e do abandono passivo nele. Lutero sofreu nestes 
anos um estado de profunda inquietude, com temores de que no se poderia libertar do pecado e de que pertencia ao nmero dos condenados. Isso explica a leitura e 
estudo destes livros, assim como sua nova paixo pela leitura dos tratados antipelagianos de Santo Agostinho e de So Paulo, os dois mestres a quem sempre se agarrara. 
Fechado nessas leituras, encontrou na "experincia da torre" a soluo para seu problema interior. Numa iluminao interior, Lutero intuiu o que significava a justia 
de Deus: o ato pelo qual o Senhor cobre os pecados dos que se abandonam a ele mediante a f. Tal  a justia de Deus de que se fala na Carta aos Romanos: no a justia 
reivindicatria, mas a justia salvfica, isto , a graa com a qual Deus nos santifica (Rm 1,17). -- Essa iluminao  central no sistema teolgico luterano e chave 
de sua atuao e conduta posterior. Ao reconhecer na graa um dom no s absolutamente gratuito, mas tambm independente por completo de nossa colaborao, dentro 
do quadro geral da arbitrariedade divina prpria do sistema ockhamista, Lutero encontrava um desabafo para suas nsias: abandonar-se  ao salvfica de Deus era 
suficiente para saber-se e sentir-se salvo: sola fides. -- Desse primeiro princpio surgiram outros trs que resumem todo o luteranismo. 1) Sola

364 / Lutero, Martinho

Scriptura. A Escritura no s contm materialmente a totalidade da divina Revelao, mas tambm no tem necessidade de ser iluminada nem esclarecida pela tradio. 
 suficiente por si mesma e por si s para garantir  Igreja a certeza sobre todas as verdades reveladas. Ficam excludas assim a tradio e a interveno da Igreja 
por meio de seu magistrio, e abre-se a porta para o livre exame. 2) Justia imputada ou puramente atribuda, no inerente. A natureza humana ficou, aps o pecado 
original, irremediavelmente corrompida; o homem perdeu sua liberdade e todas as suas obras so necessariamente pecado. Deus, contudo, sem apagar os pecados e sem 
renovar interiormente quem acredita nele e nele confia, aplica-lhe os mritos e a santidade de Cristo, considera-o como se fosse interiormente justo e renovado; 
o homem , portanto, simultaneamente justo e pecador. Embora se sinta pecador e no realize obras boas, basta abandonar-se no Senhor e em sua misericrdia, que de 
per si atua no homem. 3) O terceiro princpio  a repulsa da Igreja hierrquica e, naturalmente, da Igreja histrica que lhe foi dado viver. a) "A Igreja  concebida 
como continuidade espiritual de almas unidas numa s f", "a unio de todos os crentes em Cristo sobre a terra", uma unio espiritual que basta para formar a Igreja. 
b) A Igreja  definida pela relao fundamental e direta do Senhor com cada um dos fiis por cima e  margem de qualquer tipo de mediao: no h diferena essencial 
entre o sacerdcio dos simples fiis e o do papa. c) A negao do primado papal e da Igreja como instituio hierrquica visvel so corolrios necessrios desta 
mesma concepo da Igreja que faz Lutero. d) A negao da Missa como sacrifcio  tambm corolrio da doutrina anterior. Com o agravante de que "a missa  o mais 
grave e horrvel delito entre todas as formas conhecidas de idolatria". e) Outros corolrios so igualmente a reduo dos sacramentos, a liberdade de culto e disciplina, 
a repulsa e repdio absoluto s indulgncias e a todas as formas de idolatria e de corrupo da Igreja do Renascimento.

Lutero, Martinho / 365

-- Como se pode apreciar, a Reforma de Lutero comeara clamando por um "cristianismo mais puro" proclamado por todos os reformadores nos dois ltimos sculos. "Essa 
atitude constitui a originalidade da doutrina e da obra de Lutero. Indubitavelmente, todos os elementos de tal doutrina so medievais, e no apresentam nenhuma originalidade. 
Esta se apia, entretanto, em ter feito valer o retorno ao Evangelho como instrumento de uma palingenesia (eterno retorno) religiosa, e em ter feito de tal retorno 
uma fora de destruio e renovao. A Reforma uniu-se ao Renascimento, precisamente em seu motivo central, em seu esforo de voltar s origens. E, como o Renascimento, 
tendeu a compreender os homens nas obras da vida, afastando-os das cerimnias e do culto externo. -- Toda a histria posterior, desde a exposio das 95 teses em 
1517 at a sua morte ocorrida em 1546, formou a trama de sua vida. Um homem de autntica e profunda religiosidade, tendncia ao subjetivismo, ao autoritarismo, e 
 violncia: traos essenciais do reformador que explicam em parte o enorme influxo que exerceu sobre o esprito germnico e principalmente a cultura europia. Sua 
herana e legado ficaram nos sermes, nas palestras, nas cartas, folhetos e obras de grande porte como seus dois Catecismos -- o maior e o menor --, suas obras polmicas: 
De servo arbitrio, suas arengas, suas frmulas da f. E sua traduo da Bblia para o alemo, monumento da lngua germnica.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Werke. Kritische Gesamtausgabe. Weimar, 1883s.; Obras de Martn Lutero. Ediciones la Aurora, Buenos Aires, 10 vols.; Ricardo Garca 2 Villoslada, 
Martn Lutero (BAC maior) 1976, 2 vols.; J. Lortz, Historia de la Reforma. Madrid 1963, 2 vols.; J. L. L. Aranguren, El protestantismo y la moral. Madrid 1954; Catolicismo 
y protestantismo como formas de existencia. Madrid 1957; J. Atkinson, Lutero y el nacimiento del protestantismo. Madrid 1971; Lutero (Biblioteca grandes personagens). 
Ed. de Pedro R. Santidrin. Madrid 1984.

366 / Mabillon, Jean

M
Mabillon, Jean (1632-1707)
Pesquisador beneditino francs, qualificado como o erudito mais destacado dos mauristas, monges beneditinos da congregao de So Mauro que se especializaram durante 
os sc. XVII e XVIII no estudo histrico e literrio de obras de autores cristos. Muitas de suas edies so bsicas para as edies crticas dos textos. Mabillon 
publicou mais de vinte obras em flio, entre as quais se destacam edies de So Bernardo e de diversos documentos litrgicos importantes. A referncia a Mabillon 
 obrigatria em alguns pontos, como a sua defesa do direito das ordens religiosas para cultivar o estudo frente ao abade Ranc, ou como fundador da cincia ou arte 
da diplomtica, com sua obra principal, De re diplomatica (1681).

Macrio de Alexandria (+395)
*Monaquismo.

Macrio de Moscou (1816-1882)
Seu nome de batismo era Miguel Bulgakov, que trocou pelo de Macrio ao tornar-se monge. Desde 1879 foi metropolita de Moscou. Homem de estudo, ocupou diversos cargos 
acadmicos antes de ser nomeado bispo. Sua obra literria como historiador e telogo est contida na Histria da Igreja da Rssia, uma obra em 12 volumes publicada 
de 1857 a 1882. Escreveu tambm duas obras sobre Teologia ortodoxa, que se tornaram clssicas como expoentes da postura oficial da Igreja russa.

Manjn, Andrs / 367

Macrio, o Grande, So (300-390)
Conhecido como Macrio, "o Egpcio" ou Macrio, "o Grande". Aos 30 anos, fundou uma colnia de monges no deserto de Scitia, Egito (Wadi-el-Natrum), que transformou 
no centro mais importante do monaquismo egpcio. So-lhe atribudas 50 Homilias e vrios outros escritos. Embora mais parea que essas obras foram escritas na Sria 
do que no Egito, a paternidade das mesmas continua sendo atribuda a So Macrio. O que  certo  seu poder e encanto nascido das anedotas, ditos e feitos atribudos 
a ele. Sobre a autenticidade de suas cartas, e principalmente a Grande Carta, ver Quasten, Patrologia, II, 173s.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 34. Outras 7 homilias foram descobertas por G. L. Marriot em 1918.

Maldonado, Joo (1533-1583)
Telogo e exegeta espanhol, ingressou na Companhia de Jesus em 1562 e durante quase duas dcadas ensinou em Paris. Fruto deste ensino so os seus famosos Comentrios 
aos evangelhos, publicados entre 1596-1597, que lhe deram renome e fama universal. Foi acusado de herege e atacado na Sorbonne (1574-1576). Seu reconhecimento posterior 
como mestre seguro e confivel fez dele um dos comentaristas mais srios e slidos do Renascimento. Maldonado introduziu na exegese o sentido comum, a explicao 
literal do texto e o realismo. Recentemente se publicou uma edio bilnge, em latim e espanhol, de seus Comentrios.
BIBLIOGRAFIA: Comentarios a los cuatro evangelios (BAC), 3 vols.

Manjn, Andrs (1846-1923)
*Educadores cristos.

368 / Manning, H.

Manning, H. (1809-1892)
*Newman, Henry

Mansi, Giovanni Domenico (1692-1769)
Eminente canonista, transformado em clssico da jurisprudncia cannica. Sua obra original Tractatus de casibus et censuris reservatis (1724) tornou-se imprescindvel 
nas escolas e faculdades eclesisticas. Mansi passou tambm  histria do pensamento teolgico por uma srie de colaboraes e anotaes em livros bsicos. Assim 
, por exemplo, sua participao na Histria dos conclios, que leva o seu nome.  uma fonte importante de documentos, textos, dados para reconstruir a histria 
e a doutrina conciliar ao longo dos sculos.

Mansur (675-749)
*Joo Damasceno, So.

Manuais para confessores
*Summas dos confessores.

Marcel, Gabriel (1889-1973)
Filsofo, ensasta e dramaturgo francs. Classificado geralmente -- sobretudo por Sartre -- como existencialista catlico, Marcel seguiu o seu prprio caminho e 
no pode ser tratado como membro de uma determinada escola. Em 1950, rechaou o rtulo de "existencialismo cristo", propondo para seu pensamento a qualificao 
de "socratismo cristo". Diversas anlises e estudos sobre seu pensamento filosfico o consideram desconcertante. Em certos aspectos, seu pensamento produz a impresso 
de ser muito realista, prprio para an-

Marcel, Gabriel / 369

dar pela terra. Outros se sentem tentados a considerar sua filosofia como uma espcie de poesia ou como meditaes personalssimas, e no como o que geralmente se 
costuma entender por filosofia. "Sua filosofia pretende chamar a ateno sobre o significado metafsico que se oculta no familiar, sobre os indicadores do eterno 
que h nas relaes interpessoais, s quais lhe atribui um valor positivo, e sobretudo uma presena que o invade e unifica tudo. Sua filosofia gira em torno das 
relaes interpessoais -- eu-tu-ns -- e da relao com Deus. Mas nossa forma de enfocar as coisas est to condicionada por esse `mundo' que somos incapazes de 
discernir as dimenses metafsicas da existncia ou, pelo menos, isso  extremamente difcil para ns". -- Para Marcel, a existncia de Deus no  uma concluso 
resolutria de um problema. A f no  questo de crer o que, mas de crer em. Deus  o tu absoluto, a presena absoluta e misteriosa. Mas h diversos modos de se 
orientar em direo  presena absoluta: o homem pode abrir-se para esta presena -- Deus -- mediante as relaes intra-subjetivas, tais como o amor e a fidelidade

370 / Marcel, Gabriel

criadora, que so sustentados por Deus e para ele apontam; ou pode tambm encontrar Deus no culto e na prece, invocando-o e respondendo a seu chamado. Os diversos 
modos no so, logicamente, exclusivos. So caminhos para chegar a experimentar a divina presena... -- Os conceitos de "mistrio", "problema", "presena", "disponibilidade", 
"mundo rompido", "ser versus ter", so fundamentais no pensamento de Marcel. -- "Para Marcel, termina dizendo Copleston, nosso mundo est essencialmente rompido. 
E em nossa civilizao parece revelar uma crescente despersonalizao. Em qualquer caso, a idia de que o mundo marcha, inevitavelmente, cada vez melhor no  certamente 
sua. A coletivizao e o grande desenvolvimento tecnolgico de nossa sociedade pareciam-lhe expresses de um esprito prometeico que repudia Deus. Marcel acredita 
firmemente no triunfo escatolgico da bondade, e admite que com base religiosa, isto ,  luz da f, pode-se manter uma atitude otimista. Mas est convencido de 
que a invocao e o repdio foram sempre duas possibilidades para o homem e assim continuaro. E pensa que o dogma do progresso  um "postulado completamente arbitrrio" 
(Copleston, Historia de la filosofa, 9, 314324). Sua obra filosfica  muito extensa. Inicia-se em 1914 com Existncia e objetividade; seguelhe Dirio metafsico 
(1914-1923); Ser e ter (1918-1933); Da rejeio  invocao (1940); Homo viator (1944) etc. Outra das caractersticas de Marcel so suas obras de teatro, nas quais 
pe em cena teses psicolgicas e morais. Foi tambm um excelente crtico teatral de "Nouvelles littraires".
BIBLIOGRAFIA: M. Bernard, La Philosophie religieuse de Gabriel Marcel. tude critique, 1952; Obras: Dirio metafsico; Filosofia concreta; Prolegmenos para uma 
metafsica da esperana; O mistrio do ser; Os homens contra o humano; Decadncia da sabedoria; O homem problemtico.

Marcionismo / 371

Marcio (sc. II)
Marcio nasceu em Snope, no Ponto, atualmente Sinop, na costa do Mar Negro. Pelo ano 140, estabeleceu-se em Roma, inserindo-se na comunidade crist da cidade. Muito 
cedo suas doutrinas se chocaram com as dos chefes da Igreja. Em julho de 144 foi excomungado, formando sua prpria Igreja para a qual atraiu muitos adeptos. Marcio 
parece ter sido dotado de um carisma especial de persuaso. Nenhuma de suas obras chegou at ns, nem sequer as Antteses, onde expunha sua doutrina. Foi, no entanto, 
o mais combatido pelos escritores cristos dos primeiros sculos. Sua doutrina resume-se nestes pontos: a) O cristianismo  o evangelho do amor, no da lei. Rejeitava, 
portanto, o Antigo Testamento como contrrio ao Evangelho de Jesus. b) Do Novo Testamento somente aceitava 10 cartas de So Paulo, e uma verso revisada do evangelho 
de Lucas. c) Considerava Cristo um demiurgo cujo corpo era aparente (docetismo), e sua crucifixo tambm aparente. O marcionismo aparece mesclado com todas as heresias 
e seitas dos primeiros sculos, passando a engrossar depois as filas dos maniqueus. Santo Irineu dele nos diz: "Ensinou que o Deus proclamado pela lei e os profetas 
no  o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque aquele  conhecido, esse desconhecido; um  justo, o outro bom" (Adv. Haer; I, 27, I). O prprio Santo Irineu contava 
que uma vez o bispo Policarpo de Esmirna encontrou-se com Marcio e, ao ser indagado por este: "Conheces-me?", Policarpo respondeu: "Sim, conheo em ti o primognito 
de Satans".
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, I, 256ss.; A. Harnack, Marcin. Das Evangelium von fremden Gott (TU 45). Leipzig 1924.

Marcionismo (sc. II)
*Marcio.

372 / Marco

Marco (sc. II-III)
*Gnsticos; *Jernimo, So.

Marcos, Evangelista, So (sc. I)
Com muita probabilidade, o autor do segundo evangelho sinptico  Joo Marcos, primo de Barnab (At 12,25). Era natural de Jerusalm, onde vivia com sua me, e Pedro 
conhecia sua famlia (At 12,12). Mais tarde acompanhou Barnab a Chipre e o encontramos em Roma ao lado de So Pedro. Eusbio refere-se a ele em seus ltimos anos 
em Alexandria. O evangelho de Marcos pode ter sido escrito em Roma ou Antioquia entre os anos 65-67. Dados mais recentes tendem a adiant-lo ao ano 50. De qualquer 
forma, j era amplamente conhecido no sculo I, e tanto o evangelho de Mateus, quanto o de Lucas, parecem depender dele. Papas afirma que Marcos transmite uma informao 
baseada na pregao de Pedro. Os estudos posteriores aceitaram e coletaram essas afirmaes. O evangelho de Marcos est escrito em grego da "koin", a lngua popular 
e comum da poca helenstica. Segue uma exposio linear bastante clara, embora seu esquema, mais do que restritamente cronolgico, baseie-se numa sucesso de fatos 
significativos que constroem um quadro abreviado, porm coerente, de uma realidade mais extensa. O propsito de Marcos  mostrar que Jesus  o Messias, o Filho de 
Deus. Aparece Joo Batista como seu arauto e a seguir a figura de Jesus, com a sua consagrao messinica, a plenitude do Esprito e a vitria sobre Satans, na 
qual se decide a sorte do mundo. "O paradoxo de Jesus incompreendido e repudiado pelos homens, porm, enviado e triunfando por Deus,  o que interessa em primeiro 
lugar ao segundo evangelho."
BIBLIOGRAFIA: J. Gnilka, El evangelio segn san Marcos. Salamanca 1986, 2 vols.; B. Hurault, Sinopsis pastoral de Mateo-Marcos-Lucas (Juan), com notas exegticas 
e pastorais. EP, Madrid 1980.

Maritain, Jacques / 373

Marechal, J. (1878-1944)
*Neo-escolsticos.

Margarida Maria de Alacoque, Santa (1647-1690)
*Literatura autobiogrfica.

Maria da Encarnao, Sror (1566-1618)
*Literatura autobiogrfica.

Maras, Julin (1914-)
*Zubiri.

Maritain, Jacques (1882-1973)
Filsofo neotomista francs, discpulo de Bergson e mais tarde seu crtico. Vinculado na primeira juventude ao socialismo revolucionrio, converteu-se ao catolicismo 
em 1906, com sua mulher Rassa, influenciado por *Lon Bloy. Maritain iniciou-se como filsofo tomista em 1913 em umas conferncias sobre Bergson. No ano seguinte, 
foi convidado para ensinar Histria da Filosofia Moderna no Instituto Catlico de Paris, para ser posteriormente chamado ao Instituto de Estudos Medievais da Universidade 
de Toronto (Canad) e na Universidade de Colmbia (USA). A vida de Maritain  a de um professor universitrio dedicado ao estudo e  pesquisa filosfica. Sua obra 
 ampla e cobre praticamente todo o mbito da filosofia.  considerado, ao lado de Gilson, o principal renovador do pensamento de Santo Toms em nosso tempo. Foi 
tambm embaixador da Frana no Vaticano. Maritain tentou desenvolver a filosofia tomista -- sobretudo a social e poltica -- aplicando seus princpios aos problemas 
modernos. Segundo

374 / Maritain, Jacques

nosso pensador, se o Aquinate vivesse na poca de Galileu e Descartes, teria libertado a filosofia crist da mecnica e da astronomia de Aristteles, sem deixar 
de ser fiel aos princpios da metafsica aristotlica. E, se vivesse no mundo atual, livraria o pensamento cristo das "imagens e fantasias do sacrum imperium e 
dos antiquados esquemas e procedimentos de seu tempo". A obra de Maritain alcanou sua mxima ressonncia no campo da filosofia poltico-social. Rechaou o comunismo 
e o socialismo no apenas nas formas atias, mas inclusive como derivado de uma concepo errnea e defeituosa do homem, do trabalho e da sociedade. Sua concepo 
poltico-social baseia-se num "humanismo integral", tal como ficou formulada em sua obra Humanismo integral. "O mundo, segundo Maritain, marcha para a construo 
de um novo tipo de cidade temporal crist, diferente do que se realizou na Idade Mdia, onde houve um regime poltico de ordem sacra. Na civilizao futura, entretanto, 
a esfera do profano ser ao mesmo tempo autnoma e subordinada ao sacro, e o Estado ser leigo, porm construdo cristmente. Neste Estado os valores temporais tero 
dignidade de fins. No sero rebaixados  categoria de instrumentos, mas tero um fim subordinado a um fim ltimo mais elevado. Maritain dedicou parte de sua atividade 
ao estudo dos problemas pedaggicos. Concebe a filosofia como uma disciplina pedaggica que pressupe uma concepo filosfico-religiosa do homem. A meta da educao 
 a formao da pessoa. Sua luta  contra as concepes pragmatistas, instrumentalistas e empiristas da educao. Assinala alguns erros que infeccionam a colocao 
do processo educativo, entre os quais contam o desconhecimento dos fins a serem atingidos e a presuno de que tudo se pode ensinar. No se ensina a intuio e o 
amor, que so dom e liberdade" (A educao na encruzilhada). Particularmente notvel  a especulao esttica em Maritain, assim como sua contribuio

Mar Morto, Manuscritos do / 375

para o esclarecimento das cincias: cincia e filosofia; cincia e metafsica; cincia e religio etc. (Ver a esse respeito: Arte e escolstica; A intuio criadora 
na arte e na poesia; Distinguir para unir ou Os trs degraus do saber).  considerado um filsofo tomista "liberal". No entanto, em seu ltimo livro, O campons 
do Garona (1969), apresenta uma espcie de testamento no apenas filosfico, mas tambm teolgico, sociolgico, poltico e pessoal, que muitos consideram como uma 
aproximao ao "integrismo". Deve-se ver tambm como um ataque contra tudo o que o autor considera um falseamento do cristianismo. No seu entender, esse falseamento 
 representado por Teilhard de Chardin e pelos seguidores de sua teologia cosmolgica, assim como pelo uso da fenomenologia e da psicanlise para propsitos religiosos.
BIBLIOGRAFIA: Boa parte das obras de Maritain foram traduzidas para o portugus. Caminhos para Deus, Villa Rica; Introduo geral a Filosofia, Agir; Lgica Menor; 
Agir; Sete lies sobre o ser.

Mar Morto, Manuscritos do (sc. II a.C.--sc. I d.C.)
Os "Manuscritos do Mar Morto", conhecidos tambm como "Manuscritos de Qumr", so uma coleo de manuscritos hebraicos e aramaicos, descobertos em grutas nas proximidades 
de Qumr, a noroeste do Mar Morto. Os achados tiveram lugar de 1947 a 1956. So o mais importante descobrimento bblico registrado at agora. Compreendem quase todos 
os livros cannicos do Antigo Testamento, alm de outras obras no conhecidas anteriormente. Abrangem um perodo-chave que vai do sc. II a.C. at o ano 68 d.C. 
Junto aos manuscritos do AT foram encontrados tambm: 1) Uma srie de comentrios do AT que interpretam o texto bblico como profecia cumprida em tempos do comentarista. 
2) Uma coleo de Salmos de ao de graas, de confi-

376 / Marshall, Bruce

gurao semelhante  do livro bblico dos Salmos. 3) Uma obra intitulada Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas. 4) Um manual conhecido como o Manual 
da disciplina, com as regras ou normas da comunidade religiosa que vivia na regio, identificada com os essnios. 5) Os chamados Fragmentos de Damasco, um livro 
de composio semelhante ao anterior. Foi chamado de Damasco pela descoberta que se fez nessa cidade de um documento semelhante a esse em 1896. Parece que os manuscritos 
pertenciam  biblioteca de uma comunidade judia estabelecida em Qumr desde o incio da era crist. Sua importncia est em nos permitir conhecer textos bblicos 
anteriores em mil anos aos que at agora se possuam (*Codex sinaiticus; *Codex Vaticanus).
BIBLIOGRAFIA: A. Gonzlez Lamadrid, Los descubrimientos del mar Muerto (BAC); Alan Millard, Discoveries from the time of Jesus. Lion Publishing, Oxford 1990; Los 
papiros griegos de la cueva 7 de Qumrn (BAC); Jean Pouilly, Qumrn. Verbo Divino, Estella 1991.

Marshall, Bruce
*Literatura atual e cristianismo.

Marslio de Pdua (1275-1343)
Pensador poltico radical que encabeou a polmica contra o papado e a favor da reforma da Igreja. Elaborou uma teoria totalmente leiga do Estado. A Igreja, segundo 
ele, no somente deve respeitar a autonomia do poder temporal, mas tambm submeter-se a ele. Marslio de Pdua figura na histria do pensamento poltico como elemento 
ucrnico: suas grandes teses inovadoras esperariam sculos at encontrar uma correspondncia nos fatos.  considerado como "precursor do absolutismo moderno", e 
cabea e inspirador da corrente reformadora da sociedade e da Igreja europias dos sculos XIV-XV. Sua influncia  evidente em figuras como J. *Wiclef (1330-1418),

Marslio de Pdua / 377

J. Huss (1370-1415), Jernimo de Praga (13701416) e inclusive no mesmo movimento reformador de Lutero. Nasceu em Praga e morreu em Munique. Sua vida acadmica esteve 
vinculada  Universidade de Paris, onde estudou e de onde foi reitor (13121313). Aqui mesmo fez amizade com Jean de Jandum, um dos principais "averrostas latinos" 
da poca. As denncias por essa amizade e colaborao na obra de Marslio, Defensor pacis (1324), obrigaram ambos a refugiar-se em Nrenberg (1327), na corte de 
Lus da Baviera. Embora includo comumente dentro da corrente "averrosta", Marslio no se destacou nunca nas pesquisas de filosofia natural e metafsica, mas sim 
na filosofia poltica e em seu propsito de reforma religiosa. Por essas causas passou  histria. Fruto desta opo poltica so suas duas obras principais: Defensor 
pacis (Paris 1324) e Defensor minor (por volta de 1341-1342). -- Defensor pacis estabelece, pela primeira vez, a doutrina do Estado em coerncia vigorosa desde a 
teoria aristotlica, e em oposio substancial  doutrina poltica de Santo Toms. Neste Estado, auto-suficiente e particular: a) O poder decisrio corresponde  
comunidade que, em funo de "legislator humanus", exerce-o legislando e deliberando. b) A administrao efetiva do Estado -- poder executivo e sindical -- foi confiada 
 comunidade por eleio de um rgo: a um magistrado individual ou a um colgio restrito, que o exerce sob o controle da comunidade. c) As leis positivas so as 
nicas que regulam a vida dos cidados. d) Em conseqncia, as leis naturais -- e as mesmas leis divinas -- perdem toda relevncia. Reduzem-se a um simples dever 
de conscincia, sem vinculao jurdica alguma. Dentro da harmonia dessa estrutura jurdica do Estado, o papado e a Igreja de Roma no so mais do que uma desordem 
e ameaa  tranqilidade da "policia civilis". Em conseqncia, na segunda parte de sua obra estabelece uma disputada polmica contra a

378 / Martn Descalzo, Jos Luis

Cria Romana. Nela pretende: a) Separar a hierarquia sacerdotal da "ecclesia fidelium". b) Identificar a sociedade civil com a comunidade dos fiis, confiando a 
um administrador fiel os assuntos religiosos. c) Reduzir o sacerdcio a uma simples funo de cada Estado. Com isso, tenta derrubar o sistema polticoeclesistico 
de seu tempo e a prpria constituio da Igreja. E, finalmente, mostra a inutilidade do papado e de seu "universalis episcopatus". -- No Defensor minor , no entanto, 
mais radical ainda, se  possvel. Entre outras idias: a) No se admite a fragmentao definitiva da "respublica christiana" numa pluralidade de Igrejas nacionais. 
b) V no conclio geral, passando por cima da autoridade do papa, o expediente adequado para assegurar a homogeneidade e a unidade dos fiis. c) Discute o problema 
tcnico para convocar o conclio sem recorrer ao papa.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Defensor pacis. Edio crtica de C. W. Previt-Orton, Cambridge 1928; Defensor minor. Edio crtica de C. H. Brampton, Birmingham 1922; El 
defensor de la paz. Traduo espanhola de Luis Martnez Gmez (Clsicos del pensamiento). Madrid 1980.

Martn Descalzo, Jos Luis (1930-1991)
*Literatura atual e cristianismo.

Martinho de Dmio, Abade (sc. VI)
*Sentenas dos Padres.

Marx, Karl (1818-1883)
Filsofo, poltico e economista, Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha). Estudou nas universidades de Bonn e de Berlim, onde foi discpulo de Hegel. Esteve toda a 
sua vida empenhado na luta social e poltica, que exerceu atravs de suas obras, do jornalismo e do contato direto com homens e lderes. Os cenrios de suas ati-

Marx, Karl / 379

vidades foram Paris, Bruxelas e finalmente Londres, onde continuou inspirando e dirigindo o movimento operrio internacional. Morreu nesta ltima cidade. Marx deixou 
uma volumosa produo filosfica, iniciada em sua juventude e mantida ao longo de toda a sua vida. Assinalamos as principais obras: Crtica da filosofia do direito 
de Hegel (1843); Economia e filosofia (1844); A Sagrada Famlia (1845); O manifesto comunista (1845); Teses sobre Feuerbach (1845); A misria da filosofia (1847); 
Crtica da economia poltica (1859); O Capital (trs vols., 1867; os dois ltimos pstumos, publicados por Engels em 1885 e 1895 respectivamente). O ponto de partida 
de Marx  "a reivindicao do homem, do homem existente, em todos os seus aspectos". O que Marx quis realizar foi uma interpretao do homem e de seu mundo, que 
ao mesmo tempo fosse empenho de transformao e, neste sentido, atividade revolucionria. Porm, tal interpretao do homem somente  possvel se o analisarmos em 
suas relaes externas com os demais homens e com a natureza que lhe proporciona os meios de subsistncia. Nada de essncia em abstrato. A personalidade real e ativa 
do homem concretiza-se nas relaes de trabalho em que se encontra. O homem cria-se a si prprio mediante o trabalho. E  o criador no apenas de sua existncia 
material, mas de seu modo de ser ou de sua existncia especfica. Em conseqncia, o trabalho  para Marx a nica manifestao da liberdade. Tudo o que impede a 
realizao do homem no trabalho  considerado por Marx como alienao. Alienao que nada mais  do que a condio histrica na qual o homem vem a encontrarse diante 
dos meios de produo. De fato, a propriedade privada e a sociedade capitalista transformam os meios de produo de simples instrumentos e materiais da atividade 
produtiva humana, em fins aos quais o mesmo homem se submete.

380 / Marx, Karl

A essa conseqncia da alienao, Marx, algumas vezes, chama de "alienao religiosa". Neste sentido, considera a religio como "a imagem de um mundo transtornado", 
isto , um mundo no qual, no lugar do homem real, colocou-se a essncia abstrata do homem. "A religio -- diz Marx --  a teoria geral deste mundo transtornado, 
seu compndio enciclopdico, sua lgica em forma popular, seu point-d'honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sano moral, seu complemento solene, o fundamento 
universal da consolao e da justificao do mesmo" (Crtica da filosofia do direito de Hegel). Neste ltimo aspecto, "a religio  o pio do povo", "a felicidade 
ilusria do povo". No pensamento de Marx: a) A religio -- assim como as ideologias, a filosofia, o Estado, o capital -- so fonte de alienao, porque subtraem 
o homem da vida real, inchando-o com uma vida irreal, inexistente. b) A religio  uma das formas histricas de alienao, porque, alm de afast-lo da realidade 
e de sua prpria identidade, promete ao homem uma felicidade enganosa fora deste mundo e perpetua desta maneira o estado de injustia e de opresso, j que sanciona 
a explorao do homem pelo homem. Na filosofia de Marx, a religio  um superfenmeno, uma super-estrutura humana, nascida do desconhecimento da realidade do mundo 
e do homem. O universo religioso -- Deusesprito-eternidade --  um falso desdobramento do homem, fruto da alienao, tal como j o formulou Feuerbach. O universo 
real  a matria; tudo o que existe explica-se por ela mesma e a partir dela mesma, num duplo processo dialtico conhecido como materialismo dialtico e materialismo 
histrico. O marxismo histrico seguiu a linha imposta pelo mestre. As conversaes entre telogos cristos e marxistas manifestaram essa verdade. A concepo que 
o faz marxismo do mundo e do homem  plana e horizontal, no transcendente. Marx tambm no se ocupou expressamente da

Mateus, Evangelista, So / 381

tica. De sua filosofia, deduzimos a negao radical que faz da moral platnica e crist e seu repdio ao jusnaturalismo, como abstratos e alienantes. Cabe sim falar 
de uma tica marxista no sentido de que, dada a concepo do homem social, a procura da libertao efetiva do homem no pode coincidir menos com a procura da libertao 
de todos os homens: a libertao dos demais  inseparvel da minha.
BIBLIOGRAFIA: G. Rodrguez de Yurre, El Marxismo (BAC), 2 vols.; Id., El marxismo y marxistas (BAC popular); Medelln, reflexiones en el CELAM (BAC); R. Alves, Cristianismo, 
opio o liberacin? Salamanca 1973.

Mater et Magistra (1961)
*Joo XXIII.

Mateus, Evangelista, So (sc. I)
Apstolo e evangelista. Em Mt 10  apontado como "publicano". Foi chamado por Cristo ao apostolado (Mt 9,9). No evangelho de Mc e de Lc chamam-no Levi. No se pode 
identificar o autor do primeiro evangelho com a pessoa do apstolo Mateus. Papas, no entanto, afirma que Mateus fez uma coletnea das palavras de Cristo em hebraico. 
Tradicionalmente vem sendo identificado com o autor do primeiro evangelho sinptico. A data de composio do evangelho de Mt  calculada entre os anos 80-90. O destino 
do mesmo  uma comunidade de lngua grega e de maioria judaico-crist. Provavelmente foi composto em Antioquia por um judeu-cristo de lngua grega, com possvel 
formao rabnica, que redigiu as palavras de Jesus, aproximando-as de sua mentalidade, proclamando-o ao mesmo tempo Messias para todas as naes. Mateus apresenta 
o Messias vindo a seu povo, porm este o repele. A mensagem de Jesus, no entanto,  destinada a todos os homens. As promessas feitas a Israel no Antigo Testamento 
es-

382 / Mateus, Joo

tenderam-se  humanidade inteira. A figura de Jesus  a do Messias Salvador enviado por Deus. Ele  intrprete da lei divina, e a interpreta de uma forma radical, 
libertando-a da tradio que a sufocava, e colocando em destaque sua nica exigncia profunda, o amor ao prximo. O confronto contnuo com os letrados e fariseus 
quer livrar os cristos de qualquer tentao de volta  observncia e s instituies judaicas.
BIBLIOGRAFIA: P. Bonnard, El evangelio segn san Mateo. Traduo de Pedro R. Santidrin, Cristiandad, Madrid 1975; J. Mateos, El evangelio de Mateo. Leitura comentada, 
Madrid 1981.

Mateus, Joo
*Teologia atual, Panorama da.

Mauriac, Franois (1885-1970)
*Literatura atual e cristianismo.

Mximo, o Confessor, So (580-662)
Nascido em Constantinopla, foi o telogo bizantino mais importante do sc. VII, comentarista e seguidor da doutrina mstica do PseudoDionsio. Sua obra, no entanto, 
centrou-se na defesa da doutrina cristolgica dos padres gregos. Influiu poderosamente na teologia e mstica da Idade Mdia. Deste grande cristo, o que primeiro 
devemos resenhar  a sua prpria vida. Secretrio do imperador Herclio I, deixou seu cargo em 613 para empreender uma vida monstica prxima de Crispolis (Bitnia). 
Fugindo da invaso persa de 626, dirigiu-se ao norte da frica, onde tomou parte da controvrsia monotelista em Cartago. Decididamente inclina-se para dupla vontade, 
divina e humana, na nica pessoa de Cristo, e a defende. Em 645, enfrentou-se com o patriarca Pirro de Constantinopla, exilado em Cartago, diante de quem defendeu 
a dupla vontade de Cristo contra

Mximo, o Confessor, So / 383

os monotelistas e os monofisitas. Chamado a Roma em 649, tomou parte muito direta e ativa no snodo local que, presidido pelo Papa Martinho I, proclamou a doutrina 
da dupla vontade de Cristo frente aos monotelistas. Como conseqncia disto, tanto Mximo quanto Martinho foram presos e torturados pelo imperador Constantino II. 
O Papa Martinho foi exilado. Mximo foi capturado e levado de novo a Constantinopla, onde esteve na priso de 653 a 655. Durante esse tempo, foi pressionado e torturado 
para que aceitasse a doutrina da nica vontade em Cristo. O exlio foi a resposta  sua negativa. Em 661 foi trazido novamente a Constantinopla para ser submetido 
a novas prises e torturas. Diz-se que lhe cortaram a lngua e o brao direito por no ceder s exigncias do poder imperial. Isto lhe valeu um ltimo exlio, prximo 
do mar Negro, onde morreu em 662. So Mximo  conhecido com o ttulo de "O Confessor", sem dvida por sua atitude valente e sincera na defesa da ortodoxia. Seu 
nome est vinculado aos padres gregos que o precederam na defesa da mesma. Sua doutrina ficou sancionada no Conclio de Constantinopla em 680-681. Conhecido tambm 
como o "pai da teologia bizantina", So Mximo escreveu perto de 90 obras importantes sobre diversos temas, mas principalmente em torno da teologia cristocntrica 
e do misticismo. A maioria das obras de So Mximo aparece em forma de comentrio ou de coleo de mximas. Entre suas obras destacam-se os Opuscula theologica et 
polemica. Os Ambigua (comentrios das obras de So Gregrio Nazianzeno), e os Scholia (comentrios ao Pseudo-Dionsio). Nesses trs tipos de obras, o centro das 
especulaes teolgicas de So Mximo  o Deus-homem. "Para ele, o logos  a razo e o fim ltimo de tudo o criado. A histria do mundo encerra um duplo processo: 
o da Encarnao de Deus e o da divinizao do homem. Esse ltimo processo pode iniciar-se graas  Encarnao para restabelecer

384 / Mbiti, John

no homem a imagem de Deus. Como princpio deste segundo processo, Cristo deve, necessariamente, ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. As duas naturezas no se 
mesclam nele, nem rompem a unidade de sua pessoa. Posto que a cada uma delas est unida a capacidade de querer, em Cristo subsistiam duas vontades: a divina e a 
humana; porm a vontade humana era conduzida  deciso e  ao pela vontade divina" (PG 19, 48). Em seu 400 capita de caritate, So Mximo prope um humanismo cristo, 
calcado na vida diria e na caridade. "O homem pode conhecer Deus, no em si mesmo, mas somente atravs das coisas criadas, das quais Deus  causa." "Em seu ser 
em si, Deus  inconcebvel e inefvel. No obstante, se damos as costas s paixes que contrastam com a razo e nos elevamos at o perfeito amor de Deus, podemos 
alcanar um conhecimento de Deus que transcende a razo e o procedimento discursivo e no qual Deus se revela imediatamente." "Ao conhecimento de Deus no se pode 
chegar com a capacidade da natureza humana, mas pela graa divina; contudo, esta no opera por si s, mas eleva e aperfeioa a capacidade prpria do homem."
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 90-91.

Mbiti, John (1931-)
*Libertao, Telogos da.

Medelln, Documento de (1968)
*CELAM.

Medina, Bartolomeu de (1527-1580)
Telogo e moralista dominicano.  conhecido como o "pai do probabilismo". Em seu comentrio  Summa Theologica de Santo *Toms

Melanchton, Philipp / 385

defende estas duas proposies: 1) Quando h duas opinies, ambas igualmente provveis, podese seguir qualquer delas. 2) Quando h duas opinies no igualmente provveis, 
pode-se seguir a menos provvel. A doutrina de B. de Medina foi muito discutida e passou a ser durante os sc. XVII-XVIII a doutrina seguida pelos jesutas. Contra 
essa corrente moral surgiram o probabiliorismo de tendncia rigorista e o equiprobabilismo de Santo Afonso de Ligrio (*Ligrio, Santo Afonso Maria de).

Melanchton, Philipp (1497-1560)
Telogo, reformador e educador, conhecido como "Mestre da Alemanha" por ter reorganizado todo o sistema educativo alemo, fundando e reformando vrias universidades. 
Dois traos fundamentais acompanham toda a sua vida. Por herana paterna recebeu um sentimento de profunda piedade que jamais o abandonou. De sua aldeia local, Bretten, 
onde cinco pessoas foram queimadas como bruxas em 1504, adquiriu um sentido do oculto e misterioso que seus estudos bblicos posteriores relacionaram com as estrelas, 
os sonhos e os demnios. Sempre foi um crente apaixonado pela astrologia e pelos demnios. O segundo trao  o do humanista, influncia de seu tio, o grande hebrasta 
e humanista, J. Reuchlin. Seu amor pela literatura clssica, latim e grego, levaram-no a trocar o seu nome alemo de Schwarzerd pelo equivalente grego Melanchton: 
"terra negra". Considerado j em seu tempo como o grande humanista da Alemanha, em 1518 ingressou como primeiro professor de grego na Universidade de Wittenberg, 
depois de ter estudado nas Universidades de Heidelberg e Tubinga, conseguindo o ttulo de mestre em artes. Aps quatro dias de sua estada em Wittenberg, exps o 
seu programa de retorno s fontes clssicas e crists "para regenerar a teologia e rejuvenescer a sociedade".

386 / Melanchton, Philipp

Em Wittenberg encontrou Lutero, de quem nunca mais se separou. Uma mtua empatia e simpatia uniu a sorte e o destino destes homens, um impetuoso como um vulco, 
o outro manso como um riacho. Nos finais de 1519, Lutero conseguira fazer de Melanchton o melhor telogo da Reforma e o homem mais adequado para seus propsitos 
reformadores. Da para a frente seria seu porta-voz e homem de relaes pblicas diante do imperador e diante de Roma. Seu sentido conciliador o levou, no entanto, 
a posturas incmodas at parecer traidor da doutrina do Reformador, sobretudo em temas como a Eucaristia e as boas obras. Assim como a sua vida, a sua obra  totalmente 
dedicada  Reforma. A instncias de Lutero, Melanchton passou a explicar a Carta de So Paulo aos Romanos. Imediatamente depois publicou (1521) sua principal obra 
teolgica: Loci communes, o primeiro tratado sistemtico do pensamento protestante. Trata do pecado, da lei, da graa, do livre-arbtrio, dos votos, da confisso. 
Apoiado na Escritura, Melanchton afirma "que o pecado  algo mais do que um ato externo, afeta a vontade do homem e suas emoes, de forma que o homem no pode praticar 
o bem nem merec-lo diante de Deus. O pecado original  uma propenso natural, um impulso desordenado que se estende a todas as aes humanas. A graa de Deus consola 
o homem, e as obras deste, embora imperfeitas, so uma resposta alegre e agradecida  benevolncia divina". O livro teve um xito impressionante: trs edies num 
ano. Em 1525, 18 edies, alm de uma edio alem. A edio de 1558, dois anos antes da morte de Melanchton, apareceu muito ampliada e modificada. Os temas da Eucaristia 
e as boas obras sofreram em Melanchton mudanas importantes. -- Melanchton esteve presente na Dieta de Espira (1529), quando se originou o termo protestante, nascido 
em nome da liberdade de conscincia. A partir deste momento, ser porta-voz dos protestantes diante do imperador e dos dele-

Melanchton, Philipp / 387

gados de Roma. A ele se deve a redao da Confisso de Augsburgo, a Confessio Augustana, de tom moderado. No ano seguinte (1531), escreveu a Defesa ou Apologia da 
Confisso de Augsburgo, que cedo se transformaram nos documentos oficiais ou confisses de f luterana. A estes acrescentou-se um terceiro documento, posto como 
apndice aos artigos de Smalkalda (1536), Apndice sobre o papado, em que se repele, histrica e teologicamente, qualquer primazia papal por direito divino. Na edio 
de 1540 da Confisso de Augsburgo, Melanchton trocou o n. 10 dos 21 artigos que o documento contm, o que se refere  Eucaristia. Afastando-se de Lutero, expressa 
o pensamento calvinista da presena simblica de Cristo no po e no vinho. Essas confisses, junto  Frmula de Concrdia, redigida em 1577, depois da morte de Melanchton, 
constituem os documentos de f luterana (*Confisses de f). -- No termina aqui a obra de Melanchton. Temos seus comentrios s Cartas aos Corntios, aos Romanos, 
aos Colossenses etc. E sobretudo as Instrues aos visitadores (1528), em que alm das instrues aos vigrios, faz-se uma exposio da doutrina evanglica e se 
esboa um esquema de educao para os graus inferiores. Com esse e outros livros de texto, Melanchton transformase no primeiro educador da Alemanha e organizador 
da Reforma. Sua capacidade literria, sua clareza de pensamento e seu estilo elegante fizeram-no o "escriba" da Reforma. Foi tambm o porta-voz e o representante 
dos evanglicos diante dos adversrios. No quis, ou no conseguiu, libertar-se totalmente de Lutero, mas modificou algumas de suas posies primeiras. Como dissemos, 
tais modificaes referem-se  Eucaristia, ao papel do homem na converso e ao lugar das boas obras.
BIBLIOGRAFIA: Obras, em Corpus Reformatorum, vols. 1-28, Hale 1834-1860: Ricardo Garca Villoslada, Martn Lutero, (BAC maior), 2 vols.; Id., Races histricas del 
luteranismo (BAC), 1969.

388 / Mndez Arceo, Sergio

Mndez Arceo, Sergio (1907-)
*CELAM.

Menndez y Pelayo, Marcelino (1856-1912)
*Literatura atual e cristianismo.

Mercier, D. J. (1851-1926)
*Neo-escolsticos; *Teologia atual, Panorama da.

Mersenne, J. (1588-1648)
*Cincia e f.

Merton, Thomas (1915-1968)
Escritor religioso e mstico norte-americano. Estudou na Universidade de Cambridge, doutorando-se na de Colmbia. Em 1938 converteu-se ao catolicismo, ingressando 
em 1941 no mosteiro trapista de Gethsemani (Kentucky). Merton iniciou-se como escritor religioso, expondo a sua prpria experincia pessoal da converso na Montanha 
dos sete patamares (1948), que alcanou ampla difuso. Esse primeiro livro permitiu descobrir em Merton um dos grandes escritores cristos de nosso tempo. As obras 
que seguiram, como As guas de Silo (1949); Sementes de contemplao (1949); Ascenso  verdade (1951); O sinal de Jonas (1952); Nenhum homem  uma ilha (1955) 
despertaram nos Estados Unidos e em todo o mundo um interesse pela vida e pela espiritualidade monstica muito poucas vezes conhecido. Outros escritos de Merton 
destinam-se a conhecer o misticismo oriental no Ocidente. Pode ser considerado como um dos promotores e pioneiros da difuso dos mtodos de orao oriental

Metz, Johann Baptist / 389

nas comunidades catlicas da Amrica. Neste campo deixou-nos sua obra Msticos e mestres do zen (1967). Os ltimos anos esto marcados por essa atividade de estudo 
e de relao com as religies do Oriente. Morreu precisamente em Bangkok quando participava de conversas ecumnicas com budistas. A preocupao e o interesse de 
Merton no termina aqui. Desde a sua vocao trapista de trabalho e contemplao, aproxima-se da sociedade e do mundo de hoje com uma mensagem de transcendncia 
e de paz, fruto da orao interior. Ainda teve tempo para preocupar-se com o problema racial americano em sua ltima obra F e violncia (1968). A obra espiritual 
de Merton merece uma ateno particular. Suas Sementes de contemplao bastariam para consider-lo um dos grandes mestres e clssicos da orao e contemplao. Em 
summa, um grande escritor e poeta, que muito influenciou nos anos cinqenta, e cuja poesia vibrar por muito tempo nos coraes cristos.
BIBLIOGRAFIA: Quase toda a obra de Th. Merton foi traduzida para o portugus.

Metafrastes, Simeo (sc. X)
Conhecido tambm como "Logothetes"; hagigrafo bizantino que deve sua fama  coleo de vidas de santos ou Menologion. Seguindo o calendrio do Oriente, traou as 
vidas dos santos, algumas delas tomadas de colees anteriores. Outras foram "metafraseadas" -- da o nome do autor --, isto , transformadas, escritas com um estilo 
ao gosto do tempo. O Menologion foi durante muito tempo a obra clssica da piedade popular oriental e ortodoxa. Ao longo da histria, sofreu adies e amplificaes.

Metz, Johann Baptist (1928-)
Nasceu em uma pequena aldeia da Baviera (Alemanha). Mais conhecido dos estudiosos do

390 / Metz, Johann Baptist

que do grande pblico, figura, entretanto, junto aos grandes da cultura alem empenhados em desvendar a crise do homem contemporneo. Sua atividade dividiu-se entre 
a ctedra, o estudo, conferncias e viagens do Leste at a Amrica Central. Muito vinculado  *Teologia da Libertao, da qual  inspirador,  o criador da teologia 
poltica, estreitamente unida a vrios movimentos, e especialmente  rebelio das aulas que sacudiu estudantes e professores em maio de 1968. "Cronologicamente -- 
diz -- a teologia poltica nasceu antes do maio francs e da rebelio dos estudantes. A partida de minha colocao coincide com o momento em que me pergunto como 
 possvel fazer teologia de costas para Auschwitz e para o Holocausto final. Porque no meu pas continuavam rezando e teologizando como se nada tivesse acontecido. 
Jurei para mim mesmo no fazer teologia de costas s dores e aos males dos homens." Metz descobriu que, por trs de todo esse silncio, est a chamada religio burguesa. 
"Percebi -- continua dizendo -- que Auschwitz no  um assunto interno dos alemes. Aquilo foi uma catstrofe crist. Mas se os cristos -- includa a teologia -- 
calaram-se, no foi por acaso. O cristianismo transformou-se num discurso legitimador de uma determinada cultura, onde a religio perdeu toda a capacidade criativa 
para resolver as ameaas que pesam sobre a humanidade. O Deus da religio burguesa est morto e no reage sequer diante do holocausto final. Esse Deus  capaz de 
fazer tremer, mas no  digno de ser suplicado, nem exige nada, nem intervm, nem consola, nem nada.  somente um valor que legitima a identidade burguesa. Em nossa 
sociedade, Deus  o pio, mas no dos pobres, como queria Marx, mas sim dos poderosos que fazem das propriedades o seu futuro." O discurso de Metz vai alm at afirmar 
"que entramos no desmoronamento de uma civilizao forjada no Renascimento e no Iluminismo". Reconhece, mesmo assim, que a religio tem algo

Metz, Johann Baptist / 391

a dizer neste momento. "A religio crist, quando no se dilui em desvirtuados secularismos, a religio messinica, leva consigo sempre uma profecia poltica, que 
no anuncia um final corde-rosa mas a catstrofe final. O profeta no diz: "Se fizerem isso alcanaro o paraso", porm diz: "Se no fizerem isso, caminham para 
o desastre". A profecia implica ruptura, resistncia, converso. Ou melhor, a poltica do uso desconhece a categoria de ruptura. Isso me parece muito srio porque 
o pior que pode acontecer  que as coisas continuem como esto: assim vamos ao paroxismo dos conflitos que apontam por todos os lados". s objees surgidas a essa 
concepo da cultura moderna por parte da teologia poltica, Metz traz uma tripla resposta: 1) A teologia poltica no  nem pode ser uma alegao em favor de uma 
eutansia da tcnica. "O que pretendo  uma confrontao produtiva com idias dominantes como as de progresso, continuidade, desenvolvimento etc., que no nos levam 
ao futuro, mas ao rompimento." 2) A teologia poltica tambm no advoga por uma nova forma de teocracia. Porque a novidade da teologia dos anos oitentas -- diferentemente 
das pocas anteriores --  que apareceu um sujeito-chave: as comunidades de base, que podem ser um lugar social modelo, onde a vida poltica se personaliza em novas 
exigncias morais e onde a vida pessoal se prolonga na vida poltica com toda a sua incidncia social. Aqui se faz evidente que os contedos contemporneos da religio 
crist, como o pecado, a converso do corao, o sacrifcio etc., alm de se oporem a uma interpretao simplesmente intimista, contm uma carga poltica muito maior 
do que seus correlatos secularizados. 3) Finalmente, no acaba com esses movimentos de base -- carismticos, pentecostalistas e muitas outras variantes -- que se 
confessam expressamente apolticos. Para Metz, "a espiritualidade crist  propriamente tal quando no  exclusivamente religiosa. Jamais crucificariam Jesus por 
um comportamento simplesmente espiritualista. Eu me

392 / Migne, Jacques Paul

refiro ao que est acontecendo na Amrica Latina, que se transformou no centro da catolicidade do cristianismo e de onde est chegando a II Reforma do cristianismo". 
O que afirma Metz sobre a relao existente entre religio e cultura? H lugar para as notcias de Deus numa sociedade tcnica e industrial? Pode-se falar j de 
um ps-cristianismo? "Na Europa -- responde -- existe uma relao muito deteriorada entre religio e cultura. Historicamente, a religio tem procurado falsos aliados; 
da o antagonismo entre religio e cultura. Creio, no entanto, que dado o carter universal do cristianismo, a relao entre religio e cultura no se propaga cingindo-nos 
exclusivamente na Europa. O que acontece no Terceiro Mundo  definitivo. Se no se consegue ali uma nova relao entre religio e libertao, no vejo nada clara 
a resposta.
BIBLIOGRAFIA: La fe, en la historia y en la sociedad. Esbozo de una teologa poltica fundamental para nuestro tiempo. Cristiandad, Madrid 1979; Id., Teologa del 
mundo, Sgueme, Salamanca 1970; J. B. Metz-A. Exter-W. Dirks, La nueva comunidad. Sgueme, Salamanca 1970.

Migne, Jacques Paul (1800-1875)
O nome de Migne est vinculado  edio de duas grandes colees de textos cristos, assim como  publicao de dicionrios. Das colees de textos e obras resta-nos 
o sua monumental Patrologia Latina (PL), um conjunto de escritores eclesisticos latinos que chegou at Inocncio III no sculo XIII. Consta de 221 volumes, publicados 
entre 1844 e 1864. Junto a esta se coloca a Patrologia Graeca (PG), de escritores gregos, que cobre o perodo que vai do sculo I at 1439. Consta de 162 volumes 
e foi publicada entre 1857 e 1866. Tais colees ainda so imprescindveis para a leitura e o estudo da literatura e de textos cristos. Apesar do surgimento de 
outras colees mais crticas das fontes crists, as colees de

Milenarismo / 393

Migne continuam sendo mencionadas com preferncia.

Mguez Bonino, Jos (1924-)
*Libertao, Telogos da.

Milcades (+314)
*Apologistas.

Milenarismo
Sonho de uma felicidade terrena, mil vezes combatida e mil vezes renascida, o milenarismo alimenta-se de um texto do Apocalipse (20,2-15), no qual o evangelista 
*Joo narra a viso de um reino que durar mil anos, durante o qual Satans ser acorrentado e os justos, que sofreram perseguio e martrio, ressuscitaro para 
reinar com Cristo. "Ditosos e santos, escreve Joo, os que tenham parte nesta primeira ressurreio" (v. 6). Ser, de fato, a primeira ressurreio e a penltima 
fase da histria do mundo. Depois desse perodo de mil anos, Satans ser solto novamente e seduzir as naes, mas o seu domnio no ser mais do que passageiro, 
porque ser devorado por um fogo do cu; o mesmo acontecer com todos os seus partidrios. Os justos, no entanto, e todos os mortos conhecero a ressurreio. Um 
juzo geral marcar o fim do mundo e a inaugurao de "um novo cu e uma nova terra". Essa crena num millenium -- perodo de mil anos, chamado tambm quiliasmo, 
do grego khilioi, mil -- conheceu um xito verdadeiramente surpreendente desde os primeiros sculos do cristianismo. De fato, a vinda de Cristo no tinha cumulado 
todas as esperanas; sua vida acabara na vergonha e na disperso de seus discpulos. A esperana da realizao completa de seu reino -- "mil anos" poderia ser interpretada 
ao p da letra ou poderia ser interpretada simbolicamente -- no

394 / Milenarismo

seria suprimida, mas demorada. Os crentes que padeciam as perseguies nela encontravam um motivo de alento e de perseverana na prova. Essa mesma crena inventava 
o sonho do messianismo, isto , da espera de uma salvao por sua vez coletiva, terrestre, iminente, total e sobrenatural, j presente na tradio judaica e que 
adquiriu um novo esplendor depois da runa de Jerusalm (70 d.C.). Por essa razo, uma srie de autores cristos dos trs primeiros sculos deixaram-se seduzir por 
essa iluso, enquanto que So *Jernimo e Santo *Agostinho dedicam-se a combater tal interpretao do *Apocalipse conforme o sentido literal. Contudo, o movimento 
milenarista no morre. Vemo-lo renascer na Idade Mdia com *Joaquim de Fiore, e o movimento ao qual d seu nome, o joaquinismo. Hoje mesmo aparece com toda pujana 
ao abrigo das correntes milenaristas -- mrmons, adventistas, testemunhas de Jeov, darbistas -- e mil outros movimentos e seitas. Esses movimentos milenaristas 
jogam com o desenvolvimento dos crentes e dos no-crentes frente s desgraas e s injustias de nossa sociedade. Junto a estes tambm devemos colocar a literatura 
atual pseudognstica e apcrifa (*Gnsticos, *Apcrifos), destinada ao consumo da curiosidade e da demanda de leitores cada dia mais preocupados com o sobrenatural. 
Devemos dizer, para concluir, que essa corrente no se justifica nem do ponto de vista da Bblia nem da teologia. Nenhuma palavra de Cristo faz aluso a perodo 
algum de mil anos nem a uma ressurreio parcial dos justos. Sua vinda no final dos tempos coincide com o juzo definitivo e universal (Jo 5,28-29). E embora o milenarismo 
no tenha sido rechaado de uma maneira explcita por parte da Igreja, no se coaduna com a f crist, que acredita na vinda de Cristo nos finais dos tempos. No 
se pode admitir uma terceira volta provisional que, por outra parte, resulta suprflua. Da mesma maneira, no se coaduna com a doutrina crist esse mundo imaginrio 
criado

Modernismo / 395

pela literatura milenarista, embora proposto por autores literrios de fama mundial ou seus livros se transformem em "best-sellers". Seu xito est mais vinculado 
ao sensacionalismo dos leitores ou espectadores do que  verdade da doutrina. Como se entendem os "mil anos" de que fala o Apocalipse? O Apocalipse  uma mensagem 
de esperana para os cristos do sculo I, vtimas das perseguies, e para os crentes de todas as pocas. Com sua ressurreio, Cristo j inaugurou o seu Reino. 
Nesse Reino, seus discpulos perseguidos encontram fora, vida e alento para superar toda prova. A luta dos cristos realiza-se entre as foras do bem e do mal. 
A esperana da vitria final do bem sobre o mal apia-se na vitria de Cristo sobre a morte e o pecado. Essa esperana o conduz ao Reino ltimo e definitivo com 
Cristo, depois da segunda vinda. O Apocalipse que, por seu gnero literrio,  construdo de imagens e smbolos, deve ser lido por cima e para alm destes a fim 
de poder captar o sentido profundo do texto.
BIBLIOGRAFIA: F. J. Nocke, Escatologa. Herder, Barcelona 1984; Jos L. Ruiz de la Pea, La otra dimensin. Sal Terrae, Santander 1986; J. B. Libnio-M. C. L. Bingemer, 
Escatologa cristiana. EP, Madrid 1985; J. Moltmann, Teologa de la esperanza. Sgueme, Salamanca 1969.

Milito de Sardes (sc. II-III)
*Apologistas.

Mincio, Flix (c. 170)
*Apologistas.

Miret Magdalena, Enrique
*Literatura atual e cristianismo.

Modernismo
*Loisy; *Teologia atual, Panorama da.

396 / Mogila, Pedro

Mogila, Pedro (1597-1646)
*Catecismo.

Molina, Lus de (1535-1600)
Jesuta espanhol nascido em Cuenca. Criador do sistema teolgico conhecido como "molinismo". Entrou na Companhia de Jesus em Coimbra, onde ensinou filosofia e teologia 
(15531562). Nesta mesma universidade e na de vora, ensinou teologia de 1563 a 1583. Trs obras fundamentais saram de sua pena: Concordia liberi arbitrii cum gratiae 
donis (15881589), sem dvida a obra principal e mais conhecida de Molina. Seguiram-lhe os Comentrios  Primeira parte de Santo Toms (1592). E finalmente seu tratado 
De iure et iustitia (Sobre a lei e a justia), 6 vols., publicados de 1593 a 1609, alguns depois de sua morte. O molinismo suscitou uma grande polmica nos sculos 
XVI-XVIII, em toda a Igreja, particularmente entre dominicanos e jesutas. Boa parte dos melhores telogos estiveram enredados numa luta estril e paralisadora. 
De nada serviram as reunies de ambos os grupos em Roma (1598-1607) para pacificar e aquietar os nimos. O molinismo situa-se no ponto mdio entre a premoo fsica 
(dominicanos) e a tese extrema agostiniana. Segundo Molina, no se pode considerar o livre-arbtrio como algo fsico e intrinsecamente determinado. A criatura fsica 
no  inteiramente determinada para o bem ou para o mal, mas pode, em ltimo palavra, decidir se exerce ou no a correspondente faculdade de deciso. Segundo Molina, 
Deus exerce uma ao sobre a liberdade humana atravs do "concurso simultneo", o qual afeta  prpria constituio do livre-arbtrio e ainda a seus movimentos, 
mas no a sua "indiferena". Deus conhece o que far o homem, justamente porque sabe o que pode fazer em todos os mundos possveis em que est colocado. Segundo 
o tomismo, essa soluo no

Molinos, Miguel de / 397

satisfaz nem os direitos da criatura nem os de Deus. "Quanto  moral e ao direito, Molina  dos autores mais importantes de sua poca. Por sua contribuio com os 
problemas da guerra, do direito das pessoas e das relaes entre a Igreja e o Estado, pode ser contado entre os fundadores do direito internacional" (Diccionario 
de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Estudios sobre L. de Molina, em V. Muoz, Zumel y el molinismo, 1953.

Molinismo (sc. XVI-XVII)
*Molina, Lus de.

Molinos, Miguel de (1628-1696)
A pessoa e a obra de Miguel de Molinos vm sendo conhecidas paulatina, porm progressivamente, ao longo deste sculo. Sua obra, que teve uma enorme influncia antes 
de ser proibida pelo Santo Ofcio (1688), caiu no esquecimento praticamente at nossos dias. Esse original aragons nasceu em Muniesa (Saragoa). Depois de realizados 
seus estudos no colgio de So Paulo dos jesutas, ordenou-se presbtero e foi enviado a Roma na qualidade de procurador da causa de beatificao do padre Rojas 
(1665). Na cidade santa, passou praticamente o restante de seus dias at a sua morte no crcere da Inquisio. A direo espiritual a pessoas particulares, a grupos 
de leigos e religiosos  a atividade fundamental deste sacerdote em Roma, atividade que realizou de viva voz, no contato direto de alma a alma, atravs de cartas, 
e posteriormente atravs dos livros. Fruto desta atividade so suas inumerveis cartas -- no processo contra ele foram examinadas mais de 20.000 -- e suas obras 
escritas. Em 1675 publicou em Roma o Guia espiritual que livra a alma e a conduz pelo caminho interior para alcanar a perfeita contemplao e o rico

398 / Molinos, Miguel de

tesouro da paz interior. Nesse mesmo ano publicou o  tratado da comunho cotidiana. E no ano seguinte (1676), Cartas a um cavaleiro espanhol para anim-lo a 
fazer orao mental, oferecendo-lhe modos para exercit-la.  enorme a popularidade e a influncia que desde esse momento adquiriu Molinos. De 1676 a 1782 surgiram 
as polmicas em torno do *quietismo. Em 1678 apareceu a primeira refutao do Guia por Bell'Huomo e, em 1680, a Concrdia de Segneri contra Molinos. Instncias maiores 
como a do cardeal Csar de Estres denunciaram o Guia diante da Inquisio. Em 1585, quando se encontrava no auge da popularidade e da influncia, e sendo papa o 
seu amigo Inocncio XI, Molinos foi preso. Acusaram-no de difundir o quietismo em crculos secretos, de defender a licitude dos atos carnais -- "o espiritual no 
peca" -- e de induzir a desprezar os crucifixos e os demais smbolos religiosos. Molinos reconheceu a segunda acusao, confessando atos sexuais prprios e alheios. 
Nesse mesmo ano comeou o processo contra Molinos, em que foi acusado de heresia. Pronunciaram-se mais de 70 testemunhas e foram encarceradas na Itlia (1686) mais 
de 200 pessoas acusadas de quietismo. Em 1687, encerrou-se o processo, sendo Molinos condenado  priso perptua. Veio em seguida a abjurao solene de Molinos, 
que se viu condenado a no se confessar mais do que quatro vezes por ano, a rezar diariamente o Credo e uma parte do rosrio, e a usar continuamente um hbito de 
penitente. Em 1688, Inocncio XI condenou o molinismo na bula Coelestis Pastor, coletando as 68 proposies que resumiram a acusao contra Molinos. Depois de nove 
anos de crcere, Molinos morreu, prisioneiro da Inquisio. O sumrio de seu processo est na Biblioteca Vallicelliana, e suas cartas nos arquivos da Congregao 
para a Doutrina da F. -- Pode-se resumir a doutrina de Molinos? Num esquema muito breve, podemos faz-lo nos seguintes pontos: a) A perfeio consiste na completa 
aniquilao de si mesmo. b) A isto se chega

Moltmann, Jrgen / 399

pela contemplao passiva, na qual a alma pode perseverar por tempo indefinido, estando totalmente passiva e renunciando a toda atividade prpria e natural. c) Neste 
estado consegue-se uma indiferena total e no h que se preocupar com atos exteriores de asctica. d) Como conseqncia, a parte superior, unida a Deus na contemplao, 
no  responsvel por tudo o que ocorre na parte inferior. e) O espiritual no peca; os pecados da carne so permitidos passivamente para aprofundar mais na quietude 
de Deus. -- "So *Joo da Cruz e Molinos parecem ter tomado por modelo de sua experincia mstica as experincias terrenas do amor e da fome... Para So Joo da 
Cruz, o tempo da vida terrena tem a forma de tormento de amor, de sofrimento da separao e de sofrimento do no poder amar cada vez mais, at atingir a medida infinita 
do amor. Para Molinos, o tormento de estar separado de Deus apresenta-se como fidelidade total ao objeto eterno e desprezo absoluto pela existncia terrena" (S. 
Gonzlez-Noriega).
BIBLIOGRAFIA: M. Marcelino Menndez y Pelayo, Historia de los heterodoxos espaoles, II (BAC); H. Hatzfeld, Estudios literarios sobre mstica espaola. Gredos, Madrid 
1968; J.-R. Armogathe, Le quietisme. Paris 1973; Gua espiritual. Ed. de S. Snchez Noriega, EN, 1977.

Moltmann, Jrgen (1926-)
Nasceu em Hamburgo e, de 1945-1948, esteve prisioneiro dos aliados na Blgica e na Inglaterra. Esses anos de priso levaram-no a refletir sobre o sentido da vocao 
crist. A partir de 1952, atuou como pastor da Igreja Luterana. Desde 1967, foi professor de teologia sistemtica na Universidade de Tubinga. Moltmann  um escritor 
prolfico, centrado integralmente em "olhar a teologia sob um ponto de vista particular: a esperana.  uma contribuio sistemtica  teologia, na qual considera 
o contexto e a correlao que os diferentes conceitos tm no campo da teologia".

400 / Moltmann, Jrgen

Suas principais obras so: Teologia da esperana (1964), que o torna conhecido como um dos grandes telogos de hoje na linha de *Barth e de *Bultmann. Nela confirma 
a importncia que a escatologia tem na doutrina do Novo Testamento; a escatologia, no como crena em fatos concretos que devem acontecer nos finais dos tempos, 
mas como fator que modela toda a teologia crist. Tal perspectiva escatolgica do cristianismo  interpretada como promessa, como plataforma para a futura esperana. 
 base para uma transformao antecipada do mundo da nova terra prometida. A meta da misso crist no  simplesmente uma salvao individual, pessoal, nem sequer 
espiritual;  a realizao da esperana da justia, da socializao de toda a humanidade e da paz do mundo. Esse outro aspecto de reconciliao com Deus pela realizao 
da justia foi descuidado pela Igreja. A Igreja deve trabalhar por essa realizao, baseada na esperana futura. O Crucificado (1972) expe a doutrina de Deus a 
partir da perspectiva da cruz. O Deus cristo  um Deus que sofre de amor. No  um sofrimento imposto de fora -- pois Deus  imutvel --, mas um sofrimento de amor, 
ativo.  um sofrimento aceito, um sofrimento de amor, livre, ligado ao Deus sofredor de Auschwitz e do extermnio judeu. A esse livro deve-se acrescentar A Igreja 
no poder do Esprito (1975). Neste estuda a atividade reconciliadora de Deus no mundo, vista sob a perspectiva da Ressurreio, da Cruz e de Pentecostes. "A Igreja 
-- diz Moltmann -- deve estar aberta a Deus, aos homens, e aberta ao futuro tanto de Deus quanto dos homens. Isso pede da Igreja no uma simples adaptao s rpidas 
mudanas sociais, mas uma renovao interior pelo Esprito de Cristo e a fora do mundo futuro." Isso faz com que a Igreja tenha de ser Igreja de Jesus Cristo e 
Igreja missionria. Deve ser tambm uma Igreja ecumnica, que quebre as barreiras entre as Igrejas. E deve ser tambm poltica: a dimenso poltica -- agrade ou 
no -- sempre existiu nela. A *Teologia da Libertao ensina a

Monaquismo, Textos e autores do / 401

Igreja a tomar partido pelos pobres e humilhados deste mundo. Finalmente, em A Trindade e o reino de Deus (1980) estuda o mistrio da Trindade de Deus fazendo "uma 
histria trinitria". Examina a paixo de Cristo e v, no abandono de Cristo na cruz por Deus, o centro da f crist. "Deus  abandonado por Deus." Apia a sua doutrina 
social na "Doutrina Trinitria do Reino", baseada nas idias de *Joaquim de Fiore, elaborando assim uma "Doutrina Trinitria da Liberdade". A obra de Moltmann pressupe 
uma revitalizao e um aprofundamento da teologia crist.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Teologa de la esperanza. Sgueme, Salamanca 1969; Esperanza y planificacin del futuro. Sgueme, Salamanca 1971; La Iglesia, fuerza del Espritu. 
Sgueme, Salamanca 1978.

Monaquismo, Textos e autores do (sc. III-V)
Interpreta-se o monaquismo como uma criao do Egito cristo. Aqui teve seu bero e seu esplendor, embora se estendesse, mais tarde, a outras regies. A tradio 
relaciona sua origem com a perseguio de Dcio (prximo a 250), quando muitos cristos fugiram das regies povoadas do Egito para os desertos, onde permaneceram 
por algum tempo. Outros l se estabeleceram de forma permanente, dando lugar assim  vida dos ermites. Duas caractersticas destacamse na origem do monaquismo: 
o clima ideal para esse gnero de vida prprio da terra do Egito, e o carter campons ou rural dos primeiros eremitas. Destacou-se, com efeito, que seus fundadores 
no foram filsofos, nem homens contaminados pelas idias gregas; foram pessoas no cultas, que quiseram viver seu cristianismo em toda a sua radicalidade. Posteriormente, 
fugiram para o deserto diante do perigo de secularizao que a Igreja corria depois de seu reconhecimento pelo Es-

402 / Monaquismo, Textos e autores do

tado. Combateu-se a difuso da mundanidade, fugindo do mundo. Esse monaquismo de primeira hora ops-se ao saber e  literatura, mas  medida que passaram os anos, 
sua estima pela educao e pelo saber foi crescendo lenta mas constantemente. O monaquismo tambm foi evoluindo em direo a diferentes formas. A mais antiga  o 
anacoretismo ou vida eremtica, isto , em solido; a mais recente, o cenobitismo, ou monaquismo propriamente dito. A partir do sculo IV, apareceu uma nova literatura 
crist criada por ermites e monges. Esse novo gnero literrio era composto de regras monsticas, tratados ascticos, colees de sentenas espirituais dos padres 
do deserto, escritos hagiogrficos e edificantes, sermes e cartas. Dos trabalhos que refletiam somente os ideais da vida espiritual, passaram a compor ensaios de 
histria e teologia. Outros se transformaram em centros eminentes da cincia sagrada. Para a reconstruo desse perodo do monaquismo, contamos com A histria lausaca 
de Paldio e a Histria dos monges do Egito, alm dos dados que nos proporcionam as Histrias eclesisticas de Scrates e Sozomenes. Entre os textos e autores do 
monasquismo, contamos com uma abundante e seleta literatura. O primeiro  *Anto Abade, criador do monaquismo. Anto -- segundo Santo *Atansio, seu bigrafo -- 
era um homem de "sabedoria divina", cheio de "graa e de cortesia", embora jamais tenha aprendido a ler ou escrever. No obstante isto, conservamos suas Cartas e 
Sermes e uma Regra chamada de Santo Anto, que no  autntica. Parece ser uma compilao feita por dois ou mais autores, que lhe deram sua forma atual. Os Sermes 
tambm no parecem autnticos, "embora incendiasse com contnuos sermes o zelo dos que j eram monges e, quanto aos demais, incitava a maioria a amar a vida asctica". 
Pacmio foi o organizador da vida cenobtica no sul do Egito. Convertido  f aos 20 anos, iniciou seu primeiro mosteiro de vida comum na

Monaquismo, Textos e autores do / 403

Tebaida,  margem direita do Nilo (prximo do ano 320). Morreu em 346. Pacmio deixou-nos, fundamentalmente, sua Regra, que teve uma influncia extraordinria em 
toda a legislao posterior da vida monstica. H edies em copta e grego. So *Jernimo traduziu-a para o latim, e por esta edio foi conhecida no Ocidente. Consta 
de 192 sees, geralmente curtas, que tratam, com todos os detalhes, das condies da vida monstica. Muitas se referem ao trabalho manual. Em sua maioria, os monges 
dedicavam-se a tarefas agrcolas; outros exerciam um oficio, mas todo o trabalho manual era considerado servio divino. Uma das regras dispunha que a todos os monges 
lhes determinassem um trabalho em proporo a suas foras. H duas oraes em comum, a da manh e a da noite. No se admite ningum que no saiba ler e escrever, 
e o novio deveria aprender ambas as coisas antes de ser admitido. Mas a originalidade e o valor da regra de Pacmio apia-se, especialmente, em ter dado uma base 
econmica e espiritual  vida comum. Esta descansa nas virtudes monstica de obedincia, castidade e pobreza, praticadas sem nenhum voto. Nesta literatura monstica 
no se pode deixar de lembrar autores to importantes e influentes na vida monstica e na espiritualidade posterior como Teodoro (+368); *Macrio, o Egpcio (300390), 
chamado tambm o Velho ou o Grande, que escreveu as Homilias espirituais, Cartas e principalmente a conhecida como Grande Carta, e outros sete Tratados. Seguiu-lhe 
o seu homnimo, Macrio, o Alexandrino, que morreu no ano 394, quase centenrio.  obrigatrio mencionar aqui *Evgrio Pntico (345-399), "habilidoso nas discusses 
contra as heresias", que quando viu sua alma ameaada por perigos e sua virtude por tentaes, retirou-se para o deserto do Egito (382). "Ganhava seu sustento escrevendo, 
pois escrevia os caracteres Oxyrhynchus de forma excelente". Escreveu muitas e extensas obras e foi o fundador do misticismo monstico e o escritor espiritual mais 
fecundo e interessante do deserto egp-

404 / Monte Athos

cio. Seu misticismo baseia-se em *Orgenes, de quem tambm tomou os erros. Exps sua doutrina em forma de aforismos, imitando, desta forma, a literatura gnmica 
dos filsofos. De suas obras destacamos o Antirrhetikos, "textos seletos da Escritura contra os espritos tentadores". So os espritos que atacam o monge: demnios 
da gula, do adultrio, da avareza, do desalento, da irritabilidade, do fastio, da preguia, da arrogncia etc. Monachikos -- O Monge --, um livro de 100 sentenas 
organizado por captulos. E para os eruditos e estudiosos, Espelho de monges e monjas, que consta de 50 sentenas. E outros como Sobre a orao, Sobre os maus pensamentos. 
E numerosas Cartas. Terminamos considerando Paldio como imprescndivel por sua Histria lausaca para o conhecimento do monaquismo. No ano 388 foi para o Egito, 
onde se relacionou com os monges. Viveu com Macrio e Evgrio. Descreveu o movimento monstico do Egito, da Palestina, da Sria e da sia Menor no sc. IV. , pois, 
uma fonte extremamente importante para a histria do monaquismo antigo. Fecham essas notas sobre o monaquismo as Cartas de Isidoro de Pelsio (+435), "sacerdote, 
correto na f, cheio de sabedoria e de conhecimento bblico". Sua correspondncia revela uma personalidade extraordinria, com educao clssica e uma excelente 
formao teolgica. Suas cartas ultrapassam as 2.000 (*Sentenas dos Padres; *Cassiano).
BIBLIOGRAFIA: G. M. Colombs. El monacato primitivo (BAC), 2 vols., La Regla de San Benito (BAC); R. Molina, San Benito, fundador de Europa.

Monte Athos
*Hesiquia.

Moral casustica
*Instituies morais; *Ligrio, Santo Afonso M de.

Morus, Santo Toms / 405

Moral para confessores
*Antonino, Santo.

Morton, Robinson (1900-)
*Literatura atual e cristianismo.

Morus, Santo Toms (1478-1535)
Lorde chanceler da Inglaterra de 1529 a 1532. Enfrentou Henrique VIII em razo de seu divrcio, renunciando ao cargo de chanceler. Em 1534, negou-se a aceitar a 
ata de Supremacia do prprio rei como cabea da Igreja da Inglaterra. Isso lhe custou o confinamento na Torre de Londres. Depois de 15 anos de crcere, foi julgado 
e condenado pela traio de ter-se oposto  ata de Supremacia. Foi decapitado em 1535. Hoje  um dos santos canonizados pela Igreja catlica. To apaixonante quanto 
sua biografia poltica  sua trajetria como escritor e humanista. Transformou sua casa em Chelsea (Londres) num centro de vida intelectual: *Erasmo, J. Colet, W. 
Grocyn, Luis *Vives, Hans Holbein e outros deram testemunho de sua grande humanidade, deixando-nos a imagem de "a man for all seasons". Morus, de fato, encarna o 
perfeito humanista cristo em sua vida e em suas obras. Sua vinculao ao que mais tarde se chamou de "humanismo cristo" fez dele um clssico, junto a seus dois 
amigos -- Erasmo e L. Vives --, desta corrente de pensamento. -- A fama de sua primeira obra, Utopia (15161517), obra de entusiasmo e de juventude a servio de uma 
nova pedagogia, inspirada no Elogio da loucura de Erasmo, obscureceu o restante de sua obra. De fato, Morus apenas  conhecido como telogo que enfrentou a Tyndale 
e Lutero em suas obras de polmica escriturstica teolgica. Tambm no so conhecidos os seus livros e folhetins de meditao e doutrina espiritual. Desde a Torre, 
suas cartas so modelo de uma litera-

406 / Morus, Santo Toms

tura crist de aceitao da vida e da morte com uma integridade nica e superior. Nunca o humanismo cristo esteve to alto! Hoje, vale a pena ler e meditar As quatro 
ltimas coisas (1522); A ceia do Senhor (1533); O dilogo do consolo (1534); Meditaes e oraes (1535). -- A Utopia de Morus  um livro de significado muito profundo. 
Trata de precisar as atitudes fundamentais do humanismo frente ao mundo, considerado do ponto de vista civil. No  somente uma indagao da sociedade poltica, 
mas uma anlise da tima constituio do Estado capaz de garantir a liberdade total do homem. "Os princpios dessa repblica olham em especial esta meta: subtrair 
a todos  sujeio do corpo e lev-los  liberdade da cultura e do esprito, enquanto o consentirem as necessidades pblicas. Aqui est, pensam os `utopianos', a 
verdadeira felicidade da vida". -- No plano social, prope a abolio da propriedade privada, causa de todos os males de que padece a sociedade inglesa em que vive. 
A raiz do mal est, portanto, na organizao da sociedade e no na maldade da natureza humana: a instituio tpica de uma sociedade, que consente ao rico despojar 
e maltratar o pobre,  a propriedade privada; por conseguinte, deve-se aboli-la. Como contrapartida a tal princpio, esboase na segunda parte de Utopia: a) Uma 
comunidade de bens, baseada na igualdade de oportunidades para todos os cidados. b) O trabalho -- seis horas dirias --  o tributo que todo cidado deve pagar 
 comunidade para que esta consiga o bem-estar comum. c) Supresso do dinheiro e dos metais preciosos como desnecessrios, j que a sociedade decide e facilita tudo 
o que os cidados necessitam. d) Alimento, vestimenta, casa, servios educacionais e sanitrios para todos fazem da Utopia a sociedade do bem-estar, a Eutopia. -- 
No plano moral, a Utopia moreana oferece grandes contrastes com a moral de seu tempo: a) Apia decididamente uma poltica de paz como

Morus, Santo Toms / 407

um bem em si mesmo, e  qual deve subordinar toda outra poltica. b) Organizao democrtica da sociedade em que todos os cargos se fazem com justia e por eleio 
dos delegados do povo. c) Sociedade baseada na clula do matrimnio monogmico -- permite-se o divrcio por causas graves -- e na famlia patriarcal e tribal. d) 
Aceitao do princpio epicreo do prazer-felicidade. Em tudo o homem deve procurar o prazer e a felicidade e repudiar a dor. e) Pela primeira vez, aborda o cuidado 
dos ancios, a eutansia, o celibato dos sacerdotes, a criao e o fomento da guerrilha com dinheiro do Estado, a formao das colnias e o cultivo de terras, o 
problema dos conselheiros e conselhos de reis, dos advogados, dos clrigos, dos desempregados etc. -- No plano religioso -- desde a simples racionalidade --, a Utopia 
prope: a) Uma religio baseada num s Deus, princpio e fim de tudo, criador e mantenedor de todas as coisas. b) Aceitao do cristianismo como forma superior de 
religio, embora defenda a liberdade de religies ou credos. c) O Estado no pode impor pela fora, e contra os indivduos, uma religio particular, nem mesmo o 
cristianismo. Condena-se todo tipo de proselitismo fantico. d) A religio toma parte da entranha e da natureza do homem, de forma que quem no reconhece Deus no 
pode ser um bom cidado e no pode exercer cargos pblicos. e) A contemplao da natureza leva ao reconhecimento de um ser superior, Deus, que recebe diversos nomes 
segundo os povos. -- Dificilmente se pode medir a influncia de Morus desde a sociedade de seu tempo at nossos dias.
BIBLIOGRAFIA: Obras: The Yale Edition of Complete Works of St. Thomas More. Editadas por Louis L. Martz e Richard S. Sylvester. Nova York e Londres 1963s., 16 vols.; 
E. F. Rogers, The correspondence of Sir Thomas More. Edio crtica. Princeton University Press, 1947; A. Prvost, L'Utopie de Thomas More. Prsentation, texte original, 
apparat critique, xegse, traduction et notes. Paris 1978; Un hombre solo (Cartas desde la torre); Dilogo de la fortaleza contra la tribulacin; La agona de Cristo. 
Rialp;

408 / Mounier, Emmanuel Utopa. Edio completa tomada do original de 1518. Verso de Pedro R. Santidrin. Alianza Editorial, Madrid 1984; A. Vzquez Prada, Sir 
Toms Moro, Lord Canciller de Inglaterra. Rialp, Madrid 51990.

Mounier, Emmanuel (1905-1950)
Nascido em Grenoble, estudou filosofia, primeiro em sua cidade natal e depois em Paris. Sofreu a influncia de escritores e de pensadores como Pguy (1873-1914) 
e do filsofo russo N. *Berdiaev. Alternou a docncia da filosofia em institutos com a revista "Esprit", que dirigiu at 1941, quando foi suprimida pelo governo 
de Vichy. Foi membro ativo da resistncia francesa durante a ocupao alem, passando vrios meses na priso. Depois da guerra, Mounier reavivou "Esprit" como rgo 
do personalismo. "Mounier pode ser qualificado como `revolucionrio cristo', oposto a toda despersonalizao e inimigo acirrado, tanto do conservadorismo reacionrio 
e falsamente tradicionalista, quanto do pseudo-revolucionarismo fascista. Filosoficamente, Mounier  apresentado como um dos principais e mais ativos representantes 
do personalismo cristo na Frana" (Ferrater Mora, Diccionario de filosofa). O rgo dessa filosofia personalista foi "Esprit", fundada e dirigida por ele. O personalismo 
 -- segundo Mounier -- "uma reafirmao que o homem faz de si mesmo contra a tirania da natureza, representada no plano intelectual pelo materialismo...  a reafirmao 
que a pessoa faz de sua prpria liberdade criativa contra qualquer totalitarismo que queira reduzir o ser humano a uma simples clula no organismo social, ou pretenda 
identific-lo exclusivamente com sua funo econmica... A primeira condio do personalismo  a descentralizao do homem: que ele possa dar-se aos demais e estar 
 disposio deles. A pessoa existe somente numa relao social, como membro do `ns'. Somente como membro de uma comunidade de pessoas o homem tem vocao moral". 
 aqui que Mounier alcana o conceito cristo de pessoa como "pr-

Mosteiro de Santa Catarina / 409

ximo", constituda pelo ato, presena e entrega aos demais. Em seu Manifesto do personalismo (1936) chega a esta definio: "Uma pessoa  um ser espiritual constitudo 
como tal, como modo de subsistncia e de independncia no ser; que mantm essa subsistncia mediante sua adeso a uma hierarquia de valores livremente adotados, 
assimilados e vividos com uma auto-entrega responsvel e uma constante converso; que unifica assim toda a sua atividade na liberdade e, mais ainda, desenvolve mediante 
atos criadores sua nica vocao prpria". Naturalmente, esse personalismo  o que pede que repensemos nossas estruturas sociais e polticas para tratar de alcanar 
o desenvolvimento de um socialismo personalizado. Sua f crist est sempre presente para que esse personalismo no seja apanhado nem por uma sociedade burguesa, 
capitalista e fechada, nem por um marxismo materialista. Mounier  um exemplo de lutador, de que suas convices filosficas tinham de expressar-se na esfera da 
ao. Aberto como estava ao mundo, "muito provavelmente se simpatizaria com as tentativas de estabelecer um dilogo entre cristos e marxistas sobre os temas do 
homem e do humanismo" (F. Copleston, Historia de la filosofa, 9, 299-305).
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes, 1931-1963, 4 vols.; Obras. Trad. espanhola, 1974 e ss.; Emmanuel Mounier, a los 25 aos de su muerte, 1975 (colaborao).

Morte de Deus
*Nietzsche.

Mosteiro de Santa Catarina (Sinai)
*Hesiquia; *Codex Sinaiticus.

410 / Neo-escolsticos

N
Neo-escolsticos (sc. XIX)
Atentos ao desenvolvimento do pensamento cristo ao longo da histria, seguimos sua evoluo apresentando as *Escolas teolgicas, as *Escolas e universidades da 
Idade Mdia e Moderna. Em consonncia com isto, demos os nomes daqueles autores que melhor as representam. So os chamados mestres da escolstica crist, tanto do 
perodo medieval (sc. IX-XIV) quanto da escolstica tardia ou espanhola do barroco (sc. XVI-XVII). Ficaria incompleta a nossa viso se no apresentssemos o desenvolvimento 
do pensamento escolstico cristo em nossos dias. Esse pensamento recebe o nome de neo-escolstica. Designa o movimento filosfico-teolgico contemporneo "que aspira 
a restaurar os modelos de pensamento medieval, confrontando as teses centrais dos mesmos com as filosofias modernas". Iniciase na segunda metade do sc. XIX e chega 
at nossos dias. Os traos estruturais desse movimento neoescolstico poderiam ser os seguintes: aceitao e repetio de uma tradio herdada; fidelidade ao mtodo 
dos grandes mestres da escola; tratamento de uma temtica herdada dos clssicos e reelaborada em confrontao com modelos de pensamento moderno, junto a uma atitude 
excessivamente apologtica quando se trata de fundamentar os prprios pressupostos fundamentais. No obstante, cabe assinalar os srios esforos de renovao que, 
tanto na filosofia quanto na teologia neo-escolstica, se deram, como o demonstram os autores que oferecemos em di-

Neo-escolsticos / 411

versos artigos deste dicionrio. Deve-se levar em conta que a neo-escolstica teve de lutar no apenas com as correntes da filosofia kantiana e positivista-materialista 
do tempo, mas tambm com outras tendncias catlicas eclticas como o semi-racionalismo alemo, o tradicionalismo francs e o ontologismo italiano. Dentro da neo-escolstica, 
distinguem-se diversas tendncias. Surgida do impulso de *Leo XIII em sua encclica Aeterni Patris, essa nova escola promoveu o professorado a escolsticos convictos, 
e criou novas instituies universitrias. Na Universidade Gregoriana de Roma surgiram, no primeiro tero do sculo, J. J. Urrburu e L. Billot, entre muitos outros. 
No Angelicum, tambm de Roma, surgiu um nmero importante de filsofos e telogos como E. Hugn e R. GarrigouLagrange. Em Lovaina, M. Mercier e M. de Wulf. No Sacro 
Cuore de Milo, A. Gemelli. Em Salamanca, Santiago Ramrez e G. Fraile. E assim em outras universidades como Comillas, Toronto, Nimega, Washington, Dublin, Friburgo 
da Sua, Instituto Catlico de Paris etc. No em todos esses centros se entenderam e se cultivaram da mesma forma a cincia e a filosofia. Sob uma orientao eclesistica 
e conservadora na Itlia e na Espanha, vemos os autores escolsticos centro-europeus em contextos universitrios no clericais, abertos a caminhos e a mtodos mais 
amplos. O Instituto Superior de Filosofia da Univesidade de Lovaina, por exemplo, com Mercier  frente, pratica o estudo histrico-crtico dos clssicos da escolstica 
e amplia a temtica filosfica: psicologia experimental, epistemologia, fenomenologia etc. A neoescolstica germnica prefere os estudos histrico-crticos, como 
se pode ver em *H. Denifle, *M. Grabmann e outros. Na Frana encontramos um grupo de pensadores mais independentes e mais sintonizados com o pensamento contemporneo. 
Servem de exemplo, P. Rousselot, J. Marchal, o neotomista *J. Maritain e o historiador do perodo medieval *E. Gilson.

412 / Nestrio

Na Espanha so dignos de meno entre os precursores da neo-escolstica e do neotomismo: Jaime Balmes (1810-1848) e Ceferino Gonzlez. Balmes representa, em parte, 
a corrente que contribuiu para a reafirmao e florescimento da neoescolstica, exercendo uma notvel influncia sobre o cardeal Mercier e a escola de Lovaina. Balmes 
contribuiu tambm com a filosofia poltica, especialmente com vistas a situaes concretas colocadas na Espanha do seu tempo. Tambm no se deve menosprezar o trabalho 
apologtico desenvolvido em sua obra El protestantismo comparado con el catolicismo (1842) e Cartas a un esctico en matria de religin (1841). A moderao e o 
bom senso encobrem, s vezes, sua postura conservadora.
BIBLIOGRAFIA: Para a neo-escolstica, ver Introduction a la Philosophie no-scholastique, 1904; Ferrater Mora, Diccionario de filosofa, Neoescolstica. Para Balmes: 
Obras completas. Ed. de P. I. Casanova. Barcelona 1925-1927, 33 vols. Reedio na BAC. Madrid 1948-1950, 8 vols.; J. M Garca Escudero, Antologa poltica de Balmes 
(BAC). Madrid, 2 vols.

Nestrio (381-450)
Da mesma forma que *Ario, Nestrio  imprescindvel no estudo e compreenso das lutas cristolgicas dos sc. IV-V. Podemos dizer que, tanto ele quanto Ario suscitaram 
as heresias permanentes que provoca, a todo momento e em toda pessoa, o fato do Deus-homem. Nascido de pais persas em Germancia (Sria), recebeu sua educao teolgica 
na escola de Antioquia e provavelmente sob a direo de *Teodoro de Mopsustia. Monge do mosteiro de Santo Euprpio, e depois presbtero da Igreja de Antioquia, 
adquiriu grande fama de orador. Sem dvida por isso foi elevado, por instncia de Teodsio II,  sede de Constantinopla (428). Em seu plano de reforma da cidade, 
empreendeu uma srie de medidas contra hereges, cismticos e judeus. Atacou os arianos, macednios e novacianos, porm, muito cedo ele mesmo caiu

Newman, John Henry / 413

sob suspeita por suas violentas disputas e por seu carter impetuoso. Seus sermes foram sua arma de combate, j que transformou sua cristologia em tema favorito 
dos mesmos. Sua doutrina pode ser resumida em dois pontos fundamentais: a) Em Cristo h duas pessoas, uma pessoa divina que  o Logos, que mora numa pessoa humana. 
Essas duas pessoas esto completamente separadas, havendo portanto em Cristo dois centros de operao. b) Em conseqncia, no podemos chamar Theotokos, Me de Deus, 
 Virgem Maria. So *Cirilo de Alexandria primeiro, e por ltimo o Conclio de feso (431) -- que ele presidiu em nome do papa -- depuseram e excomungaram Nestrio, 
condenando sua doutrina cristolgica, e reconheceram solenemente Maria com o ttulo de Theotokos. Nestrio "comps muitssimos tratados sobre diversas questes", 
testemunha Gennadio. De todos eles ficaram apenas alguns, pois Teodsio II mandou queimar todos os seus escritos. O nico que se conserva ntegro  o Bazar de Herclides, 
descoberto em 1895. Nele faz a defesa de sua doutrina e narra a sua vida. Ataca duramente as decises de feso (*Conclio) e de So *Cirilo. Tambm nos restam quatro 
Sermes, dos muitos que proferiu. E dez Cartas autnticas. Resultado da doutrina e condenao de Nestrio foi a heresia nestoriana, iniciada na sia Menor e na Sria, 
por ocasio do Conclio de feso. Hoje sobrevive na chamada Igreja nestoriana, assentada no Iraque e no Ir.
BIBLIOGRAFIA: Michael Schmaus, Alois Grillmeier e Leo Scheffczyk. Historia de los dogmas, tomo III: Cristologa, Soteriologa, Eclesiologa. Caderno 3-b: Eclesiologa: 
Escritura y patrstica hasta San Agustn (BAC). Enciclopdias.

Newman, John Henry (1801-1890)
J. H. Newman foi educado na "religio da Bblia", que ele mesmo qualifica como o "ttulo

414 / Newman, John Henry

reconhecido e a melhor definio da religio inglesa", que consistia "no em ritos nem dogmas, mas principalmente em ler a Bblia na Igreja, em famlia e em particular". 
Essa influncia do "evangelismo" no lar permitiu-lhe memorizar totalmente a Bblia. As incidncias de sua infncia e suas primeiras experincias religiosas sero 
melhor apresentadas ao leitor em sua Apologia pro vita sua (1864). Por outro lado, toda a produo literria de Newman tem um selo pessoal inconfundvel. Cada obra 
faz parte de sua vida e responde s exigncias e problemas que esta expe ou suscita. Newman esteve vinculado a Oxford, onde foi "fellow" do Oriel College, e mais 
tarde (1828) vigrio de Santa Maria, para terminar aderindo ao "movimento de Oxford" e ser seu lder e cabea.  autor de 24 dos Tracts for the times dirigidos contra 
o "papismo e o dissenso". Neles defendia sua tese da "via mdia", isto , a crena de que a Igreja da Inglaterra mantinha uma posio intermediria, representada 
pela posio patrstica, frente ao moderno catolicismo romano por um lado e ao protestantismo moderno por outro. No Tract 90 advogava por uma interpretao dos 39 
Artigos do anglicanismo num sentido muito prximo aos decretos do Conclio de Trento. Apesar do silncio imposto sobre esse tema pelas autoridades, comeou em 1839 
a ter dvidas sobre as reclamaes da Igreja da Inglaterra. Em 1842, deixou Oxford pelo retiro quase monstico da aldeia de Littlemore. Em 1843 renunciou ao vicariato 
de Santa Maria e, dois anos depois, 1845, passou a fazer parte da Igreja de Roma. A converso de Newman ao catolicismo foi precedida de um intenso labor de prdica 
e de estudo. Assim foram surgindo suas obras Conferncias sobre a funo proftica da Igreja (1837), em que desenvolve o tema clssico da doutrina sobre a autoridade 
na Igreja; os Sermes da universidade (1843), clssicos tambm por sua teoria da crena ou f religiosa; e seus Simples sermes paroquiais (1834-1842), que coletam 
todas as incidncias do movimento de Oxford. Final-

Newman, John Henry / 415

mente, no ltimo ano como anglicano, escreveu o Ensaio sobre a evoluo da doutrina crist, que publicou semanas depois de sua converso ao catolicismo, no dia 9 
de outubro de 1845. Depois de sua converso, a atividade de Newman teve vrias frentes. Os primeiros passos estiveram direcionados para a fundao do Oratrio que, 
depois de vrias dvidas, estabeleceu em Birmingham. Com alguns membros do movimento de Oxford, tambm convertidos, formou uma comunidade de estudo e orao (1848). 
A converso ao catolicismo obrigou Newman a olhar para a postura hostil de muitos catlicos ingleses que desconfiavam dele por suas idias liberais, segundo eles, 
e a da Igreja da Inglaterra que o atacava. Frente aos dois ele lutou sem convencer, de momento, a nenhum. Do lado catlico estava Manning, tractariano tambm como 
ele e depois arcebispo de Westminster. Manning representou o "velho catolicismo ingls", que via com receio tudo o que dizia ou fazia Newman. Inclusive foi tachado 
de herege diante de Roma por um de seus artigos no "Rambler" sobre a necessidade de consultar os seculares em matria de f. A mesma suspeita recaiu sobre suas tentativas 
de formar a universidade catlica de Dublin, cujo nico resultado foram as conferncias que deu e que apareceram com o ttulo de Proposta de uma universidade (1852). 
Nelas aponta o ideal do "intelectual catlico" aberto  modernidade. Estas e outras frustraes -- como a do processo do exdominicano Achilli (1852-1853) -- somaram-se 
aos ataques de Ch. Kingsley sobre o seu ensino moral. Este, de fato, desafiou Newman a justificar a honestidade de sua vida como anglicano. O resultado foi a histria 
de suas opinies religiosas ou Apologia pro vita sua (1864). O impacto que a leitura de sua Apologia produziu nos leitores, tanto anglicanos quanto catlicos, convenceuos 
de sua integridade. Voltaram a reconhec-lo como o que sempre havia sido: o ingls autntico e cristo sincero, livre em suas convices. Sua vida continuou sempre 
envolvida em debates. Em 1870 expressou sua oposio  definio da in-

416 / Newman, John Henry

falibilidade do papa, apesar de estar convencido desta verdade. Era questo de oportunidade diante das demais Igrejas. E nesse mesmo ano publicou A gramtica do 
assentimento, sem dvida a obra de maior empenho filosfico. O objetivo do livro  duplo, segundo o prprio Newman: "Na primeira parte demonstra que podes crer no 
que no podes compreender. Na segunda, que podes crer no que no podes comprovar falando absolutamente". Em 1879, *Leo XIII o fez cardeal. Morreu em 1890, em Birmingham, 
e est sepultado em Rendal, a casa de descanso do Oratrio. Pediu que em sua lpide esculpissem as palavras: "Ex umbris et imaginibus ad veritatem", "Das sombras 
e imagens at a verdade". -- A figura de Newman ultrapassa qualquer esquema. Seus retratos mostram um rosto de sensibilidade e delicadeza esttica: poeta, novelista, 
escritor, filsofo e telogo, cheio de fora e sagacidade. Talvez o seu defeito intelectual fosse a sua exagerada sutileza; deleitava-se no preciosismo do raciocnio, 
acabando preso nas armadilhas de de sua prpria ingenuidade. Tinha o costume de reduzir sua argumentao ao absurdo. Era consciente, no obstante, da limitao da 
linguagem e da necessidade da parbola e da analogia. -- Sua natureza sensvel o fez especialmente dotado para a amizade e o respeito s idias e sentimentos alheios. 
Fez da amizade uma de suas tarefas pastorais. Assim o demonstram as vinte mil cartas que se conservam das muitas que escreveu. A prpria Apologia  um canto  amizade 
com aqueles que foram seus companheiros. -- A obra que nos deixou -- grande parte da qual foi recompilada por ele mesmo entre 18681881 -- pode ser classificada nos 
seguintes blocos: a) Sermes; b) Tratados; c) Obras teolgicas; d) Obras polmicas; e) Obras literrias; f) Obras pstumas; g) Correspondncia. Ao todo, 31 volumes 
da edio iniciada pelo P. Dessain, em 1981. Encerramos essas linhas com duas notas que explicam o significado de Newman para

Nicodemos Agiorita / 417

anglicanos e para catlicos. Tiramos da nota necrolgica do "Guardian", do dia 13 de agosto de 1890, dois dias depois de sua morte: "O cardeal Newman morreu. Com 
ele perdemos no apenas um dos maiores mestres de estilo da lngua inglesa, um homem de singular pureza e beleza de carter, um exemplo eminente de santidade pessoal, 
mas perdemos principalmente o fundador da Igreja Anglicana, tal como a vemos hoje. Dificilmente podemos adivinhar o que teria sido a Igreja Anglicana sem o movimento 
tractariano, e Newman foi a alma viva e o gnio inspirador do movimento tractariano...". "Desde que se escreveram essas palavras -- escreve Dessain --, a influncia 
de Newman se expandiu e penetrou por todos lados na Igreja Catlica. Isto se tornou mais evidente desde a nova abertura iniciada pelo Papa *Joo XXIII e continuada 
no Conclio *Vaticano II, que inclusive foi aclamado como o `Conclio de Newman'. Como o Papa Joo, gostava de insistir no antigo provrbio: "In necessariis unitas, 
in dubiis libertas, in omnibus caritas"... Queria que os catlicos sassem do gueto e ocupassem seu lugar no mundo, se adaptassem, ampliassem sua capacidade de compreenso 
com a confiana de que a verdade nunca pode contradizer a verdade... Suas opinies sobre a f, o estudo livre, a Igreja como comunho, o lugar do laicato na Igreja 
e no mundo, valorizam-se positivamente, assim como seu retorno  fonte da revelao, e seu esforo para pr em prtica o ensino espiritual do NT" (Ch. S. Dessain, 
Vida y pensamiento del Card. Newman).
BIBLIOGRAFIA: Obras: Apologia pro vita sua (BAC); Sermones catlicos; Discursos sobre la fe, Rialp.; Gramtica del asentimiento (Biblioteca de Teologia), Herder; 
El sueo de un anciano, Rialp; La idea de la universidad. Epesa, Madrid 1950; Ch. Stephen Dessain, Vida y pensamiento del Cardenal Newman. EP, Madrid 1990.

Nicodemos Agiorita (1748-1809)
*Hesiquia.

418 / Nicole, P.

Nicole, P. (1625-1695)
*Jansnio.

Niebuhr, Reinhold (1892-1971)
Depois de estudar em Yale, exerceu o apostolado como pastor da Igreja Evanglica de Detroit. A partir de 1928, deu aulas de teologia pastoral no seminrio da Unio 
Teolgica de Nova York. At a sua morte em 1971, dedicou-se ao ensino na ctedra, em revistas, conferncias, assemblias e congressos. Sua obra escrita  importante 
por seu sentido pastoral e pela grande influncia que exerceu no pensamento religioso americano. Na doutrina de Niebuhr podemos distinguir trs aspectos fundamentais: 
o aspecto ou plano social, o poltico e o cristo. Esse ltimo  fundamental e envolve toda a sua atividade. 1. Do ponto de vista social, teve especial sensibilidade 
para as injustias do capitalismo norte-americano. Desmontou as pretenses morais de Henry Ford com seu famoso salrio de cinco dlares por dia para os trabalhadores 
de suas fbricas, e fez ver as injustias e o custo humano que isso pressupunha para os empregados da Ford. Estas e outras experincias o fizeram ver o enganoso 
desse doce ideal moral que se vem identificando com a f crist, frente s realidades do poder de nossa sociedade tcnica moderna. Idntica reflexo fez sobre o 
liberalismo, ao qual opor a maldade do pecado original, que atua no homem. 2. A preocupao pastoral de Niebuhr dirigiuse tambm para a poltica. A observao e 
o contato direto com a realidade americana permitiramlhe revisar constantemente suas idias. De sua inocncia e otimismo primeiros no liberalismo, que o levaram 
a acreditar que a cincia e a educao libertariam o homem do pecado, passou a aceitar, atravs de sua experincia de Detroit, alguns dos pontos da crtica de *Marx 
ao liberalismo, sem jamais cair no marxismo como tal. Mais

Niebuhr, Reinhold / 419

tarde criticou tambm o marxismo "como a mais profunda tragdia de nosso tempo", doena muito mais terrvel que o liberalismo que pretendia curar. A crtica ao liberalismo, 
Niebuhr a expe em Moral, Man and Immoral Society (1932). "O mal  fruto -- diz -- tanto dos grupos quanto do egosmo dos indivduos.  evidente que os interesses 
coletivos de classe, raa e nao so mais obstinados e persistentes que o egosmo dos indivduos." Suas observaes neste sentido aparecem como profticas em nossos 
dias. "As relaes entre os grupos so sempre predominantemente polticas mais do que ticas, j que esto determinadas pela proporo do poder que cada grupo possui." 
E mais  frente: "A justia se manter na sociedade, assegurando uma justa distribuio do poder entre os diferentes grupos, evitando que uns dominem os outros. 
Um no fcil equilbrio do poder poderia ser a meta mais alta  qual a sociedade poderia aspirar". O pensamento poltico de Niebuhr est exposto em Nature and Destiny 
of Man (1941-1943), uma srie de conferncias dadas em Edimburgo, em 1939. 3. O compromisso social e poltico de Niebuhr nasce de sua f crist, e nela procura o 
sentido ltimo de sua existncia. Os vcios ou crueldades humanas so conseqncia, ou do esquecimento de Deus, ou da ilegtima apropriao do mesmo para fins egostas. 
Como dissemos, Niebuhr no  otimista sobre a natureza do homem, j que o pecado tem suas razes profundas nele. Somente o amor de Deus  capaz de superar e transcender 
essa condio pecaminosa do mundo, e por esse amor adquire a liberdade necessria para vincullo ao eterno e vivente amor de Deus. Esse amor de Deus  fundamental, 
no  contrrio  razo, mas faz possvel a razo. Suas duas obras mais pessoais e pastorais: Intellectual Autobiography e Leaves from the Notebook of a Tamed Cynic 
(1929), so livros que todos os cristos e pastores responsveis deveriam ler hoje.
BIBLIOGRAFIA: J. M G. Gmez-Heras, Teologa protestante. Sistema e historia (BAC); Teologa en el siglo XX (BAC maior), 3 vols. Para a compreenso da obra de Niebuhr,

420 / Nietzsche, Friedrich Wilhelm ver Diccionario de religiones comparadas. Cristiandad, Madrid 1975, 2 vols., com a bibliografia ali destacada.

Nietzsche, Friedrich Wilhelm (1844-1900)
Escritor e filsofo alemo. Cursou seus estudos nas Universidades de Bonn e Leipzig, onde se especializou em filologia clssica, entusiasmando-se com a filosofia 
de *Schopenhauer e a msica de Wagner. Em 1870 foi nomeado professor de filologia clssica em Basilia, atividade que deixou em 1878 por grave enfermidade. O restante 
de seus dias esteve em Sils Maria, na Riviera, e em diversas cidades da Itlia e da Alemanha, quase sempre solitrio e rodeado, s vezes, de seus escassos amigos 
e discpulos. Na ltima dcada de sua vida foi vtima de um obscurecimento mental e paralisia, fruto de uma depresso nervosa que vinha sofrendo h muitos anos. 
No pensamento e atividade de Nietzsche costumam distinguir-se trs perodos. O primeiro -- que vai desde seus estudos at 1878 -- caracteriza-se por seus primeiros 
trabalhos de interpretao e crtica da cultura do Ocidente e do cristianismo, e pela exaltao e devoo que sente por Schopenhauer e Wagner. Deste perodo so 
as suas obras: A origem da tragdia (1872); A filosofia na poca trgica dos gregos (1874) e Consideraes intempestivas (1875-1876). No segundo -- a partir da ruptura 
com Wagner (1878) -- manifesta sua exaltao pela cultura e esprito livres. Est representado por obras como Humano, demasiado humano (1876-1880); Aurora (1881); 
A gaia cincia (1882). Finalmente, o terceiro, chamado perodo de Zaratustra ou da vontade de poder, com obras como Assim falou Zaratustra (1883); Para alm do bem 
e do mal (1889); Genealogia da moral (1887). A essas seguiramlhe outras bem conhecidas como O anticristo; O imoralista; A vontade de poder; Ensaio de uma transmutao 
de todos os valores; O niilismo europeu; Os princpios de uma nova escala de

Nietzsche, Friedrich Wilhelm / 421

valores, e os aforismos definitivos sobre o Eterno retorno. Apesar desses perodos de seus contrastes e contradies, os crticos encontraram em Nietzsche uma unidade 
de pensamento em toda a sua obra. Reduzida a um esquema, poderia ser o seguinte: a) A distino entre o apolneo e o dionisaco na cultura grega e em toda a cultura 
ocidental leva-o a uma exaltao de Dionsio como "afirmao religiosa da vida total, no renegada nem fragmentada".  a exaltao do mundo tal como ele , sem diminuio, 
sem exceo e sem eleio: exaltao infinita da vida infinita. b) A inverso dos valores -- na qual Nietzsche via a sua misso e o seu destino -- aparece em sua 
obra como uma crtica da moral crist, reduzida por ele substancialmente  moral da renncia e do ascetismo. A moral crist  a rebelio dos inferiores, das classes 
subjugadas e escravas, contra a casta superior e aristocrtica. Seu verdadeiro fundamento  o ressentimento: o ressentimento daqueles a quem  proibida a verdadeira 
reao da ao, e que encontram sua compensao numa vingana imaginria. c) Os fundamentos da moral crist: o desinteresse, a abnegao, o sacrifcio so o fruto 
do ressentimento do homem fraco diante da vida. d) O tipo ideal da moral corrente, o homem bom, existe somente s custas de uma fundamental mentira: negar a realidade, 
tal como est feita. O ltimo resultado  negar a vida, no aceit-la. e) Como contraposio, Nietzsche exalta tudo o que  terreno, corpreo, anti-espiritual, irracional. 
"Eu ensino aos homens uma vontade nova: seguir voluntariamente o caminho que os homens seguiram cegamente, aprovar esse caminho e no tentar refugiar-se como os 
doentes e decrpitos" (Assim falou Zaratustra). Tal  a vontade de viver ou de poder: porque a vida  o valor supremo. Para a conquista da vida e do mundo, Nietzsche 
prope o eterno retorno e o super-homem. Porque o "eterno retorno" nada mais  do que o sim que o mundo diz a si prprio,  a auto-

422 / Nietzsche, Friedrich Wilhelm

aceitao do mundo, a vontade csmica de reafirmar-se e de ser ela mesma: expresso csmica daquele esprito dionisaco que exalta e bendiz a vida. "Esse mundo tem 
em si uma necessidade, que  sua vontade de reafirmar-se e, por isso, voltar eternamente sobre si mesmo." E se a frmula do "eterno retorno"  a frmula central, 
csmica, do filosofar de Nietzsche, a do super-homem  a sua palavra final. "O homem deve ser superado -- diz Zaratustra --. O super-homem  o sentido e o fim da 
terra.  a expresso e encarnao da vontade de poder. Portanto, o homem deve ser superado." O que significa que todos os valores da moral corrente -- que  moral 
gregria -- devem ser transmudados. Para conseguir esse super-homem, deve-se renunciar aos valores constitutivos da cultura ocidental: a filosofia, a metafsica 
e a tica platnicas, juntamente com a contribuio judaico-crist a ela. Nietzsche prope um niilismo absoluto e total para a consecuo do super-homem. Consiste 
em fazer tbula rasa de todo pensamento filosfico grego e cristo. O super-homem exige a morte de Deus, do Deus dos metafsicos, do Deus monotesta, do Deus moral 
das contraposies metafsicas entre o bem e o mal, mundo real e mundo aparente. Somente assim ser possvel a liberdade, caracterstica do super-homem. Somente 
assim se construir uma vida e uma moral acima e alm do bem e do mal. Dificilmente se pode dizer, em poucas palavras, o que significou e ainda significa Nietzsche 
para o cristianismo. Filsofo da "suspeita", assim como *Marx e *Freud, "criou uma filosofia onde no h um acontecer objetivo, uma garantia estvel, onde Deus morreu 
e onde o homem s pode existir como super-homem". Nietzsche quis realizar o infinito para o homem e no homem. Transmudou os valores eternos pelos do mundo.
BIBLIOGRAFIA: Obras em portugus: O Anticristo; Crepsculo dos dolos; A genealogia da moral; A origem da

Nuvem do no-saber, A / 423 tragdia; Assim falava Zaratustra; A minha irm e eu; Alm do bem e do mal; Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou e outras; Eugen Fink, 
La filosofa de N., 1969; Gonzalo Sobejano, Nietzsche en Espaa, 1967.

Nil Majkov (1433-1508)
*Hesiquia.

Novaciano (sc. III)
*Hiplito de Roma.

Nuvem do no-saber, A (sc. XIV)
Entre as obras msticas annimas que chegaram at ns, duas merecem destaque: A Nuvem do no-saber e o Livro da orientao particular, ambas atribudas a um autor 
mstico ingls do sc. XIV, que permaneceu no anonimato. Essas duas obras figuram entre as dos grandes msticos como o *Pseudo-Dionsio, So *Bernardo, So *Boaventura, 
Mestre *Eckhart, So *Joo da Cruz etc. Sua apario num dicionrio de autores cristos obedece a mltiplas razes. Alm da influncia exercida por esses livros 
na espiritualidade de sua poca, cabe a nosso tempo ter redescoberto -- depois de cinco sculos de esquecimento quase total -- um autor que parece estar em moda 
nos movimentos de orao e meditao crist e no crist no Ocidente. "Neste clima -- diz W. Johns --, os que procuram um guia mstico no podem fazer nada melhor 
do que se dirigir ao autor annimo do sculo XIV de A Nuvem do no-saber." "Trata-se de um ingls mstico, telogo e diretor de almas, que se situa em plena corrente 
da tradio espiritual do Ocidente. Um escritor de grande fora e de notvel talento literrio, que comps quatro tratados originais e trs tradues" (W. Johnston, 
Introduo  edio de A Nuvem do no-saber).

424 / Nuvem do no-saber, A

Suas duas obras principais e mais conhecidas -- como dissemos -- so A Nuvem do no-saber e o Livro da orientao particular. Seguindo Johns, analisamos primeiro 
os pontos de inflexo do mstico, para depois estudar rapidamente essas duas obras. Ambas so tratados eminentemente prticos. Guiam o leitor no caminho da contemplao; 
no ensinam uma meditao discursiva. "Todo conceito, pensamento e imagem devem ser sepultados sob uma nuvem de esquecimento." Entretanto, nosso amor nu -- nu por 
estar despojado de pensamento -- deve elevar-se at Deus, oculto por trs da nuvem do no-saber. Com a nuvem do no-saber por cima de mim -- entre meu Deus e eu, 
e a nuvem do esquecimento debaixo --, entre todas as criaturas e mim, encontro nele silentium mysticum, que o autor ingls conhece pela obra do Pseudo-Dionsio. 
-- O ponto de partida bsico no caminho para a unio com Deus  a "perda do eu". O sentimento da prpria existncia  o maior sofrimento para o homem. "Todo homem 
tem muito motivo de tristeza, mas somente entende a razo universal da tristeza aquele que experimenta o que  (existe)", diz-se em A nuvem. A razo dessa tristeza 
ou angstia est na separao de Deus. O sofrimento do homem no nasce de sua existncia, mas de ser como . -- "Ele  teu ser, e nele s o que s". "Ele  teu ser, 
mas tu no s o dele." No basta aniquilar o eu. De nada serviria afastar-se de tudo, inclusive de si mesmo. Todo o desejo do autor consiste em levar-nos  experincia 
de que "Ele  teu ser, e de que nele tu s o que s". "Quanto mais unido estou a Deus, mais sou eu mesmo." A unio com Deus no destri nem aniquila o "eu". -- Essa 
unio com Deus no  fruto do conhecimento, mas do amor. "Procura a experincia mais do que o conhecimento. Com relao ao orgulho, o conhecimento pode enganar-te 
com freqncia, mas esse afeto delicado e doce no te enganar. O conhecimento tende a fomentar a

Nuvem do no-saber, A / 425

vaidade, mas o amor constri. O conhecimento est cheio de trabalho, mas o amor  quietude." Deus est no centro da alma que dirige. -- No se entendem a orao 
e a contemplao, de que nos falam as duas obras, sem a presena de Cristo: o Homem, a Palavra encarnada. Cristo, que ao mesmo tempo  o porteiro e a porta. Cristo, 
centro do universo, que d  contemplao uma dimenso csmica e universal. Cristo, que ora interiormente em mim e se oferece a si mesmo ao Pai. A Nuvem no no-saber 
 um livro de iniciao  contemplao amorosa de Deus, da alma guiada por seu esprito. No  um livro para "intrigantes, aduladores, escrupulosos, alcagetes, 
intrometidos e hipercrticos". Consta de 75 captulos. O Livro da orientao particular no tem divises nem captulos.  uma obra de maturidade, de leitura mais 
difcil, por sua preciso teolgica e por sua profundidade espiritual. " a obra de um amigo desejoso de ajudar e orientar. Tem a autoridade que convm a um homem 
que percorreu o caminho mstico pessoalmente, e que d a mo a quem quiser escutar suas palavras." Essas duas obras, escritas nos ltimos anos do sculo XIV, refletem 
o ambiente e a mentalidade medieval em que foram criadas. Lembre o leitor que, nesse mesmo tempo, floresceram msticos como Juliana de Norwich, e mestre *Eckhart, 
*Tauler, Suso, Ruysbroek, Jacopone de Todi, *Catarina de Sena, *ngela de Foligno e *Toms de *Kempis.
BIBLIOGRAFIA: La nube del no-saber. El libro de la orientacin particular. Introduo de William Johnston. Traduo de Pedro R. Santidrin. EP, Madrid 1984.

426 / Ockham, Guillerme de

O
Ockham, Guillerme de (1295-1350)
Conhecido com vrios nomes como "doctor invincibilis", "princeps nominalistarum", "venerabilis inceptor" etc., cada um deles refletindo aspectos diferentes da personalidade 
polidrica de seu autor. Ockham foi a ltima grande figura da escolstica que enfrentou o mesmo sistema escolstico que o precedeu, e o poder dominante do papa. 
Nascido em Ockham, sul da Inglaterra, ingressou muito cedo nos franciscanos. Estudou em Oxford, onde deu aulas sobre a Escritura e sobre as Sentenas de *Pedro Lombardo, 
de 1312 a 1323. Seu nome apareceu pela primeira vez em 1324, quando foi intimado a declarar-se diante da corte papal de Avinho. Num processo que durou dois anos, 
foram censuradas 51 de suas proposies tiradas de seu comentrio s Sentenas. Estando em Avinho, viu-se envolvido na polmica entre os franciscanos e o Papa Joo 
XXII sobre a pobreza de Cristo. Em 1328, fugiu de Avinho, junto ao general da ordem, M. de Cesena, para refugiar-se na corte do imperador Lus de Baviera, primeiro 
em Pisa e depois em Munique, onde permaneceu provavelmente o resto de seus dias. A sua atividade mudou de signo: da teologia passou primeiro  polmica, e logo 
depois  poltica. Parece que viu cumprido seu desejo diante do imperador: "Tu me defende gladio, ego te defendam calamo". Foi enterrado no Convento de Franciscanos 
de Munique. A atividade literria de Ockham pode ser dividida em trs etapas consecutivas: 1) A filosfico-teolgica, pertencente  primeira poca de Oxford. 2) 
A

Ockham, Guillerme de / 427

polmica religiosa na defesa da posio dos franciscanos. 3) A polmica poltica em apoio a Lus de Baviera, tal como se produziu nos ltimos anos. O padre Ph. Bochner 
classifica as obras de Ockham em polticas e no-polticas, incluindo nestas ltimas as lgicas, as fsicas e as teolgicas. -- Lgicas. Entre as lgicas, sobressai 
a Summa totius logicae (antes de 1328), sua obra fundamental nesta matria; Expositio super librum Porphyrii; Expositio super librum Praedicamentorum; Expositio 
super librum Perihermeneias. -- Fsicas: Expositio super octo libros Physicorum; Summulae in libros Physicorum. -- Teolgicas: Ordinatio Ockham. Comentrio aos quatro 
livros das sentenas de Pedro Lombardo. Sua obra mais polmica: Tractatus de corpore Christi; Tractatus de sacramento altaris; Tractatus de praedestinatione et de 
praescientia Dei etc. -- Polticas. A obra polmico-poltica de Ockham foi dirigida especialmente contra Joo XXII e Bento XII. Mencionamos suas principais obras: 
Dialogus inter magistrum et discipulum de imperatorum et pontificum potestate (entre 13321339); Octo quaestiones super dignitate et potestate papali; Tractatus de 
imperatorum et pontificum potestate; Breviloquium de principatu tyrannico papae etc. A atividade literria de Ockham nasce de uma nica posio: "A aspirao  liberdade 
da pesquisa filosfica e da vida religiosa". "As asseres no devem ser -- diz -- ordenadas ou colocadas em censura por ningum solenemente, porque nelas qualquer 
um deve ser livre para expressar livremente o que lhe parecer" (Dialogus, I, tract. II, q. 22).  a primeira vez que se faz semelhante reivindicao. A partir dessa 
postura de liberdade total, Ockham enfrentou a escolstica tradicional

428 / Ockham, Guillerme de

-- leia-se tomismo -- com uma atitude crtica. A "navalha de Ockham" foi direto s questes fundamentais. Assim: a)  preciso aplicar uma economia que suprima todos 
os entes no necessrios... b) O conhecimento intuitivo intelectual do singular concreto  o nico elemento positivo e ponto de partida para um conhecer real e verdadeiro. 
c) No h leis absolutas derivadas das necessidades essenciais das coisas. Era a negao da metafsica. d) Os universais so simples conceitos representativos e, 
portanto, no reais. Os universais como conceitos s existem na mente: so termos, vozes, nomes. Da o nominalismo que tem Ockham por pai e prncipe. e) O fundamento 
de todo conhecimento est na experincia, rechaando tudo quanto transcende os seus limites. Temos em Ockham a origem do empirismo moderno, base da cincia emprica 
ou dos fatos. -- A mesma postura de liberdade dirige sua navalha a cortar tudo o que seja aderncia intil em filosofia natural (fsica) e teologia. Daqui nascem 
suas negaes metafsicas, teolgicas e morais. Ockham arrasa com tudo o que havia construdo nestes campos a escolstica, particularmente a aristotlico-tomista. 
Assim: a) Nega a doutrina da analogia do ente e sustenta a sua unicidade. b) Ignora a teoria do ato e da potncia, e nega a distino real entre essncia e existncia. 
c) Afirma que o princpio de contradio no  aplicvel em Deus. O princpio de causalidade tambm no  vlido para os seres vivos. E sua formulao: "Toda causa 
tem seu efeito"  ilegtima. Tampouco se pode provar a finalidade para seres que carecem de conscincia e vontade etc. -- Transporta para o mbito da f todo conhecimento 
e certeza que superam a prpria experincia. Em conseqncia: a) No se pode saber com certeza evidente -- nem mediante o raciocnio, nem pela experincia -- que 
a alma intelectiva seja a forma do corpo humano, nem que o entender de tal substncia esteja no homem. Tudo isto o sabemos somente pela f. "Todas as demonstraes 
da espiritualidade da alma deixam

Ockham, Guillerme de / 429

dvidas e incertezas." b) No se pode demonstrar com razes convincentes que a vontade seja livre. Somente a liberdade  testemunhada pela experincia ntima. c) 
Tambm no se pode demonstrar a existncia de Deus nem com argumentos a priori nem a posteriori. No basta ter a simples idia de Deus para afirmar sua existncia, 
porque muitos a tm e no admitem a existncia de Deus. Tambm no  concludente partir da existncia do movimento. "Omne quod movetur ab alio movetur" no  aplicvel 
aos seres vivos. E no se pode demonstrar a impossibilidade do processo "ad infinitum" dos moventes movidos e das causas causadas. d) Mesmo assim no se pode demonstrar 
a unicidade de Deus, porque  indemonstrvel a unicidade da primeira causa. E assim outras verdades relativas ao auto-reconhecimento de Deus, do futuro etc. Com 
a razo no se pode demonstrar que Deus conhea o futuro, nem que aja livremente, nem que esteja necessitado intrinsecamente de agir (In I Sent., d. 35, 48, 72). 
-- As seqelas de sua postura na moral no so menos radicais: a) Nega a moralidade intrnseca dos atos humanos. O critrio de moralidade  realmente extrnseco: 
a vontade de Deus. b) Todos os atos humanos so bons ou maus, conforme sejam mandados ou proibidos por Deus. Mas nenhum ato humano  mandado ou proibido por Deus 
porque seja bom ou mau em si mesmo. c) A Deus lhe  lcito fazer tudo o que nas criaturas seria pecado e que nele no  porque no h ningum que o proba. Poderia 
mandar s criaturas que o odiassem, e ento o dio a Deus seria bom e meritrio (In IV Sent., q. 9). Tal , em resumo, a doutrina tica voluntarista de Ockham. -- 
Com relao  sua doutrina poltica, poderamos resumi-la nestes pontos: a) O poder reside no povo. b) O poder imperial teve sua origem na vontade do povo romano. 
Tal poder passou dos romanos aos gregos, aos francos e aos germanos. c) Nenhum poder humano pode ser superior ao imperial. Nada no mundo seria capaz de destru-

430 / Odes de Salomo

lo (Dilogo, 3, 2, 1, 27-29). d) O poder do imperador estende-se sobre toda a terra. e) O imperador -- como autoridade suprema, crist e romana -- tem o direito 
de escolher o papa, embora de fato essa eleio a faam os cardeais. f) Em conseqncia, o imperador tem o direito de julgar um papa que caiu em heresia. Da mesma 
forma pode dep-lo por esse motivo e por qualquer outro delito. g) No tem sentido a existncia de dois poderes supremos na cristandade. Basta um s, e este deve 
ser o do imperador, por ser historicamente anterior ao do papa (Dilogo, 3, 2, 3). h) O poder do papa sobre os bens temporais e sobre os estados pontifcios no 
 bblico nem autntico (Breviloquium).
BIBLIOGRAFIA: pera omnia philosophica et theologica, aos cuidados de E. M. Buytaert, G. Mohan, Lovaina, 25 vols., 1961ss. (em publicao); Opera philosophica et 
theologica ad fidem codicum manuscryptorum edita. St. Bonaventure University, New York 1967ss.; Opera politica, por R. F. Bennet e H. S. Hoffler, 3 vols.; Tratado 
sobre los principios de la teologa. Aguilar, Buenos Aires 1980; Sobre el poder tirnico del papa, Trad. de Pedro R. Santidrin. Madrid 1991; E. Gilson, A filosofia 
na Idade Mdia, 591-640, com a bibliografia ali reunida.

Odes de Salomo (sc. II)
*Hinos e cantos.

Orculos sibilinos cristos (117-138)
Coleo de orculos que imitam os livros sibilinos pagos. Esto escritos em hexmetros e so precedidos de um prlogo em prosa em que se afirma terem sido pronunciados 
pela Sibila grega em diferentes ocasies. Alguns padres aceitaram sua autenticidade; a crtica moderna atribui-os a autores judeus e cristos. O exame interno desses 
orculos revela neles tendncias monotestas e messinicas. Da que se atribua sua origem a judeus e cristos annimos. As datas para os orculos judeus oscilam 
entre o perodo dos macabeus e o da poca do im-

Oraison, Marc / 431

perador Adriano (117-138). A datao dos orculos e autores cristos seria a partir do sculo II de nossa era.
BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrologa, I, 163-166. *Hinos e cantos.

Oraison, Marc (1914-)
O sacerdote francs Marc Oraison simboliza, para o grande pblico, certa contestao no seio da Igreja Catlica. Suas tomadas de posio nos temas da sexualidade, 
seus enfrentamentos com a hierarquia, os incidentes ocorridos em algumas de suas conferncias, asseguraram-lhe uma fama que seus adversrios qualificam de escandalosa. 
No entanto, suas idias de sacerdote, mdico, telogo e psicoterapeuta, ilustram uma mudana na Igreja Catlica. Depois de uma experincia religiosa e vocacional 
muito movimentada, ordenou-se sacerdote em 1948. Descobriu a psicanlise -- Hesnard, Dalbiez, *Freud e outros -- e preparou sua tese de teologia sobre Vida crist 
e sexualidade, que defendeu em maro de 1951. Sua apario em 1952 provocou violentas polmicas no clero. Em abril do mesmo ano, foi advertido pelo Santo Ofcio, 
e em 1953 a obra foi colocada no *ndex. A partir desse momento, Oraison dirigiu sua atividade para resolver os problemas de seminaristas e sacerdotes "em dificuldade". 
Participou na fundao de uma clnica especializada em problemas psiquitricos. Como suas intervenes determinavam o abandono do caminho sacerdotal por parte dos 
consulentes, Oraison foi condenado por Roma em 1966: negao do imprimatur para suas obras, proibio de prosseguir seus trabalhos de psicanlise e de falar em pblico. 
Medidas anuladas posteriormentre. A vida de Oraison, depois do *Vaticano II, prosseguiu com menos tenso com a hierarquia. Interessou-se pelos problemas dos "blousons 
noirs", escrevendo um livro em colaborao com

432 / Orgenes

um deles: Grito de socorro de um blouson noir. Mas Oraison continuou sua pesquisa. Publicou A culpabilidade (1974), um estudo sobre o sentimento do pecado nas pessoas 
religiosas. Em 1975 publicou A questo homossexual, para enfocar realidades condenadas at agora pela Igreja. E outros trabalhos posteriores, sempre em torno de 
problemas psiquitricos relacionados com a religio. A esse respeito, no fundo da temtica de Oraison est o que ele considera "imobilizao das estruturas eclesisticas 
que esterilizam o sacerdcio". Defende a desclericalizao da Igreja, "demasiado submetida ao racionalismo tomista e despreocupada com a vida".
BIBLIOGRAFIA: Iluso e angstia; Por uma educao moral dinmica; Psicologia e sentido do pecado.

Orgenes (186-254)
Nascido de pais cristos em Alexandria, Orgenes foi o membro mais eminente da escola catequtica alexandrina. Dedicado totalmente ao estudo dos filsofos gregos 
e aos textos sagrados, primeiro desenvolveu uma atividade impressionante como diretor da escola catequtica e, depois, como pregador em Cesaria de Palestina, onde 
prosseguiu como mestre e escritor. Morreu em Tiro, em conseqncia das torturas a que foi submetido durante a perseguio de *Dcio. Orgenes apresenta um estilo 
inconfundvel, tanto em sua vida quanto em seus escritos, marcados por seu af de ser discpulo cristo. Seu desejo de martrio e sua posterior autocastrao so 
exemplos deste empenho de ser cristo at as ltimas conseqncias. Sua produo literria foi amplssima. So *Jernimo atribui-lhe cerca de 800 obras. O edito 
de Justiniano (543) contra ele e o juzo do V Conclio Ecumnico (553), que o inclua entre os hereges, provocaram a perda de boa parte da produo do alexandrino. 
Suas obras esto divididas em quatro blocos gerais: a) Bblicas e exegticas, entre as quais se deve contar, em primeiro lugar,

Orgenes / 433

sua edio da Bblia (AT) em seis lnguas, conhecida com o nome de Hexapla. Os scholions, ou notas sobre passagens difceis da Bblia, e os comentrios ou tomos, 
anlises minuciosas de livros inteiros bblicos. b) Teolgicas, como o livro De principiis, que  a primeira tentativa de teologia sistemtica. c) Apologticas. 
Destas somente conservamos o seu livro Contra Celsum, destinado a rechaar o Discurso verdadeiro deste autor. d) Ascticas. Dois escritos: Sobre a orao e Exortao 
ao martrio, alm de duas cartas e fragmentos de outras obras. A doutrina de Orgenes constitui o primeiro grande sistema de filosofia crist. Distingue, no cristianismo, 
doutrinas essenciais e doutrinas acessrias. Todo aquele que recebeu o dom da palavra tem a obrigao de interpretar as primeiras e explicar as segundas. Orgenes 
empreendeu uma e outra pesquisa. -- Seu trabalho exegtico dos textos bblicos deixa claro o significado oculto e, por conseguinte, a justificativa profunda das 
verdades reveladas. Distingue um triplo significado na Escritura: o somtico, o psquico e o espiritual, que se relacionam entre si como as trs partes do homem: 
o corpo, a alma e o esprito (De princ., IV, 11). -- A passagem do significado literal ao alegrico das Escrituras  a passagem da f ao conhecimento. Acentua a 
diferena entre um e outro e afirma a superioridade do conhecimento que compreende em si a f (In Joannem, XIX, 3). Ao aprofundar-se, a f se transforma em conhecimento. 
-- As Escrituras so, pois, o ponto imprescindvel, porm mnimo, para o conhecimento completo. Existe um Evangelho eterno que vale para todas as pocas do mundo 
e somente a poucos  dado a conhecer (De princ., IV, 1s). -- Contra os hereges afirma a espiritualidade de Deus. Deus no  um corpo e no existe num corpo.  de 
natureza espiritual e muito simples. Para expressar essa unidade, Orgenes emprega

434 / Orgenes

as palavras mnada e nada -- termos pitagrico e neoplatnico, respectivamente -- que expressam a singularidade absoluta de Deus. -- O Logos ou verbo  o exemplar 
da criao, a idia das idias, e todas as coisas so criadas pelo Logos, que atua como mediador entre Deus e as criaturas.  certamente co-eterno com o Pai, mas 
no o  no mesmo sentido. A eternidade do Filho depende da vontade do Pai. O Esprito Santo  criado no diretamente por Deus, mas atravs do Logos. -- Orgenes 
explica a formao do mundo sensvel pela queda das substncias intelectuais que ocupavam o mundo inteligvel. O mundo visvel no , pois, outra coisa seno a queda 
e a degenerao do mundo inteligvel e das puras essncias racionais que o habitam. -- As almas foram criadas por Deus exatamente iguais umas s outras, mas o pecado, 
num estado de pr-existncia, fez com que fossem revestidas pelos corpos, e assim as diferenas qualitativas entre as almas se devem ao comportamento destas antes 
de sua entrada neste mundo. Desfrutam do livre-arbtrio e seus atos dependem no s de sua livre escolha, mas tambm da graa de Deus, que  distribuda conforme 
sua conduta no estado de pr-encarnao. -- Interpreta a ao da mensagem crist como uma ao educadora que conduz o homem gradualmente para a vida espiritual. 
Essa  a funo do Logos que se encarnou em Cristo. "Jesus afasta a nossa inteligncia de tudo aquilo que  sensvel e a conduz ao culto de Deus que reina sobre 
todas as coisas" (Contra Celsum, III, 34). Nisto consiste a obra da Redeno. -- A educao do homem como retorno gradual  condio de substncia inteligente e 
livre verifica-se atravs de graus sucessivos de conhecimento. Do mundo sensvel, o homem eleva-se  natureza inteligvel, que  a do Logos, e do Logos at Deus. 
Mediante esse processo, todas as almas -- inclusive o diabo e os demnios --,

Pacmio, So / 435

mediante um sofrimento purificador, conseguiro a unio com Deus. Todas as coisas sero restauradas e regressaro a seu ltimo princpio: Deus. Assim se realizar 
o ciclo do retorno do mundo a Deus, e Deus ser tudo em todos. Tal  a chamada apocatstasis ou restaurao universal. Tais so os traos fundamentais do sistema 
de Orgenes, no qual pela primeira vez o cristianismo recebe uma formulao doutrinal orgnica e completa. O platonismo e o estoicismo constituem as duas razes 
fundamentais pelas quais se une  filosofia grega. No obstante, a sntese crist de Orgenes est longe de ser completa. Frente a grandes conquistas e acertos na 
interpretao do cristianismo, como so a exigncia da liberdade humana e o destino da humanidade inteira vinculado  redeno de Cristo, h outros pontos que Orgenes 
no soube ver e situar, como o sacrifcio de Cristo ou a ressurreio da carne.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PG 11-17; Contra Celsum. Versin, introduccin y notas de D. Ruiz Bueno (BAC); J. Quasten, Patrologa, I, 338-397; Traduo francesa das Homilias 
sobre o Gnesis, com estudo de H. de Lubac (SC 7). Paris 1944.

P
Pacem in terris (1963)
*Joo XXIII.

Pacmio, So (290-346)
*Monaquismo.

436 / Padres apostlicos

Padres apostlicos (sc. I-II)
Com esse nome so conhecidos um grupo de escritores da Igreja primitiva que trataram, ou supe-se que trataram, da vida dos apstolos. Essa denominao de padres 
apostlicos deve-se a J. B. Cotelier, que fez (1672) a editio princeps de cinco desses padres que "floresceram nos tempos apostlicos". Esses cinco primeiros escritores 
so: Barnab, supostamente o companheiro de apostolado de Paulo; *Clemente, bispo de Roma, terceiro sucessor de Pedro e que, segundo Santo *Irineu, tratou dos apstolos 
Pedro e Paulo; Hermas, que se fez discpulo de Paulo; *Incio, bispo de Antioquia, que pde conhecer os apstolos; e *Policarpo, a quem Santo *Irineu relacionou 
com So *Joo. A partir de 1765, quando se publicou a Bibliotheca veterum patrum, incluram-se nos padres apostlicos *Ppias, a quem So *Jernimo qualifica de 
"ouvinte de Joo"; um autor desconhecido do belo discurso apologtico, dirigido ao tambm desconhecido *Diogneto. Finalmente, e a partir de 1873 quando foi descoberta, 
faz parte dos padres apostlicos a *Didaqu ou Doutrina dos doze apstolos. As obras em concreto desse grupo de escritores so as seguintes: a Didaqu, que pode 
ser a primeira em sua composio, pelo ano 70; Duas cartas de So Clemente; Sete cartas de Santo Incio s Igrejas; Carta e martrio de So Policarpo; Carta de Barnab; 
Carta a Diogneto; Fragmentos de Ppias; Pastor de Hermas. Todos esses escritos, dentro de sua diversidade, tm alguns traos comuns: -- Foram escritos entre o ano 
70 d.C. e o ano 170. -- Representam a passagem ou ponte entre os escritos cannicos do NT e a literatura subseqente dos finais do sc. II, quando aparece outro 
tipo de escritos: apologistas, santos padres, historiadores etc. "Depois dos Evangelhos, Atos e Cartas dos Apstolos, no h conjunto algum de obras

Padres da Igreja / 437

que nos dem uma impresso to imediata, to ntima, to clida da vida da Igreja". -- Os padres apostlicos constituem a fonte primeira da tradio viva no cannica. 
Descobrem-nos a f e a prxis de uma Igreja que caminha, nutrindo-se da Eucaristia e do Evangelho, permanecendo na orao do Senhor e obediente aos pastores, representantes 
do nico pastor, Cristo. -- Essa Igreja primitiva, tal como aparece nos escritos dos padres apostlicos, apresenta-se como exemplo vivo da Igreja de todos os tempos: 
fiel ao Senhor e aos apstolos,  espera da segunda vinda.
BIBLIOGRAFIA: Padres apostlicos. Edio bilnge completa. Verso, introduo e notas de Daniel Ruiz Bueno. 5 (BAC) 1985; B. Altaner, Patrologa. Madrid 1945, com 
abundante bibliografia; J. Quasten, Patrologa, I, 1-109.

Padres capadcios (sc. IV)
*Baslio; *Gregrio Nazianzeno; *Gregrio de Nissa.

Padres da Igreja
O estudo da doutrina dos autores da Antigidade crist recebe o nome particular de patrologia, que se pode definir como o estudo ou cincia dos padres da Igreja. 
Estende-se tanto aos escritores ortodoxos como heterodoxos, embora se ocupe com preferncia dos que representam a doutrina eclesistica tradicional, isto , dos 
chamados padres e doutores da Igreja. A patrstica inclui no Ocidente todos os autores cristos at So *Gregrio Magno (604); no Oriente chega geralmente at So 
*Joo Damasceno (749). Embora a patrstica -- como ramo da cincia teolgica -- seja relativamente recente, podemos dizer que suas origens remontam aos primeiros 
sculos da Igreja. Foi *Eusbio (265-340) quem primeiro se props "tratar daqueles que, seja de

438 / Padres da Igreja

palavra ou por escrito, foram os mensageiros da Palavra de Deus em cada gerao". Seguiram-lhe no empenho homens como So *Jernimo e Santo *Isidoro com suas respectivas 
obras De viris illustribus. No Oriente escreveram sobre o tema Fcio (sc. IX) e Suidas de Constantinopla (pelo ano 1000); o primeiro com sua Biblioteca ou Myriobiblon, 
e o segundo com seu Dicionrio, monumento de erudio bizantina, que nos brindam importantes dados sobre grande nmero de obras patrsticas. O humanismo teve especial 
interesse pela literatura crist antiga. Fez grandes colees e excelentes edies de textos patrsticos, ao longo dos sculos XVI-XVII. O sculo XIX distinguiuse 
pelo descobrimento de novos textos, principalmente orientais, e pelo incio de novas edies crticas em sries latina e grega e s quais se acrescentaram depois 
as colees de literatura crist oriental. Ao mesmo tempo apareceram as ctedras de patrologia nas universidades e centros de estudo eclesisticos. Nosso sculo 
"preocupouse, em especial, com a histria das idias, conceitos e termos da literatura crist e da doutrina dos autores eclesisticos. Alm disso, os papiros do 
Egito, recentemente descobertos, permitiram aos sbios recuperar muitas obras patrsticas que se haviam perdido" (Quasten). -- Hoje se consideram "padres da Igreja" 
somente os que renem estas quatro condies necessrias: ortodoxia de doutrina, santidade de vida, aprovao eclesistica e antigidade. Todos os demais escritores 
so conhecidos com o nome de escritores da Igreja ou escritores eclesisticos, tal como os chamara So Jernimo. O ttulo de "doutor da Igreja" no se identifica 
com o de "padre da Igreja". A alguns doutores da Igreja falta-lhes a nota de antigidade. Tm, no entanto, alm das trs notas caractersticas -- doutrina ortodoxa, 
santidade de vida e aprovao da Igreja -- dois requisitos importantes: erudio eminente e expressa declarao da Igreja. Por declarao de Bonifcio VIII (1298), 
os santos

Palamas, So Gregrio / 439

*Ambrsio, *Jernimo, *Agostinho e Gregrio Magno foram considerados "doutores egrgios da Igreja" e reconhecidos como "os grandes padres da Igreja". A Igreja grega 
venera somente trs grandes mestres ecumnicos: *Baslio Magno, *Gregrio de Nazianzeno e *Crisstomo. A esses trs a Igreja Romana acrescenta *Atansio, constando 
desta maneira quatro grandes padres do Oriente e quatro do Ocidente. A autoridade dos padres na Igreja catlica baseia-se na doutrina da Igreja, que considera a 
tradio como fonte de f. A Igreja considera infalvel o "unnime consenso dos padres" quando versa sobre a interpretao da Escritura. -- A literatura patrstica 
est escrita em grego, latim, armnio, copta, siraco.
BIBLIOGRAFIA: Alm das duas grandes colees de Migne, Patrologia Latina (PL) e Patrologia Graeca (PG), que constam de 221 e 161 volumes respectivamente, citamos 
as seguintes colees: Los Santos Padres. Seleo de homilias e sermes, de E. Caminero, 5 vols. Madrid 18781879; "Biblioteca de Autores Cristianos" (BAC). A srie 
patrstica consta de numerosos textos em grego, latim e castelhano e amplas introdues, desde 1949.

Padres do deserto (sc. III-IV)
*Monaquismo; *Sentenas dos Padres.

Paldio, So (365-425)
*Monaquismo.

Palamas, So Gregrio (1296-1359)
Nasceu em Constantinopla e morreu em Tessalnica. Monge ortodoxo, telogo e orientador intelectual da *hesiquia. Nomeado bispo de Tessalnica em 1347, aclamado santo 
e nomeado pai e doutor da Igreja ortodoxa em 1368. Nascido numa famlia ilustre, vinculada  corte imperial, Palamas estudou a filosofia clssica na universidade 
imperial. Em 1316, renunciou a tudo

440 / Palamas, So Gregrio

para tornar-se monge em *Athos. Durante 25 anos dedicou-se ao estudo da Escritura e dos padres, iniciando-se na vida espiritual e na orao contemplativa. Obrigado 
a abandonar seu retiro do Monte Athos por causa das incurses dos turcos, retirou-se com dez colegas para a vida eremtica na Macednia. Voltou a Athos em 1331, 
onde foi eleito abade de uma comunidade de monges. A partir desses anos, envolveu-se numa prolongada srie de controvrsias pblicas com humanistas e telogos -- 
tanto latinos quanto ortodoxos -- que o levaram  excomunho por presses de tipo poltico em 1344. Sua luta principal foi contra Barlao da Calbria, monge ortodoxo 
que propalava certo agnosticismo teolgico e negava que os conceitos racionais pudessem expressar, inclusive metaforicamente, a orao mstica, assim como sua comunho 
humano-divina. Barlao chegou a compor um poema satrico em que difamava a hesiquia, aludindo a seus seguidores como "aqueles que tm a sua alma no umbigo": aluso 
evidente aos ascetas e msticos que praticavam a meditao hesiquistica (meditao de quietude) sentados e com o olhar colocado debaixo do peito para poder alcanar 
a experincia mstica. Basicamente, a obra de Palamas defende a doutrina hesiquistica, como o fez primeiro em sua Apologia dos santos hesiquiastas (1338), conhecida 
com o nome de Trada por sua diviso em trs partes. Na Apologia pe as bases teolgicas para a experincia mstica. Esta pressupe a implicao, no s do esprito, 
mas de toda a pessoa, corpo e alma. A hesiquia aspira a uma transformao do homem interior, realizada por uma iluminao que o une a Deus no mais fundo de seu esprito. 
 "a deificao do homem inteiro". -- A orao hesicasta aspira a alcanar a forma mais intensa de comunho do homem com Deus na forma de viso da "luz divina" ou 
da "energia incriada". Para chegar a ela,  necessrio adotar uma postura especial do corpo que pres-

Papini, Giovanni / 441

supe uma concentrao -- do olhar e dos sentidos -- e uma invocao metdica do nome de Jesus: "Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim". Esse estado espiritual 
dos hesicastas no se concede a todos, mas aos puros de corao. Sua obra fundamental  o Livro da santidade, texto do misticismo ortodoxo-bizantino e fruto de uma 
srie de pblicas confrontaes com telogos e humanistas que o levaram  excomunho, j referida, em 1344, por presses polticas. Ocupa o resto de seus dias em 
trabalhos pastorais de sua diocese, Tessalnica, e na composio de outras obras e escritos menores. Palamas  um dos principais autores do pensamento cristo oriental. 
A sbia fuso de platonismo e aristotelismo serviu-lhe para transmitir sua experincia mstica. Sua aclamao de santo, em 1368, quinze anos depois de sua morte, 
e de "padre e doutor da Igreja Ortodoxa", deu  sua doutrina e  sua vida o referendo do mestre que soube "ensinar e fazer".
BIBLIOGRAFIA: Espiritualidad rusa. San Serafn de Sarov, Macario de Optina, Juan de Kronstad y Silvano del Monte Athos. (Col. Nebl). Rialp, Madrid 1982; M. J. Le 
Guillou, L'esprit de l'ortodoxie grecque et russe, 1961; A. J. Philippou, The Ortodox Ethos, 1964.

Pnfilo de Alexandria (240-309)
*Apologistas.

Panteno (+200)
*Clemente de Alexandria.

Ppias (60-130)
*Marcos, Evangelista; *Jernimo So.

Papini, Giovanni (1881-1956)
*Literatura atual e cristianismo.

442 / Pascal, Blaise

Pascal, Blaise (1623-1662)
 difcil, para no dizer impossvel, fazer uma sntese do que foi esse homem. Matemtico, fsico, filsofo e homem profunda e sinceramente cristo so qualificativos 
que configuram somente em parte o perfil de Pascal. Nele se conjugam o homem cientfico, pesquisador, inventor, filsofo moralista e religioso mergulhador no mar 
interior de si mesmo e de todos os homens. A influncia de Pascal em *Rousseau, *Bergson, nos existencialistas e, em geral, em todo homem que procura a verdade e 
Deus  evidente. Sua figura e sua obra so exemplares para os cientficos e para os cristos de hoje. Nascido em Clermont-Ferrand em 1623, foi educado por seu pai 
num ambiente cultural seleto. Cedo sentiu um irresistvel interesse pelos estudos cientficos, matemticos e fsicos. Fruto dessas primeiras afeies e estudos sero 
o seu primeiro escrito cientfico sobre as cnicas e a inveno da mquina calculadora para tornar mais fcil o clculo dos impostos. A estes lhe seguiro muitos 
outros at o fim de sua vida.

Pascal, Blaise / 443

Aos 23 anos, Pascal tinha uma f rotineira, para quem "tudo o que  objeto da f, no pode s-lo da razo". A partir de 1646, tanto seu pai quanto ele converteram-se 
numa piedade do tipo jansenista.  a chamada "primeira converso". Seguiu-lhe o perodo conhecido como mundano, caracterizado pela importncia excessiva dada  pesquisa 
cientfica, a nsia de glria e o gosto pela vida de sociedade. O estudo desta etapa mundana revelou um Pascal desejoso de conhecer o homem e a sociedade. Nos finais 
de 1653, iniciou sua "segunda converso", manifestada atravs de "um grande desprezo pelo mundo e um desgosto quase insuportvel por todas as pessoas que pertencem 
a ele". Na noite de 23 de novembro de 1654, consumou-se a segunda converso. A graa o "levou ao esquecimento do mundo e de tudo, fora de Deus". Essa noite ficou 
confiada a um pedao de pergaminho que levou costurado no forro de sua roupa, sem que ningum o percebesse, at sua morte: o Memorial, que conclui com a "submisso 
total a Jesus Cristo e a meu diretor". A partir dessa data, a vida e a atividade de Pascal adquiriram uma dimenso nova: sua vinculao a *Port-Royal e ao jansenismo, 
e seu compromisso de escrever uma apologia do cristianismo, cristalizado nos Pensamentos. De sua residncia em Paris, com breves estadas em Port-Royal, Pascal esteve 
em contato com os jansenistas, principalmente com *Arnauld e *Nicole, a instncias dos quais empreendeu a defesa de *Jansnio e sua doutrina frente aos jesutas. 
Assim nasceram as que se conhecem hoje como Cartas provinciais, ou simplesmente provinciais, "escritas a um provincial por um de seus amigos sobre o objeto da presente 
disputa da Sorbonne". Foram escritas entre 23 de janeiro de 1656 e 24 de maro de 1657. So 18 cartas, nas quais o alvo centra-se nos jesutas. Os "jesutas colocaram 
o cristianismo em perigo ao acomodlo no mundo; substituram a contrio-arrependimento, fundados no amor de Deus, pela atrio, que procede do temor ao inferno". 
"Outra forma

444 / Pascal, Blaise

de compromisso com o mundo  a substituio da verdadeira moralidade pelo legalismo e da lei moral por uma srie de preceitos ocasionais. Os jesutas descartam o 
dever, e no seu lugar colocam a licitude e a procura de razes que podem tornar lcitas aes que esto em evidente contradio com a conscincia moral". O verdadeiro 
valor das Provinciais no est, no entanto, em sua crtica  teologia imoral jesutica de sua poca. A novidade das Provinciais est no estilo breve, conciso, direto, 
que torna Pascal, disse Boileau, o "criador do francs moderno". E em desmascarar o falso cristianismo. Talvez tais cartas preparassem o material do que, na sua 
inteno, deveria ser a apologia do cristianismo, e que fica na forma de Pensamentos que hoje conhecemos. Da projetada apologia do cristianismo, conservam-se mil 
fragmentos, alguns apenas esboados, outros totalmente acabados. Pode-se descobrir o esquema de sua obra no fragmento 187: "Os homens -- diz Pascal -- menosprezam 
a religio; sentem averso por ela e temor de que seja verdadeira. Para superar tal atitude,  necessrio comear por mostrar que a religio no  em absoluto contrria 
 razo, mas venervel, infundindo respeito por ela; portanto, deve-se fazer amvel e conseguir que os bons desejem que seja verdadeira; finalmente, deve-se mostrar 
que  verdadeira; venervel, porque ela conhece bem o homem; amvel, porque promete o verdadeiro bem". Por isso, o plano de sua obra compreende duas partes: na primeira, 
quer demonstrar que a religio no  contrria  razo; na segunda, que  contrrio  razo rejeitar sua evidncia. A linha seguida por Pascal nos Pensamentos pode 
ser traada desde o interior do homem at Deus. Comea declarando o estado atual do homem. Aps sua queda original,  um ser cego que tateia em vo num mundo de 
sombras, suspenso entre o nada e o infinito: um complexo de grandeza e de misria. Esse paradoxo humano, combinao de misria e grandeza, leva-o a procurar

Pascal, Blaise / 445

com sinceridade uma realidade verdadeira e superior. Finalmente, deve-se examinar se nos revelou, de alguma forma, essa fonte de grandeza que encontramos em ns. 
Nesse exame, concluise que a religio crist, reforada pelos milagres e profecias, destaca-se como a verdadeira. Vrias so as provas pelas quais, segundo Pascal, 
podemos chegar at a crena verdadeira, at a "viso desse Deus de Abrao, de Isaac e de Jac", o nico capaz de decifrar o nosso paradoxo humano. Entre as diversas 
razes, aponta uma particular e prpria: o conhecimento do "corao". Entre a razo e a sensibilidade, o conhecimento do corao -- "a lgica do corao" --  o 
resultado de uma integrao da universalidade racionalista dentro da f pessoal. Dessa forma ganha sentido e valor o que : "O corao tem razes que a inteligncia 
no tem".  uma prova auxiliar, no principal. Trata-se da famosa "aposta" na jogamos por uma todas as demais coisas. Podemos e devemos apostar na existncia de 
Deus. Nesta aposta arriscamos uma srie de bens finitos, mas ganhamos um bem infinito. Se se ganha, ganhamos tudo; se se perde, no perdemos nada. Deve-se apostar, 
portanto, que existe Deus, que  infinito, e jogamos contra algo finito. O carter utilitrio da prova indica-nos que ela  dirigida para os incrdulos: um passo 
prvio para dispor o esprito  procura do verdadeiro Deus. No  uma prova que demonstre a verdade do cristianismo. Com ela no se demonstra que o cristianismo 
seja uma religio verdadeira: continua um mistrio. Se  "o corao o que sente Deus e no a razo", deve-se procurar um "Deus vivo" e no uma "verdade eterna", 
ou um "organizador do universo", o chamado "deus dos filsofos". Deve-se procurar Deus em Jesus Cristo, o nico que salva do atesmo e do desmo, e o nico que permite 
o que  mais importante e decisivo: a salvao. Devemos comunicar-nos com Deus atravs da mediao com Jesus Cristo. Desta forma, o conhecimento de Deus deve ser 
ao mesmo tempo o conhecimento de nossa misria. Em conse-

446 / Pastor, Ludwig von

qncia, o problema que se deve tratar racionalmente  o das provas da verdade de Jesus Cristo, baseadas nos milagres e nas profecias. Assim sabemos qual  a verdadeira 
religio. -- Os que se extraviam, fazem-no por no verem uma destas coisas. Pode-se conhecer Deus sem conhecer a prpria misria, e a misria sem Deus. Mas no se 
pode conhecer Jesus Cristo sem conhecer, ao mesmo tempo, a Deus e a prpria misria. -- Jesus estar em agonia at o fim do mundo: se no deve dormir durante esse 
tempo (735). -- No conhecemos Deus seno por Jesus Cristo. Sem esse mediador, fica suprimida toda comunicao com Deus; por Jesus Cristo conhecemos a Deus. Todos 
os que pretenderam conhecer Deus e demonstr-lo sem Jesus Cristo, no tinham mais do que provas impotentes (729).
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes. Ed. de L. Brunschvich, 1904-1914, 14 vols.; J. Mesnard, Pascal: el hombre y su obra, 1973.

Pastor, Ludwig von (1854-1928)
Nascido em Aquisgrana, Pastor lecionou em Innsbruck a partir de 1880. Foi diretor do Instituto Histrico de ustria em Roma. Terminada a 1 Guerra Mundial, foi representante 
da ustria diante da Santa S, cargo que lhe permitiu continuar a obra  qual havia dedicado sua vida desde que, ainda estudante, pensara contrapor  Histria dos 
papas do protestante *Ranke, uma histria objetiva e documentada. Com sua morte, em 1928, deixa uma Histria dos papas que abrange desde os princpios do sculo 
XIV at finais do XVIII. O grande mrito de Pastor apia-se, principalmente, na explorao sistemtica das fontes, tanto do Arquivo do Vaticano, o primeiro de que 
se pde aproximar, influindo ele mesmo na deciso de *Leo XIII de abri-lo a todos os pesquisadores, como de outros numerosos arquivos europeus. Seu mrito com-

Paulo, Apstolo, So / 447

pleta-se por ter-nos oferecido uma reconstruo substancialmente livre de preocupaes apologticas, e superior, por isso mesmo, a muitas snteses da historiografia 
liberal, dominadas muito freqentemente por concepes apriorsticas, muito mais do que pela procura da verdade atravs da explorao das fontes. No so muito slidas 
as acusaes que lhe fizeram baseadas em motivos confessionais. A obra de Pastor continua sendo vlida em seu conjunto, pelo menos como ponto de partida insubstituvel 
para qualquer pesquisa e como fonte de informao de altssimo valor.
BIBLIOGRAFIA: Historia de los papas, 16 vols., em 22 tomos. Barcelona 1910-1937; G. Martina, La Iglesia de Lutero a nuestros das, I, 27s., sobre historiografia 
da Igreja.

Patrologia
*Padres da Igreja.

Paulino de Antioquia (353-431)
*Jernimo, So.

Paulo, Apstolo, So (10-67 d.C.)
Saulo ou Saul, conhecido mais tarde como Paulo, nasceu em Tarso, sia Menor, de famlia hebria, na primeira dcada do sc. I. Cidado romano por seu nascimento 
numa cidade livre, foi educado, desde sua juventude, pelo sbio rabino Gamaliel, nas doutrinas dos fariseus. Grande inimigo da nascente Igreja e implicado na morte 
de Estvo, o primeiro mrtir cristo, sua vida mudou bruscamente por seu encontro no caminho de Damasco com o Senhor ressuscitado. Jesus manifestou-lhe a verdade 
da f crist e lhe deu a conhecer sua misso especial de apstolo dos gentios (At 9). Isso aconteceu pelo ano 36. A partir desse momento, dedicou toda a sua vida 
ao servio de

448 / Paulo, Apstolo, So

Cristo, que o havia "alcanado". Depois de permanecer trs anos no deserto da Arbia, voltou a Damasco, subiu a Jerusalm (pelo ano 39), e depois retirou-se para 
a Sria-Cilcia. Comeou sua pregao em Antioquia e, em seguida, empreendeu sua primeira viagem apostlica (entre o ano 45-49): anunciou o evangelho em Chipre, 
Panflia, Pisdia e Licania. E ento mudou seu nome de Saulo para Paulo, pelo qual ser conhecido. No ano 49 participou do Conclio Apostlico de Jerusalm, no 
qual foi reconhecida sua misso como apstolo dos gentios, depois de a assemblia ter admitido que a lei no obrigava os cristos convertidos do paganismo. Vm em 
seguida a sua segunda e terceira viagens apostlicas entre os anos 50-52 e 53-54, respectivamente. No ano 58 foi detido em Jerusalm e mantido na priso em Cesaria 
da Palestina at o ano 60. No outono desse ano, o procurador Festo enviou-o em escolta a Roma, onde Paulo permaneceu dois anos (61-63). Cancelado o seu processo, 
ficou livre.  provvel que nesta situao se dirigisse  Espanha, conforme seu desejo (Rm 15,24), e a outras regies do Oriente. O ltimo cativeiro em Roma terminou 
com o martrio, segundo a tradio mais primitiva, e que pode ser colocado pelo ano 67. -- A figura e a atividade de Paulo nos foram transmitidas fundamentalmente 
pelos Atos dos Apstolos, dos quais  o personagem principal, e pelas 14 cartas que se conservam e que formam uma terceira parte dos livros cannicos do Novo Testamento. 
A literatura apcrifa tratou tambm de engrandecer a vida e os feitos de Paulo, ornamentando-os de fantasia e milagres. Sobre o valor dos Atos dos Apstolos (*Lucas) 
como fonte para a vida de Paulo, ningum duvida que oferece dados de primeira mo. De suas 14 cartas, 7 so consideradas autnticas: Romanos, 1 e 2Corntios, Glatas, 
Filipenses, 1Tessalonicenses e Filmon. A opinio dos estudiosos varia sobre a autenticidade de Efsios, Colossenses e 2Tessalonicenses. As cartas pastorais -- 1 
e 2Timteo e a de Tito -- consideram-se escritas de-

Paulo, Apstolo, So / 449

pois de sua morte. Os dados dos apcrifos no tm, em seu conjunto, valor histrico. -- Paulo , antes de tudo, um pregador do "querigma apostlico", proclamao 
de Cristo crucificado e ressuscitado conforme as Escrituras. Seu evangelho no  "coisa sua",  o evangelho da f comum aplicado  converso dos gentios. Suas cartas, 
ento, nada mais so do que confirmao e ampliao da mensagem transmitida de viva voz s comunidades. Para ns, as cartas so, hoje, a voz e a doutrina de Paulo. 
Damos uma breve nota sobre elas: -- Carta aos Romanos. Escrita pelo ano 57, em Corinto, foi dirigida  comunidade de Roma, composta por cristos, convertidos do 
paganismo, e por alguns judeus convertidos. O tema central  a ao de Deus atravs de Jesus Cristo para salvar a humanidade destroada pelo pecado. A salvao do 
homem realiza-se pela f em Jesus, o Messias, manifestao suprema de Deus ao homem. Em conseqncia, h uma mudana no ntimo do homem, efetuada pelo Esprito de 
Deus, que acaba com o domnio do pecado e permite uma vida nova. A salvao realiza-se por uma nova solidariedade do homem com o Messias, Jesus, o novo Ado, princpio 
de uma humanidade nova. -- Cartas 1 e 2Corntios. 1Corntios foi escrita aos cristos de Corinto, provavelmente no ano 56. Seu objetivo  restabelecer a unidade 
da comunidade perturbada por elementos estranhos  doutrina pregada por ele trs anos antes. 1Corntios contrape Cristo-sabedoria de Deus  v sabedoria do mundo; 
a f em Cristo  orgulhosa confiana na razo do esprito grego dominante na cidade. As duas Cartas aos Corntios no so um tratado; so respostas a problemas prticos 
colocados pela mesma comunidade crist. Destacam-se, principalmente, o tema da ressurreio dos mortos, a celebrao da Eucaristia, os dons ou carismas. -- Glatas. 
Escrita entre os anos 54-57, Glatas  o manifesto da liberdade crist. Paulo

450 / Paulo, Apstolo, So

ensina que "o crescimento pessoal" a que Deus chama o homem no se obtm pela fidelidade minuciosa a um cdigo de leis ou regras, mas pelo uso responsvel da liberdade. 
A relao criadora do homem no se estabelece com um cdigo, mas com Cristo, presente no profundo do ser. O guia da liberdade  o amor a si prprio e aos demais, 
que se identifica com o interesse ativo pelo bem do prximo (5,6.13.15). A carta  certamente autntica e reivindica o apostolado de Paulo e sua doutrina. Reafirma 
a validade do Evangelho como contraditrio  Lei e  espiritualidade legalista. O tema desta carta completa o tema da Carta aos Romanos. -- Filipenses  outra das 
cartas autnticas de Paulo.  a primeira das cartas chamadas do "cativeiro", por t-la escrito no crcere. Sua data de redao est entre os anos 55 e 57. Filipenses 
 a carta da alegria crist, inclusive diante da perspectiva da morte. A vida do cristo est centrada em Cristo no presente com a esperana do futuro e se manifesta 
no afeto, unio, amor e alegria da comunidade, de onde  desterrada toda a rivalidade e orgulho. A Filipenses devemos unir as cartas aos Colossenses e aos Efsios, 
tambm chamadas cartas do cativeiro. Essas duas cartas, no entanto, nem todos as reconhecem como autnticas de Paulo. Para a primeira propem-se diversas datas de 
composio, que oscilariam entre os anos 5463. Para Efsios, d-se uma data posterior, entre os anos 80-100 de nossa era. Em Colossenses, Paulo apresenta a plenitude 
de Cristo, que comea por uma renovao interior do homem e continua por uma associao  prpria vida de Cristo, declarando que a asctica  impotente para renovar 
o homem. O resultado  a nova qualidade das relaes humanas, opostas s vigentes no mundo, e que rompem as barreiras entre os homens. Em Efsios podemos apreciar 
o grande documento da unidade eclesial. -- 1 e 2Tessalonicenses. A primeira considera-se como autntica de Paulo e foi escrita prxi-

Paulo, Apstolo, So / 451

mo ao ano 49-50. A autenticidade da segunda  incerta. Poderia ser atribuda a um discpulo de Paulo de finais do sc. I. Em 1Tessalonicenses, Paulo aclara algumas 
dvidas sobre a sorte dos mortos e sobre a vinda escatolgica de Cristo. Corrige algumas deficincias na vida da comunidade, como a preguia no trabalho e certa 
inquietude pela crena na volta iminente do Senhor. A 2Tessalonicenses prope um ensino sobre a vinda do Senhor, que no coincide com a que se d na primeira. Enquanto 
nesta se afirma claramente que no haver sinais que anunciem a volta do Senhor, na segunda enumeram-se uma srie de signos precursores. Tudo isso faz pensar num 
autor diferente e numa data tambm diferente da primeira. -- Carta a Filmon. A mais breve das cartas de Paulo;  considerada "carta do cativeiro", j que Paulo 
a escreveu do crcere a Filmon, um cristo poderoso, convertido por ele, e recomenda a Onsimo, escravo de Filmon, fugido depois de cometer um roubo. -- Cartas 
a Timteo (1 e 2) e a Tito. Chamadas, desde o sc. XVIII, "cartas pastorais". So cartas individuais, no a comunidades crists. Tanto Timteo quanto Tito foram 
companheiros e colaboradores de Paulo. A autenticidade dessas cartas  muito discutida. Tudo faz supor que foram escritas no final do sculo I. Seu texto gira em 
torno da organizao e cuidado pastoral desses grupos de cristos. -- Carta aos Hebreus. , na realidade, um sermo que se envia por escrito para ser lido por outras 
comunidades, de estilo retrico e solene. Seu autor  um mestre judaico-cristo, muito versado na Escritura, com grande penetrao teolgica e grande domnio da 
lngua. Seu estilo no se parece em nada ao de Paulo. Sua data de composio  incerta, embora anterior ao ano 96. Os estudiosos inclinam-se a no atribu-la a Paulo, 
embora tambm no seja fcil atribu-las a nenhum dos personagens do tempo. Seu autor, portanto,  annimo.

452 / Paulo III, Papa

A carta  dirigida aos hebreus, isto , a cristos convertidos do judasmo. Adverte-os sobre a apostasia, oferecendo-lhes magnficas perspectivas sobre a vida crist 
concebida como uma peregrinao em direo ao repouso prometido,  ptria celestial com Cristo como guia superior a Moiss. Para isso, contrape a pessoa de Cristo 
Sacerdote conforme a ordem de Melquisedec, e seu nico sacrifcio, o nico vlido, aos sacrifcios e sacerdotes do Antigo Testamento. -- No  este o lugar e o momento 
de um estudo completo da personalidade e doutrina de Paulo. Basta afirmar a importncia e influncia decisiva que sua vida e sua obra escrita tiveram no cristianismo 
em geral e na vida dos cristos em particular. Por sua vida, apresenta-nos como o modelo de seguidor de Cristo, o modelo de quem deixou tudo por ele. Como evangelizador 
e escritor, foi o apstolo e o mestre para a Igreja de todos os tempos. As diferentes interpretaes que, ao longo do tempo, deram-se de Paulo e sua doutrina no 
anulam o magistrio perene que exerce desde sempre. Paulo  de Cristo, e Cristo da Igreja.
BIBLIOGRAFIA: G. Bornkamm, Pablo de Tarso. Salamanca 1982; G. Eichholz, El evangelio de Pablo. Esbozo de una teologa paulina. Sgueme, Salamanca 1977; J. A. Fitzmyer, 
Teologa de San Pablo. Sntesis y perspectivas. Cristiandad, Madrid 1975; "Cuadernos bblicos", srie de vrios volumes sobre Paulo e suas cartas. Verbo Divino, 
Estella 1976s.

Paulo III, Papa (1468-1549)
*Trento, Conclio de.

Paulo VI, Papa (1897-1978)
Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Brescia, de famlia piedosa da burguesia lombarda. Cursou seus estudos nos jesutas, para passar aos 20 anos para o 
seminrio, e ser ordenado sacerdote em 1920. Completou seus estudos superiores de Filosofia e Direito, ingres-

Paulo VI, Papa / 453

sando depois na diplomacia vaticana. Passou os trs primeiros anos de sua carreira como agregado  Nunciatura de Varsvia, ficando definitivamente, e por mais de 
30 anos, vinculado  Secretaria de Estado do Vaticano. A partir dos anos 30, transformou-se num dos mais prximos colaboradores do cardeal Pacelli, eleito papa em 
1939 com o nome de *Pio XII. De 1954 a 1963 presidiu como arcebispo a diocese de Milo, sendo eleito nesse mesmo ano papa com o nome de Paulo VI. Paulo VI, tmido, 
de inteligncia brilhante, grande trabalhador, mstico, contrastava com seu predecessor, *Joo XXIII, e dava a impresso de fragilidade. Parecia dominado pela dvida 
e pela vacilao; no entanto, os anos e a distncia devolvem-nos a imagem de um grande homem de Igreja, um intelectual que levou a bom porto o Conclio *Vaticano 
II e a obra de reforma dele nascida. Dos trs grandes captulos de seu pontificado: o Vaticano II, as viagens apostlicas e os interesses sociais, ecumnicos e pastorais, 
o primeiro , de longe, sua principal preocupao. Depois de sua eleio, declarou que tentou prosseguir a tarefa empreendida por seu predecessor. De 19621965 convocou 
e presidiu as quatro ltimas sesses do Conclio *Vaticano II. Paulo VI dirigiuas, dando aos intrincados problemas do momento uma compreenso acadmica e um tratamento 
fruto de seus longos anos de experincia diplomtica. Foi suficientemente aberto para manter o Magistrio da Igreja em matria de f e de moral, fiel  tradio, 
e fiel tambm aos sinais dos tempos. Essa abertura natural e calculada -- olhando ao mesmo tempo para a frente e para trs --, o pontfice a usou na aplicao da 
reforma postulada pelo Conclio. Seus crticos atribuam-na a sua timidez, indeciso e incerteza. Houve quem acreditasse ver nele a sombra de Hamlet. Entretanto, 
muitas de suas decises dos anos posteriores ao Conclio so fruto de uma coragem e de uma deci-

454 / Paulo VI, Papa

so autnticas. Progressivamente comearam a funcionar as instituies previstas pelos textos conciliares. Organizaram-se as conferncias episcopais em todos os 
pases. Criaram-se as diferentes comisses de liturgia, de ecumenismo, de apostolado social, de leigos etc. Empreendeu importantes reformas da Cria Romana e das 
indulgncias (1967), do calendrio litrgico e do Missal Romano (1969), do brevirio (1970), das ordens menores (1972), do consistrio (1970). Ao mesmo tempo criou 
novos organismos para agilizar o aparelho eclesial burocrtico e a criao pastoral do snodo episcopal desde 1965. Sua fidelidade  tradio -- e a falta de inovao 
-- ficou impressa em suas encclicas, cartas apostlicas e discursos que, em ocasies, suscitaram desaprovao e crtica dos elementos mais progressistas da Igreja. 
Por exemplo, a encclica sobre o celibato sacerdotal (1967) e a Humanae Vitae (1968). Nesta ltima linha de plasmar e dirigir a reforma do Conclio esto suas encclicas 
Ecclesiam Suam (1964), Populorum Progressio (1967), em que afirma que o progresso deve ser integral e afeta todos os aspectos: econmico, cultural e espiritual; 
a Octogesima Adveniens (1971) sobre questes sociais, e outras sobre a vida religiosa (1971) e sobre a evangelizao (1976). Com Paulo VI, a Igreja parece ter encontrado 
uma dimenso mundial, tomando parte ativa entre os que procuram a soluo dos problemas deste mundo. Com as viagens, os encontros e os gestos, o papa ganhou a simpatia 
dos cristos e dos no-cristos. O papa esteve em Nova York, sede das Naes Unidas, em 1965; em Portugal e em Istambul, onde encontrou-se com o patriarca Atengoras, 
em 1967; na Amrica Latina em 1968; em Genebra e Uganda em 1969; no Extremo Oriente em 1970. Sem esquecer sua primeira viagem  Terra Santa (1964) e seu encontro 
com o arcebispo de Canturia em 1970. Os temas tratados por Paulo VI nessas viagens eram

Pedro Lombardo / 455

basicamente os mesmos: a paz mundial, a justia social, a fome e a ignorncia no mundo, a fraternidade universal em Deus e a cooperao internacional.
BIBLIOGRAFIA: G. Alberigo-J. P. Jossua, Recepcin del Vaticano II. Cristiandad, Madrid 1987; C. Floristn-J. J. Tamayo, El Vaticano II, veinte aos despus. Cristiandad, 
Madrid 1985; R. Laurentin, Balances. Taurus, Madrid 1964; J. L. Gonzlez-T. Prez, Pablo VI, 1964.

Pedro Lombardo (1100-1160)
O nome de Pedro Lombardo est vinculado s Sumas ou compndios de teologia da escolstica medieval. Sua influncia  patente nas escolas e autores medievais. Sua 
obra principal, a Summa Sententiarum, foi livro de texto at boa parte do sc. XVI. Nascido em Lumello (Novara), estudou em Bolonha, para passar depois  escola 
de So Vtor em Paris e, de 1140,  escola-catedral de Paris. Foi nomeado bispo desta cidade em 1159, morrendo provavelmente em 1160. As obras de Pedro Lombardo 
que chegaram at ns so um Comentrio s epstolas de So Paulo e outro aos Salmos. Sua obra principal, como se sabe, so os Libri quattuor Sententiarum, conhecidos 
tambm como Summa Sententiarum, que lhe valeu o ttulo de "Magister Sententiarum". A Summa Sententiarum insere-se no gnero literrio de summas ou compndios, em 
que os professores expunham sua doutrina teolgica para os alunos. So uma srie de sentenas ou proposies que seguem uma ordem mais ou menos lgica sobre diferentes 
pontos ou teses de teologia. A essas sentenas tomadas das Escrituras ou da patrstica, seguia o texto original, que no era mais do que a explicao das mesmas 
conforme o critrio do mestre. As Sentenas de Pedro Lombardo transformaram-se, muito cedo, num dos livros fundamentais do ensino filosfico-teolgico medieval.

456 / Pedro Lombardo

Embora sua originalidade filosfico-teolgico fosse escassa, essas Sentenas tinham, entretanto, a vantagem de oferecer uma doutrina coerente e sistemtica dos contedos 
da f crist. A Summa Sententiarum est dividida em quatro livros. Os trs primeiros tratam das coisas (res) que no so smbolos de outras coisas. O quarto ocupa-se 
dos signos (signa) que simbolizam outras coisas, isto , os sete sacramentos. Temos assim: Livro I: Deus; Livro II: As criaturas; Livro III: As virtudes e a salvao; 
Livro IV: Os sacramentos. Um esboo do que seriam as Summas dos sc. XIII e XIV e os manuais posteriores de teologia. Como dissemos, a Summa Sententiarum no nasce 
"ex novo". Copia com freqncia de outras summas e autores como Hugo de So Vtor, dos textos patrsticos coletados no Decretum Gratiani etc. Utiliza muitas das 
classificaes de So *Joo Damasceno em De fide orthodoxa. Sua principal contribuio vem dos textos e opinies de Santo *Agostinho, Santo *Hilrio, Santo *Ambrsio, 
So *Jernimo, So *Gregrio Magno, *Cassiodoro, Santo *Isidoro, So *Beda etc. "Ao expor sistematicamente a doutrina crist, Pedro Lombardo preocupa-se mais em 
conservar o patrimnio da tradio que de em aprofundarse nele. No  um esprito original, mas um compilador, como ele mesmo confessa no prlogo, onde diz que seu 
objetivo  compendiar, numa obra breve, as *sentenas dos santos padres, para evitar que o estudante tenha o fatigante trabalho de recorrer a textos originais" (Diccionario 
de filsofos). Numa condensada e obrigatria sntese do pensamento e do mtodo de Pedro Lombardo, diremos que: a) apesar de sua afirmao de que "acredita nos pecadores, 
no nos dialticos", nosso autor  um dialtico que procura fazer valer todo o peso de sua razo em apoio  autoridade dos textos citados; b) emprega e serve-se 
de todos os meios possveis para a compreenso dos textos patrsticos; c)  notvel a influncia que

Petrarca, Francesco / 457

tem *Abelardo sobre ele, assim como o empenho de realizar um trabalho sistemtico em teologia. Resumindo,  um dos escolsticos cujo peso se faz sentir em outros 
mestres, obrigando-os a um comentrio sobre suas Sentenas. Somente F. de *Vitria e Cayetano conseguiram deix-lo de lado nas escolas, impondo a Summa de Santo 
*Toms.
BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 191-192; So Boaventura, Opera omnia, nos tomos I-IV aparecem os Libri quattuor Sententiarum. Quaracchi 1882-1889; P. Delhaye, Pierre Lombarde, 
sa vie, ses oeuvres, sa morale.

Pedro, o Venervel (1092-1156)
*Abelardo, Pedro.

Pguy, Charles (1873-1914)
*Mounier, E.; *Literatura atual e cristianismo.

Petrarca, Francesco (1304-1374)
Nasceu em Arezzo e morreu em Arqu sui Cilli Euganei. Petrarca  considerado o iniciador e mestre do humanismo. Se *Dante ainda est ligado, doutrinalmente,  Idade 
Mdia, Petrarca afasta-se daquele mundo at mesmo em sua doutrina. Viu nos Studia humanitatis um instrumento muito eficaz e uma nova fora espiritual para criar 
uma nova cultura e uma nova concepo da vida. Em que consistia essa nova cultura e concepo da vida? Petrarca deixou-o bem claro em sua primeira obra De sui ipsius 
et multorum ignorantia (1337-1338), chamando a um retorno  antiga sabedoria romano-crist representada por Ccero e Santo *Agostinho. A sabedoria clssica e crist 
 a que se fundamenta na meditao interior, atravs da qual a personalidade do homem aclara-se e se forma. O modelo e o mtodo neste retorno ao interior , para 
Petrarca, Santo Agosti-

458 / Petrarca, Francesco

nho.  o mais prximo de seu esprito e a quem procura retornar continuamente. -- Esse procedimento foi aplicado em sua obra posterior De contemptu mundi (entre 
1347-1353), conhecida tambm como Secretum. Santo Agostinho compendia todas as exigncias e ensinamentos de Petrarca. No dilogo entre Francisco e Agostinho, o poeta 
faz uma confisso de seu conflito interior. Confessa ser vtima da acdia -- o tdio doloroso da vida -- a doena medieval dos claustros. Encontra a resposta nas 
Confisses de Santo Agostinho, que sempre levava consigo. "Os homens se esquecem de si prprios e ficam sem admirao diante de si mesmos." Terminou reconhecendo 
que toda a sabedoria antiga tende a concentrar o homem em si mesmo e que o "noli foras ire" agostiniano e o "scito te ipsum" socrtico so equivalentes. -- Descobre 
tambm que toda a sua vida est dividida entre a admirao pela natureza e a incitao da sabedoria. Em seu esprito, combatem o chamado do mundo e o convite  concentrao 
interior. Essa  a luta caracterstica de sua personalidade. Vive a experincia do contraste entre a fuga do mundo e a procura das honras, a coroao no Capitlio, 
a glria, o amor de Laura, o amor  natureza e o desejo de riquezas e de glria. O contraste  reconhecido como lei de vida em sua obra posterior De remediis utriusque 
fortunae (1366). "Tudo -- afirma -- acontece atravs do contraste, e o que se chama aventura na verdade  luta." "E a luta maior, mais dura,  a que se estabelece 
dentro do homem." "Nunca est completo; nunca  uno, mas est internamente em discordncia e lacerado." -- Esse pessimismo petrarquiano fica suavizado com o anncio 
e a esperana do renascer de uma era de paz. Anuncia o retorno  idade urea do mundo, ou seja,  era da paz e da justia: "Anime belle e di virtute amiche terranno 
il mundo...". E o retorno  idade urea  um regresso a "le opere antiche", aos costumes e s artes antigas. Para esse advento contribuiu com sua

Petrarca, Francesco / 459

obra de poeta e de historiador. Seu poema frica, seu livro De viris illustribus no so mais do que a tentativa de adiantar a vinda da idade de ouro com o exemplo 
das grandes figuras da Antigidade. Nesta mesma linha inscreve-se sua obra Rerum memorandarum libri IV (incompleta). No De vita solitaria advoga pelo otium, garantia 
da liberdade do esprito contra a disperso de quem se deixa dominar pelas ocupaes mundanas, tal como se manifesta na vida dos eremitas cristos. -- Numa sntese 
muito condensada do pensamento de Petrarca -- no nos ocupamos de sua arte e poesia --, podemos concluir: a) em Petrarca, o culto  Antigidade clssica e crist 
leva consigo uma crtica  Idade Mdia, o descobrimento numa primeira formulao das linhas programticas da conscincia moderna; b) Petrarca contribui ainda com 
a formao do aspecto filosfico e especulativo do humanismo. Para isso faz uma crtica do aristotelismo em todas as suas formas, desde o averrosmo at a escolstica; 
c) ao aristotelismo Petrarca contrape uma sabedoria que no  uma filosofia em sentido intelectualista, mas uma concepo da vida em funo de suas exigncias morais 
e religiosas. Para isso aponta na direo de trs homens: Plato, Ccero e Santo *Agostinho. Deles receber a preocupao pelo homem e por todos os seus problemas 
morais e religiosos. "O pensamento filosfico de Petrarca manifesta-se no desinteresse pela ordem da natureza, na averso a toda forma de cosmologismo, na reduo 
da filosofia ao problema da interioridade humana e o carter essencialmente religioso da busca da sabedoria, orientada para uma fundamental finalidade soteriolgica. 
Nessa orientao j existe um sensvel afastamento da espiritualidade medieval, assim como uma clara antecipao da conscincia moderna" (Diccionario de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Francisci Petrarcae Opera omnia. Basilia 1581; Diccionario Bompiani de Autores Literarios. Planeta-Agostini, Barcelona 1987.

460 / Pico de la Mirndola, Joo,

Pico de la Mirndola, Joo, Conde de Concrdia (1463-1494)
Esse jovem aristocrata do "quattrocento" italiano  chave para se entender o humanismo. Provocador em sua vida, em seus gestos e em seus escritos, encarna o desejo 
do saber universal alm das formas e das escolas. Ensaiou um tipo de vida e de pensamento original, rompendo os moldes de seu tempo. No se limitou ao estudo do 
latim e do grego -- que comeam a dominar nos ambientes cultos da Itlia --, mas se iniciou no conhecimento das lnguas orientais: hebraico, rabe e caldeu. Mergulhado 
na verdade filosfica e religiosa -- acima de tudo -- trata de procur-la em Plato, Aristteles e Averris; estudou as Escrituras crists e os Orculos caldeus, 
a cabala e o Coro. Viveu onde viveu a cincia: Ferrara, Pdua, Florena, Paris. Escutou *Savonarola, sem tomar partido por sua causa, e se aproximou de *Ficino, 
sem entrar em sua escola nem no crculo de seus amigos. -- Porm, o que mais se destacou neste jovem inquieto foi seu entusiasmo pelos novos ideais cientficos. 
Estimulou-o a verdade filosfica e religiosa -- que se apresenta nua a quem a procura com af -- e que deve ser transmitida aos demais tal como , sem as roupagens 
da retrica. Em 1486 irrompeu na vida pblica com a apario em Roma de suas 900 Concluses ou Teses (Conclusiones philosophicae, cabalisticae et theologicae). Das 
900 teses, 402 foram tomadas das mais dspares fontes culturais: filsofos e telogos latinos, peripatticos rabes, platnicos, matemticos, pitagricos, telogos 
caldeus, Hermes Trismegisto, cabalistas hebreus. As demais eram fruto de sua reflexo pessoal. Umas queriam introduzir novas verdades filosficas; outras tentavam 
demonstrar a verdade sobre o cristianismo, como ponto de convergncia da tradio cultural, religiosa, filosfica e teosfica de diversos pases. Essas teses deveriam 
ser discutidas por sbios de todo o mundo, num congresso

Pico de la Mirndola, Joo / 461

convocado e sufragado por Pico, e que no se levou a efeito. -- Passou  histria do pensamento com Oratio de hominis dignitate, que precedeu s Concluses como 
introduo. O homem , para ele, o centro da realidade, colocado por Deus para que pudesse escolher livremente a meta de suas aspiraes e viver, de acordo com sua 
escolha, a vida das bestas ou a dos seres divinos. -- Pico nega a proposio neoplatnica de que o homem  intermedirio entre o mundo terreno e o divino. O homem 
no  copula mundi, nem mensura mundi, nem microcosmos. O homem no tem teto nem medida: pode ser o que quiser. O homem encontra-se fora dessa hierarquia e possui 
uma capacidade ilimitada para o auto-aperfeioamento espiritual. O valor da verdade filosfica encontra-se em sua capacidade de purificar a alma humana e de contribuir 
para a sua perfeio. -- Pico expressa essas idias na clebre passagem do Discurso sobre a dignidade do homem. Diz assim: "Por fim me pareceu chegar a entender 
por que o homem  o ser vivo mais feliz e, por isso, o mais digno de admirao. E cheguei a entender tambm qual  a condio que lhe coube na sorte dentro do universo... 
Tu marcars tua natureza segundo a liberdade que te entreguei, pois no ests submetido a nenhum caudal estreito. No te fiz celeste nem terrestre, nem mortal nem 
imortal. Tu mesmo deves dar-te a forma que preferires para ti". -- Pico  um ecltico: a) Sustenta que todas as filosofias contm verdades de valor. b) Plato e 
Aristteles coincidem substancialmente na concepo do ser e do uno (De ente et uno, 1492). c) Desenvolve a idia de um fundo primitivo de sabedoria divina desde 
as obras dos hermticos at o cabalismo judeu que, segundo ele, encerrava uma tradio de saber essencial para a interpretao da Bblia. d) V a natureza impregnada 
de um hlito divino. Em sua obra Disputationes adversus astrologiam (1493), ops-se  astrolo-

462 / Pietismo

gia e  magia convencional, qualificando-as de "inimigas da religio". No obstante, Pico procura algo mais profundo do que a bela forma literria: a verdade filosfica 
e religiosa. "Com isso, a cultura renascentista, saindo da fase filolgica e literria, comeou a caminhar para uma concepo cientfica e ao mesmo tempo religiosa 
do universo".
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Ed. de E. Garin, Turim 1971; P. O. Kristeller, Ocho filsofos. Mxico 1974, com bibliografia; Humanismo y Renacimiento. Traduo e seleo 
de Pedro R. Santidrin, em que aparece o Discurso sobre la dignidad del hombre, 121.

Pietismo (sc. XVII)
*Pietistas.

Pietistas (sc. XVII)
O pietismo no deve ser confundido com o quietismo, nem muito menos com o puritanismo. Esse ltimo  um movimento de reforma que surgiu e evoluiu nos sc. XVI-XVII 
na Igreja da Inglaterra e que se transportou s colnias da Amrica do Norte, onde criou o "modelo de vida puritana" que todos conhecem. O quietismo  um produto 
da Igreja Catlica. Nasceu na Espanha (*Molinos; *Fnelon) e teve ramificaes na Itlia e na Frana. O pietismo nasceu na Alemanha protestante do sculo XVII. Acentua 
a f pessoal em protesto contra a secularizao da Igreja. Surgiu como reao da guerra dos "trinta anos" na Alemanha e estendeu-se um pouco por toda a Europa sempre 
que a religio se divorciava da experincia pessoal. Foram vrios os motivos imediatos desse movimento, entre eles o endurecimento escolstico do luteranismo diante 
dos seus adversrios, e a influncia vinda do exterior, das obras dos puritanos ingleses, como Richard Baxter, John *Bunyan e outros exilados na Holanda, como William 
Ames. Embora, mais tarde, derivasse para uma lite-

Pietistas / 463

ratura devocional, baseada em parte na tradio mstica alem, o prprio dos pietistas foi uma "teologia do corao", alimentada pelos escritos de Johann Arndt (1555-1621). 
Encontraram seu refgio na Palavra pela leitura e meditao da Bblia, reforada pela fora dos hinos da liturgia luterana. O principal representante desse movimento 
pietista na Alemanha foi F. Jacob Spener (1635-1705). Em seu ministrio em Frankfurt, ficou impressionado com a vida decadente da cidade e organizou os primeiros 
collegia pietatis, nos quais os leigos cristos reuniam-se regularmente para trocar suas experincias e fazer a leitura espiritual. Essas prticas transformaram-se 
em caractersticas dos colegia pietatis, recebendo seus freqentadores o nome de pietistas. Em sua obra mais famosa, Pia desideria (1675), Spener exps as debilidades 
da ortodoxia e adiantou uma reforma cujos pontos principais so: a) maior uso privado e pblico das Escrituras; b) maior dedicao por parte dos leigos de suas responsabilidades 
sacerdotais como crentes; c) a necessidade de que a f viva d frutos prticos; d) que a formao para o ministrio ressalte mais a piedade e o conhecimento do que 
a disputa; e) que a prdica dirija-se mais  edificao. Para isso, os collegia pietatis foram um instrumento muito eficaz, assim como foram entre os catlicos os 
Oratrios (*Filipe Nri; *Brulle). O sucessor de Spener foi Auguste H. Francke (1663-1727), da Universidade de Halle. Baseado no princpio de que "um gro de f 
verdadeira vale mais do que um quintal de erudio histrica, e uma gota de caridade mais do que um oceano de cincia", lanou-se a uma campanha intensa de alfabetizao 
e de criao de escolas e de um seminrio para mestres, nos quais se busca, fundamentalmente, "a piedade do corao". Francke  considerado um dos grandes pedagogos 
da f e da piedade crists, assim como das letras humanas. Exemplo disso  seu livro Doutrina mais breve e simples para dirigir as crianas 

464 / Pio IV

verdadeira piedade e ao esprito cristo (1702), que constitui um verdadeiro plano de ensino. Francke teve muitos outros seguidores, entre eles o fundador dos Irmos 
moravos, um dos quais foi *Comenius, o autor da Didtica magna (*Educadores cristos). Desta forma, o pietismo no s se abriu s novas formas de educao crist, 
mas tambm a uma nova pastoral,  ao missionria e litrgica. O movimento pietista calou fundo no seio do protestantismo alemo e de regies de sua influncia. 
Desde o sculo XVIII, estimulou direta ou indiretamente todos os movimentos "revivalistas" dos sc. XIX e XX.
BIBLIOGRAFIA: J. M. Gmez-Heras, Teologa Protestante (BAC).

Pio IV (1499-1565)
*Trento, Conclio de; *Smbolo dos Apstolos.

Pio V (1504-1572)
*Catecismo.

Pio IX (1792-1878)
*Vaticano I; *Syllabus.

Pio X, So (1835-1914)
*Loisy; *Modernismo; *Teologia atual, Panorama da.

Pio XII (1876-1958)
Eugnio Pacelli, Papa Pio XII de 1939 a 1958, mostra em que medida o Magistrio da Igreja adquire sua conscincia e desenvolvimento pleno nos ltimos tempos. Pio 
XII  o gesto, a voz e a presena da Igreja na guerra e na paz, na construo de um mundo novo, de uma nova ordem

Pio XII / 465

moral e espiritual, de um perfil e de uma disposio crist diferente. A palavra e a presena da Igreja fizeram-se ouvir atravs de suas alocues irradiadas, diretas, 
atravs de encclicas, discursos, intervenes. Observou-se, no entanto, o carter de preparao e antecipao que o pontificado de Pio XII teve com relao  Igreja 
e ao mundo do *Vaticano II e de nossos dias. Da mesma forma, acusa-se o estilo pessoal do papa diante do imobilismo das estruturas; o centralismo de Roma diante 
da iniciativa das Igrejas particulares, dos movimentos e dos indivduos. Contudo, no se pode passar por cima de algo que caracteriza e resume tanto a atividade 
de Pio XII como a de seu predecessor Pio XI: a solicitude pastoral por uma presena do Evangelho no mundo moderno, dentro e fora da Igreja. A necessidade de sair 
ao encontro dos problemas do mundo moderno permite-nos ressaltar as principais frentes de atuao do pontfice: 1) Atividade diplomtica, baseada no princpio e 
no valor dos acordos, que trata de preservar os privilgios e a liberdade de ao da Igreja, mesmo em regimes irreconciliveis com os princpios cristos. Como exemplo, 
sua atividade diplomtica com a Alemanha nazista, com a Itlia de Mussolini, com a Espanha de Franco e o Portugal de Salazar. Muito discutida foi sua ao e poltica 
com o regime nazista e com sua posterior perseguio aos judeus. Tudo isso provocou uma spera controvrsia. Faltou valentia a Pio XII para denunciar a perseguio 
e o holocausto judeu? Era favorvel ao nazismo? Ignorava o que acontecia? Havia assinado o acordo com Hitler em 1933 e em 1937 participara da redao da encclica 
Mit brennender Sorge. Sem nenhuma simpatia pelo nazismo, preferia as intervenes diplomticas discretas mais que as declaraes solenes. -- Prncipe da paz. Em 
1939-1940, depois de se esforar por impedir a declarao da guerra, aconselhou Mussolini a manter-se fora do conflito e s potncias europias a negociarem para 
solucionar seus problemas. Durante toda a

466 / Pio XII

guerra, em numerosos discursos e nas rdiomensagens de Natal, falou incansavelmente sobre os excessos da guerra e os benefcios de uma negociao e de uma paz baseadas 
num justo equilbrio. Definiu assim as condies de uma paz crist (Summi Pontificatus, 1940); as rdiomensagens de Natal de 1939-1948 aspiravam a uma nova ordem 
internacional, acima dos interesses das partes e do nacionalismo dos beligerantes. -- No terreno doutrinal, Pio XII abordou importantes problemas, tanto para a Igreja 
quanto para o mundo: a Igreja como Corpo Mstico de Cristo (Mystici Corporis, 1943); alocues e discursos sobre o matrimnio, a famlia e a educao dos filhos; 
sobre problemas de medicina e moral, assim como sobre problemas de direito internacional. Nessa atividade doutrinal, destacam-se trs captulos: a) a encclica Divino 
Afflante Spiritu (1943) d um novo impulso e direo aos estudos bblicos dentro do catolicismo, atrasados pela atmosfera um tanto inquisitria que se arrastava 
desde Pio X com o modernismo; b) a encclica Humani Generis (1950), que pela primeira vez denuncia os desvios da pesquisa teolgica e exegtica com especial ateno 
 "nova teologia"; c) Mediator Dei (1947)  uma encclica sobre a liturgia que prenuncia as reformas do Vaticano II. Talvez o que mais devamos ressaltar em Pio XII 
seja o novo impulso e a canalizao das aspiraes da Igreja e de um mundo que queria ser melhor. Evidentemente, nem sempre o conseguiu. Comunismo, ao catlica 
e apostolado secular, novas formas de apostolado, pastoral dos padres operrios, o no-avano no campo ecumnico, so alguns dos temas que ficaram pendentes e que 
o Conclio Vaticano II teria de enfrentar.
BIBLIOGRAFIA: J. A. Hardon, El cristianismo en el siglo XX. Santander 1973; R. de Luis, El Vaticano, ctedra de paz, 1945; L. Perea, En la frontera de la paz. Madrid 
1961; D. Tardini, Po XII, 1960.

Prudncio, Aurlio / 467

Policarpo de Esmirna (59-155)
*Padres apostlicos; *Marcio.

Porfrio (232-304)
*Joo Damasceno; *Juliano Apstata.

Port-Royal
*Jansnio.

Professio fidei tridentinae (1564)
*Smbolo dos Apstolos.

Prudncio, Aurlio (348-405)
Aurelius Clemens Prudentius nasceu em Saragoa. Governador e perito do direito, foi homem de confiana do imperador Teodsio, em cuja corte gozou de alta estima. 
Cansado da vida da corte, dedicou o resto de seus dias -- desde 392 -- a compor poemas sobre temas cristos. Prudncio foi o poeta latino que comps o primeiro poema 
totalmente alegrico da literatura europia, chamado Psychomachia. Gozou de uma influncia imensa na Idade Mdia, sendo imitado por poetas e escritores espirituais. 
Entende-se a obra potica de Prudncio sob diferentes pontos. Em primeiro lugar, o literrio: a poesia do saragoano que d forma literria clssica aos temas cristos. 
Em segundo lugar, encontra o contedo de sua poesia e inspirao na Bblia, nas *Atas dos Mrtires e em autores como *Tertuliano e Santo *Ambrsio. Finalmente, sua 
poesia -- seus hinos em particular -- entra na liturgia do Ocidente e  conhecida do povo culto. Sob esses pontos de vista,  considerado o primeiro poeta cristo 
por seu profundo contedo e mensagem. Suas obras: o Cathemerinon ou livro das horas. Compreende doze poemas lricos sobre as

468 / Psichari, Ernesto

horas do dia e sobre as festas crists. Predomina neles o simbolismo contnuo da luz e das trevas. Muitos desses poemas passaram a ser hinos das horas litrgicas 
do brevirio. Segue-lhe o Peristephanon ou poemrio das coroas dos mrtires. Contm catorze poemas sobre os mrtires espanhis e romanos. Esses dois livros de poemas 
so os que melhor nos conduzem  alma sensvel e exaltada, ao mesmo tempo, de Prudncio. H ainda outras quatro obras nas quais a poesia est mais a servio da ortodoxia 
crist. Assim, a Apotheosis  dirigida contra os que no aceitam a Trindade nem a divindade de Cristo. A Hamartigenia  um ataque contra *Marcio e seus seguidores, 
que defendiam o dualismo gnstico. Na Psycomachia descreve a batalha da f, apoiada pelas quatro virtudes cardeais, contra a idolatria e seus correspondentes vcios. 
Em seus dois livros Contra Symmachum responde ao senador que pedia que o altar voltasse ao Senado. Em qualquer caso, Aurelio Prudncio continua sendo o poeta cristo 
elegante e clssico, cujos versos e estrofes ainda ressoam em nossas igrejas.
BIBLIOGRAFIA: Obras completas de Aurelio Prudencio. Edio bilnge preparada por A. Ortega e I. Rodrguez (BAC); Patrologa, III. La edad de oro de la literatura 
patrstica latina; A. di Bernardino, Patrologa, (BAC).

Psichari, Ernesto (1883-1914)
*Literatura autobiogrfica.

Ptolomeu (sc. II)
*Cincia e f.

Puebla, Documentos de (1979)
*CELAM.

Quietismo / 469

Q
Quadrato (sc. II)
*Apologistas.

Querigma
*Paulo Apstolo, So.

Quesnay (1694-1774)
*Enciclopdia.

Quesnel, Pasquier (1634-1719)
*Jansenismo.

Quietismo
Para entender melhor os autores msticos e em geral a literatura mstica crist,  conveniente compreender o conceito e termo quietismo. "O quietismo  uma doutrina 
teolgica e por sua vez uma posio metafsica, entendida, esta ltima, como disciplina de salvao mais do que como caminho de conhecimento" (Ferrater Mora, Diccionario 
de filosofa). Vinculado o conceito ao espanhol Miguel de *Molinos, seus antecedentes, segundo *Menndez y Pelayo, so mltiplos: "A genealogia de Molinos -- diz 
ele -- remonta a muito mais tarde e chega at Sakya-Muni e os budistas indianos, e deles descende, passando pela escola de Alexandria e pelos gnsticos, at os begardos 
e os fraticellos e os msticos alemes do sc. XIV". Nessa genealogia quietista devemos pensar, em especial, num autor e em sua obra como  o *Pseudo-Dionsio Areopagita.

470 / Quietismo

Costuma-se conceituar o quietismo como uma doutrina e atitude espiritual que pe a perfeio na passividade ou quietude da alma, na supresso do esforo humano, 
de forma que a ao da graa divina possa atuar totalmente. Assim, do ponto de vista religioso e cristo, o quietismo sempre enfatiza a contemplao,  qual se outorga 
superioridade, sobre todos os atos morais e religiosos, e ao qual lhe concede a nica possibilidade de uma viso esttica e direta do ser divino. Nessa linha situa-se 
o quietismo de *Molinos. As anlises que se fazem da contemplao no Guia espiritual e em suas Cartas a um cavaleiro espanhol para anim-lo a fazer orao mental 
no objetivam a nada mais do que a provocar essa quietude do esprito atravs da contemplao. Para isso distingue: a) entre contemplao imperfeita, ativa e adquirida, 
e contemplao infusa e passiva; b) entre um silncio de palavras, um silncio de desejos e um silncio de pensamentos,  superior a todos esse ltimo por ser o 
nico que conduz ao recolhimento interior. Termina afirmando que a perfeio da alma no consiste em pensar muito em Deus, nem em falar dele, mas em amlo muito. 
S ento a alma chega a gozar de summa felicidade. "Aniquilada a alma e com perfeita nudez renovada, experimenta uma profunda paz e uma saborosa quietude, que a 
conduzem a uma perptua unio de amor que em tudo se alegra. Essa alma chegou a tal felicidade que no quer nem deseja outra coisa seno o que seu amado deseja." 
Nesta situao, querer agir  ofender a Deus, que tudo deseja fazer no homem. A inatividade devolve a alma a seu princpio, o ser divino, no qual se transformou. 
Deus, a nica realidade, vive e reina nele. A alma j no se ocupa da salvao nem de sua perfeio. Tampouco necessita realizar os exerccios ordinrios de piedade. 
Inclusive diante das tentaes, deve manter-se passiva, porque o espiritual no peca, pois no pode consentir. O quietismo brotou na Frana, principalmen-

Rahner, Karl / 471

te no caso de *Fnelon e de Madame *Guyon. Movimentos paralelos de quietismo encontramse nos movimentos *pietistas e nos "quackers" protestantes, embora no sejam 
idnticos. Tanto a doutrina de Molinos quanto a de Fnelon foram condenadas pela Igreja.
BIBLIOGRAFIA : M. Menndez y Pelayo, Historia de los Heterodoxos Espaoles (BAC), 2 vols.; Helmut Hatzfeld, Estudios literarios sobre mstica espaola. Gredos, Madrid 
1968; Claudio Lendnez, Treinta y tres proposiciones sobre Miguel de Molinos. Jcar, Madrid 1974; J. R. Armogathe, Le quitisme . PUF, Paris 1973.

Quiliasmo
*Milenarismo.

Qumr (sc. II a.C.-sc. I d.C.)
*Mar Morto, Manuscritos do.

R
Rahner, Karl (1904-1985)
Jesuta alemo, profundamente ligado  renovao da teologia catlica e da Igreja. Desde 1948 foi professor de teologia dogmtica em Innsbruck. Posteriormente lecionou 
tambm teologia nas Universidades de Munique e Mnster. A partir de 1964, e durante trs anos, participou dos trabalhos da comisso teolgica do *Vaticano ll, dando 
ao mesmo tempo cursos sobre a concepo crist do mundo na Faculdade de Filosofia de Mnster, onde sucedeu Romano *Guardini. A aposentadoria de Rahner, em 1971, 
no interrom-

472 / Rahner, Karl

peu sua atividade cientfica e pastoral, j que continua sendo membro ativo do Snodo Nacional da Alemanha. Sua obra insere-se na corrente filosfica alem de Heidegger, 
de quem foi discpulo, e nutrese do pensamento teolgico alemo tanto catlico quanto protestante.  uma teologia aberta e profundamente tradicional, mas fortalecida 
com um novo alento de vida e cultura moderna. Sua numerosa produo vai de 1941 a praticamente seus ltimos dias, em 1985. Cabe assinalar as seguintes obras: Ouvinte 
da palavra (1941); Vises e profecias (1952); Liberdade de palavra na Igreja (1953); Misso e graa (1959); Cristologia (1972); Mudana estrutural da Igreja (1973); 
Curso fundamental da f (1976). Muitos de seus escritos foram coletados nos Escritos de Teologia (1954-1975) e na coleo "Quaestiones disputatae" (iniciada em 1958). 
Dirigiu tambm as obras enciclopdicas Sacramentum mundi (1969) e Manual de teologia pastoral (19711972). Dessa abundante obra destacamos sua doutrina mais original, 
e que divulgou o que se conhe-

Rahner, Karl / 473

ce como "cristianismo annimo". Para ele, cristo  todo aquele que "choca com o mistrio". Quanto mais o homem se coloca questes fundamentais e se aprofunda na 
experincia da vida ou utiliza seus conhecimentos cientficos, mais se adentra no mistrio: " o mistrio que chamamos Deus". Pois bem, "o cristo annimo", tal 
como o entendemos,  o pago que vive depois da vinda e pregao de Cristo, em estado de graa atravs da f, da esperana e da caridade, embora no tenha conhcecimento 
explcito do fato de que sua vida  orientada pela graa salvadora que leva a Cristo... Deve haver uma explicao crist que d conta do fato que todo indivduo 
que no opera em nenhum sentido contra a sua prpria conscincia e diz realmente em seu corao `Abba' com f, esperana e caridade,  na realidade aos olhos de 
Deus um irmo para os cristos" (Escritos de teologia). Sua idia, seguida hoje por muitos outros telogos, de que existam "cristos annimos" sem compromisso religioso 
algum,  altamente sugestiva. "Cristo annimo  aquele que aceita a si mesmo numa deciso moral", ainda quando tal deciso no se faz de uma forma "religiosa" ou 
"testa". Justificaria o chamado "cristianismo secular" ou "cristianismo horizontal" tal como o formulou a Assemblia de Upsala (1964) e tal como o formula a Teologia 
da *Libertao. Podese ser cristo sem referncia a nenhum elemento religioso. E a Igreja fica como comunidade missionria sem nenhuma pretenso ou presso social 
e poltica. Como outros telogos, Rahner recebeu vrios "monitum". Sua teoria do cristianismo annimo, aberto a todos e no monopolizado pela Igreja -- um cristianismo 
disperso e arraigado em todo o mundo, um cristianismo sem fronteiras, fruto da graa de Deus oferecida acima de todas as categorias humanas -- foi posta em questo. 
"A teologia no  um assunto privado e, submetida ao Magistrio da Igreja, inclusive em sua tarefa de

474 / Raimundo de Peafort, So

pesquisa, no pode esconder-se atrs de uma liberdade acadmica" (*Paulo VI, 1975). No obstante, permanece o mais valioso de sua doutrina: o dilogo constante mantido 
com o homem moderno, com a sociedade e suas condies. A teologia ter de fazer o possvel para no se desentender com eles.
BIBLIOGRAFIA: Graa divina em abismos humanos; Misso e graa; O caminho do homem novo; Teologia e Bblia; Teologia e antropologia; Revelao e tradio; O dogma 
repensado; Estruturas em mudana; O homem e a graa; Curso fundamental de la fe. Herder, Barcelona 1978; Cristologa. Estudio sistemtico y exegtico. Cristiandad, 
Madrid 1975; Sentido teolgico de la muerte. Herder, Barcelona 1975; Escritos de teologa; La infalibilidad de la Iglesia. Respuesta a H. Kng, obra em colaborao 
dirigida por K. Rahner (BAC); Dios con nosotros. Meditaciones (BAC popular).

Raimundo de Peafort, So (1185-1275)
Religioso dominicano de grande influncia na vida poltica e religiosa de seu tempo. Fez seus estudos de direito em Bolonha (1210-1216), onde exerceu o magistrio 
(1216). Fruto desse magistrio  sua Summa Juris. Em 1219 regressou a Catalunha e ingressou nos dominicanos em 1222. Nomeado capelo e penitencirio do Papa Gregrio 
IX, foi encarregado por este de compilar os decretos promulgados em 1234. Foi mestre geral da ordem de Pregadores (1238-1240), em cujo mandato se redigiram as novas 
constituies da ordem, promulgadas em Paris em 1240. De volta a Barcelona, dedicou especial ateno ao apostolado entre os judeus. A obra teolgica e moral de So 
Raimundo chegou at ns na Summa de poenitentia et matrimonio e na Summa pastoralis. As duas obras ocupam um lugar destacado dentro das *summas ou manuais de confessores. 
Assim como seu compatriota Raimundo *Llio, franciscano, preocupou-se com o apostolado de judeus e maometanos. Com esse motivo animou Santo *Toms de Aquino a redigir 
a Summa contra gentes.

Ratio studiorum / 475

Raimundo Mart (sc. XIII)
*Domingos de Gusmo, So.

Ramrez, Santiago
*Neo-escolsticos.

Ranke, Leopold von (1795-1886)
Historiador alemo, conhecido por sua Histria dos papas. Essa obra pretende ser um estudo histrico imparcial e  margem das polmicas que os papas suscitaram entre 
as diferentes confisses crists. Dois critrios fundamentais presidem a obra: 1) O uso das fontes originais. 2) Estudo e compreenso das diferentes tendncias em 
relao  poca em que surgiram.  a viso dos papas a partir de uma tica protestante.
BIBLIOGRAFIA: L. Von Ranke, Historia de los papas en los tiempos modernos. Fundo de Cultura Econmica, Mxico 1951.

Ratio studiorum (sc. XVI)
Tanto a Reforma como a Contra-Reforma deram um impulso formidvel ao ensino tanto religioso como leigo.  a poca dos *catecismos, da organizao de novos *colgios 
e universidades, das associaes da Doutrina Crist, das congregaes para o ensino etc. Com essas instituies surgem tambm novos mtodos e planos de estudo, entre 
os quais sobressai a Ratio studiorum da Companhia de Jesus. Um dos ideais que primeiro props Santo Incio de *Loyola a seus companheiros foi "manter escolas pblicas 
onde se ensinassem gratuitamente as cincias". Esse ideal surgiu muito cedo na Companhia, sobretudo na educao de jovens e de crianas. O padre Rivadeneira escreveu: 
"No sei se existe uma s coisa pela qual a Companhia possa consagrar-se desde agora ao maior servio de sua

476 / Ratio studiorum

Divina Majestade que pela Educao literria da juventude". E em 1556, esse mesmo padre escreveu a Felipe II: "Entre outros ministrios que ela executa, no  o 
menor de seus deveres o ter colgios... nos quais se recebam gratuitamente, com os conhecimentos necessrios para um bom cristo, as cincias humanas, desde os rudimentos 
da gramtica at as faculdades mais elevadas... Fundaram-se na Espanha, em Portugal, na Itlia, na Alemanha... E por toda a parte esses estabelecimentos responderam 
a favor dos povos, como comprovam os xitos e os progressos que Nosso Senhor concedeu em pouco tempo para uma obra que ele parece ter feito sua". O instrumento que 
canalizou e regulou esses ideais foram as Constituies e posteriormente a Ratio studiorum. Dez anos demorou Santo Incio (1541-1551) para redigir as constituies. 
A terceira parte destas  composta de 17 captulos e totalmente dedicada  educao e ao ensino. Os 10 primeiros captulos enfocam o estilo dos colgios, e o restante 
o problema das universidades. Parece que Santo Incio tomou o melhor da experincia universitria de seu tempo: de Salamanca, a subordinao de todos os saberes 
 teologia; de Paris, o trabalho pessoal dos alunos; e de Bolonha, os atos pblicos e solenes em que intervm e discutem os estudantes. A Ratio studiorum  um trabalho 
posterior s constituies. Coleta a experincia dos primeiros decnios da docncia da Companhia, dita um conjunto de disposies direcionadas  prtica pedaggica 
dos colgios e a ordenar e dar unidade  organizao dos centros da ordem em todo o mundo. A Ratio apresenta-se como obra coletiva da Companhia, sob o assessoramento 
dos vrios crebros mais especializados, e ao mesmo tempo como resultado das experincias nos prprios centros e colgios da poca. Para formar esse ambicioso plano 
de estudos entraram os dados trazidos pelo padre Jernimo Nadal e coletados no De ratione studiorum Messinae, colgio que funcionava desde 1548; dois tratados escritos 
pelo pa-

Ratio studiorum / 477

dre Polanco, Sobre o modo de fundar colgios e Constituies que nos colgios da Companhia se devem observar; finalmente, a obra do segoviano padre Ledesma, prefeito 
de estudos do Colgio Romano, De studiis Collegii Romani; e outros documentos menos conhecidos. Foi lento o processo de elaborao e redao da Ratio. Em 1581 criou-se 
uma comisso sob a direo do padre Acquaviva. Em 1584 nomeou-se uma nova comisso composta por representantes da Alemanha, ustria, Espanha, Frana, Itlia e Portugal. 
Depois de sete meses de estudo, fez-se um projeto para ser submetido  reviso de todos os membros da Companhia. Em 1591 fez-se uma nova redao. Em 1599, o padre 
Acquaviva aprovou a redao definitiva. Na Ratio apresentam-se dois planos de estudos: os superiores, que compreendem a filosofia e a teologia; e os inferiores, 
divididos em cinco graus: os trs primeiros dedicados  gramtica, a seguir um curso de humanidades e depois um de retrica. Era uma educao fundamentalmente literria, 
com base nas humanidades clssicas, muito ao gosto da poca. Busca-se o desenvolvimento de todo o homem que termina no bom dizer, bem alicerado no bem saber e no 
bem pensar. O eixo de todo o ensino  o latim, baseado numa srie de exerccios graduados. O grego fica em segundo plano. Todos os cursos esto relacionados entre 
si de menor a maior grau: desde a gramtica  retrica, que  a classe superior. A originalidade da Ratio reside em muitos fatores, tanto externos quanto internos. 
Entre os fatores externos pode-se contar a oportunidade.  um plano de estudos que vai ao encontro dos problemas de seu tempo. Um instrumento e um mtodo pedaggico 
fruto do humanismo renascentista, que trata de proporcionar uma educao adequada para a poca. Sob o ponto de vista do documento,  evidente que apresenta muitas 
inovaes e que representa um passo adiante na educao. As crticas e louvores que recebeu ao longo desses quatro sculos constituem seu

478 / Ratzinger, Joseph

melhor aval. "O mtodo ope-se radicalmente s tendncias da pedagogia moderna, que cada vez mais abandona as lnguas clssicas para dar sua preferncia s cincias 
positivas, s naturais e  histria. Esse sistema tinha a vantagem de formar a mente, familiarizando-a com os clssicos e com a filosofia, acostumando-a a gostar 
da beleza, do raciocnio rgido, sem preocupar-se com as noes de detalhe. Naturalmente que tudo isto se tornava embebido pelos princpios cristos."
BIBLIOGRAFIA: R.G. Villoslada, Manual de Historia de la Compaa de Jess. Madrid 1954; F. Charmot, La pedagoga de los Jesuitas. Madrid 1956; J. Misson, Les ides 
pdagogiques de S. Ignace de Loyola. Paris 1932.

Ratzinger, Joseph
*Teologia atual, Panorama da.

Reforma (sc. XVI)
O termo Reforma aplica-se primordialmente  revoluo religiosa que teve lugar na Igreja do Ocidente no sculo XVI. A Reforma levou consigo alguns homens que a tornaram 
possvel, uma doutrina ou literatura e algumas conseqncias que poderamos concretizar num estilo ou talante diferenciados. A respeito dos autores da Reforma ou 
reformadores, seu pensamento e atividade podem ser consultados neste mesmo dicionrio nos termos *Lutero, *Calvino, *Zwinglio, *Melanchton etc. Sua leitura fala 
no de uma, mas de vrias reformas. O talante e a cultura do reformador e do lugar deram flego s distintas reformas ou Igrejas reformadas. No obstante, fala-se 
da Reforma como algo diferente das reformas ocorridas na Igreja antes e depois. Os reformadores do sculo XVI -- diferentemente dos anteriores, sobretudo medievais 
-- no somente atacaram a corrupo da Igreja, mas tambm foram a raiz teolgica do problema, como era a perverso da doutrina da Igreja sobre

Reforma / 479

a Redeno e a graa. Lutero e os demais reformadores deploraram e atacaram o sistema das indulgncias como acobertador e falseador do livre dom da graa de Deus. 
Insistiu na no autoridade do papa sobre o purgatrio e na no consistncia dos mritos dos santos sobre a base do Evangelho. Da passou a descobrir a chave teolgica 
e moral de reforma da Igreja: a) a volta  Escritura com nica norma (sola Scriptura); b) a f, no as obras, como princpio da justificao (sola fides). A Reforma, 
em sua origem, procura voltar  primeira forma do cristianismo, tal como aparece nas fontes do Novo Testamento. Leva, portanto, uma inteno de crtica, reviso, 
interpretao e vivncia do fato cristo. Isto se produziu ao longo dos sculos XVI-XVII. A Reforma realizou-se frente  Igreja de Roma, insistindo nestes pontos-chave, 
alm dos dois acima mencionados: 1) Sacerdcio universal dos fiis, a quem foi dirigida diretamente a palavra da Bblia, que podem interpretar livremente. 2) A supremacia 
e direo interior de Cristo versus a supremacia e poder exterior do papa. 3) O aspecto interior da f e da graa que nos vem diretamente pela f e aceitao da 
Palavra. Tudo isso supe a crtica e reviso do sistema sacramental, as indulgncias, as devoes, o celibato, a vida religiosa consagrada etc. 4) A reviso do prprio 
conceito de Igreja.  algo exterior ou  somente interior? Quem so os que pertencem  Igreja? A Reforma , pois, uma nova maneira de entender e viver o "fato cristo". 
Supe, ao mesmo tempo, uma tarefa permanente de chegar ao ideal cristo ou utopia descrito no Evangelho. Alm disso, abre um processo baseado no princpio de "Ecclesia 
semper reformanda". Foi uma revoluo e, como tal, dolorosa e catastrfica. "Em toda a histria da Igreja, a reforma protestante constitui a maior das catstrofes, 
j que trouxe consigo males maiores do que as heresias da Idade Antiga, as seitas medievais e mesmo o cisma oriental de 1054" (G. Martina, De Lutero a nuestros das. 
I. Epoca de la Reforma).

480 / Reforma

Em primeiro lugar, a Reforma ps fim  unidade europia, ou pelo menos  unidade religiosa baseada no catolicismo. O historiador Lortz resume os frutos do protestantismo 
no subjetivismo que desgua no racionalismo que leva ao laicismo, no nacionalismo e, finalmente, na subordinao da Igreja ao Estado. Com a mesma imparcialidade, 
os historiadores modernos reconhecem os valores parciais que constituem o estilo e o talante das Igrejas e dos homens da Reforma. Advirtase, no entanto, que pelo 
fato de esta t-los afirmado e colocado em primeiro plano, no se conclui que no existam na Igreja catlica. Existem neles verdades parciais que a Igreja do sc. 
XVI era propensa a deixar um pouco na penumbra e que foram revalorizados pelos reformadores. " certo que a Igreja Catlica reconhece tais valores como parte de 
seu patrimnio doutrinal, mas isso no nos dispensa de reconhecer como um mrito do protestantismo a afirmao e a defesa de algumas verdades, embora parciais, e 
de alguns valores, embora unilaterais" (G. Martina). Entre muitos outros, assinalamos os seguintes: a aspirao a uma religio mais pura e ntima, baseada numa relao 
mais direta com o Deus vivo; o sentido do mistrio ante o onipotente; certa austeridade de vida, alheia a compromissos fceis com o mundo; o cultivo e a leitura 
freqente da Bblia em medida muito mais ampla do que se fazia entre os catlicos; a importncia atribuda  graa na vida crist; participao mais ativa e responsvel 
da liturgia, assim como maior conscincia do verdadeiro sacerdcio dos fiis; exaltao da liberdade e da interioridade da conscincia etc. Todos esses traos e 
outros do s Igrejas e homens da Reforma o estilo e o talante de que antes falamos.
BIBLIOGRAFIA: Ricardo G. Villoslada, Martn Lutero. (BAC). Madrid 1973, 2 vols.; J. Lortz, Historia de la Reforma. Madrid 1963, 2 vols.; E. G. Lonard, Histoire 
Gnrale du Protestantisme, I. Paris 1961; M. Weber, La tica protestante y el espritu del capitalismo. Madrid 1952.

Renan, Ernest / 481

Relato de um peregrino russo (1870)
*Hesiquia; *Literatura autobiogrfica.

Renan, Ernest (1823-1895)
A vida e a obra de Renan podem ser estudadas longe da polmica e da paixo que suscitaram em seu tempo. O "escndalo Renan" e seu impacto na Igreja da Frana, e 
com efeito em toda a Igreja, pode ser explicado desde uma perspectiva da prpria pessoa e da poca que lhe tocou viver: o sc. XIX. Protagonizou uma das grandes 
preocupaes de seu tempo: o antagonismo entre cincia e religio. Seu pensamento filosfico foi uma curiosa amlgama de positivismo e religiosidade, que terminou 
em ceticismo. Depois de sua ruptura com a Igreja em 1845, a obra filolgica, histrica e crtica de Renan inspirou-se constantemente num positivismo exaltado. "A 
cincia e somente a cincia pode dar  humanidade aquilo sem o qual no pode viver, um smbolo e uma lei", escrevia em sua primeira obra O porvir da cincia (1848). 
Via o fim ltimo da cincia na "organizao cientfica da humanidade". A religio do futuro ser "o humanismo, o culto de tudo o que pertence ao homem, a vida inteira 
santificada e elevada a um valor moral". De acordo com o positivismo de Comte, o conhecimento positivo da realidade deve ter uma base experimental. Da que o homem 
culto no possa acreditar em Deus. "Um ser que no se revela a si mesmo atravs de nenhuma ao , para a cincia, um ser inexistente." Na opinio de Renan, o Deus 
pessoal e transcendente da f judaico-crist ficara privado de toda base racional pelo desenvolvimento da cincia. Ficava somente o saber positivo acerca do mundo, 
obtido por meio das cincias naturais e de investigaes histricas e filolgicas. A cincia, em seu sentido amplo, substitura a teologia e a metafsica como cincias 
de informao sobre a realidade existen-

482 / Renan, Ernest

te. Dada a inverificabilidade do absoluto, Renan deriva para o ceticismo no campo religioso: "No podemos conhecer o infinito, nem sequer se h ou no infinito, 
nem tampouco podemos estabelecer se h ou no valores objetivos absolutos". "A verdade  que podemos atuar como se houvesse valores objetivos e como se existisse 
um Deus." "A atitude mais lgica do pensador ante a religio -- diz --  proceder como se fosse verdadeira. Deve comportar-se como se Deus e a alma existissem. A 
religio entra assim na esfera de outras muitas hipteses, como o ter, os fluidos eltrico, luminoso, calrico, nervoso e mesmo o tomo, dos quais sabemos perfeitamente 
que somente so smbolos, meios cmodos para explicar fenmenos; mas que, no obstante, mantemos". Essas idias Renan levou-as ao campo do seu trabalho: o estudo 
da histria, "verdadeira cincia da humanidade". Assim seus primeiros estudos sobre Averris e o averrosmo (1852) tendem a demonstrar que a ortodoxia religiosa 
impede, entre os maometanos, a evoluo do pensamento cientfico e filosfico. Sua Histria das origens do cristianismo, composta de seis volumes, escritos entre 
1863-1881, baseia-se inteiramente no pressuposto de que as doutrinas do cristianismo no podem ser valorizadas do ponto de vista do milagre ou do sobrenatural, mas 
como a manifestao de um ideal moral em perfeito acordo com a paisagem e com as condies materiais em que nasceu. O primeiro volume desta histria  sua famosa 
Vida de Jesus (1963), na qual colocou um importante prlogo em 1866, quando alcanou a 13 edio. Fiel a seus princpios de rejeitar toda idia que suponha "mistrio", 
"milagre" ou "interveno sobrenatural" nos processos religiosos, Renan apresenta em Jesus o "homem incomparvel", negando-lhe, porm, a condio de Filho de Deus. 
"Quaisquer que sejam os fenmenos que se produzam no porvir, ningum sobrepujar a Jesus. Seu culto se rejuvenescer incessantemente; sua lenda provocar lgrimas 
sem conta; seu

Renan, Ernest / 483

martrio despertar a ternura nos melhores coraes e todos os sculos proclamaro que entre os filhos dos homens no h nenhum nascido que se lhe possa comparar" 
(palavras finais da Vida de Jesus). "Aquela amlgama confusa de pressentimentos, aquela alternativa de decepes e de esperanas, rejeitadas incessantemente pela 
odiosa realidade, tiveram seu intrprete no homem incomparvel a quem a conscincia universal concedeu com justia o ttulo de Filho de Deus, posto que ele fez dar 
 religio um passo ao qual no pode e no poder provavelmente comparar-se a nenhum outro" (Vida de Jesus, c. l). A obra, como se sabe, foi violentamente atacada 
pela Igreja de seu tempo. Jesus ficava reduzido a um amvel messias, pregador de uma mensagem de suprema moralidade, mas despojado de seu mistrio profundo de salvador 
e verdadeiro Filho de Deus. O cristianismo era apresentado como uma evoluo natural dos desejos e nsias de Israel de perfeio e justia. Nada mais. Na mesma linha 
colocamos sua Histria do povo de Israel, obra em cinco volumes, sendo que os dois ltimos apareceram depois de sua morte (1887-1893). Nela demonstra como se formara 
entre os profetas uma religio sem dogmas nem cultos. Por isso, "embora o judasmo desaparecesse, os sonhos de seus profetas se tornariam verdadeiros, de forma que, 
sem um cu compensatrio, a justia existir sempre na terra graas a eles". Temos de dizer, no entanto, que no foi o positivismo nem o ceticismo que mereceram 
as crticas e os aplausos a Renan. Foi seu estilo: "Essa capacidade de passar de um juzo a outro... essa atitude caracterstica de aparentar saber tudo, e no ficar 
com nada, que o leva a rir e a duvidar de tudo, e a manter o ceticismo como a posio filosfica mais segura". Teve o segredo de saber levar s massas e aos homens 
cultos de seu tempo tanto a desmistificao sobrenatural de Cristo e do cristianismo quanto a beleza suprema de sua pessoa e de sua doutrina na histria da humani-

484 / Renascimento

dade. Renan foi uma bandeira que arrastou amigos e inimigos, pois os interesses que representava eram definitivos para ambos.
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes de E. Renan, 10 vols. Edio de Henrriette Psichari, 1947; J. Pommier, La pense religieuse de Renan, 1925; H. W. Wardman, E. Renan: 
A critical biography, 1964.

Renascimento (sc. XV-XVI)
Este no seria o lugar para definir os limites do espao e do tempo desse perodo da histria que conhecemos como Renascimento. Embora difcil, e com risco de cair 
em tpicos, damos alguns traos da natureza especfica desse movimento, que resiste at hoje a uma definio que seja comumente aceita. O Renascimento, como movimento 
europeu dos sculos XIV a XVI, vem caracterizado: 1) Por sua diferena com a Idade Mdia. Para alguns, o Renascimento pressupe uma ruptura radical com a cultura 
medieval. H quem veja nele uma exaltao da razo e das artes por trs da intolerncia e do obscurantismo da Idade Mdia. Os primeiros em advertir a oposio com 
a idade precedente foram os humanistas e os historiadores da arte contempornea dos grandes artistas. Essa diferena  interpretada por outros a partir da teoria 
da continuidade. O Renascimento descobriu no perodo medieval seus predecessores, isto , seus aspectos cristos e seus fermentos racionalistas. Finalmente, outros 
se mantm num meio termo, qualificando-o como a diversidade dentro da continuidade. "Tanto literria quanto moralmente, o Renascimento consistiu mais em desenvolver 
plenamente certas tendncias profundas do perodo medieval, com o risco s vezes de hipertrofi-las do que de opor-se a elas" (Gilson). 2) Afirmao exasperada da 
autonomia do temporal. "O Renascimento segue uma tendncia favorvel a uma autonomia relativa do temporal e termina por exager-la. Na Idade Mdia

Renascimento / 485

h um impulso para a fuga do mundo, para a renncia aos valores terrenos, manifestada nos livros como De contemplu mundi e a Imitao de Cristo, por exemplo. H 
tambm a tendncia a subordinar direta e indiretamente  religio todas as atividades humanas, como se estas no tivessem outro fim imediato do que o de favorecer 
a difuso e o desenvolvimento do cristianismo. Histria, arte, filosofia, poltica etc. aparecem normalmente concebidas e apoiadas somente em funo da Igreja, da 
religio. O Renascimento reage contra as duas primeiras tendncias: a fuga do mundo e a subordinao direta de tudo  religio; afirma-se numa terceira posio, 
reconhecendo a necessidade de uma autonomia real das atividades humanas com sua racionalidade especfica intrnseca, mas termina por extremar tal autonomia e tende 
a transform-la em independncia e separao" (G. Martina). Resumindo: tanto o Renascimento quanto seu aspecto literrio, o Humanismo, no podem ser considerados 
como intrinsecamente pagos, naturalistas, imanentistas, mas abrem uma nova problemtica, tpica da Idade Moderna: o velho equilbrio que em alguns casos construra 
o perodo medieval, e ao qual muitas vezes se aproximara fatigadamente, rompe-se agora sem que surja ainda um novo equilbrio. No se limita o sobrenatural, mas 
sim passa-o a segundo plano. No se nega a autoridade da Igreja, mas a aceitao do esprito crtico empurra  desconfiana com relao a ela. A polmica anticlerical 
contra a cria, o clero secular e regular, diminui o prestgio da Igreja. Neste sentido e dentro destes limites, o esprito do Renascimento, nas antpodas, por outros 
tantos captulos, como o da Reforma, prepara-lhe o terreno, pelo menos na Itlia, e facilitalhe o caminho. Do ponto de vista literrio, que  o que mais nos interessa 
aqui, supe uma grande riqueza de pensamento, de autores e de instituies. Remetemos aos conceitos: *Humanistas; *Educadores

486 / Reuchlin, J.

cristos; *Ratio studiorum; *Reforma; *ContraReforma, e aos correspondentes autores da poca.
BIBLIOGRAFIA: J. Burckhardt, La cultura del Renacimiento en Italia. Barcelona 1964; J. Huizinga, El otoo de la Edad Media. Traduo de J. Gaos, Madrid 1962; P. 
O. Kristeller, Renaissance Thought. Nova York 1961-1965, 2 vols.; Humanismo y Renacimiento. Traduo e seleo de Pedro R. Santidrin, Madrid 1986; Enciclopedia 
del Renacimiento. Alianza, Madrid 1985.

Reuchlin, J. (1455-1522)
*Melanchton.

Ricardo de So Vtor (+1173)
*Escolas e universidades.

Ricci, Mateus (1552-1610)
Missionrio jesuta que viveu na China desde 1582. Ganhou a estima dos chineses por sua cincia e por sua explicao dos instrumentos cientficos usados na Europa: 
relgios, esferas, sistemas de ensino etc. Seus mtodos de apostolado basearam-se, fundamentalmente, na adaptao das prticas e ritos cristos  cultura e mentalidade 
chinesa. Conseguiu a converso ao cristianismo de muitos chineses. Depois de sua morte, surgiu a controvrsia sobre os ritos chineses e, posteriormente, os malabares. 
Essa acomodao das prticas e ritos cristos s tradies e  cultura chinesa e malabar (indiana) foi muito discutida e logo condenada em 1704 e, posteriormente, 
em 1715. A controvrsia no se limitou aos instrumentos e mtodos do culto e da liturgia. Afetou tambm a doutrina: Em que medida se deve transmitir toda a mensagem 
crist? E sobre a linguagem? Poderiam os missionrios dar  linguagem budista e confucionista um significado cristo? E, em conseqncia, continuariam a us-la?

Ruysbroeck, J. D. / 487

Richard, Paulo (1939-)
*Libertao, Telogos da.

Ripalda, Jronimo de (1535-1618)
*Catecismo.

Robinson, John
*Tillich, Paul.

Romero, Oscar Arnulfo (1917-1980)
*Libertao, Telogos da.

Rosales, Luis (1909-)
*Literatura atual e cristianismo.

Roscelino (c. 1125)
*Abelardo.

Rousseau, J. J. (1712-1778)
*Enciclopdia.

Ruysbroeck, J. D. (1293-1381)
*Eckhart; *Tauler.

488 / Sailer, J. M.

S
Sailer, J. M. (1751-1832)
*Instituies morais.

Saint-Cyran, Abade de (1581-1643)
Amigo e colaborador de C. Jansnio,  considerado o co-autor da doutrina jansenista ou jansenismo (*Jansnio). Desde 1623, vinculouse  famlia *Arnauld e a *Port-Royal 
(*Pascal), exercercendo uma grande influncia no mosteiro como diretor espiritual. De 1638 a 1643 esteve no crcere por ordem do cardeal Richelieu. Grande estudioso 
e admirador dos escritos de Santo Agostinho, quis reformar a Igreja na linha extrema do agostinismo.
BIBLIOGRAFIA: Saint-Beuve, Histoire de Port-Royal, 1867, 7 vols.; J. Orcibal, Les origines du Jansenisme, 19471961, 7 vols., especialmente o 2.

Saint-Simon, Claude Henri de Rouvroy (1760-1825)
Pioneiro na Frana do chamado "socialismo utpico, no cientfico". Duas idias centrais unem suas doutrinas: 1) Somente as classes trabalhadoras colaboram para 
o bem-estar fsico e moral da sociedade. 2) Somente elas merecem um tratamento privilegiado na nova sociedade socialista. Em sua obra O novo cristianismo (1825) 
sustenta que o nico princpio bsico do cristianismo  que todos os homens devem ser irmos. O dogma e o culto so aspectos descartveis e acessrios. O cristianismo 
e a religio, no geral, deveriam transformar-se numa fora de melhoria e promoo dos mais pobres.

Salisbury, Joo de / 489

Saint-Simon foi um homem sincero, que despertou grande simpatia e exerceu grande influncia nas massas populares durante o sc. XVIII e princpios do sc. XIX.

Salisbury, Joo de (1115/1120-1180)
Nasceu em Salisbury e morreu em Chartres. "As obras deste ingls instrudo na Frana e que morreu bispo de Chartres, no desmerecem da poca do Renascimento, nem 
pela qualidade do seu estilo nem pela delicadeza do esprito que as inspira... Para dar uma idia exata da variedade da Idade Mdia, nada melhor que se se deter 
um pouco nos escritos deste bispo do sc. XII, que foi tambm um delicado literato" (E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 257). Desde muito jovem (1136) o encontramos 
na Frana, onde recebeu sua grande formao humanista e filosfica. Entre seus mestres encontram-se *Abelardo e Gilberto de la Porre. Em 1151 voltou  Inglaterra 
como secretrio do Arcebispo de Canturia, Teobaldo, e, posteriormente, do seu sucessor, Toms Becket. Foi nomeado Arcebispo de Chartres (1176), vivendo nesta cidade 
at a sua morte (1180). O interesse humanstico de Joo de Salisbury  evidente j na sua primeira obra, Entheticus sive de dogmate philosophorum (1155). Um poema 
em dsticos, cuja primeira parte  um manual de filosofia greco-romana. Seguem-lhe suas numerosas Epistolae, uma Historia Pontificalis, uma vida de *Anselmo de Canturia 
e uma vida de Toms Becket. Suas duas obras principais foram escritas a partir de 1159: so o Polycraticus, primeira obra medieval de teoria poltica, e o Methalogicon, 
uma defesa do valor e da utilidade da lgica. Joo de Salisbury tenta fazer reviver a eloqncia de Ccero e de Quintiliano, isto , a formao intelectual e moral 
completa do homem reto, capaz de expressar-se bem. Ccero  seu modelo de filsofo em seu estilo e em seu pensamento.

490 / Salmanticenses

-- "Nem o completo dogmatismo nem o ceticismo absoluto respondem  situao real do conhecimento humano, composto de certezas, de probabilidades e de ignorncias." 
No se trata, pois, nem de saber tudo nem de ignorar tudo. Um saber harmnico e razovel: eis o que, sem colocar em dvida as verdades da f, pretende Joo de Salisbury. 
Dessa atitude partem suas posies fundamentais: -- Sobre os universais: "O mundo fez-se velho; tem-se dedicado a essa empresa mais tempo do que o requerido pelos 
csares para conquistar e governar o mundo. O ultra-realismo  errneo. Os universais so construes mentais que no existem na realidade extramental". -- Sobre 
a lgica:  o instrumento do pensar, segundo queria Aristteles. Tem predileo pelo sentido justo e pelas solues claras, sente horror  obscuridade e ao verbalismo. 
-- Sobre o fim: o que interessa ao homem  chegar at o fim, e a investigao filosfica no  um jogo desinteressado. Se o verdadeiro Deus  a verdadeira sabedoria 
humana, ento o amor de Deus  verdadeira filosofia. No  filsofo completo o que se contenta com um conhecimento terico, seno o que vive a doutrina ao mesmo 
tempo em que a ensina: "Philosophus, amator Dei est". Essa  a concepo de vida desse esprito "que foi sem dvida mais delicado que genial, porm to fino, to 
rico e to perfeitamente cultivado que sua presena reala e enobrece, em nosso pensamento, a imagem de todo o sculo XII".
BIBLIOGRAFIA: PL 199 Edies crticas do Polycraticus e do Methalogicon por C. C. J. Webb, Oxford 1909.

Salmanticenses (1631-1712)
Com esse ttulo se conhece o Cursus theologicus Summam Divi Thomae complectens.

Sartre, Jean-Paul / 491

 um comentrio  Summa de Santo Toms, realizado por um grupo de professores carmelitas descalos, professores de Salamanca entre 16311712. Os Salamanticenses so 
considerados a ltima grande obra que produziu na Espanha a escolstica tardia dos sculos XVI-XVII. Sua autoridade chega at nossos dias, e exerceram grande influncia 
na orientao moral dos manuais de moral aparecidos posteriormente.
BIBLIOGRAFIA: Cursus theologicus Summam Angelici Doctoris Divi Thomae complectens. Paris 1870-1883, 20 vols.; M. Solana, Historia de la Filosofa Espaola. Era del 
Renacimiento (sc. XVI), III, 1941.

Snchez, Toms (1550-1610)
Jesuta espanhol, famoso por suas Disputationes de sancto matrimonii sacramento (1602). Snchez estudou os aspectos morais e cannicos do matrimnio e, desde o sc. 
XVII,  considerado um clssico nesta matria.

Sartre, Jean-Paul (1905-1980)
Filsofo, novelista e dramaturgo,  o representante de uma forma de existencialismo que se reconhece ateu. "Sou o ateu perfeitamente lgico", diz. dolo da juventude 
e da intelectualidade francesa durante muitos anos, Sartre alimentou uma clientela numerosa e variada com novelas, peas de teatro, ensaios e estudos. Se a isso 
acrescentamos sua participao no rejuvenescimento do marxismo e numa ao mltipla para fazer dele instrumento de mudana da sociedade, teremos a explicao da 
popularidade do seu nome e da difuso das suas idias. Existencialismo e marxismo foram os dois plos em torno dos quais giraram sua vida e seu pensamento. "Se o 
marxismo retoma sua inspirao originria e redescobre dentro de si a dimenso humanista, o existencialismo j no ter razo de ser." Deixar de existir como uma 
linha de

492 / Sartre, Jean-Paul

pensamento diferente e ser absorvido, retido e superado no "movimento totalizador da filosofia viva e pujante do nosso tempo". O marxismo , sem dvida, a nica 
filosofia que expressa realmente a conscincia do homem que vive num mundo de "escassez", num mundo em que os bens materiais esto distribudos sem eqidade e que, 
como conseqncia disso, caracteriza-se pelo conflito e pelo antagonismo entre as classes. E um marxismo humanizado, existencializado, seria a nica filosofia autntica 
da revoluo. Sartre, pois, procurou combinar existencialismo e marxismo, reinterpretando esse ltimo  luz de uma antropologia existencialista. Se tivssemos de 
resumir seu pensamento, diramos que a sua filosofia prope e analisa um humanismo ateu, em que "o homem  uma paixo, mas uma paixo intil". Em que a liberdade 
do homem no serve para nada, j que "se esgota na busca de uma sntese impossvel que deveria torn-lo Deus". A existncia  "obscena", de uma superabundncia viscosa, 
na qual a liberdade se interliga. O homem nada mais  do que o seu projeto; somente existe quando se realiza,  tudo um conjunto de seus atos, nada mais  do que 
a sua prpria vida. O homem  totalmente e sempre livre ou nunca o ser. No entanto, ao querer a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade 
dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa. Onde fica, ento, a liberdade humana? Da mesma forma, o existencialismo humanista de Sartre postula a 
no-existncia de Deus. "No pode haver um Deus, se por Deus entendemos um ser autoconsciente infinito." O conceito de Deus  em si mesmo contraditrio, posto que 
trata de unir duas noes que se excluem reciprocamente, a do ser-em-si e a do ser-para-si. Por emsi entende-se a no conscincia. Para-si vale tanto quanto a liberdade. 
O homem  livre, em sua prpria liberdade, sempre referente a outra coisa;  conscincia de outra coisa que no seja ele. Se existisse Deus, por fora teria de ser 
ao mesmo

Savonarola, Girolamo / 493

tempo conscincia pura, absoluta, e conscincia de um em-si, do qual se distinguiria, que seria e no seria, identicamente e sob o mesmo respeito. Essa noo de 
em-si-para-si deve ser rejeitada por ser contraditria. A hiptese de Deus  impensvel. Deus no existe. Uma concluso importante tirada por ele mesmo  que, se 
Deus no existe, os valores dependero inteiramente do homem e so criao sua. O ponto de partida do existencialismo, segundo Sartre,  a frase de Dostoyevski: 
"Se Deus no existe, tudo  permitido". Se no h Deus,  obvio que no h nenhum plano divino pr-ordenado; no pode haver nenhum ideal comum da natureza humana, 
para cuja realizao, mediante as aes do homem, tenha sido criado. O homem  enviado inteiramente a si mesmo, e no pode justificar sua escolha de um ideal, recorrendo 
a um plano divino para a raa humana. A idia de que existam valores absolutos subsistindo por si mesmos, sem pertencer a uma mente divina, em algum reino celestial, 
 totalmente inadmissvel para Sartre. Muitas outras concluses poderiam ser tiradas de suas doutrinas, entre elas seu declarado antitesmo, sua negao do mundo 
sobrenatural, sua oposio ao fato cristo etc. Sua obstinada implantao da liberdade -- o homem  liberdade -- incapacita-o para no ver alm dos fenmenos que 
nos rodeiam.
BIBLIOGRAFIA: A produo literria e crtica sobre Sartre  imensa. Algumas obras em portugus: Marxismo e existencialismo; A nusea; Sartre no Brasil: a conferncia 
de Araraquara; O muro; A imaginao; A defesa dos intelectuais; Com a alma na morte; Dirio de uma guerra estranha; E. Frutos, El humanismo y la moral de Jean Paul 
Sartre (crtica), 1949; R. Troisfontaines, El existencialismo de Jean Paul Sartre, 1950; Ch. Moeller, Literatura do sculo XX e cristianismo, II, 31-96.

Savonarola, Girolamo (1452-1498)
A figura de Jernimo Savonarola tem o raro privilgio de no deixar ningum indiferente.

494 / Savonarola, Girolamo

Mereceu os ttulos de santo, herege, mrtir, reformador e profeta. O passar do tempo no conseguiu diminuir a paixo e o ardor que inspiraram esse florentino. Para 
isso contribuiu, sem dvida, sua rica personalidade cheia de fogo e contrastes, seu papel poltico num cenrio concreto como a Florena dos Mdicis, seu enfrentamento 
 corte romana e  corrupo da Igreja, e sua misso de reformador e profeta do povo cristo. O caso Savonarola tipifica o protesto e a reforma que, ao longo da 
velha Europa, vinha-se realizando durante os sculos XIV e XV. Nascido em Ferrara em 1452, ingressou aos 23 anos no convento dos dominicanos de Bolonha. A iniciou 
e completou sua formao escolstica baseada em Santo *Toms, Santo *Alberto e Aristteles. Logo comeou a se destacar como pregador e telogo. De Bolonha passou 
a Florena, onde viveu o trinio 1482-1485. A segunda e definitiva volta a Florena deu-se em 1490, agora por petio de Loureno de Mdicis,

Savonarola, Girolamo / 495

sendo nomeado no ano seguinte prior de So Marcos. Os ltimos sete anos fizeram de Florena e do plpito o cenrio de sua atividade: comeou seu papel de poltico, 
reformador, pregador arrebatado da multido e lder do protesto contra o poder poltico e religioso. O enfrentamento a esse duplo poder e a denncia que fez dos 
dois levaram-no  condenao. Quando em 1498 o governo uniu-se  Igreja no desejo de se desfazer dele, no foi difcil -- com a ajuda da tortura -- estabelecer as 
acusaes de heresia que o levaram  forca e depois  fogueira. -- Quatro aspectos merecem destaque na atividade falada e escrita de Savonarola: a) o estudioso da 
doutrina teolgico-poltica; b) o frade que se uniu e promoveu a proposta do partido e do povo contra o materialismo dos Mdicis e o seu mau uso da autoridade; c) 
o asceta e reformador rgido e implacvel que enfrenta a corrupo do papa, da corte romana e do clero; d) o pregador iluminado que revolucionou o povo florentino, 
exigindo uma vida austera e prometendo um futuro cheio de esperanas. -- No se pode negar a Savonarola um conhecimento slido do pensamento cristo dos padres, 
sobretudo de Santo *Agostinho, acentuando, principalmente, o problema soteriolgico do homem e da vida. Em sua obra O triunfo da cruz, de carter teolgico-filosfico, 
sustenta a inaceitabilidade da religio dos filsofos e dos poetas, opondo a solidez inquebrantvel da f crist. Rejeita toda possvel sntese da religio crist 
e da filosofia pag. Est muito longe de compartilhar os ideais da docta religio e da pia quaedam philosophia. Rejeita tambm de uma forma radical, a astrologia, 
que humanistas como *Ficino e *Pico queriam integrar na religio. --  conhecida sua postura poltica diante do poder dos Mdicis primeiro, e a favor do invasor 
Carlos VIII da Frana depois, diante de quem foi embaixador por duas vezes. Rejeitou ao primeiro por abuso de autoridade e pelo paganismo materialista de sua corte. 
Savonarola aplicou neste caso

496 / Savonarola, Girolamo

a doutrina de seu Compendium totius philosophiae, tam naturalis quam moralis, e do Trattato circa il reggimento de la citt de Firenze (1489). Nessas duas obras 
expressa-se a doutrina poltica de Savonarola sobre a funo essencial do Estado, para permitir ao homem o pleno exerccio das virtudes, para que este possa exercer 
seus fins naturais e preparar a consecuo de sua bemaventurana sobrenatural. Subordina o aspecto poltico ao religioso, recalcando o princpio medieval da unidade 
e do universal. No Trattato aplica essas idias  cidade de Florena. E embora o bom governo, em sentido absoluto, tenha sua forma institucional na monarquia, propugna 
como mais oportuno para o povo florentino no a forma monrquica, mas o "reggimento civile", ou governo dos cidados, ou repblica.  o modelo de uma oligarquia 
moderada e ilustrada. Acaso no procurava Savonarola uma democracia teocrtica em Florena? -- Do enfrentamento ao poder civil, passou Savonarola ao enfrentamento 
ao poder religioso. Sua pregao abriu-se ao horizonte mais longnquo de Roma, que entrou tambm numa poca de paganismo e de corrupo. "Somente uma coisa h neste 
nosso tempo que nos deleita, pregava Savonarola aos florentinos em 1493: que todo ele est enfeitado com ouropis. Nossa Igreja tem muitas belas cerimnias externas 
para dar solenidade aos ofcios eclesisticos, com belas vestimentas, com muitos estandartes, com candelabros de ouro e prata. Tu vs ali aqueles grandes prelados 
com maravilhosas mitras de ouro, e esses homens te parecem de grande prudncia e santidade. E no acreditas que possam equivocar-se, seno que tudo o que dizem e 
fazem deve observar-se no Evangelho. Eis como est construda a Igreja moderna. Os homens contentam-se com essas folhagens...". "Os que te odeiam, Senhor, so os 
pecadores e os falsos cristos, e principalmente os que esto constitudos em dignidades. E estes so glorificados hoje por terem acabado com a rigidez e a severidade 
dos cnones, com as instituies dos santos padres,

Scaliger, Joseph Justus / 497

com a observncia das boas leis... Vs hoje os prelados e os pregadores prostrados com seu afeto em terra, o cuidado das almas j no lhes inquieta o corao, somente 
pensam em tirar proveito" (Sermes do advento, XXIII, 1493). O objetivo mais direto da prdica de Savonarola foi a pessoa de Alexandre VI e sua corte mundanizada. 
Foi chamado a Roma e excomungado em 1497. -- H, finalmente, um aspecto nele que no pode passar despercebido: sua pregao, seus sermes, ao longo de oito anos, 
ao povo de Veneza desde o plpito de So Marcos: "Seus sermes, que combinavam chamados ao arrependimento com comentrios sobre os assuntos constitucionais, tinham 
uma capacidade de perturbao e fascinao que podemos recuperar de modo muito expressivo nos que tomaram forma muito abreviada ou se publicaram a partir de suas 
notas". Em seus sermes identificava-se completamente com os florentinos, aqueles que adulava ao mesmo tempo que repreendia. Atravs deles, reforou a crena popular, 
j latente, de que Deus o tinha designado para um destino especial. Desencadeou uma verdadeira cruzada moral, convencendo os florentinos de que cumpriam um papel 
de designao divina na purificao de toda a Itlia do pecado pessoal e da corrupo eclesistica. Sua personalidade cheia de encanto e de fora fez com que, embora 
as cinzas de sua fogueira se atirassem ao Arno, suas idias viessem  superfcie em circunstncias crticas da histria da Igreja, sempre necessitada de reformadores.
BIBLIOGRAFIA: Obras: 1633-1640, 6 vols.; Opere inedite, 1835; A. Huerga, Savonarola, reformador y profeta (BAC).

Scaliger, Joseph Justus (1540-1609)
Erudito francs convertido ao calvinismo em 1562. Posteriormente foi professor em Leyden. Tornou-se famoso por suas edies de textos lati-

498 / Scheeben, Matthias Joseph

nos, com que ganhou reconhecimento, por parte dos estudiosos, de pioneiro na crtica textual. No campo da cincia e da histria restaramnos duas obras suas: De emendatione 
temporum (1583), na qual estabelece a cincia moderna da cronologia; e o Thesaurus temporum, reconstruo parcial da Crnica de *Eusbio de Cesaria.

Scheeben, Matthias Joseph (1835-1888)
Telogo da poca romntica da Restaurao. Desde 1860, professor de dogma no seminrio de Colnia. Em suas diversas obras, acentua o aspecto sobrenatural da f e 
da graa diante das tendncias naturalistas e racionalistas do sc. XVIII. Foi contrrio s idias de *Dllinger e firme defensor da infalibilidade do papa. De Scheeben 
ficou uma obra popular, As maravilhas da graa divina, que ainda continua difundindo-se entre o povo.  considerado um dos grandes renovadores da teologia na segunda 
metade do sc. XIX.

Scheler, Max (1874-1928)
*Tillich; *Aranguren.

Schillebeeckx, Edward (1914-)
Nasceu em Amberes em 1914 e entrou para os dominicanos em 1934. Estudou no Studium Generale dominicano de Le Saulchoir e na Sorbonne de Paris. De 1953 a 1957, foi 
professor de estudo dominicano em Lovaina, de onde passou a professor de teologia dogmtica na Universidade de Nimega (Holanda). O estudo e a atividade de Schillebeeckx 
responde aos princpios da "nova teologia" iniciada em Le Saulchoir. Plenamente empenhado na renovao e "aggiornamento" da Igreja. Seu trabalho consistiu "em repensar 
a f tradicional em funo da situao presente no mundo". Foi o te-

Schillebeeckx, Edward / 499

logo assessor do episcopado holands no Conclio *Vaticano II. Depois foi consultor do episcopado holands nos anos que seguiram ao Conclio, em que a Igreja da 
Holanda submeteu-se a uma profunda reviso. Em 1965 fundou, com outros telogos, a revista internacional de teologia "Concilium", sendo tambm um dos principais 
inspiradores do Novo Catecismo holands (1966). Sua numerosa obra escrita pode ser encontrada na revista "Concilium" e em outras revistas especializadas, e em obras 
de grande impacto e difuso no s entre telogos, mas tambm entre o pblico dos diferentes idiomas cultos. Como a de *Kng, *Rahner, De *Lubac, *Hring e outros, 
sua obra escrita transcendeu a ctedra e os crculos especializados para passar aos diversos setores da sociedade. Citamos algumas de suas obras: A economia sacramental 
da salvao (1952); Maria, Me da redeno (1954); Cristo, sacramento do encontro com Deus (1958); Deus, futuro do homem (1965); Mundo e Igreja (1966); Compreenso 
da f: interpretao e crtica (1972); Jesus. Uma tentativa de cristologia (1974). Dois tomos sobre A Igreja de Cristo e o homem de hoje segundo o Vaticano II renem 
sua contribuio para as revistas especializadas. Desde 1968, Schillebeeckx  objeto de observao e de crticas por parte da atual Congregao para a Doutrina da 
F. Em 1979 foi chamado a Roma para depor diante dela. "Os dogmas, segundo Schillebeeckx, tm um sentido dentro de uma perspectiva histrica determinada e utilizam 
noes tomadas de uma cultura particular." Essa historicidade leva-o a reinterpretar os dogmas, levando em conta as condies da existncia dos homens. Por isso, 
a ortodoxia s  plenamente possvel sobre a base de uma "ortoprxis":  na prtica efetiva da Igreja que se realiza uma nova compreenso da mensagem da f. A unidade 
de uma mesma f e de uma mesma confisso s  reconhecvel na "pluralidade de opinies teolgicas". E o "que  verdade para o telogo, o 

500 / Schlegel, Friedrich

tambm para cada crente". Num mundo secularizado, "Deus manifesta-se normalmente sob a forma de ausncia". Ao abordar os problemas do ponto de vista histrico, aplica-os 
tambm Schillebeeckx  figura de Jesus, cujo estudo temlhe valido duras crticas. (*Teologia atual, Panorama da).
BIBLIOGRAFIA: Revelao e teologia; O matrimnio -- realidade terrestre e mistrio de salvao; Maria, me da redeno; Deus e o homem; Cristo, sacramento do encontro 
com Deus; La historia de un viviente. Cristiandad, Madrid 1981; Cristo y los cristianos. Cristiandad, Madrid 1982; El misterio eclesial. Responsables en la comunidad 
cristiana. Cristiandad, Madrid 1983.

Schlegel, Friedrich (1772-1829)
Autor romntico e apologista, lder do movimento romntico em Berlim. Converteu-se ao catolicismo em 1808. Em suas conferncias sobre filosofia e histria moderna, 
dadas em Viena entre 1810-1812, defendeu a idia medieval do imprio frente ao Estado napolenico. Foi um dos restauradores da vida catlica na ustria e na Alemanha, 
colaborando com o grupo de intelectuais que trabalhavam com o "Apstolo de Viena", o redentorista So Clemente M Hofbauer. O campo onde se movimentou Schlegel foi 
a literatura e a filosofia para a renovao do catolicismo.

Schmaus, Michael
*Teologia atual, Panorama da.

Schnackenburg, R.
*Teologia atual, Panorama da.

Schkel, Luis Alonso
*Teologia atual, Panorama da.

Schopenhauer, Arthur / 501

Schopenhauer, Arthur (1788-1860)
Filsofo alemo que influenciou grandemente a filosofia e a literatura dos sculos XIX e XX. Professor da Universidade de Berlim (1820), abandonou o ensino em 1831 
para viver em seu retiro de Frankfurt. Sua filosofia  uma reao ao idealismo de Hegel e prepara, de alguma forma, a filosofia existencial do pessimismo. Seu pensamento 
foi fortemente influenciado pela filosofia e pelas concepes religiosas da ndia. Schopenhauer inicia sua obra antes de chegar a ser professor em Berlim com a obra 
que o tornou conhecido em todo o mundo: O mundo como vontade e representao (1818). O restante surgiu ao longo dos 28 anos do seu retiro de Frankfurt. Destacam-se: 
A vontade na natureza (1836);O livre-arbtro (1839); Os dois problemas fundamentais da tica (1841); Dores do mundo; A vontade de amar. E as duas obras pstumas: 
Aforismos sobre filosofia de vida e Pensamentos e fragmentos. Constri toda a sua filosofia sobre a representao que compreende o sujeito e o objeto e sobre o conceito 
de vontade e de fora. O mundo  uma representao -- no pode ser concebido seno como representado numa inteligncia -- e o substrato deste mundo aparente ou fenomnico 
 o que ele chama de "vontade". A realidade portanto se reduz a sua aparncia. Para alm dessa aparncia, coloca-se a coisa em si, que devemos interpretar como uma 
vontade que se mostra em forma de impulso cego e irracional e que  sempre uma vontade de viver. Em cada um de ns, tal vontade manifesta-se como exigncia de felicidade 
e auto-afirmao que jamais est satisfeita. Por sua vez, o mundo  campo de luta onde cada um quer dominar. O mal, a dor e a crueldade do mundo expressam a natureza 
bsica da realidade. O mal nunca poder ser vencido, porque faz parte da realidade. A libertao da dor e do mal inspiraram Schopenhauer  anlise pessimista das 
condies da vida que ca-

502 / Schutz, Roger

racterizou sua filosofia. Pela contemplao esttica, a castidade que nega a espcie e o ceticismo que esgota os desejos e paixes, o homem conseguir libertar-se, 
refugiando-se no nirvana da religio da ndia. A salvao  alcanada assim mediante a renncia  vontade de viver, da qual resulta a resignao. Nem o tesmo nem 
o pantesmo podem fazer nada contra o mal. O melhor  rejeit-los. Nessa resignao, Schopenhauer fundamenta sua moral na piedade, que procede da conscincia de 
identidade essencial dos seres.
BIBLIOGRAFIA: Obras: O mundo como vontade e representao; Sobre a vontade na natureza, 1934; O livre arbtrio, 1934; O fundamento da moral, 1896; Parerga e Paralipmena, 
1926, 2 vols.; Adalbert Hamel, A. Schopenhauer y la literatura espaola, 1925.

Schutz, Roger (1915-)
O nome de Roger Schutz est vinculado a dois fatos fundamentais e singulares: a comunidade crist interconfessional de Taiz e o movimento ecumnico. Os dois fatos 
esto intimamente ligados: em torno de Taiz, cristos de todas as confisses, inclusive outros crentes ou agnsticos, encontram-se numa atmosfera de silncio, orao, 
intercmbio e dilogo. Roger Schutz nasceu na Sua em 1915. Depois de realizar seus estudos teolgicos em Lausanne, dedicou-se como pastor calvinista ao cuidado 
pastoral. Em 1940 foi para a Frana, onde comprou uma velha manso na colina de Taiz, prxima a Maon. Quis fundar uma comunidade de cristos "concebida como um 
sinal de unidade". Tentou combinar ao e orao, retiro e participao na misria dos homens atravs do acolhimento aos refugiados polticos. Em 1942, foi para 
Genebra, fugindo da Gestapo, e retornou a Taiz em 1944 com mais trs irmos. Cinco anos depois, so sete os que emitiram seus primeiros votos: castidade, comunidade 
de bens e obedincia.

Schutz, Roger / 503

Desde essa poca, Taiz transformou-se num lugar de paz e de intercmbio. Em 1958, o irmo Roger, assim quis chamar-se, encontrou-se pela primeira vez com o Papa 
Joo XXIII. Em 1962, visitou o patriarca Atengoras. Nesse mesmo ano, inaugurou-se a igreja da comunidade, com o nome simblico de Igreja da Reconciliao. Desde 
1966, esse homem simples e crente transformou Taiz em centro ecumnico de um surpreendente movimento de jovens de todo o mundo. Na Pscoa de 1970, lanou a idia 
de um conclio de jovens, que todos os anos, desde ento, buscam as portas da comunidade, seja qual for sua religio. Durante esses anos, a atividade do irmo Roger 
foi universal: convidado pessoal do Papa s quatro sesses do Conclio *Vaticano II (1962-1965); acompanhou *Paulo VI em sua viagem a Bogot; visitas s "fraternidades" 
dispersas por todo o mundo, sobretudo nos pases mais pobres; conferncias a operrios na Polnia; assemblias a multides de jovens em Florena etc. O pensamento 
do irmo Roger ficou impresso na Regra da comunidade de Taiz, redigida entre 1952-1953 e expressa o mais profundo da espiritualidade monstica e do sentido missionrio 
do Evangelho. Suas obras: Viver no hoje de Deus; A unidade, esperana de vida; Dinmica do provisrio etc.; transmitem uma mensagem de paz e de serenidade na f 
crist para os monges de Taiz e para todo o mundo. Luta e contemplao (1973) resume, melhor do que nenhuma outra obra, seu ideal de um cristianismo comprometido 
com o mundo de hoje na vivncia profunda do mistrio cristo. Em 1974, os livreiros alemes concederam-lhe, em Frankfurt, o Prmio da Paz.
BIBLIOGRAFIA: Diccionario del cristianismo. Herder, Barcelona 1974; Las religiones. Mensajero, Bilbao 1976; John Macquarrie, El pensamiento religioso en el siglo 
XX; Teologa de la renovacin. Sgueme, Salamanca 1972, 2 vols.; 2000 aos de cristianismo, t. 9.

504 / Schwartz, Edward

Schwartz, Edward (1858-1940)
Fillogo clssico e especialista em patrstica. Sua obra fundamental Acta Conciliorum Oecumenicorum (1914-1940)  uma edio crtica dos conclios gregos. Pela primeira 
vez publicam-se as Atas do Conclio de feso (431) e de Calcednia (451). So importantes tambm seus estudos sobre Santo *Atansio (1904-1911).
BIBLIOGRAFIA: O. Clment, L'glise orthodoxe. PUF, Paris (1965); Historia de la Iglesia catlica, I. La Iglesia en el mundo greco-romano; II. Edad Media: La cristiandad 
en el mundo europeo y feudal (BAC).

Schweitzer, Albert (1875-1965)
Telogo francs de origem alsaciana. Desde 1912 foi mdico-missionrio na frica Equatorial francesa, onde fundou o famoso hospital para negros em Lamboren (hoje 
Gabo). Em 1952 concederam-lhe o Prmio Nobel da Paz. Alm de seu trabalho e entrega pessoal, reunidos em suas Memrias (1924-1931), escreveu tambm obras de teologia 
e sociologia. Deu concertos e conferncias na Europa e em outras partes do mundo para reunir fundos para seu trabalho missionrio. Suas obras mais conhecidas so 
a Vida de Jesus (1910) e a Mstica do apstolo Paulo (1931). Afirma que a vida e a obra de Jesus somente se podem entender na perspectiva do apocalptico judaico 
contemporneo. Segundo Schweitzer, Jesus decidiu salvar seu povo da tribulao final, oferecendo-se ele prprio  morte. Assim cumpriu, de alguma forma, suas esperanas 
de um fim eminente de um mundo que no se realizou. Mas o importante desse pastor luterano, mdico e missionrio,  sua contribuio e sua entrega  populao negra 
e marginalizada da frica e sua contribuio para a paz mundial. Seu livro O problema da paz no mundo de hoje, de tanta ressonncia em sua poca, continua vlido 
para todo tempo.

Sentenas dos Padres / 505 BIBLIOGRAFIA: Obras: Filosofa de la civilizacin, I. Decaimiento y restauracin de la civilizacin; II. Civilizacin y tica, 1962; El 
cristianismo y las religiones, 1950; Mi vida y mi pensamiento, 1961; J. Brabazon, Albert S.: A. Biography, 1975.

Segneri, Paulo (1624-1694)
*Literatura autobiogrfica; *Molinos.

Segundo, Joo Lus (1925-)
*Libertao, Telogos da.

Sentenas dos Padres (finais do sc. V)
As Sentenas dos Padres, traduo da obra Apothegmata Patrum,  uma coleo annima de mximas espirituais nascidas do *monaquismo egpcio. Esse livro de sentenas 
foi compilado provavelmente nos finais do sculo V. Contm frases dos mais famosos abades e solitrios do deserto egpcio e anedotas sobre seus milagres e virtudes: 
suas obras. No sc. VI surgiu uma antologia de tais frases na ordem alfabtica de seus autores, comeando com o abade Antnio e terminando com o abade Or. Esta srie 
conserva-se em algumas redaes e tradues tardias. A obra foi escrita originalmente em grego, mas logo se fizeram tradues para o latim, copta, armnio etc. Oferecem 
um quadro vivo da vida monstica no vale de Natrn. Essas Sentenas dos Padres representam uma fonte inestimvel de informao para a histria da religio e da civilizao. 
"Trata-se, de fato, de palavras isoladas, de propsitos fragmentrios, nos quais no cabe procurar um ensino completo de teologia ou de espiritualidade... No se 
podem considerar tais apotegmas como uma espcie de livres e pequenas sentenas, como essas que pronunciam de boa vontade em nossos dias os homens de letras, aos 
dirigentes polticos ou aos dignatrios eclesisticos em suas entrevistas, encontros familiares ou coletivas de imprensa. Por mais espontnea que

506 / Srgio, So

paream, freqentemente, nos textos que utilizamos, os apotegmas so o fruto de um lento e longo amadurecimento no silncio do deserto"... (Dom Lucien Regnault). 
Para os cristos, os apotegmas ou sentenas transformaram-se numa leitura muito freqente e querida, pois lembram aqueles homens dos sculos II-III de nossa era 
que responderam ao Evangelho de forma to original! "Em todas as frmulas, o mais importante e revelador  a meno da salvao, com a aspirao profunda que implica 
no corao daquele que pergunta: "Como me salvarei?". "D-me uma palavra de salvao." Esses so os apotegmas. As mais conhecidas sentenas ou apotegmas dos padres 
so uma verso latina de quatro colees diferentes dos Apotegmas, todas elas escritas originalmente em grego, e relacionadas com as que mencionamos acima. A traduo 
para o latim com o ttulo de Verba Seniorum foi feita pelo Papa Pelgio (556-561) e pelo Papa Joo III (561-574), ajudados pelo dicono Pasccio e pelo abade Martinho 
de Dmio.
BIBLIOGRAFIA: G. M. Colombs, El monacato primitivo, I. Hombres, hechos, costumbres e instituciones; II. La espiritualidad (BAC); Id.; La regla de San Benito (BAC); 
Las sentencias de los Padres del desierto. Los apotegmas de los padres. Descle de Brouwer, Bilbao 1989.

Srgio, So (1314-1392)
*Hesiquia.

Sertillanges, A. D. (1863-1948)
*Teologia atual, Panorama da.

Servet, Miguel (1511-1553)
De Miguel Servet, conhecido em sua poca como Servetus ou Serveto, interessa-nos aqui sua vida, sua vasta mas desordenada cultura, sua obra de medicina, geografia, 
astrologia e teologia.

Servet, Miguel / 507

Nasceu em Vilanova de Sixena (Lrida) e realizou seus estudos em Barcelona, Saragoa e Toulouse. Viajou pela Itlia e pela Alemanha, estabelecendo relaes com os 
principais reformadores do continente, entre eles *Melanchton e *Calvino. Expulso da Alemanha, instalou-se na Frana, dedicando-se ao estudo da Matemtica, da Astrologia 
e, principalmente, da Medicina. Paris e Lyon foram suas primeiras etapas do exlio, encontrando nelas um ambiente de letrados, sbios e impressores. Isso lhe permitiu 
publicar Geografia e Ptolomeu. Dedicou-se ainda aos estudos de Medicina, sobretudo em Vienne, onde viveu de 1541 a 1552. Em Vienne (Frana) foi detido, na verdade, 
por Calvino em 1552. Foi processado, mas fugiu do crcere no terceiro dia do processo. Em sua fuga at Npoles, passou por Genebra, onde foi reconhecido e detido 
a 13 de agosto de 1553. Aps uma acusao violenta, levada diretamente pelo prprio Calvino, que o acusava de libertinagem, de fraude, de corromper a juventude e, 
principalmente, de heresia, no dia 26 de outubro de 1553 o Conselho dos Duzentos condenou-se a ser queimado vivo com seus livros. No dia seguinte, o condenado foi 
conduzido  fogueira de Champel. No se retratou. Com seus escritos amarrados em suas pernas, morreu pronunciando estas palavras: "Jesus, Filho do Deus eterno, tende 
piedade de mim". Deixando de lado suas pesquisas e instituies como mdico -- Servet descobriu e descreveu a circulao do sangue nos pulmes -- e sua obra astrolgica, 
exposta em Apologetica disceptatio pro astrologia (1538), interessa-nos aqui sua doutrina filosfico-teolgica. Esta se expe, principalmente, em trs obras teolgicas: 
Erros sobre a Trindade (1531); Dilogos sobre a Trindade (1532); Christianismi restitutio (1553), a ltima e a mais importante obra de Servet. Nas duas primeiras, 
negava que o Filho fosse da mesma natureza do Pai e co-eterno com ele.

508 / Servet, Miguel

-- A Christianismi restitutio ou restaurao do cristianismo, sua obra principal, impressa em segredo e sob o anonimato,  uma obra eloqente e obscura, sem demonstrao 
nem lgica, com piedosas efuses, de invectivas violentas, principalmente contra o papa e a Igreja Romana, de profecias, de textos tomados de mltiplas fontes. Sua 
filosofia mostra-o como pantesta. Calvino criticou-o que Deus comunica sua deidade a toda a criao, de que  "pedra sobre pedra, e madeira sobre madeira". -- Em 
seus Dilogos de sobremesa, *Lutero tratou Servet como "mouro". Servet no se considera de nenhuma confisso. Seu cristianismo, irregular e confusamente expresso, 
seria nica e exclusivamente seu. Assim, sua teologia separa-o essencialmente dos catlicos, sobretudo com relao ao dogma da Trindade. Segundo ele, Cristo no 
 Deus por natureza, mas chegou a s-lo pela graa.  o intermedirio entre o criador e a criatura, mas se diferencia dos dois. Para ele, a Trindade nada mais  
que uma questo de modalidade: o Pai, o Filho e o Esprito Santo no representam seno trs modalidades de manifestao divina. -- Da mesma forma, Servet ope-se 
aos protestantes, apesar de se ater  autoridade da Escritura. Revela-se contra a doutrina da justificao pela f. Rejeita a rgida predestinao dos calvinistas, 
que rebaixa o homem  categoria de "pedra" ou "tronco de rvore". -- Servet foi repudiado em seu propsito reformador de devolver  f crist sua pureza primitiva 
perdida, segundo ele, desde Constantino. "Afirmo que seus magistrados atuaram com toda justia, escreve Melanchton a Calvino, condenando  morte um homem culpvel 
de blasfmia ao trmino de um processo formal." Assim se sancionava uma morte e uma represso terrvel empreendida pela Reforma.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Christianismi restitutio (reimp. 1965); Dialogi de Trinitate (reimp. 1965); De iustitia regni Christi (reimp. 1965). Traduo recente de Restitutio 
e biografia de Servet.

Smbolo dos Apstolos / 509

Siger de Brabante (1240-1284)
Filsofo averrosta, criador do chamado "averrosmo latino" no sc. XIII. Desde 1266 ensinou em Paris a filosofia aristotlica tal como a interpretou Averris (1126-1198). 
A doutrina de Siger-Averris afetava seriamente pontos fundamentais cristos. Tal era, por exemplo, a eternidade do mundo; a negao da imortalidade pessoal da alma 
e, por conseguinte, os prmios e castigos aps a morte; a doutrina de "dupla verdade": o que pode ser verdade segundo a f, pode no ser segundo a razo e vice-versa. 
Com essa considerao, a teologia poderia afirmar uma coisa sobre um assunto, e a filosofia outra. O averrosmo se imps durante algum tempo na Sorbonne. Em 1270, 
o arcebispo de Paris condenou 13 de suas proposies ou teses. Nesse mesmo ano, Santo *Toms de Aquino escreveu De unitate intellectus contra averrostas, obra decisiva 
na implantao do novo aristotelismo. Em 1276, foi intimado por Simo du Val, inquisidor da Frana, por delito de heresia, ma no atendeu  intimao por ter fugido 
do pas. O averrosmo voltou depois no sc. XIV  Universidade de Paris e a outras escolas da Frana e da Itlia. No Renascimento teve tambm alguns indcios.
BIBLIOGRAFIA: E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, com a bibliografia a publicada, p. 511s.

Smbolo dos Apstolos
Com o nome de Smbolo dos Apstolos ou Credo dos Apstolos, inicia-se na Igreja uma srie de frmulas ou profisses de f que chegaram at nossos dias. So frmulas 
muito elaboradas e concisas que contm um compndio da teologia da Igreja. Servem para a proclamao ou confisso da f da comunidade, e boa parte delas entrou na 
liturgia eucarstica e na catequese. A primeira dessas manifestaes de f  o propriamente chamado Credo ou Smbolo dos Aps-

510 / Smbolo dos Apstolos

tolos, usado no Batismo e na Eucaristia, tanto pelos catlicos quanto pela maioria das confisses protestantes. Sua forma atual, que consta de 12 artigos, no  
anterior ao sculo VI. No entanto, o nome Symbolum Apostolicum indica-nos que  mais antigo. Uma tradio nos diz que os apstolos, antes de separar-se para suas 
respectivas misses em diferentes pases e naes, redigiram de comum acordo um breve sumrio da doutrina crist como base de seus ensinamentos e como regra de f 
para os crentes. As investigaes recentes concluem que seu contedo essencial data da era apostlica. A forma atual, no entanto, desenvolveu-se gradualmente. Sua 
evoluo est vinculada  liturgia batismal e  preparao ao catecumenato, e o texto  semelhante ao credo utilizado em Roma nos sc. III-IV. Na forma presente, 
j se encontra em Cesrio de Arles e foi usado na Frana, Espanha, Irlanda e Alemanha, nos finais do sculo VI e princpios do VII. Esse credo foi reconhecido como 
afirmao oficial de f da Igreja Catlica do Ocidente pelo Papa Inocncio III (1198-1216). Existem tambm outras frmulas de f nascidas ao longo da histria da 
Igreja, fruto da mesma necessidade de explicitar ou acentuar, tanto a f em geral, quanto um dogma particular. Junto ao Credo dos Apstolos, de uso nas Igrejas do 
Ocidente, encontramos o credo formulado pelo Conclio de Nicia (325), conhecido como Credo de Nicia ou niceno. Foi redigido para defender a f ortodoxa contra 
o arianismo. Como apndice do mesmo, h quatro antemas antiarianos, que so considerados parte integrante do texto. Deste credo h uma segunda verso, conhecida 
como Credo Niceno-constantinopolitano e que se usa na liturgia tanto do Oriente quanto do Ocidente. Desde o Conclio da Calcednia (451) foi tido como o credo do 
Conclio de Constantinopla (381). Da seu nome. O mesmo que o Credo dos Apstolos ou o de Jerusalm, o Credo Niceno-

Smbolo dos Apstolos / 511

constantinopolitano pretende excluir idias herticas, e em particular a heresia ariana que negava a igualdade do Filho com o Pai. Para isso afirma a consubstancialidade 
do Filho com o Pai (homoousion). Posteriormente, as Igrejas ocidentais acrescentaram a clusula filioque, que afirma que o Esprito procede do Pai e do Filho. Esta 
clusula foi parte e causa da ruptura da Igreja do Oriente e do Ocidente, j que aquela jamais aceitou tal clusula. Um terceiro credo ecumnico  o chamado Credo 
Atanasiano, atribudo a Santo *Atansio. Hoje se reconhece que  posterior, provavelmente da segunda metade do sc. V. Esse credo, que teve seu reconhecimento no 
Oriente at o sc. XVI, ainda  reconhecido oficialmente pelos catlicos, pelos anglicanos e pelos luteranos. Seu uso veio a ser pouco presente na liturgia.  extremamente 
polmico em seu tom, detm-se nas afirmaes sobre a Trindade, a Encarnao e os fatos da vida do Salvador. Termina com antemas contra os que no acreditam em tais 
afirmaes. As frmulas de f ou credos continuaram at nossos dias. As Igrejas nascidas da Reforma adotaram as *Confisses de f para expressar e formular sua f. 
Entre os catlicos, existem duas frmulas de f promulgadas por dois papas depois de dois conclios. A primeira  a Professio fidei tridentinae, compndio das doutrinas 
promulgadas no Conclio de Trento. Foi publicada por Pio IV, em 1564. Era a profisso de f que deveriam fazer os oficiais da Cria Romana e de todos os cargos eclesisticos 
antes da posse. Em 1967, foi substituda por uma frmula mais breve. A segunda frmula de f  o Credo do povo de Deus de *Paulo VI (1968), uma frmula ampliada 
como recordao da f vivida pela Igreja Catlica no sculo XX.
BIBLIOGRAFIA: E. Denzinger, Enchiridion symbolorum...; J. Quasten, Patrologa, I, 31s.; J. N. D. Kelly, Primitivos credos cristianos. Salamanca 1980; Vrios, Para 
decir el credo. Verbo Divino, Estella 1988.

512 / Simeo de Tessalnica

Simeo de Tessalnica (+1429)
Foi arcebispo de Tessalnica e autor de uma obra de grande influncia na teologia e na espiritualidade ortodoxas: O dilogo contra todas as heresias e sobre a nica 
f. Consta de um breve tratado sobre a doutrina da f e outro mais extenso sobre a liturgia e os sacramentos.

Simeo, So (c. 960)
*Hesiquia.

Snodo dos Bispos
*Conclio.

Smangaliso Mkhatshwa (1939-)
Sacerdote catlico sul-africano, tem sofrido vrias detenes e prises por sua oposio como cristo ao "apartheid" de seus concidados negros na frica do Sul, 
durante os ltimos vinte anos. Recentemente foi premiado com o ttulo de doutor "honoris causa" das Universidades de Tubinga (Alemanha) e Washington (Estados Unidos). 
 fundador e diretor do Instituto de Teologia Contextual (ITC), verso africana da *Teologia da Libertao. Sua atividade discorre na direo do instituto, de conferncias, 
de congressos, alm de trabalhos sobre a situao social e religiosa da populao negra no sul da frica. Sobre o ITC escreve: "A nossa  uma instituio independente, 
na qual h de tudo: catlicos, protestantes, representantes das Igrejas independentes africanas e membros da Igreja Reformada Holandesa como Alex Bhiman, afastado 
de seu ministrio por ter exigido que fossem tomadas decises mais rgidas contra o apartheid". "A teologia contextual -- diz Smangaliso --  uma verso da Teologia 
da Libertao. Seu ob-

Soto, Domingo de / 513

jetivo  contribuir para a construo de uma nova sociedade justa e livre de toda forma de opresso. Sublinha que a diferena com relao  Amrica Latina  a peculiar 
situao social e poltica sul-africana, onde a luta de classes est vinculada  discriminao racial". A misso principal do ITC  proporcionar  populao uma 
anlise que desperte sua conscincia sobre a situao de escravido em que vive e a ajude, conseqentemente, a atuar". Por isso, diante do fim do apartheid, que 
ele considera prximo, pergunta: "Que sentido ter, ento, a existncia do ITC?", e responde: "O fim do apartheid no supor a libertao total dos sul-africanos. 
Muitos anos se passaro at que se apaguem as atitudes psicolgicas que permitiram tal monstruosidade, e isso s ser possvel atravs de um processo de reeducao. 
Continuaro as desigualdades econmicas e a pobreza da maioria negra. Que sentido tem que um novo governo proceda  redistribuio da terra, em poder de minoria 
branca, se os negros no vo ter nem o capital, nem a preparao tcnica, nem a tecnologia apropriada para sua explorao e rendimento?". A misso da Igreja ser 
dar ao povo a formao necessria. "Sabe-se -- conclui -- que o princpio pietista de que no temos por que nos preocupar com o que ocorre na terra, porque nosso 
objetivo da salvao  o cu,  egosta, e, se fosse levado adiante, impediria o progresso da humanidade.
BIBLIOGRAFIA: Vrios, Teologa negra-Teologa de la liberacin. Sgueme, Salamanca; Cl. Boff, Teologa de lo poltico. Sus mediaciones. Sgueme, Salamanca, 1981.

Sobrino, Jon (1938-)
*Libertao, Telogos da.

Soto, Domingo de (1494-1560)
*Domingos de Gusmo, So.

514 / Sozomenes

Sozomenes (sc. IV-V)
*Monaquismo; *Eusbio de Cesaria.

Spener, Philip H. (1635 1705)
*Pietistas.

Stein, Edith (1891-1942)
A ficha pessoal, que dicionrios e enciclopdias fazem desta mulher,  a seguinte: "Edith Stein, nome original de Theresia Benedicta a Cruce, nascida em Breslau, 
morta em Auschwitz (Polnia), catlica convertida do judasmo, monja carmelita, filsofa e escritora espiritual que foi executada pelos nazistas por sua ascendncia 
judaica e considerada mrtir moderna" (Enc. Britnica). Dcima primeira filha de um casal de comerciantes judeus, Edith Stein herdou um carter enrgico e sensvel, 
inquieto e, ao mesmo tempo, responsvel. Sua carreira universitria iniciou-se na Universidade de Gotinga (1911) onde entrou no crculo de discpulos de Edmund Husserl, 
criador da corrente filosfica Fenomenologia. Anos depois, passou a ajudante de Husserl, nomeado catedrtico de filosofia da Universidade de Friburgo. Fez o doutorado 
em filosofia em 1916 e permaneceu nesta cidade at 1922, dedicandose totalmente  filosofia e ao estudo dos manuscritos de seu mestre. Paralelamente  sua vida acadmica, 
corre sua vida religiosa. Desde tenra idade (1904), Edith Stein abandonou sua f judaica para entrar num atesmo agnstico. No obstante, em Gotinga ter tambm 
seus primeiros contatos com o catolicismo. A 1 Guerra Mundial produziu-lhe uma impresso to viva que influiu decisivamente na profunda crise pessoal que atravessou 
em 1920. Esta circunstncia preparou o terreno para sua converso  religio catlica. Decidiu receber o Batismo no vero de 1921, aps a leitura da autobio-

Stein, Edith / 515

grafia de Santa Teresa, que realizou em 1922. A partir desta data, abandonou seu estudo ao lado de Husserl para dar aulas no Liceu Dominicano de Spira (1922-1932). 
Em 1933, teve de abandonar as aulas devido  legislao anti-semita dos nazistas. Em 1934, ingressou no carmelo de Colnia, tomando o nome de Teresa Benedicta de 
la Cruz. Primeiro a converso e depois a entrada no carmelo no interromperam seu estudo e seus contatos com o mundo intelectual. Em 1938, foi transferida para o 
Carmelo de Echt, na Holanda, acreditando estar a salvo da perseguio nazista. A condenao por parte do episcopado holands (1942) da barbrie nazista provocou 
a ordem de Hitler de prender todos os catlicos no arianos. Foi detida pela Gestapo em 1942 e levada, junto com sua irm Rosa, ao campo de concentrao de Auschwitz. 
Os sobreviventes desse campo de extermnio testemunham o auxlio prestado por Edith Stein a seus companheiros. Foi enviada  cmara de gs, onde morreu com sua irm. 
Foi beatificada por Joo Paulo II em maio de 1987, em Colnia. -- A obra escrita por Edith Stein encontra-se no Archivium Carmelitanum Edith Stein, em Lovaina, Blgica. 
Suas obras, em vias de publicao, esto classificadas da seguinte forma: a) Reelaborao dos manuscritos, que constituem a base da segunda e terceira parte das 
Ideen de Husserl. b) As tradues que fez de algumas obras de Newman e de Santo *Toms. Deste ltimo traduziu De veritate e talvez tambm De ente et essentia. c) 
A numerosa correspondncia com intelectuais e outras pessoas sobre temas particulares e sobre problemas de estudo. d) As obras de filosofia como : Sobre o problema 
da empatia; Contribuies para a fundamentao filosfica da psicologia e das cincias do esprito, I. Causalidade psquica; II. Indivduo e comunidade; A fenomenologia 
de Husserl e a filosofia de Santo Toms de Aquino; O "ethos" da misso da mulher etc. e) Estudos de espiritualidade e mstica: Os caminhos do silncio interior; 
A cincia da

516 / Strauss, Friedrich

cruz; Estudos sobre So Joo da Cruz etc. Entre essas merece destaque sua autobiografia e Ser finito e ser eterno, talvez sua obra filosfica fundamental. -- De 
Edith Stein, afirma-se: "Jamais escreveu nada em que no acreditasse firmemente, no fez nada com esprito conformista" (R. Ingarden, companheiro de estudos). "A 
filosofia de E. Stein  uma combinao original de fenomenologia e pensamento escolstico. Da primeira tomou o mtodo e os aspectos realistas; do segundo, principalmente 
o tomismo." -- Outro importante ingrediente de seu pensamento filosfico  a mstica, em especial a de trs autores: o *Pseudo-Dionsio, So *Joo da Cruz e Santa 
*Teresa de Jesus. -- Mas o interesse principal de sua filosofia est na construo de uma metafsica completa, novo degrau da filosofia perene que, sem deixar de 
ser estritamente filosfica, no descuida as riquezas proporcionadas pela experincia e por sua anlise fenomenolgica. A sntese fenomenolgico-escolstica era 
para E. Stein uma sntese de razo e experincia, de temporalidade e eternidade, de finitude e infinitude, de existncia e essncia.
BIBLIOGRAFIA: Obras completas: I. La ciencia de la cruz; Estudios sobre san Juan de la Cruz, 1559; Cartas a H. Conrad-Martius; Teresa Renata del Espritu Santo: 
Edith Stein, una gran mujer de nuestro siglo, 1953.

Strauss, Friedrich (1808-1874)
Discpulo de *Hegel e considerado da "esquerda hegeliana", Strauss dedicou-se a uma crtica radical dos textos bblicos e tentou, assim como *Feuerbach, reduzir 
o significado da religio a exigncias e necessidades humanas: simples antropologia. Seguindo as idias e orientaes de Ferdinand Baur, da escola de Tubinga, publicou 
em 1835 a Vida de Jesus, obra que logo se fez famosa e suscitou as violentas polmicas que consummaram a diviso dos discpulos de Hegel.

Strauss, Friedrich / 517

"Essa obra foi a primeira tentativa radical, sistemtica e completa de aplicar o conceito hegeliano da religio aos textos bblicos. O resultado foi reduzir a f 
religiosa a um simples mito. O Jesus da tradio  um mito: no pertence  histria;  uma fico produzida pela orientao intelectual de uma determinada sociedade." 
O mito  uma idia metafsica expressa mediante uma imagem, por um esprito contemplativo. Seu valor no reside no fato narrado, mas na idia representada. O mito 
de Jesus foi originado pela ardente espera do Messias e pela personalidade do Jesus histrico. Partindo destes princpios, Strauss leva adiante a anlise filosfica 
e histrica dos textos evanglicos, relegando ao mito e  lenda todo elemento sobrenatural ou, em geral, no fundado sobre o testemunho comprovado e concordante 
das fontes. A obra quer demonstrar a diferena entre a religio crist, caracterizada por seus mitos, e a filosofia. No entanto, paradoxalmente, afirmar como concluso 
que religio e filosofia so a mesma coisa: a unidade do infinito e do finito, de Deus e do homem. Em conseqncia, Jesus "no pode ser seno um daqueles indivduos 
csmicos nos quais se realiza a idia substancial da histria. Nele surge, pela primeira vez, a conscincia da unidade do divino e do humano, e neste sentido  nico 
e inigualvel na histria do mundo". "J temos aqui o homem incomparvel", moldado por *Renan, anos mais tarde, e a base da doutrina de Feuerbach. Suas duas obras 
completam o pensamento religioso de Strauss: A f crist em seu desenvolvimento e em sua luta com a cincia moderna (1841-1842) e A antiga e a nova f (1872). Na 
primeira, contrape o pantesmo da filosofia moderna ao tesmo da religio crist. "A histria do dogma cristo  a crtica do prprio dogma, j que revela o progressivo 
triunfo do pantesmo sobre o tesmo, chegando a reconhecer que Deus nada mais  do que o pensamento que age em todos, que os atributos de Deus nada mais so do que 
as leis da natureza e que o todo  imutvel e

518 / Strauss, Friedrich

absoluto refletido nos espritos finitos desde a eternidade. Na segunda, faz estas quatro perguntas: 1) Somos ainda cristos? Responde que no, porque o tesmo j 
no existe. 2) Temos ainda uma religio? Afirma que sim, desde que por religio se entenda o sentimento de dependncia que o homem tem do universo e suas leis. 3) 
Como entendemos o universo? A resposta a esta terceira pergunta contm sua profisso de materialismo. 4) Como devemos regular nossa vida? A resposta contm sua doutrina 
moral. O objetivo desta  levar uma vida social ordenada mediante a perfeita realizao de nossa humanidade, utilizando para isso o princpio da "simpatia". Termina 
exaltando o industrialismo moderno e a burguesia. Ataca o cristianismo que detesta o af de lucro e de xito, assim como o socialismo. A poesia, especialmente a 
de Lessing e a de Goethe, ser a educadora do povo, no a Bblia (Diccionario de filsofos).
BIBLIOGRAFIA: Das Leben Jesu, 1835, 2 vols.

Surez, Francisco (1548-1617)
Nasceu em Granada e morreu em Lisboa. Conhecido como "Doctor eximius", ingressou na Companhia de Jesus em 1564. Professor de teologia e filosofia em Segvia, vila, 
Valladolid, Roma, Alcal, Salamanca; por ltimo, desde 1597, em Coimbra. Sua extensa obra filosfico-teolgica, 26 volumes in folio, compreende dois blocos: a) O 
bloco de obras teolgicas. Quase todas elas desenvolvem a Summa Teolgica de Santo *Toms. Mas a obra de Surez no  comentrio. So tratados autnomos e independentes, 
que estudam de forma sistemtica todos os problemas da teologia. So eles: De divina substantia, em que se encontra toda a teologia natural; De angelis estuda o 
problema do conhecimento intelectual; De gratia analisa as relaes entre a liberdade divina

Surez, Francisco / 519

e a liberdade criada; De ultimo fine e De voluntario expem os princpios e as normas fundamentais da tica natural. b) A obra filosfica est contida nos dois grandes 
volumes de suas Disputationes metaphysicae. Nas 54 Disputaciones metafsicas, Surez estuda com clareza e rigor o problema do ser independentemente das questes 
teolgicas, embora sem perder de vista que sua metafsica ordena-se  teologia,  qual serve de fundamentao prvia. "Surez , desde Aristteles, escreve *Zubiri, 
o primeiro ensasta a fazer da metafsica um corpo de doutrina filosfica independente. Com Surez, eleva-se ao nvel de disciplina autnoma e sistemtica." -- A 
metafsica de Surez aborda, com muita agudeza, os pontos capitais da filosofia escolstica. Embora se mantenha fiel ao tomismo, no rechaa os desvios quando lhe 
parecem necessrios. Algumas vezes recolhe antecedentes da filosofia pr-tomista; em outras, ao contrrio, est mais prxima de Duns Scot e dos nominais; algumas 
expem solues originais e prprias como, por exemplo, na questo da distino real entre a essncia e a existncia, em que se afasta dos tomistas. Na questo dos 
universais, no admite que a matria signata quantitate seja o princpio individualizante. O decisivo do indivduo  sua incomunicabilidade. Para a demonstrao 
da existncia de Deus, somente concede valor apodtico aos argumentos metafsicos. Afirma ainda a impossibilidade de ver e conhecer naturalmente a Deus, a no ser 
de forma indireta, refletido nas criaturas. -- Verdadeiramente notvel e original  sua doutrina poltica exposta em seu tratado De legibus (1612). A tese fundamental 
dessa obra apia-se em que, enquanto o poder eclesistico procede imediatamente de Deus, o poder temporal procede somente do povo. De fato, todos os homens nascem 
livres, e o corpo poltico resulta da livre reunio dos indivduos que, explcita ou tacitamente, reconhecem o dever de ocupar-se do

520 / Surez, Francisco

bem comum. Em conseqncia: a) nega a teoria do direito divino dos reis, usada pelos protestantes, segundo a qual o rei teria seu poder imediatamente de Deus; b) 
afirma que a soberania reside somente no povo, que  superior ao rei, em quem se confia e de quem pode ser tirada quando no a empregar politicamente, isto , no 
interesse comum, e sim com tirania. -- Surez pertence  chamada "escolstica tardia do sculo XVI", que teve em Salamanca, Alcal e Coimbra seus centros intelectuais 
de interesse. Quase todos esses escolsticos tinham uma formao adquirida em Paris e em Roma. Reafirmaram a tradio escolstica frente  crtica dos renascentistas; 
tornaram ao tomismo e s grandes obras sistemticas da Idade Mdia, no para repeti-las, e sim para coment-las e esclareclas. Abordaram-se tambm uma srie de 
problemas sociais e polticos que o Renascimento atualizou, como por exemplo o direito internacional, a condio dos ndios da Amrica etc. A obra de Surez insere-se 
nesse ambiente da Contra-Reforma e da escolstica renascentista. "Durante os sculos XVII e XVIII, as Disputationes de Surez -- observa J. Maras -- serviram de 
texto em inmeras universidades europias, inclusive protestantes; Descartes, Leibniz, *Grcio, os idealistas alemes a conheceram e utilizaram. Pode-se dizer que 
a Europa, durante dois sculos, aprendeu metafsica com Surez, embora tenha sido mais utilizada para fazer outra diferente do que para continu-la segundo sua inspirao. 
Atravs de Surez penetrou na filosofia moderna o mais fecundo do caudal da escolstica, que ficou assim incorporado a uma nova metafsica, feita sob outro ponto 
de vista e com mtodo diferente" (Historia de la filosofa, 5 ed., p. 200).
BIBLIOGRAFIA: Obras: Misterios de la vida de Cristo (BAC), 2 vols.; Disputaciones metafsicas. Edio bilnge, Gredos, 7 vols.; Tratado de las Leyes y del Dios 
legislador, 1918-1921, 11 vols. Edio crtica bilnge por Luciano Perea, 1972-1975, 5 vols.; R. de Scorraille, El Padre Francisco Surez, 1917, 2 vols.

Summas dos confessores / 521

Suidas de Constantinopla (sc. IX-X)
*Padres da Igreja.

Summa angelica (sc. XV)
*Summas dos confessores.

Summa antonina
*Antonino, Santo.

Summas dos confessores
Dentro das summas, produto das escolas e universidades da Idade Mdia, h um gnero conhecido como Summas dos confessores. Constituem o elo de ligao entre os livros 
Penitentiales e as Institutiones morales (moral casusta) dos sculos XVII-XVIII. Comearam a difundir-se no sculo XIII, desenvolveram-se no XIV, alcanaram seu 
apogeu no XV e acabaram no sc. XVI. A maior parte das summas segue uma ordem alfabtica; outras adotam uma forma sistemtica. Trata-se, simplesmente, de "pronturios" 
ou, se se preferir, "lxicos de teologia moral". Nelas pode-se encontrar, agrupado em torno de certos temas, tudo de que, para uma informao rpida, necessita um 
sacerdote ocupado com o ministrio: moral, direito, liturgia, pastoral sacramental etc. So um vademecum, no um manual de teologia moral, pois at ento no h 
nada ainda mais do que uma teologia indivisa, da qual a moral faz parte. Durante esse longo perodo existiram muitas summas: a de So Raimundo de Peafort e a de 
Joo de Friburgo no sculo XIII; a summa pisana e a summa astesana no sculo XIV; a summa de Santo Antonino, a Summa angelica, a summa batista no sculo XV; a summa 
silvestrina, a summa talnea e a summula de Cayetano no sculo XVI. Imitao ou continuao das summas dos confessores so os manuais para confesso-

522 / Summa contra gentes

res, que tm vigncia nos sculos XVI e XVII. Merece ser lembrado o de F. de Toledo, Instructio sacerdotum.
BIBLIOGRAFIA: B. Hring, A lei de Cristo, Herder 1960; M. Vidal, Moral de Atitudes, I, Ed. Santurio.

Summa contra gentes
*Toms de Aquino, Santo.

Summa iuris
*Raimundo de Peafort, So.

Summa theologica
*Toms de Aquino, Santo.

Suso, Enrique (1295-1366)
*Tauler; *Eckhart.

Syllabus (1864)
Um dos documentos doutrinais mais significativos do velho estilo dos papas anteriores  segunda metade do sculo XIX  o Syllabus.  fruto e resultado das lutas 
da Restaurao na Europa e da industrializao que seguiram s guerras napolenicas e  Revoluo Francesa. O socialismo, o liberalismo, o racionalismo haviam irrompido 
em cena, querendo afogar a f e a tradio da Igreja. Seguindo a linha da encclica Mirari vos de Gregrio XVI (1832), na qual se condenam o indiferentismo e a liberdade 
de conscincia, "essa fonte infecta do indiferentismo da qual nasce esse delrio de que se deve assegurar e garantir a cada um a liberdade de conscincia", Pio IX 
publica em 1864 dois documentos. Um, a encclica Quanta cura, na qual condenava o racionalismo, o liberalismo etc., tal como o haviam pedido alguns bispos "ultramontanos" 
franceses e outros inte-

Taiz / 523

lectuais, tais como L. Veuillot. Anexo a essa encclica estava um catlogo (Syllabus) de 80 proposies condenadas, no estilo das que seguem: -- A Igreja deve separar-se 
do Estado e o Estado da Igreja (55). --  lcito negar a obedincia aos prncipes legtimos e at rebelar-se contra eles (66). -- Em nossa sociedade no convm que 
a religio catlica seja a nica religio do Estado, com excluso de quaisquer outros cultos (77). -- O Romano Pontfice pode e deve reconciliar-se e consentir com 
o progresso, com o liberalismo e com a civilizao moderna (80). A ltima proposio, a 80, parece implicar o repdio a toda a sociedade moderna. Os catlicos intransigentes 
exultaram! Os anticlericais zombavam: o papa vai eliminar os trens em Roma. Os catlicos liberais sentiram-se desaprovados e cheios de surpresa. Hoje o julgaramos 
defasado e superado, mas  expresso de uma Igreja clerical, fechada sobre si mesma, que quer impor-se com o antema, afastada da realidade.
BIBLIOGRAFIA: R. Aubert, O pontificado de Pio IX, tomo 21 da Histria da Igreja de Fliche-Martin.

T
Taciano, o Srio (n. 120)
*Apologistas.

Taiz
*Schutz, Roger.

524 / Tauler, Joo

Tauler, Joo (1300-1361)
Discpulo de *Eckhart e dominicano como ele, Tauler ou Tauler representa o plo eminentemente moral diante do predomnio da especulao metafsica daquele e do elemento 
afetivo de Suso. No pensamento e doutrina de Tauler  fcil encontrar elementos platnicos e neoplatnicos, sem esquecer outros procedentes de Santo *Alberto Magno 
e de Santo *Toms. Tauler  um pregador e um mstico interessado mais pela mstica do que pela filosofia e pela razo. Nascido em Estrasburgo, ingressou no convento 
dominicano dessa cidade e depois foi para o Studium generale de Colnia, onde realizou seus estudos. Foi a que encontrou provavelmente o mestre Eckhart. Quase toda 
a sua vida transcorreu em Estrasburgo, onde se dedicou ao ensino e, em especial,  pregao. No escreveu nenhuma obra. De seus famosos sermes, que vrios ouvintes 
colocaram por escrito, somente 81 so considerados autnticos. Consideram-se apcrifos os tratados que lhe foram atribudos, como As instituies divinas; Medulla 
animae; As 10 cegueiras espirituais etc. Sobre o plano da doutrina eckhartiana da unio da alma com o uno, Tauler constri sua doutrina da "essncia da alma", a 
qual tambm chama, "unio ntima da alma" e "reduto inominvel", como  o prprio Deus. Nessa essncia, para alm da prpria essncia da alma, reinam um silncio 
e um repouso perptuos, sem imagens, sem conhecimentos, sem ao, em pura receptividade em relao com a luz divina. Tal  a concepo mstica de Tauler, baseada 
na possibilidade de retorno de uma alma criada por Deus  sua idia incriada em Deus. -- No pensamento de Tauler ocupa um lugar central a teoria do Gemt ou disposio 
estvel da alma, que condiciona a atuao de todas as suas faculdades.  o corao ou a tendncia original do homem enquanto filho de Deus, sua aspirao absoluta 
ao bem absoluto.  como uma

Tauler, Joo / 525

agulha magntica que se volta, infalivelmente, para o norte. O homem pode desvi-la, mas jamais mudar sua tendncia original. Est presente em todo homem e no se 
extingue em nenhum ser humano, nem sequer nos condenados. -- Sendo o Gemt a atitude estvel e permanente da alma com sua prpria essncia, deve transformar-se de 
impulso vago em conscincia luminosa do fim, libertando-se de pensamentos, desejos e afetos at conseguir o pleno desprendimento de tudo. Esse impulso, tendncia, 
corao, m que  o Gemt deve tornar-se liberdade absoluta, desprendimento, respeito pelas criaturas, para transformar-se em liberdade absoluta no caminho que 
leva a Deus. -- O processo de retorno a Deus acontece em trs etapas: o amor doce, o amor sbio e o amor forte. Nesse caminho, a alma despoja-se de sua condio 
de criatura e identifica-se na "essncia" com o prprio Deus. "Perde-se em Deus e mergulha no mar sem fundo da divindade". A alma pode, ento, entregar-se completa 
e confiadamente a Deus. Isso no quer dizer que Tauler afirme, como se disse, que a alma se torne divina, idia na qual tanto insistiu seu mestre Eckhart. A influncia 
de Tauler  notvel na histria da espiritualidade crist e particularmente notvel  a que exerceu sobre Lutero. Este sentia uma profunda estima por Tauler, cujas 
obras utilizava com freqencia, anotando-as pessoalmente. "Dele tomou uma espiritualidade profunda, uma imensa confiana na misericrdia divina, a convico da prpria 
incapacidade e o desprezo pelas prprias aes. Mas Lutero acabou por interpretar  sua maneira alguns textos de Tauler, que em seu contexto original tinham um significado 
muito diverso" (G. Martina, La Iglesia. De Lutero a nuestros das, 96).
BIBLIOGRAFIA: B. Jimnez Duque-L. Sala Balust, Historia de la espiritualidad. Barcelona 1969, 4 vols; A. Royo Marn, Los grandes maestros de la vida espiritual (BAC), 
1973. Obras: Instituciones. Temas de oracin. Sgueme, Salamanca.

526 / Teilhard de Chardin, Pierre

Teilhard de Chardin, Pierre (1881-1955)
Cientista e pensador francs. Ingressou na Companhia de Jesus em 1898 e dedicou-se exclusivamente ao estudo e  pesquisa cientfica (Geologia). De 1922-1925 ensinou 
geologia no Instituto Catlico de Paris. Em 1926 foi  China para tomar parte nas pesquisas que conduziram ao descobrimento do sinantropo. Participou posteriormente 
de diferentes expedies cientficas  frica. Da cincia passou ao campo da filosofia e da teologia, oferecendo em sua obra os resultados de pesquisas cientficas 
e de intuies do entendimento e do corao. Tudo para superar "concepes do mundo medievais e escolsticas" e oferecer uma concepo mais de acordo com a mentalidade 
contempornea. T. de Chardin deixou uma extensa obra, rpida e amplamente difundida e que foi objeto de apaixonantes controvrsias. Os mais conhecidos dentre seus 
livros so: O meio divino (1926-1927); O fenmeno humano (1938-1940); O grupo zoolgico humano (1949). Deve-se acrescentar a es-

Teilhard de Chardin, Pierre / 527

sas trs obras fundamentais, outros estudos que aparecem nas Obras completas preparadas por C. Cunot, por exemplo O aparecimento do homem (1956); A energia humana 
(1962); A ativao da energia (1963); Cincia e Cristo (1965) etc. E as numerosas cartas, nas quais presta contas de suas pesquisas cientficas. Pode-se resumir 
a doutrina fundamental de Teilhard de Chardin nestes pontos: 1) Sua intuio, convencido como estava da evoluo, estendeu o funcionamento a todos os setores do 
ser, desde a matria originria da vida, ao homem,  histria,  religio e ao cristianismo "evolucionismo integral". 2) Mediante um processo de concentrao de 
uma matria originria, o "material do universo, de uma simplicidade indefinvel e de natureza luminosa", que continha de uma maneira latente, mas muito real, enormes 
energias fsicas e espirituais -- a "conscincia" --, formaram-se faz muitos milhes de anos, primeiramente os astros, logo nosso sistema solar e, dentro dele, a 
Terra. 3) O processo de evoluo seguido pelo universo vai sempre em direo a nveis mais altos de complexidade. Esses nveis so qualificados de hilosfera, biosfera 
e noosfera, segundo a ordem evolutiva e de apario da matria, da vida e da conscincia. Mas dentro da ltima -- a conscincia -- segue o processo de evoluo para 
formas as mais complexas desta. A apario do homem pressupe um passo importante, mas no ltimo ou definitivo, nesta evoluo, j que o homem faz parte e dirige 
essa mesma evoluo. 4) Avanando sempre para formas de maior socializao, o homem se faz consciente de que cada vez  mais pessoa e marcha para a constituio 
de uma humanidade superior ou super-humanidade: "A Terra ficar coberta por uma s membrana organizada... e se produzir a planetizao humana". Produzir-se- uma 
unidade "biolgica" e "crstica", formada por pessoas movidas pelo altrusmo mais generoso e pela graa sobrenatural prpria do cristianismo. 5) Tudo, pois, segundo 
Teilhard de Chardin, concorre para a realizao de um "ponto mega" para o qual o

528 / Teilhard de Chardin, Pierre

homem  impulsionado pelo amor e pela graa. Nesse "ponto mega", o homem reconhecer a "Deus criador", a quem se dirige com atos internos e externos de religio. 
Esse ponto mega, que a humanidade deve realizar, consiste na incorporao da mesma ao Cristo da histria e da Revelao pelos sculos dos sculos. Assim entra o 
homem na "cristosfera", com o que se cumprir a misso que tem Cristo "de agregar a si o psiquismo total da terra" (O fenmeno humano). No h dvida de que  grandiosa 
e fascinante a viso multiforme do cosmos, da histria e do cristianismo que Teilhard de Chardin exps de forma apaixonada; por isso o entusiasmo de uns e a reserva 
de outros. O conjunto de sua obra  uma mescla de cincia, poesia e f religiosa que comumente impressiona quem no  capaz de, ou no deseja, respeitar os ideais 
de preciso do pensamento e de clareza da linguagem. A viso teilhardiana do mundo parece, no melhor dos casos, elevada e esperanosamente potica e, no pior, um 
enorme engano que pretende introduzir, sob pretexto de cincia, uma maneira de ver as coisas que, na realidade, no tem nada de cientfica" (F. Copleston, Historia 
de la filosofa, 9, 313). "No entanto, continua Copleston, como expresso da mentalidade de um homem que era, ao mesmo tempo, um cientfico e um cristo convicto 
e que tratava no s de conciliar mas, principalmente, de integrar o que ele mesmo considerava uma viso cientfica do mundo com uma f cristocntrica, a verso 
teilhardiana da realidade tem inquestionvel importncia e  de uma grandeza que tende a fazer que, em comparao, resultem pedantes ou irrelevantes as objees. 
Pode-se afirmar que foi um visionrio ou um adivinho que apresentou em amplos e s vezes imprecisos e ambguos desenhos um programa proftico, um programa que outros 
esto convidados a estudar em detalhe, a esclarec-lo, a dar-lhe maior rigor e preciso e a defend-lo com slidos argumentos" (Copleston, o.c.).

Teologia atual, Panorama da / 529 BIBLIOGRAFIA: Oeuvres, 9 vols., 1955-1965; O fenmeno humano; O aparecimento do homem; A viso do passado; O meio divino; C. Tresmontant, 
Introduccin al pensamiento de Teilhard de Chardin, 1958; Henri de Lubac, La pense religieuse de T. de Ch., 1962.

Teodoro, Monge (+368)
*Monaquismo.

Teodoro de Mopsustia (+428)
*Escolas teolgicas, Primeiras.

Teodoro, So (759-826)
*Hesiquia.

Teodoto (sc. II)
*Gnsticos.

Teologia atual, Panorama da (homens e obras)
Aos homens j registrados dentro do pensamento catlico atual -- telogos, filsofos, literatos, socilogos etc. -- acrescentamos um marco histrico de referncia 
sobre cujo fundo possam ser melhor interpretados. Resumidamente, apresentamos o panorama atual da teologia desde o sculo XIX at nossos dias. O sc. XIX passou 
 histria da teologia catlica como o "sculo da apologtica". A maioria das obras importantes da poca apresentam-se como defensoras do cristianismo e da f. Ao 
mesmo tempo, revelam a situao da teologia tradicional, combatida em diferentes frentes, especialmente pela filosofia, histria, cincia e inclusive pela moral. 
Tratava-se de uma confrontao, polmica e em todos os nveis, do catolicismo imperante ainda no Ocidente com o esprito e conquistas da modernidade. Por sua seriedade,

530 / Teologia atual, Panorama da

merece citar-se a obra de autores como Hermes e Moehler na Alemanha, Laforet e Dechamps na Frana, Taparelli e Liberatore na Itlia, Balmes e Ceferino Gonzlez na 
Espanha e *Newman na Inglaterra. Junto deles, muitos outros no campo da pesquisa cientfica e histrica. Foi *Leo XIII quem iniciou a grande decolada da renovao 
eclesistica produzida ao longo do sculo XX. Sua encclica Aeterni Patris marcou um hiato decisivo no desenvolvimento da pesquisa teolgica. O mesmo podemos dizer 
da Providentissimus Deus sobre os estudos bblicos. O sc. XX desperta com ares de renovao, que se iro plasmando ao longo do sculo. 1. O primeiro problema que 
teve de enfrentar a teologia do sc. XX foi o modernismo. Questes como a formao do cristianismo, a natureza dos escritos bblicos, a historicidade das doutrinas 
e os prprios conceitos de inspirao, inerrncia e inclusive revelao comeam a ser considerados desde outras perspectivas. Entre os promotores das novas correntes, 
destacaram-se: A. *Loisy (1857-1940) na Frana, E. Buonaiutti (1881-1946) na Itlia e G. Tyrrell (1861-1909) na Inglaterra. As taxativas condenaes de Pio X no 
decreto Lamentabili e na encclica Pascendi colocaram um freio e um parntese no desenvolvimento teolgico do catolicismo. 2. O ressurgir dos estudos teolgicos 
promovidos por Leo XIII materializou-se em diversas formas. Retrospectivamente pode-se afirmar que a maior influncia nos rumos da teologia posterior correspondeu 
aos avanos na pesquisa histrico-crtica e na exegese bblica. Ao contrrio, a principal conquista em sua poca foi o auge que experimentou a teologia escolstica, 
e especialmente o tomismo, conhecido mais comumente por neo-escolstica e neotomismo. a) Neo-escolstica e neotomismo. Sem entrar no que diferencia essas duas correntes 
de filosofia e de teologia catlicas,  evidente o auge delas nos centros e nas universidades catlicas desde princpios do sc. XX at a 2 Guerra Mun-

Teologia atual, Panorama da / 531

dial. Os centros mais importantes dessas correntes so a Universidade Catlica de Lovaina e as Universidades Pontifcias Romanas Gregoriana e Angelicum. A esses 
centros de pensamento deve-se acrescentar o Studium Generale dos dominicanos de Le Saulchoir (Frana) e dos jesutas de Fourvier (Frana). Dessa corrente citamos 
o jesuta L. *Billot (1846-1931), cuja interpretao do tomismo criou escola; o cardeal D. Mercier (1851-1926), o grande restaurador da *neo-escolstica com sede 
em Lovaina. Sem esquecer a equipe de telogos dominicanos: A. Gardeil, A-D. Sertillanges, G. Thery, R. Vaux, M. D. Roland-Gosslin, R. *Garrigou-Lagrange, Dubarle, 
Y. M. *Congar, M. *Chenu e outros. A esse grupo de dominicanos uniram-se outros jesutas como Pesch, Lerger, H. de *Lubac, J. *Danilou, junto aos mais recentes 
da "teologia querigmtica" e da "teologia nova", de que falaremos depois. Um papel de primeira ordem na sobrevivncia da escolstica e do tomismo foi o das revistas 
especializadas. Merecem ser citadas a "Revue Thomiste", a "Revue des Sciences Philosophiques et Thologiques" (1907), a "Gregorianum" (1920) e outras. b) Estudos 
histricos. O surgimento de estudos histrico-crticos que beiram os primeiros decnios do sculo XX contribuiu de modo mais eficaz para prestigiar a teologia catlica. 
O contato com as fontes patrsticas, o melhor conhecimento do marco histrico em que surgiram e se desenvolveram as diferentes doutrinas, a crtica textual e a depurao 
dos testemunhos tradicionais foram as principais conquistas da pesquisa catlica. Fruto desse trabalho  a apario da "Revue d'Histoire Ecclsiastique" (1900). 
Em 1903 iniciou-se o Dictionnaire de Thologie Catholique, ao que segue poucos anos depois o Dictionnaire d'Archologie Chrtienne et de Liturgie e o Dictionnaire 
d'Histoire et de Gographie Ecclsiastique. Seguindo a tradio iniciada por *Migne nos meados do sculo pas-

532 / Teologia atual, Panorama da

sado, com a publicao da Patrologia Graeca e Latina (PG, PL), aparecem agora o Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, os Texts et documents pour l'tude historique 
du christianisme e a Bibliothque de Thologie Historique, alm de outras colees de documentos e textos caros ao grande pblico. Dentro destes estudos de histria 
merece uma ateno especial o trabalho dedicado aos estudos patrsticos e  Idade Mdia, suas fontes e suas doutrinas. Por trs de cada uma destas tarefas h nomes 
importantes que no se devem esquecer, como B. Altaner (1858-1958), A. d'Als (18511938), F. Ehrle (1934), M. *Grabmann (18751949), H. de *Lubac (1896-1991), J. 
Lebreton (1873-1956), E. *Gilson (1884-1965) e outros. c) Mais espinhoso e delicado foi o trabalho realizado no campo da exegese bblica. Os problemas exegticos, 
textuais, histricos e literrios da Bblia se haviam tornado iniludveis devido aos progressos da pesquisa e das cincias naturais, aos avanos da crtica textual 
e filolgica, aos surpreendentes encontros arqueolgicos no Oriente e  necessidade de responder criticamente s tendncias liberais da exegese protestante. Tudo 
isso abrira interrogaes em torno da historicidade dos primeiros captulos do Gnesis, da autenticidade mosaica do Pentateuco e da prpria exatido neotestamentria 
sobre a figura de Jesus. E de quebra, afetava tambm as doutrinas arraigadas na teologia catlica. A renovao dos estudos bblicos dentro da Igreja Catlica est 
vinculada ao Papa Leo XIII, que props as pautas da renovao em sua encclica Providentissimus Deus. Mas a figura que dominou a exegese catlica de todo esse perodo 
 a do dominicano francs M. J. *Lagrange (18551938), fundador em 1890 da Escola Bblica de Jerusalm, que dirigiu at sua morte, e fundador igualmente da "Revue 
Biblique". Lagrange deixou uma obra ampla e variada, acusada na poca de conivncias modernistas, mas que chega at nossos dias com os trabalhos da equipe de pro-

Teologia atual, Panorama da / 533

fessores e de pesquisadores da Escola de Jerusalm. Os estudos bblicos continuaram renovandose com instituies to prestigiosas quanto o Instituto Bblico de Roma, 
com biblistas to responsveis como A. Wikenhauser, R. Schnackenburg, L. Cerfaux, P. Benoit, F. M. Braun, A. Bea, C. Spicq, H. Schlier, E. Peterson. E ultimamente, 
at nossos dias, com os novos nomes de N. Lohfink, X. Len-Dufour, J. Mateos e L. A. Schkel. 3. Nos anos anteriores  2 Guerra Mundial houve diversas tentativas 
de renovao teolgica, que se ligaro, anos mais tarde, com o Conclio *Vaticano II. Referimo-nos de forma especial  chamada "teologia querigmtica" e  "teologia 
nova". Desde a faculdade teolgica de Innsbruck (Alemanha), um grupo de jesutas, entre os quais se destacaram J. A. Jungmann, F. Lakner, H. Rahner, J. B. Lotz e 
outros, constataram com crescente desgosto que a teologia j no preparava para a pregao. Surgiu a chamada "teologia querigmtica", preparada pelo aspecto salvfico 
e direto para a vida. Esse movimento querigmtico cristalizou-se em obras como a Dogmtica de M. Schmaus, e a Initiation thologique dos dominicanos de Le Saulchoir. 
Nos mesmos anos surgiu na Frana um movimento paralelo de renovao da teologia, que recebe o nome de "teologia nova" (1942). A partir desta data at os anos 50, 
fala-se de "erros que ameaam arruinar os fundamentos da f". No centro das polmicas em torno da "teologia nova" encontravam-se homens que depois haveriam de ter 
uma parte muito importante e decisiva nos documentos do *Vaticano II. Citamos os nomes de H. Bouillard, D. M. *Chenu, Y. de Montcheuil, H. de Lubac, Y. M. Congar 
e J. Danilou. A nova tecnologia vem caracterizada por trs pontos: a) Um modo de fazer teologia menos especulativo e mais histrico. Percorre-se toda a histria 
da Igreja e da teologia, especialmente a patrstica e medieval, com a tentativa de chegar at as ori-

534 / Teologia da libertao

gens evanglicas. b) A Igreja  o ponto de estudo preferido: rev-se o prprio conceito de Igreja, sua natureza e funo. Descobre-se o aspecto de Igreja como "Corpo 
Mstico", "Povo de Deus" (*Congar; *Lubac). c) Preocupao pela abertura da Igreja ao mundo e por questes em torno da vida de f numa sociedade descristianizada 
(K. *Rahner). 4. Os anos que precederam o Conclio Vaticano II esto marcados por uma consolidao das correntes renovadoras anteriores e pela apario de novos 
ncleos de reflexo teolgica. O clima teolgico foi dominado pelo desejo de uma compreenso crist do mundo. Apareceram diversas tentativas de teologia das "realidades 
terrestres", e a expresso "sinais dos tempos" comea a participar da linguagem teolgica. A teologia catlica abre-se ao dilogo com o atesmo e acentuase a influncia 
dos pensadores protestantes (*Bultmann, *Tillich, *Bonhoeffer) de modo surpreendente. A teologia dogmtica, com razes mais bblicas e pastorais, conheceu uma florao 
de autores que tiveram um papel decisivo na preparao do Conclio e nas discusses posteriores at nossos dias. Alm dos j mencionados, como K. Rahner,  justo 
mencionar aqui E. *Schillebeeckx, P. Schoonenberg, J. Ratzinger, J. Alfaro, H. U. von Balthasar, sem esquecer homens que se incorporam desde a histria e a crtica 
teolgica como H. *Kng, desde a teologia moral como *Hring, a teologia poltica como J. B. *Metz ou desde a Teologia da Libertao.
BIBLIOGRAFIA: Y. Congar, Situao e tarefas da teologia hoje; H. Vorgrimler-H. Van der Gucht, La teologa en el siglo XX. Ed. Catlica, Madrid 1973, 3 vols.; R. 
Winling, La teologa del siglo XX. La teologa contempornea. Sgueme, Salamanca 1987; J. L. Segundo, Teologa abierta. Cristiandad, Madrid 1983-1984, 3 vols.

Teologia da libertao
*Libertao, Telogos da.

Teresa de Jesus, Santa / 535

Teologia nova (1948)
*Teologia atual, Panorama da; Libertao, Telogos da.

Teologia querigmtica
*Teologia atual, Panorama da.

Teresa de Jesus, Santa (1515-1582)
Teresa de Cepeda e Ahumada nasceu em vila e morreu em Alba de Torres. Aos 18 anos ingressou no Carmelo da Encarnao de vila (1533) e depois de 30 anos de vida 
religiosa sentiu-se chamada para fundar um mosteiro onde se vivesse sem mitigaes, em plena pobreza e austeridade, a regra que Inocncio IV aprovara para os carmelitas 
no sc. XIII. Com a ajuda inicial do provincial dos carmelitas, e aps superar as dificuldades colocadas por outras freiras e pelas mesmas autoridades da cidade, 
fundou, no ano 1563, e na mesma vila, o primeiro mosteiro da Reforma. Ganhou *So Joo da Cruz para a sua causa e abriu em 1568 o primeiro convento de carmelitas 
descalos. Vieram depois outras funes femininas em Castilla e em Andaluzia, principalmente, at dzia e meia, como o conta a prpria Teresa com grande vivacidade 
e finura psicolgica no Livro das fundaes. Suas viagens e peregrinaes mostram-nos que, em 1582, ano de sua morte, esteve em vila, em Medina, em Valladolid, 
em Palncia, em Burgos, para chegar fatigadssima a Alba de Torres em 20 de setembro. Ainda com incrveis esforos, foi no dia seguinte  capela para comungar. Morreu 
em 4 de outubro de 1582. Foi declarada doutora da Igreja Universal em 1970. -- Com Teresa de Jesus nasceu um dos movimentos de espiritualidade mais vivos da Igreja 
da Contra-Reforma: a escola mstica de Teresa de vila e de Joo da Cruz, e um florescente movimento teolgico que, partindo de Salamanca, exer-

536 / Teresa de Jesus, Santa

ceu em toda a Europa uma considervel influncia. O programa teresiano no consistia tanto numa reforma no sentido de reao contra os abusos que se introduziram 
lentamente, quanto na afirmao de um ideal de vida religiosa eremticocontemplativa, em grande medida original e em franco contraste com as tendncias em vigor 
entre os calados. -- Mais interessante e mais original do que a reforma  sua prpria vida e experincia religiosa tal como nos ficou nas passagens contadas pelas 
pessoas que a conheceram, nas muitas cartas que escreveu e em suas obras asctico-msticas. Leitora assdua e cheia de curiosidade por saber e entender a teologia, 
Teresa  uma "grande divulgadora de conceitos sagrados". Mulher de inteligncia sumamente desperta e vivssima sensibilidade, descobriu por si mesma o mundo da cultura, 
afirmando que "grande coisa  o saber e a literatura para todos". Afirma que a inteligncia humana sem leituras e meditaes fica estril, e intui que o mais importante 
na vida  o amor de Deus, porque "a questo no est em pensar muito, mas em amar muito". -- Dessa inteligncia e sensibilidade nasceu uma devoo popular, humilde, 
afetiva, que recorreu a comparaes correntes como a do jogo de xadrez, a dama, as propriedades da gua, a cozinha etc. E da nasceu tambm seu estilo inconfundvel, 
que Frei Lus de Len louvou pela delicadeza e claridade com que trata das coisas sublimes, pela sua maneira de se exprimir, pela pureza e facilidade do seu estilo, 
pela graa e pelo bom uso das palavras e por uma elegncia desataviada, que agrada ao extremo. -- O mais interessante, no entanto, e o mais original  que toda a 
obra da santa  uma autobiografia do reino interior, ou a particularidade de sua vida de fundadora. Interessa-lhe falar de suas prprias experincias, dos favores 
divinos que alcanou. Nessa "intimidade surpreendente", que captou Amrico Castro, aparecem paisagens interiores antes inexploradas. Neste sentido, colo-

Teresa de Jesus, Santa / 537

ca-se a obra de Teresa  frente de toda a literatura psicolgica, especialmente autobiogrfica, dos sculos posteriores. A relao com as Confisses de Santo *Agostinho 
 evidente, e tambm a identificao com seu sistema, com seu descobrimento da alma. -- Na obra escrita de Santa Teresa distinguemse trs tipos: a) a correspondncia 
epistolar ou cartas; b) os livros de circunstncias; c) os autobiogrficos e doutrinais. a) As cartas, que representam a forma mais prxima da conversao, tm um 
valor filolgico, histrico, na vida e nas obras da santa. Representam estados vivos da alma, instantes ricos em fora e oportunidade. b) Entre os livros de circunstncias 
devemos incluir: Livro das fundaes; Livro das relaes; Livro das constituies etc. Embora dedicados  narrao dos fatos externos da ordem, encontramos detalhes 
interessantes da psicologia e da espiritualidade da santa. c) A parte mais densa e interessante  o autobiogrfica e doutrinal. Encontramos o Livro da vida; O caminho 
de perfeio; As Moradas e os Conceitos. -- O Livro da vida  uma obra-mestra de confisso ntima e de autobiografia. O interesse literrio est na forma to bela 
em que se alternam os fatos com os favores sobrenaturais e com as concluses tericas de mstica. O interesse religioso apia-se no desvelamento gradual da alma 
em sua experincia religiosa crist. A mstica aparece viva na pessoa de Teresa. -- As Moradas ou Castelo interior  o livro doutrinal mais importante da santa. 
"Para analisar a alma na experincia mstica, baseia-se na metfora de um castelo todo de diamante e muito claro cristal, onde h muitos aposentos, assim como no 
cu h muitas moradas." Essas sete moradas correspondem a diversos estados de perfeio: formam os diversos graus da vida de purificao, de iluminao e, por ltimo, 
de unidade.

538 / Teresa do Menino Jesus, Santa

Nas ltimas moradas realiza-se "o divino e espiritual matrimnio". De tal forma faz-se uma com Deus, que se pode dizer que "esta borboleta j morreu, com grande 
alegria de ter encontrado repouso, e que nela vive Cristo". -- Os Conceitos do amor de Deus so o complemento de As Moradas. De sua poesia, a crtica nos diz que 
possua o mais alto grau de criao potica, mas no dominava a forma adequada. Conseguiu, no entanto, belas criaes como: "Que meus olhos te vejam, doce Jesus 
bom"; "Vivo sem viver em mim" etc. Para terminar, recolhemos o testemunho de Frei Lus de Leo: "Conheci e vi a Madre Teresa de Jesus enquanto esteve na terra, mas, 
agora que vive no cu, conheo-a e vejo-a quase sempre em duas imagens vivas que nos deixou de si, que so suas filhas e seus livros".
BIBLIOGRAFIA: Obras completas de Santa Teresa de Jess (BAC), 3 vols., Id., Obras completas de Santa Teresa de Jess (BAC), 1 vol.; Efrn de la Madre de Dios e Otger 
Steggink, Tiempo y vida de Santa Teresa (BAC), Madrid 1968, com a bibliografia a publicada.

Teresa do Menino Jesus, Santa (1873-1897)
*Literatura autobiogrfica.

Tertuliano (160-225)
Quinto Septimio Florencio Tertuliano nasceu em Cartago, de pais pagos. Teve uma educao esmerada e, provavelmente, exerceu a profisso de advogado em Roma. Sua 
converso ao cristianismo deu-se entre 193-197, recebendo a seguir a ordenao sacerdotal. A partir da desenvolveu uma intensa atividade polmica em favor de sua 
nova f. No meio de sua vida, passou  seita dos montanistas e comeou a polemizar contra a Igreja Catlica com uma violncia no menor  utilizada anteriormente 
contra os hereges. Seu carter polmico levou-o a fundar sua prpria seita, os

Tertuliano / 539

"tertulianistas". Morreu muito velho, sem que se possa determinar uma data. A atividade literria de Tertuliano  muito ampla e de carter exclusivamente polmico. 
Costumam-se distinguir trs grupos de obras: a) apologticas, em defesa do cristianismo; b) dogmticas, em refutao das heresias; c) prtico-ascticas, sobre questes 
de moral prtica e de disciplina eclesistica. Ao primeiro grupo pertence seu livro mais conhecido, Apologticas, dirigido no ano de 197 aos governadores das provncias 
do Imprio.  importante tambm neste grupo seu De testimonio animae, destinado a fundamentar a f no testemunho da alma "naturaliter christiana". Entre as obras 
dogmticas est De praescriptione haereticorum, filosoficamente um dos mais significativos. Adversus Marcionem, Adversus Hermogenem e Adversus Valentinianos dirigiram-se 
contra os *gnsticos. Dentro deste mesmo carter dogmtico, encontramos De baptismo, que declara invlido o batismo dos hereges; De carne Christi, afirmando a realidade 
do Corpo de Cristo, e De resurrectione, em defesa da ressurreio da carne. Seu tratado De anima  o primeiro escrito de psicologia crist. Entre os tratados prtico-ascticos 
esto: De patientia; De oratione; De paenitentia; De pudicitia; De exhortatione castitatis; De monogamia; De spectaculis; De idololatria; De corona; De cultu feminarum 
etc. Como se pode ver, uma srie de obras destinadas a dirigir e a educar os cristos do Imprio em temas de carter prtico. O trao caracterstico de Tertuliano 
 a inquietude. "Pobre de mim que ardo sempre na febre da impacincia." No era para ele o trabalho paciente e rigoroso da pesquisa diante da f. Tinha, no entanto, 
uma habilidade polmica excepcional e uma fluente oratria pouco comum. Toma as posies mais simples e extremistas, indiferente diante de toda crtica e de toda 
exigncia de mtodo.

540 / Tertuliano

Sua doutrina ou sua atitude doutrinal pode resumir-se nestes pontos: -- O ponto de partida de Tertuliano  a condenao da filosofia. Da filosofia nascem somente 
as heresias. "No h nada comum entre o filsofo e Cristo, entre o discpulo da Grcia e o dos cus" (Apol., 46). -- A verdade do cristianismo tem seu nico fundamento 
na tradio. Somente a Igreja tem o direito de interpretar as Sagradas Escrituras. -- Junto  tradio, o testemunho da alma, como testemunho da linguagem ou do 
sentido comum, testemunha a favor da f. Mas a alma no  para ele o princpio da interioridade, o canto ntimo onde ressoa do alto a voz da verdade divina.  a 
voz do sentido comum, a crena que manifesta o homem da rua na linguagem ordinria. Toma dos esticos a corporeidade dos seres. No h nada incorpreo; apenas o 
que no existe. A alma  tambm corpo. No h mais diferena seno a que existe entre um corpo e outro. Deus  um corpo sui generis; tambm se transmite a alma de 
pai para filho junto com o corpo, atravs da gerao (traducianismo). -- Afirma a imortalidade da alma e a ressurreio da carne. O testemunho do sentido comum  
a prova da imortalidade da alma. E a Ressurreio de Cristo  a garantia da ressurreio do homem. Sua atitude mental -- "credo quia absurdum", expresso que no 
se encontra em seus escritos -- deve ser entendida como "que a f  mais certa quanto mais repugna aos valores naturais do homem:  acreditvel que o Filho de Deus 
morresse, ressuscitasse, porque  inconcebvel. Por tudo o mais e por seus erros, Tertuliano continua sendo o principal apologeta, que escreveu num latim perfeito, 
que constri frases lapidares, que forja uma terminologia que servir para construir a teologia posterior. Seu rigorismo e sua heresia no o impediram de ser reconhecido 
como um dos grandes defensores do cristianismo.

Tillich, Paul Johannes / 541 BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 1 e 2; Pellicer de Ossau Sales e Tobar, Obras de Quinto Septimio Florente Tertuliano. Barcelona 1639; G. Prado, 
El Apologtico de Tertuliano (Coleo Excelsa, 7). Madrid 1943; Padres apologetas griegos. Edio bilnge (BAC); J. Quasten, Patrologa, I, 530s.

Tillich, Paul Johannes (1866-1965)
Telogo alemo, nacionalizado americano. Em 1929 sucedeu Max Scheler na ctedra de filosofia e psicologia de Frankfurt. Em 1933 foi para a Amrica, onde ensinou 
teologia filosfica na Union Theological Seminary de Nova York at 1955. Harvard e Chicago ocuparam os ltimos anos de sua docncia como telogo protestante. Tillich 
deixou uma densa obra e numerosos discpulos, que seguiram e aplicaram sua doutrina. Seu pensamento aparece como uma ponte entre o sagrado e o profano. No confunde 
as duas esferas, mas tende a explicitar o sentido religioso, implcito nas profundezas do ser, de todo ser. A tentativa apia-se nestes conceitos-base: o limite, 
a ruptura, a correlao e o abismo.  um pensamento no limite, porque  onde se definem as coisas. O ser no limite significa no um ser esttico, mas uma posio 
de ruptura entre o ser e o no-ser. A ruptura segue a correlao, categoria bsica de Tillich, resposta aos problemas do homem e da histria. E finalmente o abismo, 
que permite a Tillich superar a oposio da moderna teologia protestante entre o Deus da razo e o Deus da f. No abismo de todo ser renem-se e harmonizam-se unitariamente 
o ser em si e o Uno-Trino da Bblia. Sobre essa base filosfica de fundo hegeliano, Tillich constri sua teologia, que pode ser resumida nestes pontos: -- Insistncia 
em que a Bblia no  a nica fonte da teologia. Esta deve ser predominantemente apologtica e querigmtica, isto , deve interessar-se pelas diferentes formas de 
cultura e ser uma tarefa essencialmente racional para chegar  compreenso do especificamente cristo. Em sua

542 / Tillich, Paul Johannes

Teologia sistemtica (3 vols., 1951-1957), Deus  apresentado como "aquele que nos concerne, em ltima instncia" ou "a essncia de nosso ser". Deus no  um ser, 
mas o prprio ser. A linguagem da teologia e da religio  essencialmente simblica. A nica exceo  Deus que, como vimos, define como o mesmo ser. "O homem desta 
infinita e incansvel profundidade de todo ser  Deus." "Talvez se esquea tudo o que se aprendeu sobre Deus, inclusive a prpria palavra, para desta maneira saber 
que conhecendo que Deus  o profundo, conhecemos muito sobre ele. Neste sentido, ningum pode chamar-se ateu ou nocrente. Somente  ateu quem seriamente afirma 
que a vida  superficial." -- Com relao ao fato cristo, afirma que Cristo, "enquanto smbolo da participao de Deus nas situaes humanas",  a resposta necessria 
para a situao existencial do homem pecador. Com ele mudou-se a existncia, pois revelou-nos um Deus libertador. Para Tillich, o Novo Testamento somente se refere 
 histria de Jesus para elev-lo a valor simblico universal, cujos momentos decisivos so a cruz, smbolo do encadeamento do homem ao finito e negativo da existncia, 
e a ressurreio, smbolo da vitria. -- Fiel a seu mtodo da "correlao", Tillich insinua e demonstra, em termos arduamente exeqveis, que no existe contradio 
entre o natural e o sobrenatural e que, portanto, o Deus da razo e o Deus da f e a revelao so dois aspectos de uma mesma realidade. Corrige assim o sobrenaturalismo 
de *Barth, demasiado preocupado em identificar a mensagem imutvel do Evangelho com a Bblia ou com a ortodoxia tradicional. Sua teologia apologtica destina-se 
a responder aos problemas da situao de hoje. "Deve-se lanar a mensagem como se lana uma pedra sobre a situao de hoje." A situao  o que se deve levar a srio. 
A influncia de Tillich cresceu ainda mais depois de sua morte. Seu pensamento com relao ao conceito de Deus foi seguido e popularizado

Toms de Aquino, Santo / 543

por John Robinson, autor de Honest to God (1963). Mais recentemente, Don Guppitt iniciou um duro ataque  doutrina tradicional crist sobre Deus em sua obra Tomando 
o lugar de Deus (1980), na qual advoga por um conceito cristobudista de Deus similar ao de Tillich.
BIBLIOGRAFIA: Teologia sistemtica; John Macquarrie, El pensamiento religioso en el siglo XX. Herder, Barcelona 1975.

Tillmann, F. (+1953)
*Vaticano II; *Instituies morais.

Tischendorf, C. (1815-1874)
*Codex sinaticus.

Toms de Aquino, Santo (1224-1274)
Conhecido com diferentes nomes, como "Doctor Angellicus", "Doctor Communis", "Divus Thomas", "Anjo das escolas" e outros. Encontramo-nos diante de uma figura excepcional, 
tanto por seu pensamento e por sua obra, quanto por sua influncia na vida e no pensamento da Igreja posterior. Toms, da famlia dos condes de Aquino, nasceu no 
castelo de Rocaseca (Aquino-Npoles). Realizou seus primeiros estudos na abadia beneditina de Monte Cassino. Iniciou os estudos superiores na Universidade de Npoles, 
ingressando em 1243 nos dominicanos dessa mesma cidade. De 1245 a 1248 estudou em Paris sob o magistrio de Santo *Alberto Magno, a quem seguiu at Colnia, onde 
permaneceu entre 12481252. Nesse ltimo ano voltou a Paris como "leitor" da Escritura e das sentenas de *Pedro Lombardo no studium generale dos dominicanos, incorporado 
 universidade. Os anos 1252-1259 constituram a primeira etapa de sua docncia na Sorbonne, caracterizada pelas lutas dos seculares

544 / Toms de Aquino, Santo

contra os mendicantes. Toms foi objeto da ira e das invectivas dos cannicos e mestres seculares, at o ponto de ver diminuda e suprimida a sua faculdade de ensinar. 
Superada a contenda, foi nomeado, em 1257, mestre da Universidade de Paris. Em 1259 voltou  Itlia, desempenhando o cargo de mestre em teologia na corte pontifcia 
de Agnani, Orvieto e Viterbo. Em 1265 foi encarregado de organizar os estudos da ordem em Roma. Retornou a Paris em 1269 para lecionar durante trs anos em sua ctedra 
de teologia. Dedicou os ltimos anos de sua vida  Universidade de Npoles, onde comeou como estudante (12721274). Morreu no mosteiro cisterciense de Fossanova, 
enquanto se dirigia ao Conclio de Lyon. Em sua curta vida realizou uma profundo e vasto trabalho "verbo et calamo". Chama a ateno sua grande atividade falada 
e escrita. Alm das aulas, em menos de 20 anos, de 1252 a 1274, escreveu 895 lies sobre os livros de Aristteles, 803 sobre a Escritura, 850 captulos sobre os 
evangelhos, 2.652 artigos na Summa theologica. A edio de suas obras completas  de 25 volumes in folio. Numa tentativa de sntese, podemos fazer esta classificao 
de suas obras: 1) Comentrios s obras de Aristteles, *Bocio, *Pseudo-Dionsio e outros. 2) Questes disputadas (Quaestiones disputatae): Temas que apresentava 
o mestre em datas determinadas do curso acadmico. 3) Quaestiones quodlibetales: Temas de livre escolha a que o professor submetia os alunos em momentos solenes 
do curso. Como seu nome indica, eram temas livres. Restam umas 12 dessas questes. 4) Comentrios da Sagrada Escritura, fruto das aulas de teologia, em que o texto 
da Bblia era a base. O mestre in sacra pgina devia explicar e comentar em aula o texto sagrado. 5) Opsculos ou estudos breves sobre dogma, moral, filosofia etc. 
Entre eles est seu primeiro opsculo De ente et essentia, base de sua filosofia (1252). 6) Summas: Obras de criao pessoal ou manuais

Toms de Aquino, Santo / 545

para estudantes de uma matria determinada. De Santo Toms restam-nos dois: a) Summa de veritate fidei catholicae contra gentiles (12591264), composta como manual 
para missionrios e pregadores para o triplo mundo judeu, rabe e pago da Idade Mdia. b) Summa Theologiae ou Summa Theologica, sua obra mestra, cujas duas primeiras 
partes foram escritas entre 1265-1271, enquanto que a terceira, at a questo 90, foi escrita de 1271 a 1273. A morte impediu-o de concluir essa obra. 7) Conferncias 
e sermes, frutos de sua prdica que foi simultnea com a ctedra ao longo de sua vida. A simples trajetria de sua vida como mestre de teologia e o elenco de seus 
livros tal como acabamos de expor no nos diz na realidade quem e como era esse homem. Chesterton viu nele certo tipo "no to comum na Itlia como o  entre raros 
italianos. Sua corpulncia fez com que se comparasse humoristicamente a essas cubas ambulantes, comuns nas comdias de muitas naes. Ele mesmo brincava sobre isso... 
Mas, principalmente, sua cabea era suficientemente poderosa para reger aquele corpo. Sua cabea era de um tipo muito real e facilmente reconhecvel, a julgar pelos 
retratos tradicionais e pelas descries pessoais". Os testemunhos que seus companheiros e primeiros bigrafos deixaram so coincidentes. "Uma de suas principais 
recreaes corporais era passear sozinho pelo claustro com a cabea erguida." "Seus sonhos eram sonhos diurnos, eram sobre o dia e sobre o dia de batalha. Como os 
sonhos do galgo, eram sonhos de caa, perseguindo o erro como se persegue a verdade, seguindo todos os subterfgios e volteios da falsidade." "Toms foi muito corts 
-- diz *Dante -- , era de bom trato para conversar e suave no falar." "No parecia perturbar-se por nada, olhando sempre para as coisas superiores. Jamais quis falar 
de si mesmo. Conhecemos anedotas de sua vida, mas o segredo ficou com ele. Sua experincia contemplativa e mstica foi-nos transmitida.

546 / Toms de Aquino, Santo

Sabemos os argumentos do professor, mas ignoramos sua experincia mstica. O volume de sua obra e atividade permite-nos perceber sua capacidade de trabalho e sua 
entrega  verdade. Pelo que nos restam de seus manuscritos, sabemos que esto cheios de emendas, censuras, supresses e aditamentos. H pargrafos que passaram por 
trs ou quatro redaes. Com letra corrida e quase taquigrfica, nervosa, vamos seguindo o escritor em seu robusto pensamento. Trs ou quatro amanuenses redigiram 
o que ele preparou em rascunho ou notas amplas. Seus bigrafos calcularam de 16 a 18 horas de trabalho dirio. A essa capacidade de trabalho temos de acrescentar 
sua prodigiosa memria -- sabia de cor a Bblia e as Sentenas de Pedro Lombardo --, sua curiosidade insacivel e sua capacidade intelectual.  um puro intelectual, 
distinguido pelo respeito  opinio dos outros, por sua capacidade crtica e por sua criao e elaborao de sntese. Vejamo-lo na sntese de sua obra: -- Santo 
Toms marca uma etapa decisiva na filosofia e na teologia escolstica. Culmina a obra de seu mestre Alberto Magno. Graas  especulao tomista, o aristotelismo 
faz-se flexvel e dcil a todas as necessidades da interpretao dogmtica. Para isso, tratou primeiro de estabelecer o verdadeiro significado do aristotelismo, 
tomando-o dos textos originais do Estagirita, que traduziu diretamente do grego. Dos intrpretes islmicos valeu-se como fontes independentes. Em seus textos originais, 
Aristteles  para Santo Toms o fim ltimo da pesquisa filosfica, pois chega at onde poderia chegar a razo. Para alm est somente a verdade sobrenatural da 
f. -- Harmonizar a filosofia com a f, a obra de Aristteles com as verdades que Deus revelou ao homem e das quais a Igreja  depositria, esse  o trabalho a que 
se props Santo Toms. Para isso vale-se de dois pressupostos: a) Separar claramente a filosofia da teologia; a pes-

Toms de Aquino, Santo / 547

quisa racional, baseada em princpios evidentes da teologia, cujo pressuposto  a revelao que aceitamos pela f. b) Fixar um critrio que permita ver a disparidade 
e a separao entre o objeto da filosofia e o da teologia, do ser das criaturas e de Deus. -- Esse princpio  a chave do sistema tomista.  o que ajudar: a) a 
determinar as relaes entre razo e f; b) a estabelecer a regula fidei; c) a centrar ao redor da funo da abstrao, a capacidade de conhecer do homem; d) a formular 
as provas da existncia de Deus como dato a posteriori da experincia: dos efeitos, da ordem, do nascimento, da contingncia e da finalidade dos seres; e) a esclarecer 
os dogmas fundamentais da f. Esse princpio ficou formulado em sua primeira obra De ente et essentia como distino real entre essncia e existncia. E fica expresso 
tambm na analogia do ser, que tanto utiliza. Para Santo Toms no h identificao entre o ser de Deus e o das criaturas. Os dois significados do termo ser (ens 
a se-ens ab alio) nem so idnticos nem completamente diferentes. Santo Toms o expressa dizendo que o ser no  unvoco nem equvoco, e sim anlogo, o que implica 
propores diferentes. Essa proporo  uma relao de causa e efeito: o ser divino (ens a se)  causa do ser finito (ens ab alio). -- Santo Toms constri sobre 
essas bases a sntese mais completa e sistemtica da doutrina crist. Da para a frente impe-se nas escolas, no sem dificuldade, essa interpretao que Santo Toms 
tem de Deus, do homem, da alma, do conhecimento humano, da ordem social, do poder poltico, da Igreja e da vida sobrenatural.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Summa contra gentiles; Summa theologica; Suma Teolgica,Traduo em portugus de Alexandre Correia, S.Paulo 1934s; S. Ramrez, Introduccin 
a Toms de Aquino (BAC), com a bibliografia publicada; C. Copleston, El pensamiento de Santo Toms de Aquino, 1960; E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 488ss.; 
Pedro R. Santidrin, Toms de Aquino (Biblioteca de grandes personagens). Madrid 1984.

548 / Toms de Celano

Toms de Celano (1190-1260)
*Francisco de Assis.

Toms de Kempis (1379-1471)
Nasceu em Kempen (perto de Colnia), da o nome com que  conhecido: Toms de Kempen ou Kempis. Em 1392 mudou-se para Deventer (Holanda), centro e casa matriz dos 
Irmos da vida comum. Nessa escola, dedicada  educao e ao cuidado com os pobres, estudou suas primeiras letras. A mesmo estudou teologia sob a direo de Florenz 
Radwyns, que em 1387 fundara a congregao de Windesheim, de cnegos regulares agostinianos que viviam em comunidade sob a regra de Santo *Agostinho. Em 1408 fez 
seus votos religiosos no mosteiro de Agnietemberg. Em 1413 foi ordenado sacerdote. Durante mais de 70 anos permaneceu nesse mosteiro, dedicado  orao,  cpia 
de manuscritos e  direo de novios. Toms de Kempis  o melhor representante da chamada "devotio moderna", movimento religioso iniciado por Gerard Groote, e fundador 
dos Irmos da vida comum. Esse movimento, que se estende por toda a Europa ao longo dos sculos XV-XVI, pe sua nfase: a) na meditao e na vida interior; b) d 
pouca ou menos importncia s obras rituais e externas; c) no atende o aspecto especulativo da epiritualidade escolstica dos sculos XIII-XIV, para incidir no 
aspecto prtico da vida crist. Um movimento que influir de forma decisiva em leigos e religiosos, principalmente na poca imediatamente anterior e posterior  
Reforma. Insiste sobretudo na converso interior, na meditao da vida e paixo de Cristo e na freqncia aos sacramentos. Fruto dessa espiritualidade, em que foi 
educado T. de Kempis,  sua obra mais conhecida, De imitatione Christi. Embora tenha-se discutido quem seja o autor do livro, este continua sendo atribudo a T. 
de Kempis, sem dvida o livrete

Trento, Conclio de / 549

mais difundido da literatura crist depois da Bblia. Seu xito inicial deve-se, sem dvida, s mesmas caractersticas da devotio moderna, que ento se inciava. 
De linguagem e estilo simples, tem a originalidade de pr diante do cristo, clrigo ou leigo, a vida e o exemplo de Cristo. -- A Imitao de Cristo  uma obra dividida 
em 4 livros. I. Conselhos teis para a vida espiritual, que, dividido por sua vez em 25 captulos, em que se desenvolvem temas como: a imitao de Cristo e o desprezo 
a todas as vaidades; o humilde sentir de si mesmo; a doutrina da verdade; os afetos desordenados etc. II. Exortao  vida interior (12 captulos). III. Do consolo 
interno que leva o estar centrado em Cristo (59 captulos.). IV. Do sacramento da eucarista (18 captulos.). Talvez algum estranhe ou se decepcione com esse livro. 
Somente no 1 captulo do livro I falase expressamente da imitao de Cristo. Seus chamados constantes ao auto-exame e  humildade,  autonegao e controle ou renncia 
prpria obscurecem um tanto a procura do modelo Cristo. No obstante,  a via da renncia a que leva a Cristo: "Tota vita Christi crux et martyrium fuit". Um livro 
imprescindvel na histria da espiritualidade crist.
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Colonia 1759. Existem inumerveis tradues de A imitao de Cristo em portugus. Sobre a vida e espiritualidade de T. de Kempis, em Historia 
de la Iglesia Catlica, III. Edad Nueva (1303-1648) (BAC); A. Royo Marn, Los grandes maestros de la vida espiritual (BAC).

Tradicionalistas
*Chateaubriand; *De Maistre; *Bonald.

Trento, Conclio de (1545-1563)
 reconhecido como o XIX Conclio Ecumnico pela Igreja Romana. O Conclio de Trento representa os ideais da Contra-Reforma catlica e estabelece uma base slida 
para a reno-

550 / Trento, Conclio de

vao da disciplina e da vida espiritual da Igreja. Foi motivado pelo avano da Reforma protestante e pelas repetidas demandas de um conclio geral, surgidas desde 
a cristandade, ao longo da Idade Mdia. Embora convocado por Paulo III em 1537, de fato reuniu-se em Trento em 1545. Diversas circunstncias, tanto internas quanto 
externas e de diferente ordem, precederam e acompanharam o desenvolvimento do Conclio, que se prolongou at 1563. O Conclio no conseguiu restabelecer a unidade. 
Esse fracasso aparente no diminuiu em nada a importncia substancial do Tridentino. "Poderamos sintetizar em trs pontos o alcance histrico de Trento: demonstra 
a forte capacidade de recuperao da Igreja para superar uma gravssima crise; enfatiza a unidade dogmtica e disciplinar; finalmente, abre uma poca nova na histria 
da Igreja, e de certa forma, fixa seus traos principais desde o sc. XVI at nossos dias" (G. Martina, La Iglesia de Lutero a nuestros das). Costumam-se distinguir 
trs perodos ou etapas na marcha do Tridentino: Perodo I (1545-1547). "O santo snodo props, antes de mais nada, condenar e anatemizar os principais erros e heresias 
de nosso tempo e ensinar a verdadeira e catlica doutrina." Em conseqncia, neste primeiro perodo: estabelece-se o Conclio de Nicia como base da f; confirmase 
a validade das Escrituras e da tradio como fontes da f crist, assim como a nica autoridade da Igreja para interpretar validamente a Escritura. Perfila-se a 
teologia dos sacramentos em geral. Os decretos sobre o pecado original e sobre a justificativa e os mritos chegaram at a raiz do sistema luterano. Perodo II (1551-1552). 
Convocado, novamente, por Jlio III, o Conclio chegou a concluses importantes sobre a Eucaristia, a Penitncia e a Uno dos Enfermos. O tema principal deste perodo 
 o da transubstanciao do po e do vinho na Eucaristia. Rejeitam-se as doutrinas de *Lutero, *Calvino e *Zwinglio sobre

Tyrrell, George / 551

esse ponto e se define o ponto de vista da Igreja. Perodo III (1562-1563). Depois de um lapso de 10 anos, voltou-se ao terceiro perodo com a convico de que j 
no era possvel a conciliao com os protestantes. Definiu-se o carter sacrificial da Missa; estabeleceu-se a doutrina das ordens sagradas: bispos, sacerdotes; 
matrimnio cristo; criaram-se os seminrios nas dioceses e regulou-se a nomeao dos bispos, obrigando-os  residncia e  renncia de outros bispados e benefcios. 
O Conclio recomendou e iniciou outras reformas que o papa devia concluir: a reviso da *Vulgata, a publicao do *Catecismo do Conclio de Trento ou Catecismo Romano, 
e a reforma do *Brevirio. Alm de definir a Missa como verdadeiro sacrifcio, formulou a doutrina sobre as indulgncias, a venerao dos santos, das imagens e relquias, 
sobre as quais os protestantes incidiam tanto. Pio IV, papa nesse terceiro perodo, confirmou os decretos do Conclio em 1564 e publicou um resumo de seus princpios 
doutrinais. A observncia de seus decretos disciplinares foi imposta sob sanes. Nos finais do sculo, muitos dos abusos que motivaram a Reforma protestante haviam 
desaparecido. Os papas seguintes foram aplicando e completando o trabalho do Conclio., Abriase assim a *Contra-Reforma. *Conclio.
BIBLIOGRAFIA: Concilium Tridentinum, 13 vols. publicados (1901-1961) sobre as fontes do Conclio de Trento; Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles, t. 9 e 10, 1930-1938; 
G. Martina, La Iglesia, de Lutero a nuestros das, 1974, 4 vols.; R. Garca-Villoslada-B. Llorca, Historia de la Iglesia Catlica, III (BAC).

Tyndale, William (1494-1536)
*Toms Morus.

Tyrrell, George (1861-1909)
*Loisy; *Laberthonnire.

552 / Ultramontanos

U
Ultramontanos
*De Maistre; *Dllinger; *Syllabus.

Unamuno, Miguel (1864-1936)
Natural de Bilbao, concluiu o bacharelato nesta cidade, estudando filosofia e letras na Universidade de Madri. Sua primeira orientao filosfica foi dominada pelo 
positivismo. Em 1894, trs anos depois de ganhar sua ctedra de grego clssico na Universidade de Salamanca, ingressou no partido socialista e comeou a escrever 
no jornal "A luta de classes", de Bilbao. Em 1897, experimentou uma crise religiosa que o fez voltar a repensar os problemas religiosos da infncia e seus prprios 
problemas como indivduo, inaugurando assim o que podemos chamar seu existencialismo. Nesta poca, descobriu a obra e a personalidade de Kierkegaard, com quem tem 
numerosas afinidades. De sua ctedra em Salamanca, desdobrou uma atividade extraordinria, dando aulas, escrevendo na imprensa diria e cultivando quase todos os 
gneros literrios: ensaio, teatro, contos, poesia, crnicas de estudo, crtica etc. Seus livros de maior significao filosfica, como Do sentimento trgico da 
vida, revelam uma grande influncia da teologia protestante e uma primordial preocupao com os problemas do indivduo enquanto ser limitado. "A limitao provoca 
a frustrao do eu em sua nsia de ser tudo sem deixar de ser ele mesmo. Essa problemtica, somada aos conflitos f-razo, lgica-bitica, tempo-eternidade, configura 
o horizonte existencialista em que se movem as reflexes unamunianas"

Unamuno, Miguel / 553

(M. A. Quintanilla, Diccionario de filosofa contempornea). A tese fundamental de Unamuno  a mesma que a do pragmatismo e de toda filosofia da ao: a subordinao 
do conhecimento, do pensamento, da razo  vida e  ao. "A vida -- diz em Vida de Dom Quixote e Sancho --,  o critrio da verdade e no a concrdia lgica, que 
 somente da razo. Se minha f me leva a aumentar ou criar vida, para que quereis mais provas de minha f?" (c. 31). Alm disso, em sua doutrina h um elemento 
irracional: a afirmao do carter obscuro, arbitrrio, inconsciente e irracional de toda doutrina ou crena. Esse fundo irracional em que se apia a filosofia unamuniana 
tem como base o inconsciente:  uma exaltao da f pela f, do crer pelo crer, da vida pela vida, que no precisa de nenhum critrio racional e objetivo, pois a 
f e o crer no so mais que a prpria vida. Mas a vida para ele no  algo abstrato:  minha prpria vida, meu prprio eu, que sou um homem de carne e osso. Concebe 
o homem como um ser de carne e osso, como uma realidade verdadeiramente existente, como um "princpio de

554 / Unamuno, Miguel

unidade e um princpio de continuidade". Um indivduo real e atual com "fome de sobrevivncia e af de imortalidade". A crena na imortalidade, em minha imortalidade, 
no consiste em uma plida e desbotada sobrevivncia das almas. Unamuno espera e proclama "a imortalidade de corpo e alma", e precisamente do prprio corpo, o qual 
se conhece e sofre na vida cotidiana. Essa esperana na ressurreio dos corpos, de base fundamentalmente crist,  rastreada por ele nos numerosos exemplos da sede 
de imortalidade, desde os mitos e as teorias do eterno retorno at o af de glria. E at na voz constante de uma dvida que se insinua no corao do homem quando 
este afasta como molesta a idia de uma sobrevivncia. -- Como para Unamumo o homem  tudo em sua raiz, o tema de Deus s tem sentido quando aparece no horizonte 
existencial da nsia humana de imortalidade. E como o homem aspira a ser mais homem, e o que o homem deseja ser no  outra coisa que Deus, assim Deus transforma-se 
no ideal do homem e da humanidade. O homem cria Deus. Deus em mim, para mim e a partir de mim, como iluminao de minha nsia de imortalidade. Deus  pessoal enquanto 
o homem tem experincia pessoal dele, sente-o atuar e viver em si mesmo. O Deus-razo  um Deus arbitrrio. S tem sentido o Deus-amor, que responde ao que o homem 
precisa: um Deus vontade, amor, ideal, sofrimento, fim inefvel e inacessvel. A f e somente a f consegue o encontro com esse Deus-amor.  uma f porque cria o 
querer -- da sua definio da f como "criar o que no vemos" --, um crer de carter imanentista, num esforo agnico de superao, que nunca se alcana totalmente. 
No entanto, as verdades de f, em sentido dogmtico, so dogmas mortos (Diccionario de filsofos). Que dizer desse pensamento e filosofia unamunianos? Devemos exalt-lo 
como um grande mstico ou cristo? Deve-se rebaix-lo  condio de "herege e pai de hereges", como algum

Undset, Sigrid / 555

disse dele? "A esperana unamuniana -- conclui Ch. Moeller -- participa da esperana bblica por seu projeto: eternidade, caridade, ressurreio, peregrinao pela 
infinitude de Deus; mas se ope a ela por seu fundamento, pois repudia radicalmente toda luz. Como uma ponte sobre dois pilares, a esperana crist apia-se na chamada 
feita por Deus e em sua promessa de salvar-nos. A esperana unamuniana, ao contrrio,  como uma ponte estendida sobre o vazio; seu vertiginoso arco repousa sobre 
um s pilar; nossa abismal recusa a morrer". Eis, sem dvida, a razo porque o autor do sentimento trgico no cite jamais este texto da Bblia: "Deus  luz...". 
"Unamuno pregou a esperana durante toda a sua vida `apostlica'; a cruz que sempre levava sobre o peito, procedente de sua me e a que fez acrescentar  clebre 
esttua de Victorio Macho, testemunham sua adeso definitiva  cruz, nica salvao" (Ch. Moeller, Literatura del siglo XX y cristianismo, IV, 161-163).
BIBLIOGRAFIA: Obras completas. Ed. de M. GarcaBlanco, 1950-1958, 16 vols.; Julin Maras, Miguel de Unamuno 1948; Id.; La filosofa espaola actual: Unamuno, Ortega, 
Morente, Zubiri, 1948; Hernn Bentez, El drama religioso de Unamuno, 1949; Ch. Moeller, Literatura del Siglo XX y cristianismo, IV.

Undset, Sigrid (1882-1949)
*Literatura atual e cristianismo; *Literatura autobiogrfica.

556 / Valentim

V
Valentim (sc. II)
*Gnsticos.

Valla, Loureno (1407-1457)
Todos parecem estar de acordo em apontar Loureno Valla como o principal humanista da primeira metade do sc. XV. Encarna um tipo de humanista muito original, no 
vinculado a nenhuma escola e considerado o "ousado precursor do livre pensamento". Valla representa, em primeiro lugar, um manifesto do mtodo escolstico medieval 
e da lgica aristotlica. Ataca esta como esquema abstruso, artificial e abstrato, que no serve para expressar nem para conduzir a um conhecimento concreto e verdadeiro. 
A lgica aristotlica  racional e depende em grande parte do barbarismo lingstico. Assim se expressa em sua primeira obra dialtica: Disputationes contra aristotelicos 
(publicada depois de sua morte). A pouca simpatia por Aristteles o fez estar mais atento aos esticos e epicureos. Seduziu-o a idia destes ltimos, ao sublinhar 
o anelo humano de prazer e felicidade. Assim o expressou em seu jornal de estilo ciceroniano De voluptate et summo bono, no qual se equilibra para manter-se na doutrina 
tradicional sem se inclinar demais para o epicurismo, que tanto atraiu humanistas como *Morus e *Erasmo. No Dilogo sobre o livrearbtrio trata de esclarecer o pensamento 
de *Bocio e responde  pergunta "se a presena de Deus e a liberdade da vontade humana so compatveis". Responde afirmativamente. Dois campos asseguram sua fama 
de huma-

Van der Meersch, Maxence / 557

nista: 1) Seu culto quase mstico do latim, cuja ignorncia e abandono so, segundo ele, a causa da noite medieval e o fim dos valores humansticos. Com razo pode-se 
considerar o restaurador desse latim renascentista e culto, que ser a expresso do pensamento humanstico e cientfico dos sculos XV ao XVII. Sua obra Elegantiarum 
linguae latinae libri sex (1444)  o ponto de partida para esse movimento. 2) Sua condio de fillogo levou-o a adentrar no terreno muito mais profundo da redditio 
ad fontes: o retorno s fontes, ponto de partida do humanismo renascentista. Em seu In Novum Testamentum ex diversorum utriusque linguae codicum collectione adnotationes 
(1449) no se limita a realizar um novo trabalho gramatical ou filolgico, mas procura devolver  f crist as contribuies da antiga razo, restituir a pureza 
dos textos bblicos e indicar aos eruditos os caminhos do verdadeiro cristianismo. Essas anotaes foram para Erasmo um verdadeiro achado. Nessa mesma linha da redditio 
ad fontes est seu estudo da Doao de Constantino (1442), na qual prova o carter apcrifo do documento da doao constantiniana ao papa. Valla  assim modelo e 
exemplo dos novos humanistas procuradores da novidade na pesquisa dos velhos manuscritos e pergaminhos.
BIBLIOGRAFIA: Opera omnia. Basilia 1540; Scritti filosofici e religiosi. Ed. de G. Radetti, Florena 1953; P. O. Kristeller, Ocho filsofos del Renacimiento. Mxico 
1974, 35-36, em que estuda a contribuio de Valla ao pensamento humanista do Renacimiento; Humanismo y Renacimiento. Estudo e seleo de textos por Pedro R. Santidrin. 
Madrid 1986.

Valverde, Jos M (1926-)
*Literatura atual e cristianismo.

Van der Meersch, Maxence (1907-1951)
*Literatura atual e cristianismo.

558 / Vaticano I, Conclio

Vaticano I, Conclio (1869-1870)
Considerado pela Igreja Catlica de Roma seu vigsimo conclio ecumnico, celebrou-se na Baslica de So Pedro, em Roma, de 8 de dezembro de 1869 a 18 de julho de 
1870. Foi convocado e presidido pelo Papa Pio IX, que "desejava remediar com um meio extraordinrio os males extraordinrios que afligem a Igreja" (Bula Aeterni 
Patris, 1868). Foram convidados ao Conclio os no catlicos, que no participaram. No se convidaram os chefes de Estado. Participaram 731 padres catlicos de todo 
o mundo: dois teros eram europeus e, destes, a metade italianos. No houve nenhum bispo representante de raa negra. No entanto, foram os bispos de fala francesa 
e alem os que tiveram intervenes mais notveis e decisivas. Os trabalhos do Conclio estiveram centrados em torno das constituies Dei Filius e Pastor Aeternus. 
A constituio Dei Filius foi votada em 24 de abril de 1870 e foi a concluso das discusses sobre as relaes entre a razo e a f. Diante dos erros do racionalismo, 
do pantesmo, do fidesmo etc., o Conclio definiu a existncia de um Deus pessoal que a razo pode alcanar, embora afirmando a necessidade da Revelao. No pode 
haver nenhum conflito entre a razo e a f. Eis o texto: -- "Se algum disser que  uma s e a mesma a substncia ou essncia de Deus e a de todas as coisas, seja 
antema". -- "Se algum disser que Deus vivo e verdadeiro, criador e Senhor nosso, no pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razo humana atravs das 
coisas que foram feitas, seja antema". A constituio Pastor Aeternus foi votada em 18 de julho de 1870, em meio a aclamaes e a uma tremenda tempestade. O documento 
contm essencialmente a afirmao do primado e da infalibilidade do papa. O debate foi prolixo e apai-

Vaticano I, Conclio / 559

xonado. O fato do primado e de sua perpetuidade no apresentava dificuldade, mas os qualificativos de "plena, ordinria, imediata, episcopal", aplicados  jurisdio 
pontifcia, ocasionaram speras discusses. Muito mais o texto em que se afirmava a infalibilidade do papa quando fala "ex cathedra" e a irreformabilidade de suas 
decises sem necessidade do "consensus Ecclesiae". O texto foi aprovado por 533 padres; 55 se ausentaram de Roma para no votar contra na sesso definitiva; 2 votos 
foram negativos. -- "Ensinamos e declaramos que a Igreja Romana, por disposio do Senhor, possui o primado de potestade ordinria sobre todas as outras, e que essa 
potestade de jurisdio do Romano Pontifice, que  verdadeiramente episcopal,  imediata... -- Ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado que o Romano 
Pontfice, quando fala `ex cathedra'... goza daquela infalibilidade de que o Redentor divino quis que estivesse provida sua Igreja na definio da doutrina sobre 
a f e os costumes; e portanto, que as definies do Romano Pontfice so irreformveis por si mesmas e no pelo consentimento da Igreja". Embora a aceitao das 
decises conciliares fosse geral, houve repdios como os de *Dllinger e de grupos universitrios alemes. Fruto disso foi tambm a Igreja de "os velhos catlicos", 
que logo se uniram  Igreja jansenista de Utrecht. No entanto, o Conclio Vaticano I, h mais de um sculo de distncia,  visto hoje sob diferentes perspectivas. 
Alguns o consideran como a reao da Igreja em retirada, frente a um mundo que cada vez mais se afirmou como "conscincia secularizada". Outros viram no Vaticano 
I a defesa da Igreja como instituio clerical e fechada diante de um mundo aberto para a modernidade. Seja o que for, "devemos reconhecer que suas definies aumentaram, 
s vezes, a tenso entre a sociedade poltica e a Igreja. Esse foi o pretexto para medidas anticlericais em vrios pases", com o con-

560 / Vaticano II, Conclio

seqente aumento do anticlericarismo em alguns deles. Mas no seria justo ver somente tais conseqncias negativas. Devemos reconhecer que a declarao da infalibilidade 
pontifcia separou ainda mais Roma das diferentes Igrejas crists; que a mesma infalibilidade como doutrina era difcil de entender e mais difcil ainda o seu exerccio. 
De fato, somente se exerceu uma vez em 1954 por Pio XII, ao proclamar a Assuno de Maria em corpo e alma aos cus. Mas reforou a autoridade do Papa, precisamente 
no momento em que perdia sua autoridade temporal. O Conclio Vaticano II pde tambm completar melhor a definio e funo da Igreja e o poder dos bispos.
BIBLIOGRAFIA: R. Aubert, Vaticano I, tomo 12 da Historia de los Concilios ecumenicos. Eset, Vitoria 1970; R. Aubert, em Fliche-Martin, Historia de la Iglesia, tomo 
21, Valncia 1977; J. Collantes, La cara oculta del Vaticano I (BAC). Madrid 1970.

Vaticano II, Conclio (1962-1965)
O Concilio Vaticano II  reconhecido como o XXI conclio ecumnico da Igreja Romana. Anunciado por *Joo XXIII, em janeiro de 1959, aconteceu de 1962 a 1965. Foi 
convocado "como meio ou instrumento de renovao espiritual para a Igreja e como ocasio que permita a todos os cristos separados de Roma procurar juntos a unidade". 
Preparado durante trs anos por comisses de trabalho, em que intervm especialistas e telogos de todo o mundo, o Conclio Vaticano II adquiriu um tom e uma qualificao 
verdadeiramente ecumnicos.  considerado o maior acontecimento religioso de nosso tempo. So notveis as diferenas que o Vaticano II oferece com relao aos demais 
conclios: a) o clima de expectativa que suscitou na Igreja e fora dela; b) a preparao esmerada dos temas submetidos a debate; c) a participao de, praticamente, 
todos os bispos da Igreja, em nmero superior a dois mil; d) a presena de observadores

Vaticano II, Conclio / 561

da maioria das Igrejas e comunidades separadas de Roma; e) a participao dos leigos. A diferena essencial, entretanto, deste conclio com relao a outros  o 
estilo e a disposio com que estuda e define a mensagem crist no mundo de hoje. O Conclio obedeceu e realizou tudo a que o Papa Joo se propusera: o aggiornamento 
da Igreja diante dos retos do mundo de hoje. Esse aggiornamento cristaliza um novo clima e um novo rosto da Igreja. O "ar fresco" de fora penetra nas constituies, 
decretos e declaraes que o Conclio vai elaborando e aprovando ao longo de trs anos. 1) Constituies: constituio sobre a sagrada liturgia (1963); constituio 
dogmtica sobre a Igreja (1964); constituio dogmtica sobre a Revelao Divina (1965); constituio pastoral sobre a Igreja e o mundo moderno (1965). 2) Decretos: 
decreto sobre os meios de comunicao social: sobre as Igrejas Orientais; sobre o ecumenismo; sobre o ministrio pastoral dos bispos; sobre a vida religiosa; sobre 
a formao sacerdotal; sobre o apostolado dos leigos; sobre a atividade missionria; sobre os presbteros.

562 / Veuillot, Louis

3) Declaraes: declarao sobre a educao crist; declaraes sobre as religies no-crists; declarao sobre a liberdade religiosa. Cada um desses documentos 
oferece a todos os cristos a "nova conscincia" que a Igreja tem e apresenta ao mundo o "novo perfil" do cristo e do cristianismo. A legislao e a aplicao posteriores, 
concludas fundamentalmente por *Paulo VI, criaram o clima do que se chamou "ps-conclio". Renovao bblica, ecumnica, litrgica, pastoral, nova interpretao 
da vida dos leigos e sua atuao na Igreja e no mundo foram os resultados mais destacados nesses 25 anos que nos separam do Conclio. -- Depois de assinalar a reflexo 
que a Igreja fez sobre si mesma: "Igreja, que dizes de ti mesma?", deve-se dimensionar a reflexo que a Igreja fez sobre o mundo de hoje. Neste sentido, a constituio 
pastoral sobre a Igreja no mundo moderno pode considerar-se como a melhor mensagem e colaborao que a Igreja oferece ao mundo de hoje. -- Sobre a literatura e estudos 
nascidos do Conclio Vaticano II, podem-se ver principalmente as encclicas e documentos posteriores dos papas Paulo VI e Joo Paulo II. A seguir, alguns estudos 
sobre esse tema.
BIBLIOGRAFIA: Compndio do Vaticano II, Vozes, 1968; Documentos do Vaticano II -- Constituies, Decretos e Declaraes, Petrpolis, 1966; El Conclio de Juan y 
Pablo. Documentos pontificios sobre la preparacin, desarrollo e interpretacin del Vaticano II. Introduo, direo e ndices por J. L. Martn Descalzo (BAC); M. 
A. Molina. Diccionario del Vaticano II (BAC); R. Latourelle, Vaticano II: Balance y perspectivas (Veinte aos despus: 1962-1987). Sgueme, Salamanca 1987s.; 3 vols.

Veuillot, Louis (1813-1883)
*Syllabus.

Vicente de Paulo, So (1576-1660)
*Literatura autobiogrfica.

Vtor, Escola de So / 563

Vidal Garcia, Marciano (1937-)
*Instituies morais.

Vidas dos santos
*Legenda urea.

Vilhena, Isabel de (1430-1490)
Primeira escritora em catalo, Elionor Manuel de Vilhena, mais conhecida como Sror Isabel de Vilhena, nasceu em Valncia. Morreu como abadessa de seu convento, 
na mesma cidade de Valncia.  considerada a escritora espanhola mais importante do sculo XV. Duas obras da freira escritora chegaram at ns. A primeira  a Vita 
Christi, que destaca os episdios evanglicos nos quais intervm mulheres. A obra -- escrita provavelmente para contestar a misoginia do Llibre de les dones escrevera 
Jaime Roig, mdico do convento do qual ela era abadessa -- consta de uns 60 folhas grandes. Contm no texto diferentes ilustraes pintadas pela escritora, as quais 
apresentam diversos momentos da vida de Cristo, com uma legenda de oito linhas explicando a cena. A outra obra de Sror Isabel  o Speculum animae, recentemente 
descoberta na Biblioteca Nacional de Paris. Como a Vita Christi, o Speculum "contm ilustraes feitas pela freira para fomentar a imaginao das freiras que no 
sabiam meditar". O medievalista Albert Hauf est preparando a edio crtica dessas duas obras da religiosa valenciana.

Vtor, Escola de So (sc. XI-XII)
Escola de cnegos regulares situada em Paris. Foi fundada em 1113 por Guillermo de Champeaux (*Abelardo). Dela saram grandes sbios, telogos, msticos e poetas, 
especialmente no sc. XII. Os autores mais importantes dessa

564 / Vitria, Francisco de

escola, conhecida pelos Vitorianos, so Ado de So Vtor, famoso por suas seqncias em latim ritmado; Hugo de So Vtor, Ricardo de So Vtor e Vlter de So Vtor. 
A importncia dessa escola apia-se, junto  de Chartres, na influncia exercida na escolstica posterior e na fundao da Universidade de Paris.
BIBLIOGRAFIA: E. Gilson, A filosofia na Idade Mdia, 283s.

Vitria, Francisco de (1492-1546)
Telogo e filsofo de direito, esse frade dominicano nasceu em Burgos e morreu em Salamanca. Estudou em Paris e foi professor de teologia nessa mesma universidade 
(1516-1522). Regente catedrtico no estudo de So Gregrio de Valladolid (1523-1525), ocupou a primeira ctedra de teologia da Universidade de Salamanca de 1526 
at a sua morte. Vitria foi, antes de mais nada, um professor e um orador brilhante, que tratou de problemas de atualidade com grande independncia de juzo e soube 
unir o rigor do mtodo escolstico  elegncia humanstica da exposio. Sua obra fundamental so as Relectiones theologicae, publicadas depois de sua morte. So 
lies extraordinrias dadas aos alunos da universidade em circunstncias solenes, segundo o costume da poca e desenvolvem temas de grande interesse. Entre elas, 
destacam-se as que tratam do poder civil, do direito pblico eclesistico e, principalmente, as que tratam das questes colocadas pelo descobrimento e conquista 
da Amrica. Outra das obras so seus Comentrios  parte moral da Summa theologica de Santo *Toms. Tais comentrios coletam suas lies durante o curso acadmico. 
-- Vitria passou  histria do pensamento por sua filosofia poltica e como criador do direito civil ou direito internacional:

Vitria, Francisco de / 565

1. Para ele, a comunidade poltica constitui uma instituio de direito natural e  autnoma no sentido dos fins temporais do homem. Todo grupo humano exige uma 
autoridade que assegura o bem comum. -- O poder reside, derivado originalmente de Deus, imediatamente na comuniddade como tal. O governante que participa da comunidade 
submete-se no s ao direito divino e natural, mas tambm ao positivo. -- Quanto ao direito eclesistico, sustenta que o papa no tem a plenitude do poder e somente 
tem sobre o temporal um poder indireto em matrias que afetem o bem espiritual. Diferente do Estado, a Igreja  de direito divino. Nega ao papa, em conseqncia, 
a soberania universal. Sua jurisdio estende-se somente aos cristos. -- Dentro da Igreja, o papa est acima do Conclio. 2. A contribuio mais importante de Vitria 
para a filosofia poltica pertence ao campo do direito civil. Sua idia central  a do orbe -- totus orbis -- como comunidade universal dos povos fundada no direito 
natural. -- Todo povo  convidado a formar e a constituir-se em Estado. Os povos organizados politicamente encontram-se unidos entre si pelo vnculo da natureza 
humana comum, que d lugar  pessoa moral do orbe. -- A sociedade internacional resulta da sociabilidade natural do homem, de alcance universal. Seu vnculo  o 
ius gentium, que Vitria concebe como um direito universal da humanidade, que dimana da autoridade do orbe. -- Conseqncia da idia do orbe  o reconhecimento da 
personalidade jurdico-internacional das comunidades polticas no-crists. Alm disso, existe um direito de comunicao entre os povos, ao qual nenhum deles pode 
subtrair-se sem justa causa.

566 / Vives, Lus

3. A originalidade de sua doutrina tem sua aplicao no problema da legitimidade da ocupao da Amrica. Vitria desfaz os argumentos apresentados pelos reis e pelos 
telogos para ocupar e manter as novas terras. Constri outra srie de argumentos vlidos como o ius communications e a incapacidade efetiva dos ndios, transformando 
assim a conquista em tutela e proteo. A difuso do Evangelho justificaria a conquista somente na medida necessria para permitir sua pregao, porque a f no 
pode ser imposta pela fora. -- Finalmente, seria lcita uma interveno, por razes humanitrias, no caso de graves violaes. -- Vitria, portanto,  um pioneiro 
da filosofia poltica e do direito civil, que mais tarde reformularo *Surez, *Belarmino e o prprio *Grcio.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Relecciones teolgicas. Edio crtica, com cdices, notas e introduo por P. Luis G. Alonso Getino. Madrid 1933-1936, 3 vols.; Obras de Francisco 
de Vitoria. Relecciones teolgicas. Edio bilnge (BAC); Luis Alonso Getino, El maestro Fray Francisco de Vitoria. Su vida, su doctrina e influencia, 1930; A. 
Truyol y Sierra, Los principios del Derecho Pblico en Francisco de Vitoria, 1949.

Vives, Lus (1492-1540)
Lus Vives nasceu em Valncia. Hoje est provada a sua descendncia judaica, razo que explicaria, em parte, sua ausncia da Espanha. Essa informao, que faz de 
Vives "o grande exilado e o primeiro dos exilados espanhis",  importante para se entender sua vida e sua obra. Em 1508, ingressou na Universidade de Valncia, 
para no ano seguinte passar  de Paris, onde permaneceu at 1512. A partir desse ano, encontramo-lo em Bruges, cidade que far sua e onde viver at o final de seus 
dias. "Amo Bruges como a minha Valncia natal", disse mais tarde. De 1517 a 1522 foi professor em Lovaina, lugar de encontro de humanistas, erasmistas e reformadores. 
Fruto des-

Vives, Lus / 567

sa primeira estadia nos Pases Baixos  a publicao de 13 de suas obras, que marcaram sua predileo por temas filosficos e religiosos. A etapa culminante do Vives 
professor foi a Inglaterra (1523-1528), de onde se destacaram trs acontecimentos importantes: foi professor de Oxford no Colgio de Corpus Christi. Foi introduzido 
na corte de Henrique VIII como homem de conselho, compatriota e amigo da rainha Catarina de Arago e preceptor de suas duas filhas. E, sobretudo na Inglaterra, viveu 
a amizade de dois humanistas excepcionais: *Morus e *Erasmo. Do primeiro disse: "Nasceu para respeitar e cultivar a amizade e para ajudar seus amigos". Os ltimos 
anos de sua vida (1528-1540) foram marcados pelo afastamento e pela penria em sua casa de Bruges. Mas o que caracterizou essa poca foi a "transformao intelectual 
e espiritual de Vives". Os livros que escreveu no ltimo perodo de sua vida so mais criativos e originais. At 1528, fora um membro significativo do crculo erasmiano, 
mas, nos ltimos anos de sua vida, transformou-se num dos mais importantes reformadores da educao europia e um filsofo de destaque universal na histria do pensamento 
do sc. XVI. Morreu em 6 de maio de 1540, em Bruges, sem ter retornado  Espanha, onde sua vida foi marcada por certa depresso e tristeza. No conheceu a jovialidade 
do Renascimento, "idade do descobrimento do mundo e do homem". Sua vida de casado foi regida pela rigidez, assim o demonstram suas convices sobre o sexo. Morreu 
com a certeza de que o homem pode ser muito menlhor no futuro. Lus Vives  um escritor de expresso latina. Seu primeiro livro apareceu em 1514 e sua obra pstuma 
foi publicada em 1543. Nesse intervalo escreveu um total de 54 obras, alm da numerosa correspondncia com amigos e humanistas de seu tempo. Um trabalho to extenso 
como o do valenciano no se resume a um s tema. Mas,

568 / Vives, Lus

como em todos os humanistas, h uma srie de matrias comuns ao humanismo e uma preocupao prpria e distintiva de Vives. Distingue-se nele "um forte compromisso 
temporal", isto , um "intelectual que fez da problemtica de seu tempo a preocupao mxima de suas reflexes". Assinalou-se, com razo, sua preocupao social 
e poltica, assim como seu fervor religioso de homem leigo, at afirmar que foi "o mais cristo dos humanistas" (Norea). Eis um roteiro para classificar seus escritos: 
-- Obras em torno do problema da vivncia e renovao do cristianismo. Lus Vives comeou como escritor religioso, seguindo a linha da devoo moderna e de Erasmo. 
Como este, viu seus livros no ndex por seus Comentrios  cidade de Deus. Mas seria um erro ver em Vives um simples epgono de Rotterdam. "A literatura religiosa 
do espanhol deixou uma profunda marca at influir no livro oficial da orao comum da Igreja Anglicana" (Norea). Pessoalmente dou f nisso baseado nas frmulas 
que introduz em seus Dilogos. Muitos se perguntaram que tipo de cristo  Vives. Podemos dizer que seu cristianismo  sincero, apesar de sua remota descendncia 
judaica. Mas  um cristo crtico e atpico, que une f e razo. "O cristianismo -- diz --  o homem perfeito. Como na devotio moderna, sua f e sua devoo centram-se 
em Cristo, tal como aparece no Novo Testamento. Isso no o impede de distanciar-se da Igreja oficial, a qual submete, como todos os humanistas, a duros juzos. Rejeita 
tambm visceralmente a chamada cultura medieval, que considera uma perverso do pensamento clssico. Embora conhea todos os movimentos teolgicos da poca, no 
participa com os reformadores de um e outro smbolo de seu tempo. -- Obras ltero-filosficas da renovao dos saberes. Aqui seu pensamento  amplo e de certo ecletismo, 
distante e culto, que o impede de identificar-se com um s autor. Suas principais obras nessa linha so De disciplinis (1531) e De anima et vita (1538).

Voltaire / 569

-- Obras no plano poltico e social e no plano da educao. O pensamento social e poltico de Vives est em sua correspondncia epistolar, sobretudo a de sua estada 
na Inglaterra, e em suas obras. De concordatia et discordia in humano genere (1529); De pacificatione (1529); De Europae statu et tumultibus (carta a Adriano VI, 
1522); De Europae desidiis et de bello turchico (1526). So obras de carter poltico. De carter social so De communione rerum (1527) e De subventione pauperum, 
um plano para a ajuda aos pobres de Bruges, o aspecto mais conhecido do educador e pedagogo. Obras como De institutione feminae christianae; De ratione studii puerilis 
(1526); Os dilogos da educao (... Linguae Latinae exercitatio 1538) fazem de Vives o grande mestre da educao humana e crist. -- "Da parte a necessidade de 
cultivar o esprito e enfeit-lo com o conhecimento das coisas, com a cincia e a prtica das virtudes. Do contrrio, mais do que homem temos uma besta. Deve-se 
assistir s cerimnias sagradas com a maior ateno e reverncia. Tudo quanto nela ouvires ou vires deves consider-lo como algo grande, admirvel e divino, que 
est por cima de teu alcance. Em tuas oraes deves encomendarte com freqncia a Cristo, colocando nele toda a tua f e confiana" (Dilogos sobre a educao, dilogo 
25).
BIBLIOGRAFIA: Obras completas de Luis Vives. Edio de Gregrio Mayans, Valncia 1782-1790, reimpresso em Madrid 1953; Obras completas. Traduo de toda a obra 
de Vives por Lorenzo Riber, Madrid 1947-1948, 2 vols.; Carlos G. Norea, Juan Luis Vives, 1970; Dilogos de Luis Vives. Traduo, introduo e notas de Pedro R. 
Santidrin, Madrid 1987.

Voltaire (1694-1778)
Franois Marie Arouet, que a partir de seus 24 anos fez-se chamar "Monsieur Voltaire", nasceu em Paris e morreu tambm em Paris. Considerado um dos principais pensadores 
e promotores do *Iluminismo francs,  um dos grandes e mais

570 / Voltaire

conhecidos escritores clssicos. Sua influncia no pensamento contemporneo foi decisiva para a formao de uma atitude leiga e finalmente hostil para a religio. 
Por sua sutileza, ironia e sarcasmo, envolvidos numa frase perfeita e feliz, mereceu o qualificativo de "venenoso" e "perverso". Conseguiu um tipo de pensar e de 
ser "volteriano": entre ctico e frvolo. Dos aspectos originais que se podem estudar em Voltaire -- sua filosofia e suas idias, por exemplo -- interessa-nos o 
aspecto religioso de seu pensamento. J em outra parte (*Desmo) vimos que concebe a religio natural como "os princpios da moralidade da espcie humana".  tambm 
o criador ou formulador dos princpios do desmo. Mas o ponto fundamental de toda a sua atitude  a luta contra o fanatismo, "causa de grande parte dos males que 
afligem toda a humanidade". "Nessa luta, Voltaire  sincero e movido tambm por um impulso que se poderia chamar religioso. Aparentando ceticismo, sente a oposio 
ao fanatismo como uma misso e como um dever imposto pela dignidade do homem." Encerrado nessa concepo puramente natural e racionalista prpria do desmo, incluiu 
em sua luta contra o fanatismo todas as religies positivas, especialmente o cristianismo. Apesar de ser um fino historiador, interpreta como intolerncia religiosa 
os simples excessos do poder temporal de reis e governantes. Inclina-se a ver nesses casos um retorno do poder poltico  classe sacerdotal, que utilizava tais meios 
para aumentar sua riqueza e seu poder terreno. Identifica as prticas religiosas do cristianismo com supersties vs; e a verdadeira f com crenas falsamente religiosas. 
Voltaire lutou contra o fanatismo e suas conseqncias ao longo de toda a sua vida e, em especial, no ltimo perodo. Realizou a luta atravs de seus escritos, empenhados 
quase todos eles em tal tarefa, qualquer que seja sua forma. Assim, suas tragdias, particularmente Maom ou o fanatismo (1742), voltam constantemente ao tema.

Voltaire / 571

Buscam tambm esse objetivo seus numerosos ensaios de crtica bblica e religiosa, por exemplo A tumba do fanatismo (1767); A defesa de meu tio (1769); A Bblia 
finalmente explicada (1776); Um cristo contra seis judeus (1777). Nesses ensaios, que s vezes apresentam a forma de sainetes satricos, toma seus argumentos de 
toda a crtica bblica dos destas e livre-pensadores dos sc. XVII-XVIII, e em particular de Bolingbroke, a quem dedica uma de suas obras. Outra arma de luta de 
Voltaire so os ensaios filosficos propriamente ditos, que indicam de certa forma sua carreira de escritor. Nesta linha esto suas Cartas filosficas (1754); Observaes 
aos Pensamentos de Pascal (1742); O filsofo ignorante (1761) e as Cartas de Nemmius a Ccero (1771). Em todos esses ensaios filosficos, inspirados nas idias de 
Bayle, Clarke, Locke e outros, discorre sobre a religio, brinca com ela e ironiza. Mas o meio preferido por ele, em sua luta contra o fanatismo, foram as "novelas 
curtas, os contos e a *Enciclopdia. Foram esses trs meios os mais eficazes para a difuso de suas idias entre o grande pblico do sc. XVIII. A partir do conjunto 
de verbetes da *Enciclopdia de *Diderot, escrito por ele, publicou separadamente o Dicionrio filosfico manual, no qual extravasou todos os seus preconceitos sobre 
a religio e exps sua filosofia em geral. Em sua longa e agitada vida, viveu as experincias de um homem intelectual e pblico: desde o crcere na Bastilha (1717), 
e o exlio na Inglaterra (1726-1729), at as mais fervorosas homenagens populares. A paixo de Voltaire  seu repdio de todo obscurantismo em nome da razo, obscurantismo 
personificado na religio e na Igreja de seu sculo. Seu grito de "esmaguemos a infmia", referente  Igreja de todos os tempos como protetora da ignorncia, da 
superstio e do fanatismo, foi acolhido por toda uma corrente de anticlericalismo e de pensamento desligada de toda crena. Tal corrente difundiu-se primeiramente 
na aristocracia e, depois da

572 / Vorgine, Tiago de

Revoluo Francesa, em amplos setores da burguesia liberal.
BIBLIOGRAFIA: Oeuvres compltes de Voltaire. Ed. de Moland, Paris 1883-1885, 52 vols.; Id., Correspondance gnerale. Std. de Th. Besterman, Paris 1953s.; Ren Pomeau, 
La religin de Voltaire, 1956. Muitas obras de Voltaire esto traduzidas para o portugus.

Vorgine, Tiago de (1230-1298)
*Legenda urea.

Vulgata (c. 383)
*Jernimo, So.

W
Waugh, Evelyn (1903-)
*Literatura atual e cristianismo.

Wesley, John (1703-1791)
Pregador evanglico e fundador, junto com seu irmo Charles, do movimento metodista na Igreja da Inglaterra. Foi estudante na Universidade de Oxford, onde, por sua 
vida regular de estudo e orao com outros companheiros, chegou a ser conhecido como "o metodista". Seu primeiro destino foi o de missionrio na Gergia, na Amrica 
do Norte (1735-1737), para retornar  Inglaterra e experimentar uma profunda converso que o fez dedicar toda a sua vida a evangelizar, dentro da Igreja Anglicana. 
O contato com Peter Bhler,

Wesley, John / 573

pietista morvio, e com a leitura dos comentrios de *Lutero  Carta de So Paulo aos Romanos, fizeram-no ver que sua misso na vida era a pregao da boa nova do 
Evangelho, onde houvesse um plpito para proclam-la. Seu entusiasmo chocou as igrejas anglicanas, que lhe fecharam as portas. Por isso preferiu pregar s massas 
ao ar livre e a grupos reduzidos nas casas. A partir de 1742, atravessou a cavalo quase toda a Inglaterra, chegando a percorrer at 13.000 quilmetros por ano. Sua 
misso foi de carter "revivalista", dirigida  Igreja da Inglaterra, a qual desejou alertar diante das novas necessidades da era industrial que se avizinhava. Sua 
prdica ao ar livre dirigia-se principalmente a lavradores, pescadores e operrios. Seguindo o mtodo iniciado na Universidade de Oxford, formou tambm grupos ou 
associaes de leigos e logo de pregadores seculares, itinerantes como ele, na pregao da Palavra. Esses grupos ou pequenas Igrejas locais estenderam-se pela Irlanda, 
Esccia e, principalmente, pela Amrica do Norte, chegando a formar o que se conhece hoje como Igrejas Reformadas Metodistas, fora do controle da Igreja da Inglaterra. 
A pregao e a obra de J. Wesley inspiram-se no movimento "revivalista" ingls, imbudo no pietismo e no puritanismo da poca. Sua doutrina fundamental  baseada 
na justificao pela graa por meio da f individual. Da a insistncia na converso. "O sincero desejo de salvar-se do pecado pela f em Jesus Cristo e de dar provas 
disso na vida e na conduta"  a condio nica para ser admitido na Igreja. Sua experincia e sua atividade de missionrio itinerante esto reunidas em seus Dirios 
de campanha. Sua obra de organizador e legislador est nas Regras (1743) para as sociedades metodistas. O Livro dos ofcios, de carter anglicano, guarda seu esprito 
e insiste na prdica da Palavra e no canto de hinos, em sua maior parte compostos por ele. Desta forma, Wesley e seus "evangelizadores" pregaram e cantaram a f 
em

574 / West, Morris

Cristo. Nesta obra, seu irmo Charles tem o mrito de ser o principal colaborador, sobretudo na composio de hinos, dos quais  considerado como o maior compositor 
em lngua inglesa. O movimento "revivalista" de Wesley influiu muito nas chamadas Igrejas livres da Inglaterra: presbiterianos, congregacionalistas e batistas. A 
prpria Igreja Anglicana, embora oposta  prdica metodista, sofreu sua influncia. A vida inglesa passou por uma profunda transformao em sua moral privada e pblica. 
O nome de Wesley ficar para sempre como o do grande pregador que "revitalizou a vida religiosa e moral dos ingleses". *Pietistas.
BIBLIOGRAFIA: Martn Schmidt, John Wesley: A. Theological Biography, 1962-1971, 2 vols.

West, Morris (1916-)
*Literatura atual e cristianismo.

Wiclef, Joo (1330-1384)
Os historiadores modernos viram em Wiclef uma das figuras-chave para interpretar a Idade Mdia eclesistica tardia. Faz parte dessa elite de homens, como *Marslio 
de Pdua, Joo Huss, Jernimo de Praga, os "lolardos" e outros -- entre os quais se contam tambm os santos e santas do calendrio -- que promoveram a reforma da 
Igreja e lutaram para imp-la. A importncia de Wiclef consiste na radicalidade de sua atitude polmica mais do que em sua doutrina. Pode-se dizer que o movimento 
determinante de sua atividade  a luta contra a autoridade eclesistica. Tambm no  difcil ver nele uma figura que ilumina e explica o complexo fenmeno da posterior 
Reforma luterana. Joo Wiclef nasceu de uma famlia de lavradores. Sua vida foi marcada por trs etapas perfeitamente diferenciadas. A primeira, de formao e estudo 
em Oxford, que se prolongou at

Wiclef, Joo / 575

1371. Nessa poca foi mestre no colgio Balliol. Iniciou a carreira eclesistica, que usa como meio para prolongar e financiar seus estudos, que lhe permitiram colocar-se 
como eminente filsofo e telogo. A partir de 1372, comeou sua segunda etapa como lder e agitador radical de um movimento para denunciar o governo e a corrupo 
da Igreja. Finalmente, em sua terceira etapa, entre 1378-1379: um perodo de estudo, reflexo e afastamento na parquia de Lutterworth. Aqui se radicalizaram ainda 
mais suas idias que exps por escrito e propagou por meio de missionrios "evanglicos pobres", convertidos depois, muitos deles, nos famosos "lolardos". Morreu 
violentamente, defendido por seus nobres patronos da ira do povo. -- A vida, a obra escrita e a atividade de Wiclef devem ser entendidas a partir da exigncia de 
limpar a teologia e a prtica crists das degeneraes e excrescncias de sua poca. Queria levar  conscincia e ao nimo dos fiis a diferena entre a Igreja como 
 e o ideal da Igreja como devia ser. Isso pressupe uma viso crtica e histrica ao mesmo tempo: ambas esto presentes em Wiclef, como o esto, mais ou menos claramente, 
em muitos outros contemporneos seus. -- Para Wiclef, os responsveis pela corrupo da Igreja e suas crenas so: o papa, os bispos, monges, padres, o clero em 
seu conjunto. Quase toda a sua doutrina  uma ata de acusao contra o sistema eclesistico em todas as suas formas e instituies. Firmemente convencido da natureza 
e misso da Igreja, afirma: a) Somente os predestinados so os verdadeiros membros da Igreja. b) O Corpo Mstico de Cristo pode viver  margem da hierarquia. Tal 
como esto as coisas, seria desejvel e saudvel para a Igreja que no houvesse papa nem cardeais. c) V a Igreja de seu tempo como a perverso completa do cristianismo 
e a critica em todos os seus aspectos. Do ponto de vista social, o clero  a causa principal das misrias civis, j que monopoliza uma quantia enorme de dinheiro 
e riqueza que seriam suficientes para satisfazer as necessidades dos pobres. Os

576 / Wiclef, Joo

mosteiros especialmente tornam estreis as terras e despovoam os campos. E, do ponto de vista cristo, a abominao eclesistica  ainda maior. -- No fundo da polmica 
Wiclefiana, existe a contraposio espiritualista entre a Igreja como Corpo Mstico e a Igreja como organismo social, entre a religio que vive na alma e a que somente 
estava na rotina. Por isso, tratou de procurar seus fundamentos, sobretudo na terceira poca de refgio em sua igreja rural. E o que primeiramente props foi um 
retorno  revelao tal como contm a Bblia do Antigo e do Novo Testamento, tomada literalmente e entendida em seu verdadeiro esprito. Para esse fim, escreveu 
sua obra A verdade da Sagrada Escritura, apontando esta como norma nica da f. Props tambm que a Bblia deveria ser lida por todos os cristos e no somente pelo 
clero. Para facilitar a leitura, traduziu a Bblia para o ingls do texto latino da Vulgata e mandou-a para "evangelistas pobres" por toda a Inglaterra para difundi-la. 
-- Em 1379, escreveu seu livro sobre O poder do papa. Determina estas proposies: o papa no  de instituio divina; no  infalvel; a Igreja pode prescindir 
dele etc. Em sua Apostasia e em seu Tratado da eucaristia, escritos entre 13791380, afirma que a mensagem de Cristo  perfeita, no h nada que acrescentar a ela. 
Deve-se repudiar, portanto, tudo o que lhe  incorporado: a penitncia auricular, o dogma da transubstanciao etc. Sobre esta ltima, pronuncia-se contra Santo 
*Toms e *Duns Scot. Para Wiclef, a transubstanciao  um milagre intil. O que importa no  a recepo material do Corpo de Cristo, mas a comunho espiritual 
com ele: a Eucaristia , sobretudo e antes de tudo, um smbolo. Para concluir, Wiclef insiste na necessidade de uma verdadeira piedade, consistente no exerccio 
das virtudes crists, no nos ritos em si, e muito menos no culto supersticioso ou nas prticas exteriores, como o culto s relquias, a compra de indulgncias, 
funerais especiais.

Zolli, Eugnio / 577

-- Foi imensa a obra de Wiclef na Inglaterra. Cedo se estendeu pelo continente, particularmente em Praga, onde teve muitos divulgadores como Joo Huss, Jernimo 
de Praga e muitos outros. As teses de Wiclef respondiam a uma situao geral da Igreja, e ali onde a coero da hierarquia no pde impedir sua penetrao, exerceram 
uma enorme influncia. Sem dvida, por isso o Conclio de Constana (1414-1418) de alguma forma uniu, no castigo, Huss e Wiclef: condenou o primeiro  fogueira (1415) 
e, do segundo, condenou 45 proposies ou erros. Posteriormente (1428) foram desenterrados seus ossos e queimados.
BIBLIOGRAFIA: L. P. Hughes, A History of the Catholic Church. London 1934-1947, 3 vols.; John Stacey, John Wyclef and Reform4 1964.

Wilkins, John (1614-1672)
*Cincia e f.

Wulf, M.
*Neo-escolsticos.

Z
Zarageta, Joo (1883-1974)
*Zubiri.

Zolli, Eugnio
*Literatura autobiogrfica.

578 / Zubiri, Xavier

Zubiri, Xavier (1898-1981)
Nasceu em San Sebastin, Espanha, e estudou filosofia em Lovaina, a qual completou em Madrid com o doutorado. Catedrtico de histria da filosofia na Universidade 
Complutense desde 1926. Em 1941 abandonou a ctedra oficial para dedicar-se a realizar cursos em diversas universidades e instituies. Zubiri foi reconhecido como 
um dos grandes mestres do pensamento e da filosofia durante mais de meio sculo na Espanha. Em volta de sua pessoa e de seus escritos, girou um nmero de filsofos, 
pensadores, cientficos e humanistas com influxo notvel em diversas reas da vida espanhola. De seu grupo de amigos, discpulos e companheiros cabe citar *Aranguren, 
Pedro Lan Entralgo, Zarageta, J. Marias e uma gerao mais prxima de ns de estudiosos e seguidores do mestre, entre os quais cabe mencionar Gonzlez de Cardeal 
(telogo), I. Ellacria (telogo da libertao, assassinado em 1989 em El Salvador). Duas notas distinguem a pessoa e o pensamento de Zubiri, segundo Lan Entralgo, 
baseadas em sua autenticidade, integridade e preciso. A pri-

Zubiri, Xavier / 579

meira delas  sua atualidade. "A atualidade de Zubiri no consiste, logicamente -- diz Lan -- num simples estar no dia. ...A essencial atualidade dessa filosofia 
vem de ser `hoje' e `no ato' a forma pessoal ou zubiriana de uma tradio que parte de Anaximandro, Herclito e Parmnides, passa por Plato e Aristteles, e depois 
pela especulao dos filsofos cristos, continua com o pensamento dos filsofos modernos, cristos ou no, e vai prosseguir enquanto o homem como tal continue existindo...". 
"A segunda nota essencial da obra filosfica zubiriana  a fundamentalidade. Mas essa condio genrica de toda autntica filosofia personaliza-se na de Zubiri por 
algo duplamente peculiar e decisivo: a atribuio de um carter formalmente teologal ao fundamento da filosofia que ele criou e a metdica e rigorosa explorao 
intelectual da teologalidade, sit venia verbo, enquanto dimenso essencial da existncia humana e, por conseguinte, enquanto nota fundante do sistema filosfico 
de que ele  o autor". Para Zubiri, de fato, a fundamentalidade da existncia humana faz-se patente e atual em nossa religao ao que nos faz existir, "ao que faz 
que haja"... "Ut infirma per media ad summa redducantur", era a frmula do *Pseudo Areopagita para expressar a funo do homem na economia da criao. "As criaturas, 
disse So *Paulo, abrigam uma esperana: de serem tambm elas libertadas do cativeiro da corrupo para participarem da liberdade gloriosa dos filhos de Deus" (Rm 
8,21). Ter cumprido, estar cumprindo essas ordens nos decnios centrais e finais do sculo XX, e ter dado, estar dando forma a esse cumprimento atravs da cincia, 
da histria e da metafsica, eis a chave da obra filosfica, cujas notas constitucionais e constitutivas teve a ousadia de nomear e descrever. Por isso, a obra de 
Zubiri deve ser entendida como um poderoso, rigoroso, esplndido esforo at a salvao intelectual atravs da histria, da cincia e da metafsica" (La filosofa 
de Javier Zubiri: El Pas 13.14-2-1981).

580 / Zwinglio, Ulrich

Zubiri procurou elucidar e apreender o que constitui realmente a realidade, tanto em seu ser real enquanto real como em seu ser tal. A realidade  prvia ao ser; 
longe de ser a realidade um tipo de ser, por mais fundamental que se suponha, o ser se funda na realidade. A realidade, portanto,  algo "seu". Fundamental, dentro 
deste pensamento,  a relao possvel entre uma "filosofia intermundana", que  a que Zubiri desenvolveu com mais detalhe, e uma "filosofia transmundana",  qual 
parece apontar com freqncia. Isso pressupe que a realidade  primeiro inteligvel. A realidade se d como realidade sentida, podendo o homem ser definido como 
"animal de realidades" ou "inteligncia que sente", "cuja funo primria  enfrentar-se sentidamente com a realidade das coisas". Toda a sua obra gira em torno 
desta realidade primeira. Comea com Natureza, Histria, Deus (1944); Sobre a essncia (1962); Cinco lies sobre filosofia (1963); para terminar com Inteligncia 
sensitiva (1980); Inteligncia e logos; O homem e Deus; Sobre o homem, e Estrutura dinmica da realidade (pstuma).
BIBLIOGRAFIA: Homenaje a Zubiri. 1973; Ferrater Mora, Diccionario de filosofa, com abundante bibliografia.

Zwinglio, Ulrich (1484-1531)
Reformador da Igreja da Sua, iniciou seu trabalho na cidade de Zurique. Pregador de grande persuaso, conferencista brilhante, sintonizou-se com a Reforma luterana 
na Alemanha nos pontos essenciais, porm por diferentes caminhos e mtodos. Seu trabalho como reformador pode ser sintetizado nestes pontos: a) Justificao pela 
f. b) Simplificao do sistema litrgico e sacramental. c) Uma Igreja de carter popular e democrtico, no hierrquica. d) A Bblia como base e fundamento nico 
da revelao de Deus em Cristo. Sobre essas linhas -- basicamente coincidentes com as da reforma luterana -- estabe-

Zwinglio, Ulrich / 581

leceu Zwinglio as diferenas de sua prpria reforma. -- O retorno s fontes, princpio comum do Renascimento, foi concebido e atualizado por Zwinglio de forma mais 
de acordo com o ideal humanstico. Para ele, o retorno a tais fontes significou voltar a uma sabedoria religiosa originria na qual concluem e concordam a Escritura 
e os filsofos pagos. "Toda verdade que foi dita, quem quer que a tenha dito, sai da prpria boca de Deus; do contrrio no seria verdade." -- Em sua obra principal 
Commentarius de vera et falsa religione (1525) fala de Deus no sentido de um tesmo universalista. Deus  o ser, o sumo bem, a unidade, a prpria natureza. Em seu 
tratado De providentia (1530) nos diz: "Se a providncia no existisse, Deus no existiria; suprimida a providncia, tambm se suprime Deus". -- A vontade livre 
de Deus desejou todo o acontecido no mundo: determinou tanto o pecado de Ado quanto a Encarnao do Verbo, e determina, em virtude de uma escolha gratuita, a salvao 
dos homens. Esta ltima deve-se a uma livre deciso de Deus, que a d ou a nega segundo seu arbtrio, no obrigado a nada, mas que ele determina s com a sua vontade 
o que  justo e injusto. E a escolha se efetua ab aeterno. No segue a f, mas a precede: os escolhidos so tais antes de crer. -- Concordando com *Lutero na apresentao 
da f como nica disposio para a justificao, ele diz: "A f basta-se por si mesma; nada que venha do exterior pode ajud-la ou sustentla. Ela pode tudo, mas 
no  movida por nada, porque  a prpria escolha de Deus na conscincia: as cerimnias, os smbolos, a exteriorizao de religiosidade ficam absolutamente excludos". 
Foi at mais longe que Lutero na interpretao da Eucaristia que, para ele, ficou reduzida a uma pura cerimnia simblica, na qual o Corpo de Cristo j no era seu 
corpo real, mas a comunidade dos fiis que se convertem realmente no Corpo de Cristo no ato de evocar novamente na cerimnia

582 / Zwinglio, Ulrich

seu sacrifcio. O enfrentamento com Lutero neste ponto foi total. -- Afastou-se tambm deste em sua concepo da Igreja. Nascido e educado numa sociedade democrtica 
como a da Sua, Zwinglio concebeu a vida religiosa dos cristos como uma comunidade poltica que voltou s formas da sociedade crist originria. Reconheceu como 
possvel, embora muito difcil, a comunidade de bens entre os cristos. Com isso situou a reforma no plano social e transformou-a num instrumento de renovao e 
na base de uma nova organizao poltica. A diferena da educao humanista e teolgica de Zwinglio com relao a Lutero -- Zwinglio  erasmiano e teologicamente 
da via antiqua (tomismo e escotismo) e da via moderna (ockhamismo) -- poderia estar na base destas diferenas. No entanto, como dissemos, existem coincidncias substanciais 
na compreenso da Reforma.
BIBLIOGRAFIA: Obras: Corpus Reformatorum, 88-89. Ed. De Geor Finsler, 1905-1928; R. C. Walton, Zwingli's Theocracy.

XXXXXXXXXXXXXXX / 583

Bibliografia
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Editorial Catlica, Madrid, 5 vols. Fliche-Martin, Historia de la Iglesia, Edicep, Valncia, 30 vols. Lortz, J., Historia de la Iglesia en la perspectiva del pensamiento, 
Cristiandad, Madrid, 2 vols. Jedin, H., Manual de historia de la Iglesia, Herder, Barcelona, 8 vols. Garca Villoslada, R., Historia de la Iglesia en Espaa (BAC 
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d'histoire chrtienne, 2.000 aos de cristianismo, Sedmay, Madrid, 10 vols. b) Dicionrios e enciclopdias Cross, F. L., The Oxford Dictionary of the Christian Church, 
Londres 1958. Livinstone, E. A., The concise Oxford Dictionary of the Christian Church, Oxford 1980. Vacant-Mangenod, Dictionnaire de Thologie Catholique, Paris, 
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Bompiani de autores literarios, Hora, Barcelona 1987. Ferrater-Mora, J., Diccionario de filosofa, Alianza Editorial, Madrid, 61979, 4 vols. Centro de Estudos filosficos 
de Gallarate, Diccionario de Filsofos, Roduero, Madrid 1986. Flores d'Arcais, G., Gutirrez Zuloaga, I., Diccionario de ciencias de la Educacin, Edies Paulinas, 
Madrid 1990. Benito, A., Diccionario de Ciencias y Tcnicas de la Comunicacin, Ediciones Paulinas, Madrid 1991. Brosse, O. De la-Henry, A. M. Y Rouillard, Ph., 
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2. Mundo da Bblia: textos e dicionrios Bblia de Jerusalm. Dirigida por J. A. Ubieta. Descle de Brouwer, Bilbao 1978; Sagrada Biblia, Traduo de Ncar-Colunga 
(BAC 1). Editorial Catlica, Madrid 371989. E outras verses. Apcrifos del Antiguo Testamento, Edio de A. Daz Macho, Cristiandad, Madrid 1982. Evangelios apcrifos, 
Los, Ed. de A. De Santos Otero (BAC 148). Editorial Catlica, Madrid 61988. Gnsticos, Los, Traduo de J. Monserrat Torrente. Gredos, Madrid 1983. Ravasi, G., Rosano, 
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Diccionario del Nuevo Testamiento, Cristiandad, Madrid 1977.

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3. Igreja primitiva: autores, textos, colees Migne, J., Patrologiae cursus completus: PG: Patrologa Graec,. Paris 1857-1866, 162 vols. PL: Patrologa Latina, 
Paris 1844-1864, 221 vols. Corpus scriptorum ecclesiasticorum latinorum (CSEL), Viena 1886s. Corpus Christianorum, srie grega e latina, Brepols, Turnhout 1977s. 
(em publicao). Sources Chrtiennes, Ed. du Cerf, Paris 1949 (uma valiosa coleo de textos, com introdues, estudos e notas). Padres apostlicos, Edio bilnge 
preparada por D. Ruiz Bueno (BAC 65). Padres apologistas griegos, Edio bilnge preparada por D. Ruiz Bueno (BAC 116). Actas de los mrtires, Edio bilnge preparada 
por D. Ruiz Bueno (BAC 75). Historia eclesistica, de Eusbio de Cesaria. Edio bilnge de A. Velasco (BAC 149-150).

4. Patrstica Colombs, G. M., El monacato primitivo (BAC 351, 376), 2 vols. Colombs, G. M., Aranguren, I., La Regla de San Benito (BAC 406). Itinerario de la Virgen 
de Egeria, Ed. crtica de A. Arce, Editorial Catlica, Madrid 1980. Obras de Santo Irineu, Santo Ambrsio, So Cipriano, So Joo Crisstomo, So Gregrio Magno, 
Aurlio Prudncio, Santo Agostinho, podem ser encontradas em BAC, Editorial Catlica. Quasten, J., Patrologa, Edio preparada por I. Oativia (BAC 206, 217, 412). 
Jedin, H.,  historia de los concilios, Herder, Barcelona 1960.

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Fbrega y Grau, A., Historia de los concilios ecumnicos. Balmes, Barcelona 1960. Denzinger, E., Enchiridion symbolorum..., Herder, Freiburg im Breisgau. Vives, 
J., Los padres de la Iglesia, Herder, Barcelona 1971. Altaner, B. e Stuiber, A., Patrologia, S. Paulo 1988. Campenhausen, H. Von, Los Padres latinos -- Los Padres 
griegos, Cristiandad, Madrid 1974, 2 vols.

5. Idade Mdia Daniel-Rops, A Igreja no tempo dos brbaros; A Igreja das cruzadas; Buhler, J., Vida y cultura en la Edad Media. Mxico 1957; Huizinga, J., El otoo 
de la Edad Media. Madrid 51965. Cohen, G., Literatura cristiana medieval, Andorra 1958. Gnicot, L., La espiritualidad medieval, Andorra 1959. Gilson, E., La filosofia 
en la Edad Media, Gredos, Madrid 1982. Beda, o Venervel, So (Textos), A History of the English Church and people. Traduo de Historia gentis anglorum, Penguin 
Books, Londres 1986. Dante Alighieri, Obras completas (BAC 157). Francisco de Assis, So, Escritos e biografias de S. Francisco de Assis; crnicas e outros testemunhos 
do primeiro sculo franciscano, Fr. Ildefonso Silveira e Orlando dos Reis (orgs.), Petrpolis, 1993; Escritos completos. Biografia (BAC 399). Clara, Santa, Escritos 
y documentos complementarios (BAC 314). Domingos de Gusmo, So, Fuentes para su conocimiento (BAC 490). Boaventura, So, Obras (BAC), 6 vols. Toms, Santo, Summa 
Theologica.

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Suma Teolgica,Traduo em portugus de Alexandre Correia, S.Paulo 1934s Summa Theologica, Edio bilnge (BAC), 16 vols. Summa contra gentiles Bernardo, So, Obras 
completas (BAC), 6 vols. Duns Escoto, J., Obras del Doctor Sutil (BAC 193, 277), 2 vols. Llio, Raimundo, Obras literrias (BAC 31). Fraile, Guillerme, Historia 
de la Filosofa, II (BAC 480). Fernndez, Clemente, Filsofos medievales I e II (BAC 409, 418). Royo, A., Los grandes maestros de la vida espiritual (BAC 347).

6. Humanismo e Renascimento. Reforma. Kristeler, P. O., Ocho filsofos del Renacimiento italiano, Mxico 1970. Kristeler, P. O., Renaissance Thought, Nova York 19611965, 
2 vols. Bataillon, M., Erasmo y Espaa, Mxico 1979. Garca, Villoslada, R., Martn Lutero (BAC maior 34). Lonard, G., Historia general del protestantismo, Barcelona 
1967, 2 vols. Garca Villoslada, R., Causas y factores histricos de la ruptura protestante, Brriz 1961. Lortz, J., Historia de la Reforma, Taurus, Madrid 1963, 
2 vols. Menndez y Pelayo, M., Historia de los Heterodoxos espaoles (BAC 150,151), 2 vols. Huerga, lvaro, Savonarola, reformador y profeta (BAC 397).

588 /

Textos: Corpus Reformatorum (Brunswich), Berlim 1850s; Leipzig 1893s. Contm textos de Calvino, Zwinglio, Melnchton etc. Lutero, Martinho, Obras, Buenos Aires, 
8 vols. Calvino, Jean, Institucin de la religin cristiana, R. Ijswijk 1983, 2 vols. Servet, Miguel, Christianismi restitutio, 1553. Verso espanhola.

7. Contra-Reforma. Quietismo. Pietismo Jedin, H., Historia del Concilio de Trento, Pamplona 1972, 3 vols. Tellechea, J. I., Tiempos recios, Salamanca 1977. Delumeau, 
J., El catolicismo de Lutero a Voltaire, Barcelona 1973. Cassirer, E., La filosofa de la Ilustracin, Mxico 1943. Barsotti, D., Cristianismo ruso, Salamanca 1966. 
Textos. Para os textos dos autores dessa poca, ver a bibliografia ao final de cada um deles. Alm disso, pode-se consultar: Fernndez, Clemente, Los filsofos escolsticos 
(s. XVI e XVII) (BAC 472). Jmenez, B., Teologa de la mstica (BAC 224). Pacmio, L., Diccionario teolgico interdisciplinar, Salamanca 1982-1983, 4 vols. Moliner, 
J. M., Historia de la espiritualidad, Burgos 1971. Jmenez Duque, B.-Sala Balust, L., Historia de la espiritualidad, Barcelona 1969, 4 vols. Lossky, V., Teologa 
mstica de la Iglesia de Oriente. Herder, Barcelona 1982. Fietz, M., Textos de espiritualidad oriental, Rialp, Madrid 1960. De Fiores Stfano-Goffi Tullo, Nuevo 
Diccionario de Espiritualidad. Edies Paulinas, Madrid 1983.

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8. Sculos XIX-XX Ranke, L. Von, Historia de los papas en los tiempos modernos. Fundo de Cultura Econmica, Mxico 1951. Schamaus, M., Grillmeier, A. Scheffczyk, 
L., Historia de los Dogmas (BAC Enciclopedias), 4 vols. Rodrguez de Yurre, G., El marxismo (BAC maior), 2 vols. Rodrguez de Yurre, G., La estrategia del comunismo 
hoy (BAC maior). Vorgrimler, H. e Vander Gucht, R., La teologa en el siglo XX (BAC maior), 3 vols. Metz, J. B., Teologa del mundo, Salamanca 1970. Moltman, J., 
Teologa poltica. Etica poltica, Salamanca 1987. Winling, R., La teologa del siglo XX. La teologa contempornea (1945-1980). Moeller, Ch., Literatura do sculo 
XX e cristianismo. Valverde, J. M-Riquer, L., Historia de la literatura universal, Planeta, Barcelona 1986. Poupard, P., Diccionario de las Religiones, Herder, 
Barcelona 1987. Abbagnano, N., Historia de la filosofa, Barcelona 1981, 3 vols. Copleston, F., Historia de la filosofa, Barcelona 1983, 9 vols.

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ndice temtico
Temas, obras e autores ordenados por campo de interesse.

1. Escritores do Novo Testamento Apocalipse Apocalptico Bblia Cartas catlicas Codex Sinaiticus Codex Vaticanus Evangelho-Evangelhos Joo Evangelista, So Judas, 
Apstolo, So Lucas, So Mar Morto, Manuscritos do Marcos, So Paulo, Apstolo, So Pedro, Apstolo, So Tiago, Apstolo 2. Padres Apstolicos. Apologistas. Apologistas 
Didaqu Diogneto, Carta a Justino, So Lactncio Padres apostlicos Tertuliano 3. Historiadores. Literatura apcrifa. Gnsticos e hereges. Atas dos mrtires Apcrifos 
Cassiodoro Confisses de f Constituio eclesistica

dos apstolos Constituies apostlicas Ddimo, o Cego Eusbio de Cesaria Gnsticos Hegesipo Marcio 4. Patrstica: Padres e doutores da Igreja Agostinho, Santo 
Afraates Ambrsio, Santo Areopagita, PseudoDionsio Ario Aurlio Prudncio Baslio Magno, So Cipriano, So Cirilo de Alexandria, So Cirilo de Jerusalm, So Clemente 
de Alexandria Crisstomo, So Joo Dmaso, So Doutores da Igreja Germano, So Gregrio Magno, So Gregrio Nazianzeno, So Gregrio de Nissa, So Gregrio de Tours 
Hilrio de Poitiers, Santo Hiplito de Roma, Santo Irineu, Santo Isidoro de Sevilha Jernimo, So Joo Damasceno, So Mximo, o Confessor, So

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Orgenes Padres da Igreja 5. Monaquismo. Espiritualidade. Mstica. Beda, o Venervel, So Bento de Nrsia, So Bernardo de Claraval, So Cabasilas, Nicolau Cabasilas, 
Nilo Cassiano Domingos de Gusmo, So Eckhart, Johann Faber, Frederick Francisco de Assis, So Granada, Frei Lus de Hesiquia Incio de Loiola, Santo Joo da Cruz, 
So Macrio, o Grande Molinos, Miguel de Monaquismo Palamas, Gregrio So Pietistas Quietismo Sentenas dos Padres Tauler, Joo Teresa de Jesus, Santa Toms de Kempis 
6. Credos e profisses de f. Conclio. Catecismos. Ensino. Catecismo Conclio. Conclios Conclio de Trento Conclio Vaticano I Conclio Vaticano II Concrdia, 
Livro da Confisses de f Conselho Mundial das Igrejas Constituies apostlicas Didascalia Apostolorum

Syriaca (sc. III) Doutores da Igreja Doutrina social da Igreja Educadores cristos Encclica-Encclicas Escolas teolgicas Escolas e universidades ndex de livros 
proibidos Smbolo dos apstolos 7. Escolstica: Filosofia. Teologia. Moral. Utopia crist. Abelardo, Pedro Adelardo, de Bath Alano de Lille Alberto Magno, Santo 
Alcuno Anselmo de Canturia, Santo Antonino de Florena, Santo Bacon, Roger Biel, Gabriel Bocchio Bradwardine, Toms Boaventura, So Cartuxo, Dionsio Cusa, Nicolau 
de Duns Scot, John Erigena, Johannes Scotus Gerson, Joo Hales, Alexandre de Joaquim de Fiore Legenda urea, Tiago de Vorgine Llio, Raimundo Nuvem do No-Saber, 
A Ockham, Guilherme de Pedro Lombardo Raimundo de Peafort, So Salisbury, Joo de Simeo de Tessalnica Toms de Aquino, Santo

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Vtor, Escola de So 8. Mulheres escritoras ngela de Foligno, Santa Arnauld, Jacqueline Marie Catarina de Sena, Santa Gertrudes, Santa Egria Heloisa Hildegarda, 
Santa Stein, Edith Teresa de Jesus, Santa Teresa de Lisieux, Santa Vilhena, Isabel de 9. Humanistas. Cientficos. Reformadores. Agrippa von Nettesheim, Heinrich 
Barnio, Csar Bessarin, Joo Erasmo de Rotterdam Ficino, Marclio Humanistas (sc. XIVXVI) Huss, Joo Marslio de Pdua Morus, Toms Petrarca Pico de la Mirndola 
Savonarola, Jernimo Vives, J. Lus Wiclef, Joo 10. Poetas Aurlio Prudncio Dante Alighieri Frei Lus de Leo Hinos e cantos cristos Hopkins, Gerard M. Joo da 
Cruz, So Literatura crist atual, Panorama da 11. Reforma.

Renascimento. Contra-reforma Bayo, Miguel Belarmino, So Roberto Bze, Teodoro Bucer, Martinho Bunyan, John Calvino, Joo Cansio, So Pedro Carlos Borromeu, So 
Contra-Reforma Coprnico, Nicolau Cranmer, Thoms Educadores cristos (sc. XVI-XVII) Karlstadt Lutero, Martinho Melanchton, Filipe Nri, So Filipe Pietistas Quietismo 
Ratio studiorum Reforma Renascimento Scaliger, Joseph Servet, Miguel Trento, Conclio de Wesley, John Zwinglio, U. 12. Autores modernos: Filosofia. Teologia. Moral. 
Literatura. Baltasar Gracin Bez, Domingo Bossuet, Jacques-B. Cano, Melchior Cayetano, Toms de Vio Fnelon, Franois de Salignac Grcio, Hugo Hume, David Kant, 
Emmanuel Ligrio, Afonso M de, Santo

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Mabilln, Jean Maldonado, Joo Mansi, Giovanni Medina, Bartolomeu D. Molina, Lus de Pascal, Blaise Ranke, Leopold Von Salamanticenses Sanchez, Toms Simeo de Tessalnica 
Suarez, Francisco Vitria, Francisco de 13. Escritores "heterodoxos". No cristos. Ario Arnauld, Antoine Bruno, Giordano Celso Desmo Diderot, Denis Enciclopdia, 
A Feuerbach, Ludwig Freud, Sigmund Gide, Andr Huxley, Aldous Iluminismo Jansnio, Cornelio Juliano Apstata Labertonnire, Lucien Lamennais, F. MarieJoseph Loisy, 
Alfred Marx, Karl Modernismo Nestrio Nietzsche, Friedrich Renan, Ernest Saint-Cyran, Abade de Saint-Simon, Cl. Sartre, Jean Paul Schopenhauer, Arthur Voltaire 14. 
Escritores contempo-

rneos. Filsofos. Telogos. Literatos. Historiadores. Educadores. Lderes Sociais Adam, Karl Aranguren, J. L. L. Barth, Karl Batiffol, Pierre Baur, Ferdinand Christian 
Beauduin, Lambert Berdiaev, Nicoli Bergson, Henri Bernanos, Georges Blondel, Maurice Boff, Leonardo Bonhoeffer, Dietrich Cabrol, Fernand Cmara, Helder Camus, Albert 
Casel, Odo Congar, Yves Marie Couturier, Paul Irene Cullmann,Oscar Chateaubriand, Franois Chesterton, Gilbert Delehaye, Hyppolite De Maistre, Joseph Denifle, Heinrich 
Dllinger, Johann Freire, Paulo Gilson, Etienne Grabmann, Martn Greene, Graham Gratry, Auguste Guardini, Romano Guranger, Prosper Hring, Bernard Harnack, Adolf 
Hecker, Isaac Thomas Kierkegaard, Sren King, Martin Luther Kng, Hans Lacordaire, Henri Dominique Lagrange, Marie Joseph Literatura autobiogrfica

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Literatura crist atual, Panorama da. Lubac, Henri de Marcel, Gabriel Maritain, Jacques Mauriac, Franois Merton, Thomas Metz, Johann Baptist Migne, Jacques Paul 
Miret Magdalena, E. Moltmann, Jrgen Mounier, Emmanuel Newman, J. H. Niebulu, Reinhold Oraison, Mare Panorama da teologia atual Rahner, Karl Scheeben, Matthias Joseph 
Schelegel, Friedrich Schillebeeckx, Edward Schutz, Roger

Schwartz, Edward Schweitzer, Albert Smangaliso, Mrhatshwa Telogos da Libertao Teilhard de Chardin, Pierre Tillich, Paul Johannes Unamuno, Miguel de Zubiri, X. 
15. Papas. Conclios Clemente Romano, So Joo XXIII Joo Paulo II Leo I, Magno, So Leo XIII Paulo VI Pio IX (Syllabus) Pio XII Conclios Trento, Conclio de 
Vaticano I, Conclio Vaticano II, Conclio

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ndice alfabtico de autores e temas deste dicionrio
Nota. Neste ndice aparecem somente aqueles autores e temas que, de uma forma mais ou menos extensa, constam no Dicionrio. O asterisco colocado antes de algumas 
verbetes remete ao verbete onde poder encontrar-se um nome ou uma obra determinada.

Abelardo, Pedro (10791142) Abrcio (sc. II) Adam, Karl (1876-1966) Ado de So Vtor (11121177) Adelardo de Bath (sc. XII) Afraates (sc. IV) Agrippa von Netteshein, 
H. (1486-1535) Agostinho, Santo (354-430) Alano de Lille (+1203) Alberto Magno, Santo (1206-1280) Alcuno (730-804) Altaner, B. (1885-1958) Ambrsio, Santo (339-397) 
Ames, William (15761633) Anacoretismo (sc. II-III) Anfilquio de Icnio (sc. IV) ngela de Foligno (12481309) ngela de Mrici (sc. XVI) Ano cristo Anselmo de 
Canturia, Santo (1033-1109) Anselmo de Laon (c. 1117) Anto, Abade, Santo (c. 251-356)

Antoniano, Slvio (sc. XVI) Antonino, Santo (13891459) Apeles de Laodicia (310390) Apocalipse, Livro do (sc. I) Apocalptico Apcrifos Apolinrio de Laodicia 
(310-390) Apologistas (sc. II-III) Apotegmas dos padres (finais sc. V) Aranguren, Jos Lus Lpez (1909-) Areopagita, PseudoDionsio (sc. IV-V) Aretas (sc. X) 
Aristides, J. B. (1953-) Aristides de Atenas (sc. II) Arnauld, Antoine (16121694) Arnauld, Jacqueline Marie Anglique (1591-1661) Arndt, Johann (1555-1621) Ario 
(256-336) Astete Gaspar (1537-1601) Ata dos Mrtires (sc. II-V) Atansio, Santo (279-373) Atos dos Apstolos (sc. I)

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Atengoras, Patriarca (1886-1972) Atengoras de Atenas (sc. II) Auger, Edmond (15301591) Averris (1126-1198) Azor, Joo (1536-1603) Bacon, Roger (1214-1294) Balmes, 
Jaime (1810-1848) Baltasar Gracin (16011658) Balthasar, H. Urs von (1905-1988) Bez, Domingo (15281604) Bardasanes (154-226) Barlao de Calbria (12901348) Barnio, 
Csar (15381607) Barth, Karl (1886-1968) Bartolomeu de las Casas (1474-1566) Baslides (sc. II) Baslio Magno, So (331379) Batiffol, Pierre (1861-1929) Baur, Ferdinand 
Christian (1792-1860) Baxter, Richard (16151691) Bayle, Pierre (1647-1706) Bayo, Miguel (1513-1589) Beaudin, Lambert (18731960) Beckett, Santo Thomas (1118-1170) 
Beda, o Venervel, So (672-735) Belarmino, So Roberto (1542-1621) Bell'Huomo (sc. XVII) Belloc, Hilaire (1870-1953) Bento de Nrsia, So (480547) Benoit, Pierre 
(1886-1962) Berdiaev, Nikoli (18741948)

Bergson, Henri (18591941) Barnab, Carta de (sc. I-II) Bernanos, Georges (18881948) Bernardo de Claraval, So (1091-1153) Brulle, Pierre de (15751629) Bessarin, 
Joo (14031472) Betti, Hugo (1892-1953) Beza, Teodoro de (15191605) Bblia Biel, Gabriel (1420-1495) Billot, Louis (1846-1931) Blondel, Maurice (18611949) Bloy, 
Lon (1846-1917) Boaventura, So (12211274) Bocio (486-525) Boff, Leonardo (1938-) Bonald, Louis de (17541840) Bonhoeffer, Dietrich (19061945) Bossuet, J. B. (1627-1704) 
Bradwardine, Thomas (1290-1349) Brevirio, Reforma do (1562-1563) Bruno, Giordano (15481600) Bryennios, Filoteo (18331914) Bucer, Martinho (14911551) Bula "Aeterni 
Patris" (1868) Bulgakov, Miguel (18161882) Bultmann, Rudolf (18841976) Bunyan, John (1628-1688) Cabasilas, Nicolau (13201390) Cabasilas, Nilo (1298-

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1363) Cabrol, Fernand (18551937) Calasncio, So Jos (15561648) Calvino, Joo (1509-1564) Cmara, Hlder (1909-) Camus, Albert (1913-1960) Cansio, So Pedro (15211597) 
Cano, Melchior (15091560) Caramuel (1606-1682) Carlos Borromeu, So (1538-1584) Carta de Judas (sc. I) Carta de So Tiago (sc. I) Cartas catlicas Cartas de Joo 
(sc. I) Cartas de Paulo (sc. I) Cartas de Pedro (sc. I) Cartuxo, Dionsio (14021471) Cartuxo, Ludolfo (+1378) Casel, Odo (1886-1948) Cassiano, Joo (360-431) 
Cassiodoro (485-580) Catarina de Gnova, Santa (1447-1510) Catarina de Ricci, Santa (1522-1590) Catarina de Sena, Santa (1347-1380) Catecismo Cayetano, Toms de 
Vo (1469-1534) CELAM (1955) Celso (sc. II) Cenobismo (sc. III-V) Cesbron, G. (1931-1979) Chateaubriand, Franois R. (1768-1848) Chenu, M. D. (1895-1990) Chesterton, 
Gilbert Keith (1874-1936) Cincia e f Cipriano, So (200-258) Cirilo de Alexandria, So (375-444)

Cirilo de Jerusalm, So (315-387) Clara, Santa (1194-1253) Claudel, Paul (1868-1955) Clemente de Alexandria (150-215) Clmaco, So Joo (570649) Codex Sinaiticus 
(sc. V) Codex Vaticanus (sc. IV) Comenius (1592-1670) Companhia de Jesus (1540) Conclio Concrdia, Livro da (1580) Condren Ch. de (15841641) Confisso de Augsburgo 
(1530) Confisses de f Congar, Yves Marie-Joseph (1904-) Conselho Mundial das Igrejas (1948) Constituio eclesistica dos apstolos (sc. IV) Constituies apostlicas 
(c. 380) Contra-Reforma Coprnico, Nicolau (14731543) Couturier, Paul I (18811953) Cranmer, Thomas (14891556) Crisstomo, So Joo (347407) Croiset, J. (1656-1738) 
Cullmann, Oscar (1902-) Cusa, Nicolau de (14001464) D'Ailly, Pierre (1350-1420) D'Alembert, M. (17171783) Dmaso, So (304-384) Danilou, J. (1905-1974) Dante, Alighieri 
(12651321) Dcio (c.250) Desmo

600 /

Delehaye, Hippolyte (18591941) De Maistre, Joseph (17531821) Denifle, H. (1844-1905) Devotio moderna Didaqu (50-70) Didascalia apostolorum syriaca (sc. III) Diderot, 
Denis (1713-1784) Ddimo, o Cego (313-398) Diodoro de Tarso (sc. IV) Diogneto, Carta a (sc. IIIII) Doutores da Igreja (sc. XIII) Doutrina social da Igreja Dllinger, 
Johann (17991890) Domingos de Gusmo, Santo (1170-1221) Donato (sc. VI) Duns Scot, John (12661308) Eckhart, Johann (12601327) Educadores cristos (sc. XVI-XVII) 
Efrm, Santo (306-373) Egria (sc. IV-V) Eliot, Thomas (1888-1965) Ellacuria, Incio (19301989) Encclica Enciclopdia, A (17501780) Epifnio,Santo (+403) Erasmo 
de Rotterdam, Desidrio (1467-1536) Erigena, Johannes Scotus (810-877) Escolas teolgicas, Primeiras (sc. II-V) Escolas e universidades (sc. IX-XIII) Eunmio 
(sc. IV) Eusbio de Cesaria (265340) utiques (378-454)

Evgrio (345-399) Evangelho, Evangelhos (sc. I) Faber, Frederick W. (18141863) Fabri, Diego (1911-) Feijo, Benito (1676-1764) Fnelon, Franois de S. (1651-1715) 
Feuerbach, Ludwig (18041872) Ficino, Marcilio (14331499) Filipe Nri, So (15151595) Filocalia Flon da Alexandria (20 a. C.-50 d. C.) Flvio Josefo (37-100) Florino 
(sc. II) Fcio (810-897) Fourier, So Pedro (17681830) Francisco de Assis,So (1181-1227) Francisco de Sales, So (1567-1622) Francke, Auguste H. (16631727) Freire, 
Paulo (1921-1997) Freud, Sigmund (18561939) Galileu Galilei (1564-1642) Gardeil, A. (1859-1931) Garrigou-Lagrange, R. (1877-1964) Gemelli, A. (1878-1959) Germano, 
So (634-733) Gerson, Joo (1363-1429) Gertrudes, Santa (12561302) Gide, Andr (1869-1951) Gil de Roma (1243-1316) Gilson, Etienne (18841978) Gnosticismo Gnsticos 
(sc. II-III) Gonzlez, Ceferino (18311894)

/ 601

Grabmann, Martin (18751949) Graciano (c. 1140) Granada, Frei Lus de (1504-1588) Gratry, Auguste (18051872) Greene, Graham (19041991) Green, Julien (1920-) Gregrio 
XVI (1765-1846) Gregrio de Nissa, So (335-395) Gregrio de Tours, So (540-596) Gregrio, o Taumaturgo (213-276) Gregrio Magno, So (540604) Gregrio Nazianzeno, 
So (330-390) Grcio, Hugo (1583-1645) Groote, Grard (13401384) Guardini, Romano (18851968) Guranger, Prosper (18051875) Guilherme de Champeaux (1070-1121) Gutirrez, 
Gustavo (1928-) Guyon, Madame (16481717) Hales, Alexandre de (11861245) Hring, B. (1912-) Harmnio (sc. II) Harnack, Adolf (18511930) Hecker, Isaac Th. (18191888) 
Hegel, Georg (1770-1831) Hegesipo, Santo (sc. II) Heraclio (145-180) Hermas, O Pastor de (sc. II) Hermias (c. 200) Hesiquia Hesquio, Sinata (sc. VIII-

IX) Hesiquismo Hxapla Hilario, Santo (291-371) Hilrio de Poitiers, Santo (315-367) Hildegarda, Santa (10981179) Hilton, Walter (+1396) Hinos e cantos Hipcia 
(375-415) Hiplito de Roma (170236) Hirscher, J. B. (sc. XIX) Hofbauer, So Clemente M (1751-1820) Holbach, F. (1723-1789) Hopkins, Gerard Manley (1844-1889) Hugo 
de So Vtor (10961141) Humanistas (sc. XIV-XVI) Hume, David (1711-1776) Huss, Joo (1370-1415) Husserl, Edmund (18591938) Huxley, Aldous (18941963) Iconoclastas 
(sc. VIII-IX) Incio de Antioquia, Santo (+110) Ildefonso de Toledo, Santo (607-667) Iluminismo (sc. XVIII) ndex de livros proibidos (1557) Instituies morais 
(sc. XVII) Instituto de Teologia Contextual Irineu, Santo (c. 130-200) Isidoro de Pelusio, Santo (+435) Isidoro de Sevilha, Santo (560-636) Jacopone de Todi (12301306) 
Janduno, Joo de (12801328)

602 /

Jansnio, Cornlio (15851638) Jernimo, So (347-420) Jernimo de Nadal (sc. XVI) Jernimo de Praga (13701416) Joana de Chantal, Santa (1572-1641) Joana Ins da 
Cruz, Sror (1651-1695) Joaquim de Fiore (11451202) Joo Batista de la Salle, So (1651-1719) Joo Damasceno, So (675749) Joo de vila, So (14991569) Joo da 
Cruz, So (15421591) Joo Evangelista, So (sc. I-II) Joo XXIII (1881-1963) Joo Paulo II (1920-) Juliana de Norwich (13421413) Juliano Apstata (332-363) Jungmann, 
J. A. (18891975) Justino, So (sc. II) Kant, Emmanuel (17241804) Karlstadt (1480-1541) Kazantzakis, Nikos (18851957) Kierkegaard, Sren (18131855) King, Martin 
Luther (19291968) Knox John (1513-1572) Knox, Roland (1888-1957) Kosuke Koyama (1929-) Kng, Hans (1928-) Laberthonnire, Lucien (1860-1932) Lacordaire, Henri D. 
(18021861) Lactncio (240-317)

Lagrange, M. J. (18551938) Lain Entralgo, Pedro (1910) Lamennais, F. R. (17821854) Lebreton, J. (1873-1956) Lefvre d'Etaples (14551537) Le Fort, Gertrudis von (1876-1971) 
Leo, Frei Lus de (15281591) Leo I, Papa, So (+461) Leo XIII (1810-1903) Legenda urea (1264) Lenda dourada (1264) Libertao, Telogos da Liberatore, G. (1810-1892) 
Liga de Malinas (19211925) Livros penitenciais (sc. VII-XII) Lig, P. A. (1922-1979) Ligrio, Afonso M de, Santo (1696-1787) Literatura atual e cristianismo Literatura 
autobiogrfica Loyola, Incio de, Santo (1491-1556) Loisy, Alfred (1857-1940) Lubac, Henri de (18961991) Lucas, Evangelista, So (sc. I) Luciano de Samosata (125192) 
Lusa de Marillac, Santa (1591-1660) Llio, Raimundo (12351315) Lutero, Martinho (14831546) Mabillon, Jean (1632-1707) Macrio de Alexandria (+395) Macrio de Moscou 
(18161882)

/ 603

Macrio, o Grande, So (300-390) Maldonado, Joo (15331583) Manjn Andrs (18461923) Manning, H. (1809-1892) Mansi, Giovanni D. (16921769) Mansur (675-749) Manuais 
para confessores Marcel, Gabriel (18891973) Marcio (sc. II) Marslio de Pdua (12751343) Marcionismo (sc. II) Marco (sc. II-III) Marcos, Evangelista, So (sc. 
I) Marechal, J. (1878-1944) Margarita M Alacoque, Santa (1647-1690) Maria da Encarnao, Sror (1566-1618) Marias, Julian (1914-) Maritain, Jacques (18821973) Mar 
Morto, Manuscritos do (sc. II a. C.-I d. C.) Marshall, Bruce Martinho de Dmio, Abade (sc. VI) Martinho Descalo, Jos L. (1930-1991) Martinho I, Papa (590-655) 
Marx, Karl (1818-1883) Mateus, Evangelista, So (sc. I) Mateus, Joo Mater et Magistra (1961) Mauriac, Franois (18851970) Mximo, o Confessor, So (580-662) Mbiti, 
John (1931-) Medellin, Documentos de (1968) Medina, Bartolomeu de

(1527-1580) Melanchton, Filipe (14971560) Mndez Arceo, Srgio (1907-) Menndez y Pelayo, Marcelino (1856-1912) Mercier, D. J. (1851-1926) Mersenne, J. (1588-1648) 
Merton, Thomas J. (19151968) Metafrastes, Simeo (sc. X) Metz, Johann B. (1928-) Migne, Jacques P. (18001875) Mguez Bonino, Jos (1924-) Milenarismo Milcades 
(+314) Milito de Sardes (sc. IIIII) Mincio, Flix (c. 170) Miret Magdalena, E. Modernismo Mogila, Pedro (1597-1646) Molina, Lus de (15351600) Molinismo (sc. 
XVIXVII) Molinos, Miguel de (16281696) Moltmann, Jrgen (1926-) Monaquismo, Textos e autores do (sc. III-V) Monte Athos Moral casustica Moral para confessores 
Morton, Robinson (1900-) Morus, Toms, Santo (1478-1535) Mounier, Emmanuel (19051950) Morte de Deus Mosteiro de Santa Catarina (Sinai) Neo-escolsticos (sc. XIX) 
Nestrio (381-450) Newman, John H. (1801-

604 /

1890) Nicodemos Agiorita (17481809) Nicole, P. (1625-1695) Niebuhr, Reinhold (18921971) Nietzsche, Friedrich W. (1844-1900) Nil Majkov (1433-1508) Novaciano (sc. 
III) Nuvem do No-Saber, A (sc. XIV) Ockham, Guilherme de (1295-1350) Odes de Salomo (sc. II) Orculos sibilinos cristos (117-138) Oraison, Marc (1914-) Orgenes 
(186-254) Paulo, Apstolo, So (1067) Paulo VI, Papa (1897-1978) Pacem in terris (1963) Pacmio, So (290-346) Padres apostlicos (sc. III) Padres capadcios (sc. 
IV) Padres do deserto (sc. IIIIV) Padres da Igreja Paldio, So (365-425) Palamas, So Gregrio (1296-1359) Pnfilo de Alexandria (240309) Panteno (+200) Ppias 
(60-130) Papini, G. (1881-1956) Pascal, Blaise (1623-1662) Pastor, Ludwig von (18541928) Patrologia Paulino de Antioquia (353431) Paulo III, Papa (1468-1549) Pedro, 
o Venervel (10921156) Pedro Lombardo (11001160)

Pguy, Charles (1873-1914) Petrarca, Francesco (13041374) Pico de la Mirndola (14631494) Pietismo (sc. XVII) Pietistas (sc. XVII) Pio IV (1499-1565) Pio V (1504-1572) 
Pio IX (1792-1876) Pio X, So (1835-1914) Pio XII (1876-1958) Policarpo de Esmirna, So (59-155) Porfrio (232-304) Port-Royal Professio fidei tridentinae (1564) 
Prudncio, Aurlio (348405) Psichari, Ernesto (18831914) Ptolomeu (sc. II) Puebla, Documentos de (1979) Quadrato (sc. II) Querigma Quesnay, Franois (16941774) 
Quesnel, P. (1634-1719) Quiliasmo Quietismo Qumr Rahner, Karl (1904-1985) Raimundo de Peafort, So (1185-1275) Raimundo Mart Ramrez, Santiago Ranke, Leopoldo 
von (1795-1886) Ratio studiorum (sc. XVI) Ratzinger, Joseph Reforma (sc. XVI) Relato de um peregrino russo (1870) Renascimento (sc. XVXVI) Renan, Ernest (1823-1895) 
Reuchlin, J. (1455-1522)

/ 605

Ricardo de So Vtor (c. 1173) Ricci, Mateus (1552-1610) Richard, Paul (1939-) Ripalda, J. de (1535-1618) Robinson, John Romero, Oscar Arnulfo (1917-1980) Rosalez, 
Luis (1909-) Roscelino, J. (c. 1125) Rousseau, J. J. (1712-1778) Ruysbroeck, J. (1293-1381) Sailer, J. M. (1751-1832) Saint-Cyran, Abade de (1581-1643) Saint-Simon, 
Claude H. (1760-1825) Salamanticenses (16311712) Salisbury, Joo de (11151180) Sanchez, Toms (15501610) Sartre, Jean P. (1905-1980) Savonarola, Girolano (1452-1498) 
Scaliger, Joseph J. (15401609) Scheeben, Matthias J. (1835-1888) Scheler, Max (1874-1928) Schillebeeckx, Edward (1914-) Schlegel Friedrich (17721829)M. Schmaus, 
M. Schnackenburg, R Schkel, L. A. Schopenhauer, Arthur (1788-1860) Schutz, Roger (1915-) Schwartz, Edward (18581940) Schweitzer, Albert (18751965) Segundo, Joo 
L. (1925-) Segneri, P. (1624-1694) Sentenas dos Padres (finais do sc. V)

Srgio, So (1314-1392) Sertillanges, A. D. (18631948) Servet, Miguel (1511-1553) Setenta, Os Siger de Brabante (12401284) Smbolo dos Apstolos Simeo, So (c. 
960) Simeo de Tessalnica (1429) Snodo dos bispos Smangaliso Mkhatshwa (1939-) Sobrino, Jon (n. 1938) Soto, Domingo de (14941560) Sozomenes (sc. IV-V) Spener, 
Philip J. (16351705) Stein, Edith (1891-1942) Strauss, Friedrich (18081874) Suarez, Francisco (15481617) Suidas de Constantinopla (sc. IX-X) Summa angelica (sc. 
XV) Summa antonina Summa dos confessores Summa contra gentes Summa iuris Summa Theologica Suso, Henrique (12951366) Syllabus (1864) Taciano (n. 120) Taiz Tauler, 
Joo (1300-1361) Teilhard de Chardin, P. (1881-1955) Teodoro, Monge (+368) Teodoro de Mopsustia ((428) Teodoro, So (759-826) Teodoto (sc. II) Teologia atual, 
Panorama da (homens e obras) Teologia da libertao

606 /

Teologia querigmtica Teologia nova (1948) Teresa de Jesus, Santa (1515-1582) Teresa do Menino Jesus, Santa (1873-1897) Tertuliano (160-225) Tillich, Paul (1866-1965) 
Tillmann, F. (1953) Tischendorf, C. (18151874) Toms de Aquino, Santo (1224-1274) Toms de Celano (11901260) Toms de Kempis (13791471) Tradicionalistas Trento, 
Conclio de (15451563) Tyndale, W. (1494-1536) Tyrrell, G. (1861-1909) Ultramontanos Unamuno, Miguel de (1864-1936) Undset, Sigrid (1882-1949) Valentim (sc. II) 
Valla, Loureno (14071457) Valverde, Jos M (1926-) Van der Meersch, M. (19071951) Vaticano I (1869-1870) Vaticano II (1962-1965) Veuillot, L. (1813-1883) Vicente 
de Paulo, So (1576-1660) Vtor, Escola de So (sc. XI-XII) Vidal, Marciano (1937-) Vidas dos santos Vilhena, Isabel de (14301490) Vitria, Francisco de (14921546) 
Vives, Lus (1492-1540) Voltaire (1694-1778) Vorgine, Tiago de (12301298)

Vulgata (c. 383) Waugh, Evelyn (1903-) Wesley, John (1703-1791) West, Morris (1916-) Wilkins, John (1614-1672) Wulf, M. (+1864) Wiclef, Joo (1330-1384) Zarageta, 
Joo (18831974) Zolli, Eugnio Zubiri, Xavier (1898-1981) Zwinglio, lrich (14841531)
